Clarice Dall’Agnol

Música

A nova inquietação do Therapy?

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Com 26 anos de carreira, o Therapy? continua nos presenteando com álbums recheados de bons refrões, tempos malucos e excelentes riffs de guitarra (e de baixo!). Um dos grandes méritos do grupo é justamente nunca ter hesitado em experimentar novas ideias e seguir lançando discos independentemente das vendas nunca chegarem nem perto da época dourada do clássico “Troublegum”.

A banda está lançando seu 14º álbum de estúdio, intitulado “Disquiet”. A faixa que abre o disco, “Still Hurts”, é também o primeiro single. Os versos falados em meio a paradinhas remetem à “Knives”, música que abre o clássico disco da banda, “Troublegum”. Já é a deixa do que segue no resto do álbum, uma sonoridade que remete ao início da carreira dos caras, mais cru e direto do que os últimos lançamentos, que traziam músicas com arranjos mais complexos.

Deixando o experimentalismo um pouco de lado, as novas faixas são mais objetivas e com estruturas mais simples. Isso não significa que o peso e as quebradinhas de tempo marotas não estejam lá. Estão! Mas vemos um Therapy? mais (vou me arriscar a dizer) jovem e radio-friendly. O lado pop do grupo aparece mais destacado em faixas como “Tides” e “Fall Behind”, que devem virar single. Se tem uma coisa que Mr. Andy Cairns sabe fazer bem é um refrão, e, neste disco, estamos muito bem servidos.

“Disquiet” é um ótimo disco, que deve agradar inclusive os que nunca escutaram a banda antes. Serve como uma boa porta de entrada para o som do grupo e um ótimo novo capítulo para quem já acompanha essa aventura.

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Literatura

Manual poético de instruções para Maria

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imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

Para minha amiga Marcella Marx, que corre sempre contra o vento.

Minha caríssima Maria,

Ouvi dizer que não gostas de ler regras, nem instruções. Saibas que assim eu imaginava, conhecendo-te como conheço. Lá se vão trinta e cinco anos. Espíritos poéticos não gostam de normas. Apreciam muito menos lê-las.

Tive assim a ideia de escrever-te um manual diferente. Carregado de poesia. O meu manual para ti, que abaixo segue, resolvi chamar de
COMO CORRER CONTRA O VENTO E AINDA ASSIM FAZÊ-LO SOPRAR A SEU FAVOR

1. Tem consciência plena da vastidão do mundo, que, como o oceano, é (in)constante e (in)seguro.

2. Entende que somos nele (mundo-oceano) apenas pequenos detalhes, mas podemos provocar em nós e também nos outros imensas mudanças.

3. Procura conhecer tudo que puderes. Todos os cantinhos. Todas as marés. Todas as terras. Todas as gentes. Todas as línguas. Todos os hábitos. Tenta fazer a vastidão a ti pertencer, e em ti habitar, ao longo da jornada.

4. Cuida do coração: ama, de todas as formas. Escreve sobre o amor. Esquece o que te disseram sobre ser o amor um clichê literário. Por certo quem assim afirma nunca soube o que é amar.

5. Lê tudo que te faz chorar. Ou te faz questionar-se. Ou te faz ficar cheia de certezas. Ou que te agride de tal jeito que te faz desejar mudar o curso das águas. Ou que te faz sentir tão honrada que te cale ao ponto de paralisar.

6. Aposta: no que de fato achas que pode dar certo, e também naquelas coisinhas incertas (são elas, em realidade, que te darão as melhores surpresas).

7. Nunca elimina as tuas reais fontes de inspiração: proibidas, ou não, são elas teu alimento poético diário. São o que te move. Aceita que elas são os teus elementos de revolução e mudança.

8. Tenta entender tua essência de viver em total caos mental, e reconhecer que é este caos, quando colocado em palavras, que te proporciona o conforto que precisas.

9. Sai pelo mundo: é este mesmo o teu destino. Não és tu que decides. É o mundo que te chama, e quer te acariciar, te embalar, e depois te engolir para tornar-se parte tua.

10. Aceita tua condição de ser Maria: tão delicada e também tão forte; tão simples e tão cheia de teias; tão indecisa e tão completamente certa de tudo; tão jovem e tão madura nas ideias; tão paciente e tão repleta de inquietudes da alma; tão única e ao mesmo tão plural. Maria com várias Marias, sempre cheia de histórias para contar.
Vai, então, Maria, doce Maria, pois o mundo-oceano te espera. Manda-me teus passos, tuas impressões, teus relatos. Inclui-me nos teus sonhos, e conta comigo, sempre, para ainda mais poéticas instruções.

