Clarice Dall’Agnol

Literatura

Cantiguinha angustiada para Drummond

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imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

Não pertenço mais a lugar algum.
Lendo os versos de Drummond, tenho mais certeza ainda.
Sou poeta?
A dúvida me assola.
Me arrasa.
Somente as ideias, nada além.
Faço barquinhos de papel para me distrair.
Faço poemas em barquinhos para abstrair.
Tento não escrever sobre o amor e a morte.
Nunca consigo.

Drummond disse que é preciso permanecer bêbado.
Como alguém pode ser tão poeta?

Cinema

Oscar 2015 – Palpites

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por Pedro Cunha

Enquanto o Neil Patrick Harris, o eterno Barney de “How I Met Your Mother” arruma o smoking, vamos aos nossos tradicionais palpites para a cerimônia do Oscar 2015!!

Melhor Filme:

Vai dar Birdhood. Quer dizer, Boyman. Ah! Muita dúvida. Boyhood vinha muito forte em janeiro, mas começou a perder força enquanto Birdman subiu nas cotações. Bom, vamos descer do muro: leva Birdman.

Melhor Diretor:

Aí já acho sem mistério. Deve dar Richard Linklater, que fez um ótimo trabalho e é muito querido pelos seus colegas.

Melhor Atriz:

Tudo indica que Julianne Moore leva por “Para Sempre Alice” (Still Alice, Richard Glatzer, 2014). É uma veterana reconhecida pelo talento e nunca premiada. A segunda opção seria Rosamund Pike, apesar da esnobada que a academia deu em “Garota Exemplar” (Gone Girl, David Fincher, 2014).

Melhor Atriz Coadjuvante:

Difícil de Patricia Arquette não levar essa. Tem ganhado todos os prêmios e fez um trabalho esplendoroso em Boyhood. Digo isso com todas as ressalvas que podemos ter não votando em Meryl Streep em uma categoria onde ela está indicada.

Melhor Ator:

Paradoxalmente enquanto Birdman ganhava força Michael Keaton parece perder. Era o grande favorito, mas as apostas já começam a achar que Eddie Redmayne pode levar. Ainda aposto em Keaton, com a maioria dos votantes da Academia tendo aquele espírito “Redmayne é muito novo, pode ganhar depois, já Keaton não sabemos…”

Melhor Ator Coadjuvante:

Uma das barbadas da noite. Todo mundo vai achar estranho se JK Simmons não levar. Ressalte-se que Ruffalo, Norton e Hawke fizeram também ótimos trabalhos (não posso julgar Duvall por não ter visto “O Juiz” (The Judge)). Minha escolha pessoal seria Norton, mas ainda acho que Simmons leva tranquilamente.

Melhor Roteiro Original

Acho que dá “O Grande Hotel Budapeste”, no espírito de espalhar os prêmios. Caso o espírito da noite seja um grande premiado, pode dar “Birdman”. Ainda acho que o ótimo roteiro de Wes Anderson vai levar, merecidamente.

Melhor Roteiro Adaptado

Vamos chutar “Sniper Americano”, numa ideia de prestigiar o filme que vem tendo grande bilheteria. Pode ser o prêmio de consolação de “O Jogo da Imitação”, também.

Melhor Filme de Animação

Com a inexplicável não indicação de “Uma Aventura Lego” tudo indica que a estatueta vai para “Como Treinar Seu Dragão 2”.

Melhor Canção Original

Leva “Glory”, para ser o prêmio de consolação do subestimado pela Academia “Selma”. E a música é boa, anyway.

Melhor Montagem

“Boyhood” leva. Um filme gravado em 12 anos é ou não é um belo trabalho de Montagem, depois? Sem surpresas, eu acho, apesar da Montagem de Birdman ser um belíssimo trabalho também.

Melhor Fotografia

Gosto mais do termo em inglês, que poderia ser traduzido como “cinematografia” e é mais amplo. Vou de “O Grande Hotel Budapeste”, aqui, um trabalho absolutamente lindo. Não vi “Ida”, que dizem que é deslumbrante, e “Birdman” também tem uma excelente fotografia, mas continuo achando que dá Robert Yeoman aqui.

Melhor Design de Produção

Seria injusto não dar esse prêmio para “O Grande Hotel Budapeste”. A Academia, no entanto, adora premiar nessa categoria filmes de época, o que deixaria o meia-boca “Into the Woods” como candidato.

Melhores Efeitos Visuais

“Interestelar” deve ganhar aqui, com alguma tranquilidade. É uma categoria, no entanto, nas quais surpresas não são raras.

