E, se minha alma
viajar…
Que seja pelas pedras de fogo.
Ou pela montanha cor de rosa.
Ou pelo verde tão sedento.
Ou pelo vale assombroso.
Ou pelo vento extremoso.
Ou pelas ruínas tão vividas.
Ou pela árvore enfeitiçada.
Ou pela sacada estrelada.
Ou pelas escaleiras fatigadas.
Ou pelas memórias espelhadas.
Ou pela arte das paredes.
Ou pelas beiras caladas.
Ou pelas águas de arco-íris.
Ou pelas asas amarelas.
Ou pelo perfume do encanto.
Que se perca,
eterna,
na minha partida.
Em cada pedaço, que,
até então,
costurou minha pele.
“…
é preciso estar sempre bêbado
é preciso ler Baudelaire
é preciso colher as flores
de que rezam velhos autores.”
(Carlos Drummond de Andrade, “Poema da necessidade”)
Pequenas coisas podem se tornar essenciais.
Não é exatamente o tamanho, mas o significado, a intensidade.
Onde se afogam as estrelas,
guardam-se os momentos mais inteiros.
O ocaso da primavera engoliu-te,
como o universo comprime o homem.
De tantos retalhos, apenas um colorido imaginário.
Devolve-lhe tudo:
desde a alma, até a escuridão.
Recolhe os cacos, minúsculos retratos,
espelhos sem reflexos.
Esses dias me perguntaram como eu faço para escrever. Me pus a pensar sobre o meu processo e percebi que, de fato, eu tenho um modus operandi. Eu sento e escrevo.
Estando cheio de ideias ou sem inspiração alguma, eu sempre faço o mesmo. Com uma caneta na mão ou os dedinhos no laptop, a metodologia não se altera. Eu sento e escrevo.
Cheguei a uma óbvia conclusão: o importante mesmo é o sentar. De pé, eu não escreveria. Sentado é perfeito. Deitado ainda vá, mas é meio complicado – vira para cá, vira para lá. Melhor sentar. E escrever.
A partir daí, comecei a focar minha atenção no que realmente interessa. Passei a investir em cadeiras. Tenho atualmente 17 cadeiras diferentes no meu apartamento. Cada dia escolho uma delas e levo para o escritório, onde eu sento e escrevo.
Isso sem falar nos móveis sentáveis que não foram realmente construídos para isso. Tem um balcão na minha sala que é ideal para aplicar essa técnica. Não é preciso arrastá-lo para o escritório, o local não faz diferença alguma. O negócio é sentar e escrever.
O método sempre me pareceu infalível. Mas, hoje, algo estranho aconteceu. Sentei na minha mais recente aquisição e… Nada. Esperei alguns minutos, tentei forçar as ideias a saírem… Nadica de nada. Sentei e não escrevi.
Não tive a menor dúvida, levantei e saí porta afora com a cadeira na mão. Na loja, botei a boca na vendedora. “Onde já se viu vender uma cadeira com defeito para um escritor?” Ela me olhou assustada, tentou se fazer de louca, disse que não entendia patavinas do que eu estava falando, mas para cima de mim, não. Só um pouquinho, né? “Senta aí e tenta escrever alguma coisa!” Ela nem sentou, nem escreveu.
Ânimos acalmados, fui convidado a me retirar do local por dois seguranças nada simpáticos. O gerente, com cara de abostado, nem se coçou e ainda ficou parado me olhando como se o louco fosse eu. Não trocaram o produto defeituoso, nem devolveram o meu dinheiro. Nunca mais volto lá! E vou reclamar no Facebook! Frustrado, sentei na beirada da calçada e – adivinha! – escrevi.
Boa tarde, leitores, meu nome é Clarice, e sou daquelas pessoas muito desastradas. Pronto, confessei!
Desde bem pequena, ouço de todos ao meu redor o quão descoordenada sou. Derrubo coisas, tropeço, deixo cair comida nas roupas, me bato em móveis; enfim, habita em mim um diabinho que faz com que meu corpo não se movimente de acordo com o esperado pela sociedade, ou seja, não causar a toda hora pequenos acidentes…
Dizem que herdei esta “desabilidade motora” de meu avô paterno, descendente de italianos, que falava alto, gesticulava muito, e, bem, era um tremendo desastrado. Hoje, não acho nada justo jogar esta culpa hereditária nele. Coitado! Passava o tempo todo dizendo para a minha avó, “por que sou assim, Margot, por quê…?!”.