Muito carinho da tua amiga,
Vida

Literatura

História de Maria: Poesia

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imagem: Carla Lund

por Marcella Marx

Maria tinha um problema. Ela não compreendia manuais, instruções, prescrições médicas, cabeçalho de enunciados, cartazes explicativos, informações específicas de qualquer espécie, fossem elas escritas ou pronunciadas em alto-falante. Maria se confundia, precisava reler infinitas vezes e, ao final, acabava sempre pedindo ajuda à alguém. Esse mal sofrido por Maria havia começado cedo, difícil dizer ao certo a idade, mas Maria se lembrava de sua mãe lhe perguntando sobre a lição de casa. Como ela não compreendia as instruções, ela acabava contando à mãe sobre as maravilhosas histórias que havia ouvido aquele dia na escola e como sentia vontade de desenhar e escrever sobre elas. Assim, ela estava sempre entretida, não pelo dever, mas pelo querer.

Maria detestava quando alguém descobria seu defeito e, mais ainda, quando começavam a tentar consertá-la.

– Maria, hoje vou te ensinar a ler manuais, disse uma amiga de sua mãe um dia.
– Vamos começar com este aqui – o da máquina de escrever.

Os pés de Maria começavam a sacolejar inquietos debaixo da mesa, e logo o chão de madeira começava a tremer, e com ele a mesa, e com ela as folhas do manual. A amiga de sua mãe encostava suas pernas nas de Maria, tentando bloquear o mexe-mexe. Logo suas próprias pernas se contaminavam pela mesma dança frenética e ela desistia. Maria estava livre para ir brincar.

– Vai melhorar com a idade, dizia a amiga ao se despedir.
– Deus te ouça, respondia a mãe.

Um dia, Maria foi para a escola e lá, pela primeira vez, foi apresentada à poesia. Leu um poema de Fernando Pessoa. Quando voltou para casa naquele dia, ela declamou o poema inteirinho para sua mãe. Maria não parou mais de ler e decorar poesias. Curtas e longas, simples e rebuscadas. Ela percebeu o que havia de errado com os manuais – lhes faltava poesia.

Cinema

Foxcatcher – Uma história que chocou o mundo (Foxcatcher, Bennett Miller, 2014)

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por Pedro Cunha

“Foxcatcher” foi uma das grandes confusões da temporada do Oscar. O filme recebeu cinco indicações, todas em categorias importantes: Melhor Ator (Steve Carell), Melhor Ator Coadjuvante (Mark Ruffalo), Melhor Roteiro Original (E. Max Frye e Dan Futterman), Melhor Maquiagem e Cabelo (Bill Corso e Dennis Liddiard) e Melhor Direção (Bennett Miller). Estranhamente o filme foi indicado nas categorias de atuação, roteiro e direção e não viu a indicação para Melhor Filme (ao contrário de “Selma” (Ava DuVernay, 2014), que foi indicado “apenas” a Melhor Filme e Melhor Canção com “Glory”). Tendo indicado apenas oito longas a Melhor Filme (quando as regras permitem a indicação de até 10), por que não indicar “Foxcatcher”? Fica sendo um daqueles mistérios da Academia, enfim.

“Foxcatcher” poderia alterar seu subtítulo para “Uma História que Chocou os EUA”, na verdade, já que fora da gringolândia acho que nenhum de nós tinha ouvido falar da história até o lançamento do filme. O filme narra o drama vivido por dois lutadores medalhistas olímpicos dos EUA, Mark Schultz (Channing Tatum) e David Schultz (Mark Ruffalo) e seu envolvimento com o multimilionário herdeiro da indústria química DuPont, John DuPont (Steve Carell), que resolve patrocinar os atletas buscando com isso superar uma série de traumas e recalques pessoais.

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Mark Schultz, o atormentado e inseguro lutador 

Channing Tatum tem aqui o melhor trabalho de sua carreira, que é cheia de caça-níqueis de bilheteria. No papel de Mark Schultz, o irmão mais novo, desde o início do filme ele nos deixa desconfortáveis com a sua inadequação social. O trabalho de Tatum consegue expressar emoções de um personagem que é silencioso e monossilábico a maior parte do tempo. Seu olhar e sua linguagem corporal, os ombros sempre arqueados numa eterna posição defensiva, nos passam a ideia de alguém que está profundamente desesperado, só não sabemos o porquê. O roteiro nos ajuda a entender os desconfortos de Mark nas suas primeiras cenas, onde ele, medalhista olímpico, dá uma palestra numa escola para crianças desinteressadas por 20 dólares e depois come um sanduíche sozinho no carro. A impressão sempre é que ele está prestes a explodir.