Melhor Figurino

Milena Canonero, por “O Grande Hotel Budapeste”, deve levar. A Academia gosta dela, que já tem três Oscars na prateleira.

Melhor Maquiagem e Cabelo

A Academia tende a desprezar nessa categoria os filmes que tenham algum efeito digital (o que é injusto) e isso pode tirar o prêmio de “Guardiões da Galáxia”, que é o melhor trabalho da categoria. Dando um chute ousado aqui, acho que o prêmio acaba indo para o sutil e excelente trabalho realizado em “Foxcatcher”.

Melhor Trilha Sonora

Acho que vai levar “A Teoria de Tudo”. Ficaria feliz se ganhasse o excelente trabalho de Hans Zimmer em “Interestelar”, que para mim é a melhor de todas as trilhas esse ano.

Melhor Edição de Som e Mixagem de Som.

Tenho problemas sérios em separar Edição de Som e Mixagem de Som, mas acho que não sou só eu, já que a Academia em geral “casa” esses dois prêmios. Para esse ano acho que “Sniper Americano” leva os dois.

Cinema

American Gods (ou “Sniper Americano” e “Selma”)

por Pedro Cunha

No dia da cerimônia eu enfim coloco meus textos em dia para escrever sobre “Sniper Americano” (American Sniper, Clint Eastwood, 2014) e “Selma” (Idem, Ava DuVernay, 2014). Interessante terem ficado logo esses dois por último, já que eles fazem parte de um debate quente nos EUA atualmente, como muita gente discutindo quem seria o “verdadeiro” herói norte-americano: o sniper Chris Kyle ou o reverendo Martin Luther King.

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Começando pelo mais difícil, “Sniper Americano” é um filme complicado de analisar. Seria muito mais simples de fazê-lo se o filme fosse ruim. Simplificaria a minha vida. Mas não é. O filme é bom. Eastwood é sólido como diretor e sabe contar uma história. Não há como assistir o filme sem se pegar torcendo pelo protagonista, mesmo ele sendo… um assassino. O filme está sendo acusado de banalizar a guerra dos EUA com o Iraque, de promover ao status de herói um psicopata e é muito difícil desvencilha-lo dessas acusações. A estrutura do filme não questiona as motivações da guerra em nenhum momento, fazendo uma ligação direta (que é bastante problemática) entre os atentados da Al Qaeda e a invasão americana. Se lembrarmos dos fatos, a invasão do Iraque pouco teve a ver com o 11/9, mas sim com a suspeita (nunca confirmada) de que o Iraque possuía armas de destruição em massa. Os iraquianos apresentados no filme não tem voz. Nenhum deles fala. O sniper sírio que faz o antagonista de Kyle passa o filme inteiro sem dizer uma palavra sequer. Há uma proposital desumanização do “inimigo”.

Li muita gente que gosta do Eastwood (eu gosto, e bastante) dizendo que justamente o que ele fez foi um libelo anti-guerra e que todos estariam entendendo tudo errado. Me desculpem, mas não foi. Lembro de uma entrevista do José Padilha, falando sobre a repercussão de “Tropa de Elite” (2007), quando o Capitão Nascimento foi alçado a condição de herói nacional e Padilha foi chamado de fascista. Padilha disse que não era aquela mensagem que ele queria passar, bem pelo contrário, mas se todos tinham entendido daquela forma quem estava errado era ele. Para provar seu ponto ele fez o segundo “Tropa de Elite” (2010), dessa vez deixando tudo muito claro e tendo voz no discurso final de Nascimento, onde Padilha expos de maneira bastante clara a opinião dele sobre aquilo tudo. Eastwood é um excelente diretor e disse exatamente o que queria dizer, e esse é o problema.

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Chris Kyle (Bradley Cooper) procurando o próximo alvo 

“Sniper Americano” vai entrar, para mim, na mesma galeria de “ Triunfo da Vontade” (Triumph des Willens, Leni Riefenstahl, 1935) ou “Sindicado de Ladrões” (On the Waterfront, Elia Kazan, 1954): grandes produções estéticas com mensagem extremamente controversas. Se “Triunfo da Vontade” é a propaganda maior do Nazismo e “Sindicato de Ladrões” é justificativa para o Macarthismo, “Sniper Americano” abraça e corrobora o discurso da “Guerra ao Terror”, colocando os EUA como “pastores do mundo” e “guardiões da democracia” contra os “selvagens”, termo usado várias vezes por Kyle para se referir aos iraquianos.

