Eu só preciso de um pouco de espaço. Em meio ao corre-corre, eu quero ser o momento em que você para e espera o semáforo. Em meio a tanta perda, eu quero ser uma pequena vitória. Em meio a tanta informação falsa, eu quero ser a notícia boa. Em meio a tanta ansiedade, eu quero ser a música que te acalma. Em meio a tanta indiferença, eu quero ser a boia que te salva. Em meio à doença que surgiu por trás da doença, eu quero ser aquele minuto de esperança em que você pensa “eu acho que vai dar”. Em meio a tanta coisa, eu quero ser algo mais.
Chelsea Girl é o disco de estreia da Nico. Lançado em 1967, logo depois de ela ter gravado o seminal “disco da banana” com o Velvet Underground, a cantora decidiu fazer um disco folk.
O repertório incluía uma canção de Bob Dylan, “I’ll Keep It with Mine”, músicas compostas pelos guitarristas Tim Hardin e Jackson Browne – que acompanhavam Nico em seus shows – e por três dos seus colegas do Velvet Undergorund: John Cale, Sterling Morrison e Lou Reed. Inclusive as faixas “Wrap Your Troubles in Dreams” e “It Was a Pleasure Then” eram tocadas em shows do Velvet, mas nunca foram gravadas pela banda.
O álbum mescla a voz grave de Nico com violões folk, violinos e flautas. Nico, na verdade não queria os instrumentos de orquestra, ela pretendia fazer um disco bem simples: apenas voz e violão. O produtor Tom Wilson é quem colocou esses elementos lá com ajuda do arranjador Larry Fallon e a cantora não curtiu o resultado.
Apesar disso, Chelsea Girl tornou-se um disco cult para os fãs dos experimentalismos do Velvet Underground e para quem aprecia a voz única de Nico.
Eu hoje temo os teus olhos amendoados Os vejo tristes Os vejo falecidos Despidos de dor Despedidos de amor Acomodados no reflexo da minha lente Metem medo Metem anseio Metem vontade De fugir De esconder De deitar Esta dor Deixo estar Perdida em temor
Certa manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, o homem encontrou-se em sua cama metamorfoseado num macaco. Não entendia o que acontecera, mas também seu cérebro não mais o ajudava na compreensão. Parecia ser uma coisa boa até. Levantou-se para seguir sua rotina, mas ela não estava mais lá. Não havia mais trabalho. Estava livre! Aleluia! Mas também não havia mais dinheiro. Nem pro aluguel, nem pra comida. Viu-se na rua, faminto. Encontrou outros na mesma condição e resolveu conversar com eles. Mas não sabia mais dialogar e logo o papo virou pugilato. Soco, tapa, pontapé e resolução nenhuma. Andando sozinho pela rua, o brilho de uma televisão em uma vitrine chamou sua atenção. Assistiu – muito surpreso – o discurso de um governante… homem. Seguido da benção de um outro – adivinhem – homem. Seu cérebro não processou aquela cena direito. Mas lhe parecia que algumas pessoas haviam mantido o luxo de ser humano. Ou de parecer um. Era difícil de compreender por que razão só alguns teriam sido escolhidos… Mas pensar não era pra ele, então resolveu seguir adiante pois havia muito a ser (re)feito. Quem sabe ele não conseguiria ser o inventor da roda um dia?
Disco Volante está completando 27 aninhos. O segundo álbum do Mr. Bungle é um dos meus preferidos da vida e foi um disco que mudou completamente a minha mente musical.
Pra quem não conhece, o Mr. Bungle é a outra banda do Mike Patton, o vocalista do Faith No More. A banda existia antes mesmo do Faith No More, mas só ganhou algum reconhecimento após o Patton fazer sucesso com o lançamento do The Real Thing.
O Mr. Bungle é um grupo que desafia qualquer definição de gênero musical. É rock, eletrônico, death metal, samba, música circense, trilha sonora, vídeo game, tudo ao mesmo e, muitas vezes, na mesma música. Quando eu escutei o Disco Volante pela primeira vez, eu fiquei tão pasmo com a liberdade musical que eu não conseguia escutar mais nada depois. Tudo soava sem graça.
Pra começo de conversa, o Patton utiliza a voz dele de uma maneira que eu nunca visto. Ele usa como se fosse um instrumento mesmo. Às vezes de forma percussiva inclusive. Em Ma Meeshka Mow Skwoz, ele canta em uma língua inventada. Em Violenza Domestica, eles criam um clima cinematográfico a la Poderoso Chefão e o Patton fala frases de diálogos em italiano, como se ele interpretasse diferentes personagens interagindo em várias cenas.
Aliás, uma coisa que a banda faz muito bem é criar ambiência musical. Cada faixa é um universo próprio, jamais visitado antes. As letras bem humoradas e o deboche da banda às vezes escondem a complexidade dos arranjos com suas várias mudanças de andamento. Mas quem é músico não se deixa enganar e fica boquiaberto com o que escuta.
A produção do disco também é muito curiosa, pois as faixas têm um som meio abafado, claustrofóbico, submerso, que pra mim conversa muito bem com toda a temática subaquática da arte do álbum.
Disco Volante é arte na sua melhor forma: ousada, inovadora e inclassificável.
“A palavra é meu domínio sobre o Mundo”. (Clarice Lispector) A todos os artistas que foram um dia silenciados. A todos que ainda são. Nasci poeta. E por isso não me calo. Deixo as palavras me penetrarem, para depois irem pro Mundo, Fazer ninho nos meus leitores, Abalar estruturas, Romper toda e qualquer barreira. Não me calo. Não me calo. Não me calo.