A vida de Mark muda quando o bilionário John DuPont procura por ele, disposto a patrociná-lo para a próxima Olimpíada. A construção de John DuPont por Steve Carell é maravilhosa. Quem diria que o ator de “O Virgem de 40 Anos” (The 40 Years Old Virgin, Judd Apatow, 2005) ou “A Volta do Todo Poderoso” (Evan Almighty, Tom Shadyac, 2007) poderia fazer um bom papel dramático? E não só ele fez como foi, com muita justiça, indicado ao Oscar por ele. Por baixo de uma maquiagem primorosa que o deixou quase irreconhecível Carell nos entrega um milionário manipulador e egoísta. Ele o faz tão bem que sentimos pena, muita pena de DuPont. Sua fragilidade física, seus gestos demorados, sua fala entrecortada por longas pausas nas quais parece que está tomando fôlego… tudo ajuda a construir um personagem frágil e com sérios problemas de insegurança, buscando eternamente a aprovação da rígida mãe (a veterana Vanessa Redgrave), que dá mais carinho e atenção aos seus cavalos do que ao seu filho. O personagem beira ao patético quando vence um torneio de luta patrocinado por ele mesmo, claramente comprado, ou quando tenta aparecer para a mãe posando como líder e mentor da equipe de lutadores que reuniu para treinar na sua fazenda. É tão débil que não há como não sentir pena dele, além de um desconforto sempre presente. Quando DuPont diz para Schultz para chama-lo de “Águia Dourada”, argumentando que seus amigos o chamavam assim, fica muito claro que na verdade ele gostaria que seus amigos o chamassem assim, se eventualmente ele tivesse amigos. No fim das contas John DuPont não passa de uma versão mais velha e com muito mais dinheiro do próprio Mark Schultz, alguém desesperado por aprovação e desencaixado do mundo. E não dá para ver Carell fazendo um bilionário fisicamente frágil com aquele narigão e não lembrar do Senhor Burns de “Os Simpsons”, para mim uma das inspirações do personagem. O desespero do personagem fica claro várias vezes, mas torna-se evidente na sua sequência final, onde ele busca libertação, como na cena em que ele liberta os cavalos que sua mãe criava.

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John DuPont, o atormentado e inseguro bilionário 

O respiro de humanidade em um filme meio sufocante nos é dado pelo David Schultz de Mark Ruffalo, muito bem escolhido para o papel. Ruffalo é um ator que exala bondade e o seu personagem faz o contraponto para Mark e DuPont. Ele é um medalhista olímpico respeitado por todos como professor e orientador e ainda tem uma família bem construída, com esposa e filhos que são claramente a prioridade dele. David Schultz parece ser o único personagem são do filme. Ele desempenha com naturalidade o papel de orientador de outros lutadores mesmo quando não o quer, fazendo com que haja uma crescente tensão entre ele e DuPont, que gostaria de desempenhar esse papel e não consegue.

O diretor Bennett Miller (“Capote”, “O Homem que Mudou o Jogo”) tem um papel importante em tornar coesas essas três atuações muito fortes, e foi muito feliz nisso. Seria fácil cada ator ir para um lado e o filme ser apenas uma colagem de boas atuações, mas “Foxcatcher” é composto justamente pela complementação e pelas intersecções de três sólidas (e diferentes) atuações. O ritmo ditado pelo diretor, bastante lento, ajuda a aumentar a crescente sensação de desconforto (quantas vezes eu escrevi essa palavra já?). Ele tem escolhas muito felizes nesse sentido como, por exemplo, fazer todas as cenas de treino de luta sem trilha sonora, só com os ruídos do próprio treino, o que nos dá uma sensação maior de proximidade mas também serve para fazer crescer a tensão. A fotografia em geral usa tons frios, com exceção de quando aparece a família de David. A fazenda Foxcatcher, sem sombra de dúvida um dos personagens do filme, consegue ser gigantesca e claustrofóbica ao mesmo tempo, encantadora sem se tornar nunca acolhedora.

“Foxcatcher” tem sido tratado por muitos como mais um “retrato” dos EUA e das suas idiossincrasias. Eu não sei se podemos afirmar isso categoricamente, mas Miller nos conta uma história triste e chocante que vai nos envolvendo aos poucos até o seu desfecho. “Foxcathcer” é um daqueles filmes que nos pede algum tempo para nos recuperarmos depois, daqueles que terminam no cinema e que ninguém levanta (e nem diz nada) durante os créditos. Enfim, mais um bom filme que passou bem discretamente pelos cinemas brasileiros, espremido entre animações dubladas e Cinquenta tons de qualquer coisa.

Literatura

A praia

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imagem: Cassiano Rodka

por Isabel Dall’Agnol

Eis que nos quedamos
em retratos.
Escritos.
Regalos.
Lembranças.

Quisera contar,
em pensamento,
o silêncio dos meus lábios.

E acreditarias, se eu dissesse,
que sigo buscando teus olhos
pela noite?

E que tua ausência,
presente, alimenta
cada face do meu ser?

Não há espaço
que não transborde.
Não há tempo
que não esgote.
Não há sonho
que não acorde.

Tua parte que
sobrevive em mim,
é a mesma que
vive em ti.