Pois ouvi dizer que agora fazem seguros para eventuais quedas de celulares. Sim, leitor, basicamente, como os celulares hoje em dia são mega frágeis e se transformaram praticamente em uma extensão de nosso corpo, estão, por certo, mais sujeitos a acidentes, uma vez que é difícil nos separamos deles ao longo do dia. Conosco vão ao banheiro, à cozinha, à reunião de trabalho, ao carro, ao ônibus, ao jantar com amigos, ao show de música, à sala de aula, à festa em família, e por aí afora! Já ouvi falar de muita gente que espatifou a tela, de outro fulano que deixou-o cair no vaso sanitário, e ainda da moça que derrubou seu aparelho dentro da bacia de água da pedicure.
Quando ouço estas histórias, me tranquilizo (só um pouquinho), pensando que não estou sozinha neste mundo: há outras criaturas que sofrem de desastrice aguda, ufa… Não pude deixar de pensar, após saber da existência dos seguros contra quedas de celulares, que deveria haver um “seguro geral para pessoas descoordenadas”: criaturas como eu, que receberam da mãe natureza aquela incapacidade de se movimentar sem causar acidentes. Dia desses derrubei uma xícara de café quente inteirinha no teclado que se acopla ao meu iPad. Resultado: teclas “shift”, “z” e “function” derretidas e danificadas…! Imaginem se eu tivesse o tal seguro geral contra descoordenação? Era só ligar, acioná-lo, e uma meia hora depois apareceria um carinha de moto com um teclado novinho pra mim! Ah, que beleza seria…! Mancha de ameixa na blusa? Sem problemas, blusa nova! Copo quebrado? Um novinho em folha em poucos minutos! Salto do sapato com um furo no couro porque ficou preso na canaleta do elevador? Chateação instantaneamente resolvida…! Infelizmente, isso não passa de mais uma das ideias doidas que surgem da cabeça insana desta que ora vos escreve…! Mas, por favor, se alguém conseguir torná-la real, me avise com urgência: e não se esqueça de me pagar os royalties…
Maria nasceu privilegiada. Bastava abrir a porta de casa e gritar: “Mãe, tô indo brincar na rua”. “Tá bom, respondia a mãe. E lá ia ela jogar queimada, brincar de esconde-esconde, andar de bicicleta, escrever em seu diário embaixo de uma árvore. A fome, era seu sinal biológico dizendo que era hora de voltar pra casa.
Uma vez, a professora levou para a classe de Maria uma gaiola com um hamster. “Ele vai assistir nossas aulas e ver como vocês aprendem muito por aqui.” Ao final de cada dia, a professora sorteava um aluno para levar o hamster para passear e dormir na sua casa. Maria foi sorteada. Chegou em casa toda sorridente com a gaiola. Alimentou o hamster com o que tinha de melhor na geladeira. Folha de alface, cenoura, rabanete. Até que não aguentou e, contrariando a recomendação da professora, deu ao bichinho um pedaço de queijo. Afinal, ele pertencia à família dos roedores, internacionalmente reconhecidos como comedores de queijo. Depois de comer, o animalzinho voltou para sua roda e começou a correr e girar.
Maria fazia sua lição de casa enquanto observava o hamster girando e correndo, correndo e girando. “Que vida mais chata, coitadinho”, pensou ela. Foi quando teve uma ideia. Largou o lápis e abriu a gaiola. Pegou o bichinho nas mãos com cuidado e disse: “Hoje você vai dar um passeio.” Ela o levou para o quintal da frente de casa e o colocou no chão sobre a grama. “Agora você vai ser feliz.” Maria soltou o pequeno sobre a grama verde escura do jardim. Alguns segundos foram suficientes para que o animalzinho cavasse um buraco. Maria só teve tempo de tentar puxá-lo pelo rabo. Tarde demais, o hamster tinha desaparecido. “Paciência, pelo menos agora você vai correr e chegar a algum lugar.”
Ao ano de 2014, que entre o céu e o fosso, fez com que tudo valesse.
Brilhou-me feito o sol,
num espaço de dois segundos.
Amanheci esperança e
me pus a distância.
Girei em paz, pela beira
e o mar.
Até que as flores
partiram…
Escondi-me entre o
marrom e o laranja.
Chorei espinhos e
vesti amargura.
Sequei em solidão.
Até que cristais de
gelo me beijaram…
Flutuei em segredo.
Dancei entre cores
e sabores.
Libertei-me, na ausência,
entre o tempo
e o vento.
Agasalhei o frio
no peito.
Até desabrochar em um
olhar …
Contemplo na chuva.
Floreio sonhos e
visito o devaneio.
Exibo o fruto
dos doze meses.
Espero a nova lua.
Até recolher promessas
para a nova estada…