Tecnicamente, repito, o filme é muito bem feito. A edição é primorosa e a narração de Clint encontra, talvez, seu melhor trabalho. Bradley Cooper, quase irreconhecível, entrega uma atuação de luxo. Na parte técnica o filme justificou as indicações em “Edição”, “Edição de Som” e “Mixagem de Som”. A controvérsia em cima do filme só fica maior em função da sua bilheteria, maior do que a SOMA dos sete outros indicados a melhor filme até agora.

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Falando de heróis americanos, “Selma” é um belíssimo filme que nos mostra um pouco mais sobre um dos mais cultuados norte-americanos, Martin Luther King. Ava DuVernay conduz o filme com excelência e merecia, sem sombra de dúvida, uma indicação a Melhor Direção. A história contada por ela nos leva à cidadezinha de Selma, no interior do Alabama, onde o grupo político comandado por King mobilizava a população negra do local para protestos pacíficos em busca do direito ao voto, que apesar de legalmente estar garantido era barrado aos negros por burocratas tecnicistas que sempre achavam uma maneira de negar o registro. King, já um ativista consagrado e vencedor do prêmio Nobel da Paz, utiliza-se de sua notoriedade em favor de sua causa. Suas discussões com seus colegas e suas sessões de “esgrima” com o presidente Lyndon Johnson mostram-no como um político pragmático, que sabia da força de suas ações e do peso de seu próprio nome e estava disposto a usar todo o prestígio que possuía para atingir objetivos bem claros. No caso, o direito de voto aos negros. O roteiro e a diretora são muito felizes em ilustrar o contexto sem tornar o filme uma aula cansativa sobre a vida de King e os anos 60. A cena da senhora tentando se alistar como eleitora e a explicação de King a Lyndon Johnson do MOTIVO pelo qual o voto era importante, não só pelo voto em si, mas também por todas as consequências disso, ajudam a mostrar a importância do pleito daquele movimento naquele momento sem tornar-se excessivamente didático ou tratar o espectador como um estúpido.

Além de uma história bem contada “Selma” nos brinda com uma excelente atuação de David Oyelowo, inexplicavelmente não lembrado nas indicações para Melhor Ator (poderia estar no lugar de Bradley Cooper ou Benedict Cumberbatch). O seu Martin Luther King é absolutamente crível e o trabalho do ator britânico para reproduzir o tradicional sotaque caipira do sul dos EUA é assombroso. Os históricos discursos de King, inflamados por toda a oratória que só um pastor das igrejas da Georgia tinha, estão lá com todo o seu poder e intensidade. Os coadjuvantes todos trabalham bem e Oyelowo e DuVernay merecem os parabéns por nos apresentarem um Martin Luther King humano, com dúvidas e falhas, fugindo do estilo hagiografia-exaltação no qual alguns dos outros indicados a Melhor Filme exageraram esse ano. “Selma” deveria ter sido mais lembrado para a premiação de hoje a noite. Recebeu indicações apenas para Melhor Filme e Melhor Canção (prêmio que deve levar com “Glory”).

Cinema

O Bom, o Mau, o Feio e o Esquizofrênico

por Pedro Cunha

Continuando a série sobre os filmes do Oscar, hoje vamos falar um pouco sobre mais quatro filmes: “O Jogo da Imitação” (The Imitation Game, Morten Tyldun, 2014), “Whiplash – Em Busca da Perfeição” (Whiplash, Damian Chezelle, 2014), “A Teoria de Tudo” (The Theory of Everything, James Marsh, 2014) e “Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) (Birdman, Alejandro Iñárritu, 2014). Como já escrevi sobre “Boyhood” (Richard Linklater, 2014) e “O Grande Hotel Budapeste” (The Grand Budapest Hotel, Wes Anderson, 2014), ficam faltando “Sniper Americano” (American Sniper, Clint Eastwood, 2014) e “Selma” (Ava DuVernay, 2014), que eu prometo que antes do final da semana estarão por aqui!

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Alan Turing é uma das grandes personalidades do século XX. O mundo como o conhecemos hoje, pode-se dizer, é fruto do trabalho de Turing. Durante a Segunda Guerra Mundial Turing capitaneou um time de matemáticos e estatísticos britânicos  que se dedicaram à “guerra dentro da guerra”: encontrar uma maneira de “quebrar” a Enigma, a máquina encriptadora alemã que criava códigos indecifráveis. Enquanto a maioria das pessoas, naquele momento, achava extremamente razoável tentar decifrar o código manualmente, Turing foi contra a maré e decidiu que para decifrar todo o código de uma vez ele precisava de uma máquina que analisasse as possibilidades mais rápido que qualquer ser humano poderia fazer. Está lançada a semente do que viria a ser a computação e o processamento de dados. A invenção de Turing foi fundamental para acelerar a vitória dos Aliados na Segunda Guerra mas ainda assim apenas agora ele é alçado a condição de herói de guerra e cientista visionário que merece, por um detalhe: Turing era homossexual, o que na Grã-Bretanha dos anos 1950 era crime. Depois de passar por uma série de terapias hormonais para “reverter” sua “situação” Turing decidiu acabar com a própria vida e suicidou-se em 1951, com apenas 41 anos.