Minha parte
desagarrada,
é a mesma que
te agarra.

Habito tua essência,
que mora em mim.

Habitas minha quimera,
que pertence a ti.

Minha companheira
desacompanhada,
o que te prende
me solta.

Eterna temporada.
Jamais namorada.

Talvez, algum dia,
quando este velho
adormecer,
desperte ao teu lado…

Onde o rio beija a praia.
O verde toca a nossa pele.
O sorriso enche a tua boca.
O brilho exibe a minha mania.
E o nosso universo perpetua em paz.

Literatura

Clube de cinema

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imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

Outro dia lembrei-me de uma coisa interessante: na minha infância, meu pai frequentava um clube de cinema em Porto Alegre. Eu achava aquilo o máximo. E também super misterioso. Eu imaginava algo como uma sociedade secreta, onde os caras sentavam em roda pra discutir coisas misteriosas sobre filmes. Logo descobri que era mais ou menos isso mesmo.

Cresci adorando cinema. Com meu pai, vi muitos filmes. Lembro de assistir Casablanca em VHS com ele (em uma época em que ninguém tinha ainda videocassete), sem legendas, imagem péssima, em uma época em que um sujeito tinha quase que matar para conseguir ver um filme em casa, que não fosse transmitido na televisão. Juntos, assistimos desde hollywodianos antigos e clássicos, passando por vários “woodianos” e culminando em obras-primas como as de Wim Wenders e Carlos Saura.

Segui vendo filmes. Sozinha, ou com meu marido, ou com meus filhos. Na faculdade de Letras, me encontrei: ali, era lição de casa assistir cinema! Eu quase enlouqueci. Uma das minhas professoras preferidas nos apresentou ao que havia de melhor no cinema independente e no cinema europeu. Ali, pude pela primeira vez sentir o gostinho de um verdadeiro “clube de cinema”…! Que prazer. Li até alguns roteiros de filmes, em inglês. Aprendi que cinema e literatura são primos-irmãos. Líamos contos e poemas, e traçávamos paralelos entre os textos cinematográficos e os textos literários. Quantos mistérios escondidos nas cenas de filmes, nas falas e atitudes dos personagens… Quantas interpretações diferentes sobre os enredos, as tramas, os protagonistas complexos e seus dramas psicológicos. Passávamos semanas esmiuçando os segredos daquelas fantásticas narrativas.

No cinema e na literatura, assim como na vida, passamos um tempo enorme tentando desvendar segredos e mistérios. Nossos, e dos outros. Só viver, sem participar ativamente do processo, não tem a menor graça. É monótono. Não nos move. O que nos move é o constante desejo de reinvenção, nem que isso seja um sonho remoto. A cada filme que assisto, e a cada poema, conto ou romance que leio, tenho a nítida sensação de que, a partir das reflexões que faço sobre eles, posso revolucionar minha vida: posso encontrar em mim algum pedacinho de meu ser muito valioso, porém esquecido, adormecido, inabitado, que pode surgir (ou ressurgir) pelas mãos mágicas de uma obra de arte. E é exatamente nestes momentos, caro leitor, que aconteço.

—–

*Assisti recentemente quatro filmes que mexeram comigo, de maneiras diversas, mas ao mesmo tempo muito semelhantes. Neste início de ano, no qual estou muito reflexiva, quero dividir com os caros leitores os títulos dessas películas excepcionais: El secreto en sus ojos, Birdman, Boyhood e Whiplash. O primeiro é de 2009 e ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro naquele ano, e os três últimos são de 2014, e foram indicados e ganharam o Oscar 2015 em diversas categorias. Valem muito a pena. Trazem essenciais reflexões sobre a vida e os relacionamentos humanos.

Cinema

Oscar 2015 – A Cerimônia

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por Pedro Cunha

A cerimônia anual da entrega do Oscar começou com muitas expectativas. Pelo lado das premiações fazia MUITO tempo que não havia tanta disputa e indefinição nas principais categorias: Filme, Diretor, Ator, Roteiro(s), Fotografia, Montagem e Edição claramente não tinham um favorito, o que tornou a noite muito mais saborosa. Por outro lado, poucas vezes se esperou tanto uma cerimônia. Por quê? Dois motivos. O primeiro deles foi a enxurrada de críticas que se seguiu às indicações. Desde janeiro a Academia foi criticada pela falta de diversidade nas indicações, ou por promover o que foi chamado de “A Festa do Homem Branco”. Entre os oito filmes indicados a Melhor Filme, oito contam a história de um homem (sete deles brancos). Os cinco indicados a Melhor Diretor foram homens brancos. Os cinco indicados a Melhor Ator foram brancos. Os QUINZE indicados a Melhor Roteiro (Original e Adaptado) foram homens brancos. E não é que não houvesse indicações possíveis. Muita gente não entendeu “Garota Exemplar” (Gone Girl, David Fincher, 2014) fora das principais indicações, o filme protagonizado por uma mulher. Ou as ausências de Ava DuVernay na categoria Melhor Diretor e David Oyelowo na de Melhor Ator, ambos sensacionais em “Selma” (idem, Ava DuVernay, 2014), indicado em Melhor Filme e esnobado em quase todas as outras categorias, recebendo apenas uma indicação para Melhor Canção com “Glory”. Esperava-se, então, a reação da Academia a essas críticas.

