
A senhora sentada
na entrada da casa
toma café
e sol
com um papagaio
e um gato preguiçoso
todos os dias
de manhã
ficam lá enquanto eu passo
na minha lembrança permanecem
estampados
Site da escritora Clarice Dall'Agnol

A senhora sentada
na entrada da casa
toma café
e sol
com um papagaio
e um gato preguiçoso
todos os dias
de manhã
ficam lá enquanto eu passo
na minha lembrança permanecem
estampados

Às vezes a gente acorda num mundo diferente.
Depois olha pela janela e percebe
que o que tem de novo
é a gente.

O crânio
descarnado
sob a mesa
me encara
tudo se agita e palpita
ante a visão
do futuro
certo
que me espera

Era um monstro. Desde que bati o olho, tive certeza. Tentei avisar, mas alguns pareciam não me escutar. Ou não queriam. Eu apontava para o canto escuro e dizia: é um monstro! De nada adiantava. Um parente aproximou-se da escuridão e não viu um monstro, viu um espelho. Um vizinho escutou o rosnado do bicho e disse que eram sábias palavras. Minha colega de trabalho disse que não percebia diferença entre o monstro e um ser humano. Havia algo errado. E eu não demorei a perceber que a criatura tinha um poder de hipnose e mimetismo. Eles olhavam para ela e transformavam-se em parte de uma grande besta. Cada vez maior, parecia impossível de contê-la. Mas, dia a dia, eu encontrava alguém que via o monstro. Enxergava com precisão cada detalhe. E fomos nos conectando, uns aos outros, crescendo em número – e em boa visão. Nos demos as mãos e, dessa união, foi surgindo uma corrente. Mas não uma qualquer. Uma corrente tão longa e tão maciça que foi possível – com coragem e resiliência – enlaçar o monstro e derrubá-lo no chão. Chorou, esperneou, mas foi vencido. A melhor maneira de domar um pesadelo é transformá-lo em sonho.

Tal qual marítima vampira,
Atendo o teu pedido faminto,
E em busca das melhores ostras,
vou.
Tua voz em mim sussurra,
“é preciso explorar bem para escolher”.
E é a voz quem decide,
Sabendo que a fome é minha,
também.
Me dizes, com olhos sedentos,
“Você é um vulcão,
transborda”.
(Ouço essas tuas frases e ardo,
nosso enlace dura horas,
além da carne).
Sinto meus dentes acomodando-se em tua nuca:
(sal e jasmim).
Sorvo, lambo os lábios, satisfeita, e teu líquido me faz alucinar.
Sob uma noctiluca invernal,
em caminho de pedras labiríntico,
sinto intensa vertigem,
e avisto:
As conchas delas, em furta-cor, me atraem, me roubam,
Mostrando-me o caminho.
Quero o viço,
quero o brilho, quero o sumo, quero a energia,
quero a certeza da perfeição.
quero sugar-lhes a juventude,
e assim renovar-me,
ressurgir,
tecer as tramas
– que poucos entendem.
Quero viver.

Durmo.
Assim.
Abraçada,
nas frestas
de luz.
Esperando,
um dia,
dançar
naquele som,
que vem da esquina, e
me faz espiar.

Hoje eu fui feliz
sem nada
de novo

Hoje ela acordou com determinação nos pés. Caminhou em linha reta ao objetivo. Sem curvas, sem paradas. Cada passo certeiro. O som de sua andança produzia música. Triunfante. Uma jornada dórica sem fade out. Não havia dúvida ou hesitação. Um trompete, talvez. O que ela via como medo, agora era enredo. O horizonte à vista, um violino. O que ela sentia como improvável, agora era tátil. A areia em seus dedos, um coro de vozes crescendo. O que ela ouvia como ofensa, agora é parte de sua dança. Está tudo presente e o horizonte vira seu habitat. O que ela chamava de esperança, agora ela alcança.

Lançada no Record Store Day de 2022, esse vinil raro apresenta as composições de Lou Reed em sua essência. Nada de feedback ou solos de guitarras, apenas voz e violão.
Em 1970, o compositor abandonou o Velvet Underground no meio de uma temporada no Max’s Kansas City e antes de terminar as gravações do último álbum da banda, Loaded. No dia 27 de outubro do ano seguinte, o cantor entrou no Estúdio E da RCA para gravar demos de composições para seu primeiro disco solo.
Esse álbum traz 13 gravações que Lou Reed fez para a pré-produção do disco, mas o curioso é que muitas delas só foram gravadas em álbuns futuros. É o caso de “Perfect Day”, “I’m So Free” e “New York Telephone Conversation”, que seriam gravadas no segundo e clássico álbum Transformer, sob a supervisão de ninguém menos que David Bowie. “Kill Your Sons” só seria gravada no quarto álbum, Sally Can’t Dance, e aqui ela já aparece, mas com uma letra completamente diferente. “She’s My Best Friend” só sairia no sexto álbum de estúdio, Coney Island Baby, mas já era tocada nos shows do Velvet Underground. E não é só ela, nessa sessão Lou registrou outras músicas que ele tocava com o Velvet, mas que nunca haviam sido lançadas, como “Lisa Says”, “Ride into the Sun” e “I’m Sticking with You”, que era cantada por Moe Tucker e aqui aparece, pela primeira vez, na voz de Lou.
O álbum é um registro íntimo que soa como se Lou fosse um amigo na sua casa que pega o violão e diz “posso te mostrar umas músicas minhas?”