“O Jogo da Imitação” faz parte da campanha de reabilitação da imagem de Turing que vem sendo promovida faz alguns anos, com participação expressiva da comunidade LGBT e dos trabalhadores em tecnologia da informação britânicos. Nesse sentido, o filme conta a história de Turing focando principalmente no período da Guerra e no esforço obsessivo dele para “quebrar” a Enigma e decifrar os códigos alemães. O diretor norueguês Morten Tyldun, na sua primeira produção em língua inglesa, fez um filme para não errar. Tendo uma boa história, um personagem interessante e um excelente protagonista, optou por centrar o filme na figura de Turing e conduzir o filme sem sobressaltos ou grandes reviravoltas. O resultado, embora longe de ruim, fica um tanto quanto insosso. Na internet há muita gente comparando Tyldun com Tom Hooper em “O Discurso do Rei” (The King´s Speech, 2010), considerado por muita gente como um dos mais retos e previsíveis filmes a levarem o Oscar. Acho um certo exagero na crítica a Hooper, mas concordo que Tyldun optou pelo caminho com menos risco e esforço para fazer o seu filme.

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Alan Turing: O Bom 

O melhor do filme é a atuação do sempre elogiado Benedict Cumberbatch, como Alan Turing. O “Sherlock” do seriado é um dos mais badalados atores do momento e talvez tenha feito em “O Jogo de Imitação” a atuação de sua carreira, até agora. Cumberbatch faz um protagonista que beira ao autismo e com sérios problemas de transtorno obsessivo-compulsivo e consegue fazer isso sem ter uma atuação caricata ou exagerada. São os pequenos maneirismos, os tiques discretos, o olhar sempre distante (muitas vezes voltado para o chão), a fala beirando a gagueira e vários outros pequenos detalhes que nos ajudam a construir Turing junto com ele como alguém complexamente… humano. Não fosse um bom filme (e é), “O Jogo da Imitação” valeria a pena só pelo belo trabalho de Benedict Cumberbatch, que não é o favorito para a premiação de Melhor Ator, mas que deve levar essa estatueta nos próximos anos, certamente.

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“Whiplash – Em Busca da Perfeição” é uma história sobre perfeição e obsessão. Damien Chazelle, o jovem diretor de 29 anos, conta a história de um jovem baterista de jazz (Miles Teller) e de seu professor/mentor, vivido pelo veterano J.K. Simmons (conhecido por inúmeras participações em seriados e animações e por ser o J.J. Jameson na trilogia do Homem-Aranha de Sam Raimi.). Simmons faz o tipo professor perfeccionista e que exige do aluno sempre um pouco mais do que ele pode dar, enquanto Teller é o aluno obcecado que sempre tenta alcançar aquilo que o professor quer, por mais impossível que pareça. A tensão entre eles é sempre presente e bem construída. As cenas dos ensaios em que Simmons interrompe Teller incessantemente, sempre no primeiro compasso, nos fazem odiar aquele professor ao mesmo tempo em que inconscientemente, como o personagem de Teller, queremos a sua aprovação, queremos provar que conseguimos, nem que para isso tenhamos que abrir mão de tudo que possa minimamente atrapalhar esse caminho.

Tecnicamente o filme é muito bem feito e nos brinda com uma fotografia de interiores muito bacana. A indicação para o prêmio de Melhor Edição é justa e o filme poderia também ter reconhecidas a Mixagem de Som e a Edição de Som. A trilha sonora, repleta de clássicos do jazz, é deliciosa. Simmons vem (com justiça) papando todos os prêmios de Melhor Ator Coadjuvante: venceu o Globo de Ouro e o SAG (Screen Actors Guild) e pinta como favoritaço ao Oscar.