O segundo motivo de expectativa era a apresentação. Isso em função da performance SENSACIONAL de Elle DeGeneres no Oscar 2014. O pedido de pizza, os comentários no Twitter durante a cerimônia e a seminal “selfie” das estrelas vão ser lembradas por muito tempo. O encarregado da missão foi um dos atores mais queridos dos EUA, Neil Patrick Harris, o eterno Barney Stinson do seriado “How I Met Your Mother”. NPH começou a noite deixando bem claro que as críticas à falta de diversidade tinham sim sido escutadas pela Academia, já que sua primeira piada foi exatamente sobre isso. Em seguida emendou um número musical (que é mais ou menos o que se espera dele, já que ele ADORA fazer isso) saudando a história do cinema e as tradições de Hollywood, bem ao estilo clássico como a Academia adora, em dueto com Anna Kendrick e misturando-se a clássicos que foram desde “Cantando na Chuva” até “Guerra nas Estrelas”. A melhor parte do número, no entanto, foi a participação de Jack Black, que “intrometeu-se” e disparou uma série de críticas à Hollywood de hoje, falando das franquias intermináveis, da falta de ideia, da avalanche de filmes de super-heróis e adaptações de games, livros e da preocupação constante dos executivos das empresas com estreias com bilheterias “cheias de zeros”. O recado da Academia foi claro: nós ouvimos as críticas de vocês.

Infelizmente, daí para a frente, NPH foi murchando. Digo infelizmente porque eu, como a grande maioria, gosto muito dele e realmente torci para que fizesse um ótimo trabalho. Mas não deu. Não deu mesmo. Ele foi encolhendo durante a cerimônia e não houve ninguém que não suspirasse pensando na Ellen. O único momento em que ele conseguiu arrancar risadas legítimas do público foi quando apareceu de cueca no palco emulando uma das melhores cenas de “Birdman” e misturando o filme com “Whiplash”. Mas nem isso salvou a noite dele, que vai ser lembrada, isso sim, pela inapropriada piada sobre o vestido de Dana Perry, produtora de “Crisis Hotline: Veterans Press 1”, vencedora na categoria de Melhor Curta – Documentário”. Perry, uma mulher produtora de um filme dirigido por uma mulher, algo raríssimo em uma indústria extremamente machista, fez um discurso emocionante mencionando o suicídio do próprio filho. E foi cortada por Harris para que ele fizesse uma piada sobre o vestido dela. Não pegou bem. Mesmo.

A Academia entendeu as críticas, isso ficou claro. Se a diversidade não esteve presente nas indicações houve um cuidado muito grande para que estivesse presente no palco. Os apresentadores dos prêmios foram escolhidos entre o que Hollywood tem de mais diverso e os discursos dos vitoriosos foram, de forma geral, bem acima da média do lugar-comum nesse tipo de premiação. Começando com o veterano JK Simmons, que fez um  discurso lindo para a sua própria família (esposa e filhos) e terminou com um apelo comovente a todos: “liguem para os seus pais. Não mandem mensagens, não escrevam e-mails, liguem. Falem com eles e escutem eles falarem com vocês pelo tempo que eles quiserem”. Lindo.

Na medida em que a noite avançava, o tom dos discursos foi ficando cada vez mais político e a orquestra, que tradicionalmente corta os discursos, foi ficando comedida e permitindo que os vencedores da noite discursassem. Graham Moore, o (improvável) vencedor de Melhor Roteiro Adaptado por “O Jogo da Imitação”, filme que tem problemas de… roteiro (!!), fez com que toda a indignação por sua vitória terminasse com o seu discurso, onde pede aceitação ao diferente. Moore ficou conhecido em Hollywood por ter batido de porta em porta durante muito tempo com a história de Alan Turing, seu projeto pessoal, que foi renegado várias vezes por diversos estúdios com a desculpa de que “não era uma história interessante”.

Se “Selma” foi esnobado, o cast do filme conseguiu fazer com que o filme saísse da premiação grande, muito maior do que entrou. A catarse que foi a apesentação de “Glory” por John Legend e Common seguida por seu discurso arrasador trouxeram a tona a luta contra o racismo nos EUA, que como nos mostrou Ferguson recentemente, está longe de acabar. “Selma é agora”, disseram os músicos, lembrando que em 2015 há mais negros encarcerados nos EUA do que havia escravizados em 1850.

 

Uma das poucas categorias com favorita na noite era Melhor Atriz Coadjuvante. Dificilmente o prêmio não ficaria nas mãos de Patricia Arquette, mesmo que ela tivesse concorrentes do calibre de Meryl Streep, por exemplo. O prêmio de Arquette foi a única premiação de “Boyhood”, que ao contrário de “Selma” sai do Oscar um pouco menor do que entrou. Arquette repetiu o que já tinha feito no Golden Globe e fez um discurso lindo sobre feminismo e desigualdade em Hollywood. Os aplausos em pé no teatro foram puxados por uma das “derrotadas” na categoria, Meryl Streep, visivelmente emocionada com o lindo discurso de Arquette.

 

Se Graham Moore falou sobre homossexualidade, John Legend e Common sobre o movimento negro e Patricia Arquette sobre o feminismo, faltava pouco para todas as minorias dos EUA terem o seu momento. Deixou de faltar quando Alejandro Gonzáles Iñárritu, o grande vencedor da noite, usou seu momento mais nobre, o de vencedor na categoria Melhor Filme, para falar dos imigrantes nos EUA, em especial dos latinos e destilando uma certa ironia.

 

Falando sobre Iñárritu e seu “Birdman”, eles foram inquestionavelmente os grandes vencedores da noite. Imaginava-se que “Birdman” e “Boyhood” dividiriam os grandes prêmios da noite, mas o simpático Richard Linklater voltou para casa de mãos abanando. “Birdman” não só levou Melhor Filme, mas fez o combo com Melhor Diretor, Melhor Roteiro Original e Melhor Fotografia, o que não acontecia há MUITO tempo (“Beleza Americana” (American Beauty, Sam Mendes, 1999) fez o mesmo combo em 2000). O excelente filme de Iñárritu mostra, mais uma vez, o quanto a Academia gosta de se autorreferenciar, premiando filmes que falam sobre o cinema, o teatro e o entretenimento em si. A ironia foi a não premiação de Michael Keaton, a alma do filme, como Melhor Ator. A categoria tinha excelentes indicações e o vencedor, Eddie Redmayne, fez em “A Teoria de Tudo” (The Theory of Everything, James Marsh, 2014) um tipo de papel que a Academia ADORA, aquele que exige muito fisicamente do ator. Redmayne ainda venceu o prêmio mais sério da temporada, o SAG Awards, mas Keaton havia ganhado o Golden Globe e havia uma expectativa muito grande pela sua vitória pelo “comeback” que o filme representou na sua carreira. Parece que a Academia julga que, nesses casos, uma indicação já é prêmio suficiente, como descobriram Mickey Rourke em 2009 (Estava sensacional em “O Lutador” (The Wrestler, Darren Aronofsky, 2008) e Bill Murray em 2003 (o que dizer sobre “Encontros e Desencontros” (Lost in Translation, Sofia Coppola, 2002)?). Uma das cenas mais tristes da noite foi flagrada: Keaton aplaude a vitória de Redmayne enquanto discretamente guarda seu discurso no bolso do paletó.

 

O vencedor improvável da noite foi “Grande Hotel Tennenbauns”, quer dizer, “Grande Hotel Budapeste” (The Grand Hotel Budapest, Wes Anderson, 2014). O filme tornou-se quase que um cult movie instantâneo, adorado por todo mundo mas tido como muito autoral e por demais “wesandersoniano”, o que quer que isso queria dizer. Os prêmios de Melhor Maquiagem e Cabelo, Melhor Figurino, Melhor Direção de Arte e Melhor Trilha Sonora foram justíssimos para o filme esteticamente mais caprichado da temporada. Ninguém apostava em “Grande Hotel Budapeste” entre os grandes vencedores, mas ele junta-se ao seleto clube de filmes com quatro Oscars na prateleira. Não é pouca coisa.

 

Triste mesmo foi o que aconteceu com “Boyhood”. O filme de Linklater chegou com seis indicações e premiações importantes no Golden Globe, em Berlim e outros festivais. Um filme lindo, sensível e emocionante feito por um diretor muito querido por seus pares. Uma produção ousada e diferente, feita durante doze anos. O trabalho não de uma, mas de várias vidas. E seu único prêmio foi o (merecido) de Melhor Atriz Coadjuvante para Patricia Arquette. “Boyhood” junta-se a outros filmes como “Avatar”, “O Segredo de Brokeback Mountain” e “2001: Uma Odisseia no Espaço”, que foram esnobados pelo Oscar mas acabaram imortalizando-se como marcos da história do cinema. Mas enfim, o que seria da noite do Oscar se não houvesse injustiças? Elas também fazem parte da história da Academia e não poderiam ter faltado nessa noite. Agora é recarregar as baterias e nos preparar para o Oscar 2016, sempre igual, sempre diferente.