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Fletcher (JK Simmons): O Mau 

“Whiplash” é um filme bem feito e que ganha pontos ao nos envolver com os personagens, odiá-los e torcer por eles ao mesmo tempo. É um filme sobre o nosso desejo pela perfeição e sobre o quanto estamos dispostos (ou não) a sacrificar para atingi-la. Musicalmente eu tenho meus problemas sobre a maneira como Chazelle define a perfeição, como algo técnico e veloz, matematicamente mensurável, calculável e organizável, mas entendo a mensagem que ele quer passar. É um grande filme, apesar, para mim, desse porém.

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“A Teoria de Tudo” (The Theory of Everything, James Marsh, 2014) segue a cartilha dos filmes biográficos, acompanhando linearmente a vida do físico Stephen Hawking, um dos responsáveis, junto com Carl Sagan, pelo “boom” de popularização da física nos anos 1980. Sagan foi o responsável pela série “Cosmos”, enquanto Hawking escreveu “Uma Breve História do Tempo”, um improvável best-seller sobre física teórica, origem do universo e buracos negros. Se você pretende assistir “A Teoria de Tudo” para entender melhor o brilhantismo de Hawking como físico, esqueça. Como alguém escreveu outro dia, você encontra mais da teoria de Hawking sobre buracos negros e tempo em “Interestellar” (Chris Nolan, 2014) do que em “A Teoria de Tudo”. O foco do filme é a vida do físico, o desenvolvimento de sua doença limitadora de movimentos e sua relação com Jane Hawking, sua primeira esposa.

O filme traça um perfil bastante humano de Hawking, apresentando no mesmo plano sua obstinação em enfrentar a doença e um comportamento que muitas vezes pode ser chamado até de egoísta. O contraponto é feito por Jane (Felicity Jones, indicada a Melhor Atriz pelo papel), que é retratada no filme como uma santa praticamente sem defeitos, o que até era de se esperar visto que o roteiro para o filme foi adaptado da biografia de Jane Hawking, escrita por ela mesma.

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Stephen Hawking (Eddie Redmayne)

“A Teoria de Tudo” é um filme de superação e sacrifício, em todos os sentidos, mas sem cair no dramalhão, o que poderia se esperar de um filme que tem um protagonista sofrendo de uma doença degenerativa incurável gravíssima. Um dos fatores que ajuda o filme a manter o clima positivo é Eddie Redmayne. O ator que já havia aparecido em “Les Miserables” (Tom Hooper, 2012) como um dos galãs aqui interpreta Hawking desde a sua adolescência nos anos 1960 até a consagração no final do século XX. Interpretar um personagem que vai gradativamente perdendo os movimentos poderia ser complicado, mas Redmayne fez um excelente trabalho que lhe rendeu o prêmio de Melhor Ator do SAG e a indicação ao Oscar, onde aparece como talvez o principal oponente de Michael Keaton. A Academia gosta de interpretações fortes de casos de doença, e Redmayne nos entrega isso com maestria no filme.

 

Alejandro Gonzáles Iñárritu é um diretor mexicano já consagrado. Desde a explosão de “Amores Brutos” (Amores Perros, 2000) já fez sucesso com “21 Gramas” (21 Grams, 2003), concorreu aos principais prêmios por “Babel” (2006) e ao Oscar de Filme em Língua Estrangeira por “Biutiful” (2011). O seu “Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)” é o casamento do que há de melhor do cinema autoral do qual Iñárritu nunca abriu mão, mesmo trabalhando para os grandes estúdios, e o cinema comercial que Hollywood faz tão bem. “Birdman” conta a história de um ator cuja glória ficou no cinema das décadas anteriores (Michael Keaton, num papel quase auto-biográfico) que tenta reencontrar-se consigo mesmo investindo no teatro, tentando mostrar que é de fato um ator com talento e ganhando o respeito da crítica especializada e dele mesmo, no processo. O personagem de Keaton tem que lidar com egos de outros atores, uma filha recém-saída da rehab pedindo por atenção e o pior, com seus próprios demônios internos, que o assombram cada vez mais na medida em que a estreia vem se aproximando.