Cinema

Guest Post: O Tapete Vermelho do Oscar

por Brunna Stock

Oi! Meu nome é Brunna e fui convidada pelo Pedro Cunha para falar sobre os looks do Oscar 2015. Bom, é preciso um pouco de contexto: sempre tive interesse sobre moda e design, então falar dos vestidos e ternos da Cerimônia é fácil. Vamos combinar que falar sobre futilidades é bem simples, ainda mais quando é pra criticar gente que tem montes de dinheiro e estilistas renomados ao seu dispor. Pois bem, apesar de eu curtir, sim, moda, me gusta também ir um pouquinho além, o que vem ao encontro de algo lindo que aconteceu no Oscar 2015: a campanha #AskHerMore. Esta campanha, encabeçada pelo The Representation Project, e que teve como representante principal a atriz Reese Whiterspoon (indicada na categoria Melhor Atriz esse ano por Livre), tinha como objetivo evidenciar o sexismo presente no tapete vermelho. Eu entendo que o nome do estilista tem que ser falado, pois eles patrocinam os artistas e tudo mais. Mas a discrepância está em 99,99% das entrevistas onde as mulheres são questionadas apenas sobre o seu vestido, maquiagem, joias, cabelos e afins, com direito a tapete vermelho para as unhas (oi?) nas cerimônias do Grammy e do SAG (Screen Actors Guild Awards). Enquanto isso, as perguntas para os homens são, sim, sobre os ternos, mas vão além, passando pela sua carreira, trabalho, planos futuros e, obviamente, suas acompanhantes (que são questionadas sobre vestido e blábláblá).

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Imagem da campanha #AskHerMore: “Não pergunte apenas sobre o vestido. Pergunte sobre a mulher usando-o.”

“Ai, Brunna, não nóia. Nem é assim!” Então senta que lá vem história: Jennifer Lawrence, na sua entrevista após vencer o Oscar de Melhor Atriz em 2013, teve uma decente pergunta sobre a doença de sua personagem no filme O lado bom da vida, e a cara dela com os questionamentos sobre seu vestido e queda ao receber o prêmio são hilárias!

No SAG de 2014, Cate Blanchett, que era indicada e recebeu o prêmio de Melhor Atriz por Blue Jasmine, já havia interrompido lindamente um cinegrafista que a filmava da cabeça aos pés ao dizer “Você faz isso com homens?”.

Jennifer Garner, em entrevista em outubro do mesmo ano, afirmou que absolutamente todas as pessoas que a entrevistam perguntam como ela concilia família e trabalho, enquanto que ninguém pergunta o mesmo ao seu marido, o ator e diretor Ben Affleck.  Garner questionou “Será que não é hora de mudar essa conversa?”. Sim, prfv!

Voltando a 2015, quando questionada sobre a campanha, Whiterspoon afirmou que “nós (mulheres) somos mais do que apenas um vestido. Estamos muito felizes de estarmos aqui e falar sobre o trabalho que estamos fazendo. É difícil ser uma mulher em Hollywood ou em qualquer indústria.”. A grande questão é que, no caso de Whiterspoon, os jornalistas se prenderam a perguntas sobre o vestido, sobre a campanha e… se acabou! Muitos deixaram de lado perguntas sobre sua carreira, que já tem um Oscar pelo filme Johnny and June (lindo!), e sua atuação em Livre, que estou louca pra ver! Como sempre tem alguém pra fazer um comentário desnecessário, como a jornalista Alexa Chung, que disse: “Eu quero saber mais, mas na verdade eu quero saber apenas o que você está vestindo.” Ou outros preocupadíssimos com as rugas da atriz  e com o que será do Red Carpet com essa história de #AskHerMore (Link da entrevista, mas não perca seu tempo lendo esse lixo: http://www.laineygossip.com/Reese-Witherspoon-at-the-2015-Oscars/37711).

Assim, meu propósito não é (apenas) fazer um olhar crítico quanto os looks no Oscar 2015, mas eleger as musas e os musos levando muito mais em consideração. Começo, então, com a própria Reese Whiterspoon, que, além de estar estonteante nesse visto chiquérrimo, com essa maquiagem linda (que acho que pedia um batom vermelho, mas who cares?!) e com esse cabelo simples e solto Anti-protocolo-do-cabelo-preso, merece o segundo lugar como musa do Oscar 2015 pela sua fala e representatividade. Mandou bem, amiga!

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Reese Whiterspoon arrasando no look e na representatividade.

Poxa, se ela ganhou o segundo lugar com toda essa campanha, quem ficou com o primeiro? Ora, a atriz que botou a boca no trombone: Patricia Arquette! Ela já havia afirmado, em entrevista ao The Telegraph, a dificuldade de sair de personagens com foco em seu corpo e sensualidade para outras mais intensas e complicadas, como a mãe que representa em Boyhood (vejam!!). No Oscar de 2015, além de estar divina em um Black and White incrível (detalhe para o tecido branco caído no ombro, ai que diva!), a vencedora do prêmio de Atriz Coadjuvante aproveitou o seu discurso para dizer que “está na hora de uma vez por todas de termos igualdade salarial e de direitos para as mulheres dos Estados Unidos da América”. Como não amar? ❤

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Diva botando a boca no trombone. Me adota!

Quem aplaudiu entusiasticamente garantindo o terceiro lugar na minha lista de musas foi a Meryl Streep. Além disso, a eterna indicada a prêmios estava o auge da elegância com esse terninho sobre o vestido, que foi pra fechar a boca de quem diz que mulher tem que usar vestido de gala e se encaixar em moldes de feminilidade.

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Meryl Streep: respeita as mina.

Tentei, mas não consegui deixar de fora a musa Lady Gaga, com um vestido Oh!, um cabelo Heim? e luvas WhatTheHell?, levando o troféu Sou-diva-e-venho-com-o-que-quiser-nem-tô.

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Ostentação até com luva de cozinha.

Mas o que me fez ficar de queixo caído foi a sua interpretação no tributo ao clássico A Noviça Rebelde, onde ela usou um vestido Uau!!!.

Bom, e o muso? Visto que os homens quase sempre vão de smoking, sempre há vários iguais ou, no mínimo, parecidos. Adorei a moda do terno azul, como o usado pelo vencedor na categoria Melhor Ator, Eddie Redmayne, e das camisas com botões pretos, como a de Peeta, quer dizer, Josh Hutcherson.

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Redmayne e Hutcherson: “so, tell me about your look.”

Então, o escolhido como muso da noite é o Graham Moore. Quem?? Pois é, esse carinha que ganhou o prêmio de Melhor Roteiro Adaptado pelo O jogo da Imitação (adorei!) estava com o terno azul & a camisa com botões pretos, chique e estiloso, mas é claro que não foi por isso. O que me pegou de jeito por essa gracinha foi o discurso corajoso, chocante e surpreendente: “Quando eu tinha 16 anos, tentei me matar porque me sentia estranho e diferente, como se simplesmente não pertencesse a lugar nenhum. Queria dedicar esse momento àqueles que sentem que não se encaixam em lugar nenhum. Vocês se encaixam, eu prometo. Continuem estranhos, continuem diferentes. Quando for a sua vez e você estiver neste palco, por favor, passe a mesma mensagem para os próximos que virão.”. Ahazo.

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Graham Moore, vem prak.

Falando em discursos, o meu segundo lugar tem empate com John Legend e Common. Common chegou com um terno bizarro em veludo molhado, mas se redimiu no quesito vestimenta durante sua apresentação com Legend, ambos usando um terno preto super clean com gravata.

87th Annual Academy Awards - Show

Common e Legend com seus Oscar e ternos… nhé.

Tá, esse terno não era nada demais. O motivo do segundo lugar é que os caras ganharam o Oscar de Melhor Canção Original por Selma (chorei chorei chorei) com a música Glory e aproveitaram para falar em seus discursos sobre a luta por liberdade e justiça que ainda é tão real.  Legend lembrou que “existem mais homens negros no sistema prisional hoje do que escravizados em 1850.”. Phoda. Glory é tão incrivelmente linda que eu vou colocar o link de novo, mesmo que o Pedro já tenha colocado o clip em outro post hihi. Observem a galera chorando aloka, inclusive David Oyelowo, protagonista do filme e injustamente esquecido na categoria Melhor Ator, com seu terno vermelho What??!!. Agora, só eu que fiquei com a impressão no final do vídeo que estavam catando todos os negros possíveis para filmar? Não são muitos, né, Hollywood? Hunf.

Fechando a lista, o terceiro lugar vai para Alejandro Iñárritu, que ganhou o Oscar de direção por Birdman (o longa também ganhou melhor filme e é ótimo, recomendo). O terceiro lugar não é por seu básico smoking preto e camisa branca, mas sim por trazer a questão eternamente latente dos imigrantes mexicanos nos Estados Unidos com a fala: “eu rezo pra que eles sejam tratados com a mesma dignidade e respeito que aqueles que vieram antes e construíram esta incrível nação imigrante”.

Há quem chame essa edição do Oscar de “Oscar do descontentamento” em função de todos os discursos sobre minorias, ou que diga que as atrizes “se rebelaram” contra o machismo na premiação (Ah, meu deus! Insurreição contra o patriarcado não!!).  Só tenho a dizer que adorei a premiação desse ano, porque ela foi marcada por manifestações que vão muito além de apenas imagem e que dão significado ao cinema. Torço pra que essa característica fique cada vez mais forte e que a luta por igualdade e respeito seja um objetivo do cinema e não apenas um meio para encher os bolsos de Hollywood.