Iñarritu faz uma narrativa claustrofóbica. Os planos-sequência intermináveis do diretor sobem e descem perambulando por dentro do teatro, por entre coxias, camarins, palcos e banheiros, fazendo com que nos sintamos mais um personagem que perambula a esmo por dentro do teatro e pelas ruas de Nova Iorque, acompanhando as angústias de Riggan e torcendo por ele, mesmo que ele não mereça. Michael Keaton, como Riggan, é um show a parte. As conversas de Riggan com ele mesmo (ou com “Birdman”, seu sucesso do passado) e a naturalidade com que ele as trata nos faz frequentemente duvidar do que é real e do que é imaginário ali, com o que Iñárritu e Keaton conseguem nos arrastar para o meio do delírio do personagem, questionando a realidade e acreditando no impossível. Aliás, sobre a duplicidade Riggan/Birdman, impossível não enxergar ali pelo menos um pouco do próprio Keaton, que em 89 e 92 viveu Batman nos filmes de Tim Burton e deixou lá nos anos 80 os melhores anos de sua carreira. Iñárritu se aproveita dessa relação da mesma forma que Aronofsky fez com Mickey Rourke em “O Lutador” (The Wrestler, 2008) e tira de Keaton a mais brilhante atuação de sua carreira. Tão brilhante que, se nada der errado, deve sair da festa no próximo dia 22 com o careca dourado nas mãos. Pode não ser o único do filme, aliás. Edward Norton, no papel do ator talentoso e consagrado no teatro faz um belo contraponto a Riggan, uma vez que tem o reconhecimento do talento que o outro não teve mas tem inveja da aclamação popular de que Riggan desfruta e ele desconhece. Norton foi indicado a Melhor Ator Coadjuvante, assim como Emma Stone, que faz a filha em recuperação de Riggan, foi indicada a melhor Atriz Coadjuvante.

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Riggan (Michael Keaton): O Esquizofrênico 

Num ano de muitos filmes contando histórias de sucessos e glórias, “Birdman” é quase uma ode ao fracasso. É uma história nos causa mal-estar, que vai crescendo durante o filme e tomando conta até quase nos sufocar. E até por isso, talvez, seja um dos meus preferidos. Em tempos onde é proibido fracassar, em que todos têm que ter sucesso, o fracasso merece, sim, estar na primeira página, fazendo sucesso. Pelo menos uma vez.

 

(“O Jogo da Imitação” tem oito indicações: Melhor Filme, Melhor Diretor (Morten Tyldun), Melhor Ator (Benedict Cumberbatch), Melhor Atriz Coadjuvante (Keira Knightley), Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Edição, Melhor Design de Produção e Melhor Trilha Sonora; “Whiplash – Em Busca da Perfeição” tem cinco indicações: Melhor Filme, Melhor Ator Coadjuvante (JK Simmons), Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Edição e Melhor Mixagem de Som; “A Teoria de Tudo” tem cinco indicações: Melhor Filme, Melhor Ator (Eddie Redmayne), Melhor Atriz (Felicity Jones), Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Trilha Sonora Original (Johan Johannsson; Birdman tem nove indicações: Melhor Filme, Melhor Diretor (Alejandro G. Iñárritu), Melhor Ator (Michael Keaton), Melhor Ator Coadjuvante (Edward Norton), Melhor Atriz Coadjuvante (Emma Stone), Melhor Roteiro Original, Melhor Fotografia, Melhor Mixagem de Som e Melhor Edição de Som).

Literatura

Pandora

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imagem: Ana Nitzan

por Marcella Marx

(…) But the woman took off the great lid of the jar (pithos)
with her hands and scattered all these and her thought caused sorrow
and mischief to men. Only Elpis (Hope) remained there in an unbreakable
home within under the rim of the great jar, and did not fly out at the
door; for ere that, the lid of the jar stopped her, by the will of
Aigis-holding Zeus who gathers the clouds. (…)

Hesiod, Works & Days 54 ff (trans. Evelyn-White) (Greek epic C8th or C7th B.C.)

A repetição dos teus erros,
A repetição dos teus erros,
A repetição dos teus erros.

A repetição.

Eu tentei não cometer.

Porém, quanto mais me afasto
mais me trans – formo em ti

não sou mais eu aquela imagem refletida no espelho
são aqueles que tentei afugentar

todos libertam-se aos poucos,
durante à noite ou em pleno dia.

Já correm livres e me faltam as rédeas para frear.

Literatura

O quarto

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imagem: Cassiano Rodka

por Isabel Dall’Agnol

Não foi por acaso
que ali se encontraram.
Jamais seriam elas,
se assim não o fosse.

Fecharam os olhos e
distribuíram sonhos.
Compartilharam apertos
e desapegos.
E entre gargalhadas
e segredos,
despertaram o amor.

Brinquedos se espalharam
Cifras inventaram.
Enigmas desvendaram.

O tempo voa,
enquanto o vento
desbota o retrato.

Espaços ocuparam.
Laços amarraram.
Sentidos descobriram.

Firmaram atitude,
entre mãos
e temores.

Elas sabem que
tecidos se rasgam.
Tanto quanto
diamantes se eternizam.

Já não importa quando
não adormecerem
em companhia.
A imagem do quarto
estará sempre
deitada no espelho.

Literatura

Benção

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imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

Para minha tia Maria Augusta, que soube reconhecer o sinal.

Por seu corpo correu um calafrio quando encarou o mar de fim de tarde. Aquela sensação de estar recebendo um espírito (não era médium, assim, a percepção era apenas um reflexo de histórias ouvidas). Foi jogada no tempo, aquele gatilho ativando a memória: os verões de sua infância, naquela mesma praia, e os banhos de mar vespertinos. A mãe lhe fazia ir ao mar, todas as santas tardes, mas aquilo não lhe agradava muito. Não via razão de ir à beira da praia duas vezes por dia, e ainda ser obrigada a entrar na água gelada dos mares do Rio Grande do Sul em um horário em que o sol já começava a se despedir, e o vento já se mostrava mais ativo do que nunca; aquele tipo de vento de arrancar chapéus, e derrubar guarda-sóis, típico daquele litoral. Resolvia tentar aproveitar o banho de mar, então. O problema, porém, era quando tinha que voltar para o apartamento, tirar o maiô molhado e ficar alguns minutos esperando o chuveiro esquentar, ali, mal enrolada em uma toalha, sentindo o chão frio de azulejos nos pezinhos murchos e salgados. E então sentir o chuveiro quente no corpinho gelado, uma espécie de choque, de novo o calafrio. E uma sensação de tristeza azul-acinzentada, da cor do seu mar.

Foi arrancada dos devaneios pela voz do marido, “Vamos entrar?”. Ela estava querendo e precisando sentir o mar. Para lavar os males do ano que ora chegava ao fim. Uma água salgada e geladinha seria o ideal para aplacar os resquícios das coisas idas, limpando tudo, e preparando a alma para o futuro. “Podes ir na frente, entro logo”. Foi quando o marido pediu-lhe para guardar sua correntinha de ouro com crucifixo. Ela segurou a correntinha firme nas mãos. Ainda assim, o minúsculo crucifixo escorregou e caiu na areia. Foi tomada por um pânico similar ao calafrio que sentiu ao ver o mar de fim de tarde. Desesperada, ajoelhou-se na areia, espanando-a delicadamente, porém com muita aflição. O marido disse-lhe que não se preocupasse, essas coisas acontecem, talvez fosse a hora, e entrou no mar.

Ela continuou ali, ajoelhada, procurando o crucifixo por uma hora, olhando de vez em quando o mar imenso, de vez em quando o céu infinito, como se a pedir auxílio de ambos. Orou a Santo Antônio, padroeiro das causas perdidas. A fé aumenta em momentos de desamparo, isso é estatisticamente comprovado. Pareceu ouvir uma voz, “Está aí, olha só mais um pouquinho. Não perde a razão, segue tua intuição. A resposta está sempre em ti, é só se acalmar e tentar enxergar”. Olhou para os lados. Nada. A voz vinha de dentro.

Quando já estava a perder as esperanças, viu o brilho dourado da cruzinha, no meio daquele montão de areia revirada. Gritou bem alto para o marido, que estava saindo do mar. Vibrou, comemorou, até chorou. Foi aí que resolveu entrar no mar. Enfrentar o grande gigante, que deveria lavar-lhe o espírito. Em meio às ondas, que lhe abraçavam como uma velha amiga, deu-se conta de que aquilo tinha sido um aviso. Um sinal de que era tempo de parar, olhar ao redor, medir as atitudes, respirar. E aproveitar o mar, com suas infinitas possibilidades.

Literatura

História de Maria: de sonhos e de realidade

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imagem: Ana Nitzan

por Marcella Marx

Maria sonhava muito. Ela acreditava que quando não sonhava era por culpa dela mesma. Porque não tinha dado ouvido aos seus sonhos durante seu dia. O certo, pensava, era acordar e ir lembrando dos sonhos aos poucos. Um som, uma palavra, um rosto, um cheiro.

Uma vez, Maria acordou cantando uma música que nunca havia ouvido. A música tinha melodia e letra, dizia assim: “Bate o barro, amassa com a mão, o dinheiro é a consequência…” Maria passou o dia cantarolando a melodia. Ela ouvia seus sonhos atenta, mesmo sem conseguir decifrá-los de pronto.

Uma noite, Maria sonhou que estava no meio de muitos leões, leoas e seus filhotes. Ela tinha medo, mas o medo não era, se comparado à sensação de poder andar por entre eles, de afagá-los com suas próprias mãos. O risco, a recompensa e a consequência.

A vida acabava sempre imitando os sonhos de Maria, mas ela nem sempre sobrevivia aos leões.

Cinema

Boyhood

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por Pedro Cunha

Richard Linklater conseguiu fazer um filme diferente. É muito difícil você encontrar alguém indiferente a “Boyhood – Da Infância à Juventude” (Boyhood, Richard Linklater, 2014). Teve gente que não conseguiu assistir até o final e outros definindo o filme como obra-prima. Confesso para vocês que estou bem mais próximo do segundo time. Quando o filme acabou, eu sequer tinha percebido que aquele tempo todo tinha passado. Por mim ficaria mais duas, três, quatro horas no cinema acompanhando aquela história. Por mais que, como alguns tem dito, o filme não tenha propriamente uma história.

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Patricia Arquette e Ethan Hawke, com o passar dos anos

“Boyhood” é um filme sobre a passagem do tempo. Filmado no decorrer de doze anos, ele nos mostra a vida através dos olhos de Mason (Ellar Coltrane) desde a sua primeira infância até o início de sua vida adulta. Junto dele acompanhamos as histórias de sua mãe (Patricia Arquette), seu pai (Ethan Hawke) e sua irmã (Lorelei Linklater – sim, é a filha do diretor). A história de Mason não tem nada de extraordinária. É uma história comum de uma criança de classe média norte-americana. Os conflitos pelos quais ele passa são aqueles pelos quais qualquer um de nós poderia passar. E aí, talvez, resida o brilhantismo da ideia de Linklater. O projeto que pode, por um lado, ser chamado de megalomaníaco (filmar um longa durante doze anos) resulta em um filme que prima pela simplicidade. Nos enxergamos em Mason, e muitas vezes também na sua mãe, no seu pai ou na sua irmã. “Boyhood” é um filme que fala sobre a passagem do tempo e sobre a relação entre as pessoas. O diretor já tinha abordado com sucesso esses mesmos temas na sua trilogia “Antes”: “Antes do Amanhecer” (Before Sunrise, 1995), “Antes do Pôr do Sol” (Before Sunset, 2004) e “Antes da Meia-Noite” (Before Midnight, 2013). Os três filmes, que não foram pensados como uma trilogia e tem um espaço de praticamente 10 anos entre um e outro, mostram as idas e vindas de um casal durante 20 anos, desde o momento em que se conhecem na pós-adolescência até o momento em que estão se questionando o que fazer com os filhos já começando a crescer. Esse recorte em três tempos da vida de Jesse e Celine (Ethan Hawke e Julie Delpy) que conversa conosco e com as nossas vidas é o antípoda, o complementar de “Boyhood”. De um lado três filmes sobre as mesmas pessoas feitos de maneira independente e com 10 anos de intervalo entre um e outro. Do outro, um filme só, planejado, produzido durante 12 anos. Ambos contando a mesma (não) história: a passagem do tempo e a mudança das pessoas.

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Ellar Coltrane, que foi escalado para o filme aos seis anos de idade

“Boyhood” tem fortes atuações, mas é lindo perceber principalmente os trabalhos de Ethan Hawke e Patricia Arquette. Ela, em especial, eleva o filme a outro nível com a sua atuação como a mãe de Mason. Uma menina que engravida no final da adolescência e tem que lidar com divórcio, relacionamentos abusivos, trabalho e estudos enquanto cria duas crianças. Os medos e incertezas de Mason, da infância à adolescência, espelham-se nos de sua mãe, que acompanhamos da adolescência até a maturidade. Arquette faz o papel de coração e é complicado, em diversos momentos, de não enxergarmos nossas próprias mães.

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Linklater e seu elenco: Arquette, Coltrane, Linklater e Hawke 

“Boyhood” é um projeto grandioso. Pode até ser chamado de megalomaníaco. O resultado, porém, é simples. Não simplório, mas simples porque é delicado e sutil. Linklater, no fim das contas, talvez tenha sim elaborado sua grande obra-prima, ao discorrer mais uma vez sobre as pessoas e a passagem do tempo. O filme chegou forte na temporada de premiações. O filme levou os Globos de Ouro de Melor Filme (Drama), Melhor Diretor (Linklater) e Melhor Atriz Coadjuvante (Arquette). Patrícia Arquette também levou o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante pelo SAG e desponta como favoritaça para levar o Oscar. O filme, aliás, foi indicado em seis categorias: Melhor Filme, Melhor Diretor (Linklater), Melhor Ator Coadjuvante (Ethan Hawke), Melhor Atriz Coadjuvante (Patricia Arquette), Melhor Roteiro Original (Linklater) e Melhor Edição.