Clarice Dall’Agnol

Literatura

Entardecer

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imagem: Isabel Dall’Agnol

Folhas aos pedaços.
Pedras acomodadas,
na esquina.
Vento forte.
Céu brando,
de nuvens em chamas.
É o silêncio,
rompendo o instante.
O dia se despede
em cor de laranja.
Desperta o fogo.
Bate no rosto.
Aperta os olhos,
até o sossego.
Queda-te inerte.
Estaciona
o pensamento.
Entende a alma.
Acalma o corpo.
Aproveita o tempo.
E se some.
Num segundo,
distante.
Espera.
Reflete,
na sua companhia.
Outra vez.
Toda vez.
Como num
beijo de sonhos.
No aguardo.
Esperança,
vestida de fantasia.
Impulso.
À vida.
Para, vida.
Respira agora.
E te refaz em hora.
No escuro.
Até que o relógio
te ilumine.

Literatura

Águas de Marx

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imagem: Cassiano Rodka

Mais um para a Marcella Marx, que me desafiou a escrever um poema sobre um verso de Mia Couto. Ei-lo, amada amiga: não sei, porém, se faz jus à tua prosa.
(“Porque o amor é esquivadiço. A gente lhe monta casa, ele nasce no quintal.”
Mia Couto)

Escondidinho na gaveta,
mora o teu amor.
Sabes trancar-lhe bem,
porque temes que,
se um dia escapar-te,
vai te virar do avesso,
vai te levar à lua,
vai te pôr em êxtase,
vai te mostrar um lado
que te recusas a ver:
o lado que te falta.

Literatura

O segundo capítulo

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imagem: Cassiano Rodka

Encontrei um livro atirado no meio do caminho. A capa era linda, o suficiente para eu me abaixar e pegar o exemplar. Comecei a ler e, logo no primeiro capítulo, fiquei fascinado com a história. O enredo era envolvente, os personagens prometiam um grande desenvolvimento psicológico, a interação entre eles era ótima, e a trama parecia ser diferente de tudo que eu já havia visto…

Mas aí a surpresa!… Não havia segundo capítulo!… As páginas estavam em branco. Sem uma palavra. Ah, a frustração!… Eu já havia me envolvido tanto, precisava saber para onde aquela história iria. Não contente com a falta de continuidade, decidi que era preciso tomar as rédeas daquela situação. Sentei na calçada e me pus a escrever. No início, parecia um pouco conturbado e eu não tinha certeza se eu daria conta de manter o nível do primeiro capítulo. Mas, aos poucos, a história foi tomando impulso. Os personagens eram excelentes e me ajudaram um bocado. Logo, logo estavam a tomar suas próprias decisões, eu só precisava empurrá-los de leve com a ponta da minha caneta. O enredo se costurava tão naturalmente que era como se ele estivesse me controlando e não o contrário. Cheguei a pensar que nada que eu havia feito anteriormente poderia chegar perto de superar aquela história.

Depois de algumas boas páginas escritas, uma segunda surpresa!… Havia um terceiro capítulo! Depois de páginas e mais páginas de folhas brancas? Uma provável má impressão do livro. Talvez fosse esse o motivo de o terem abandonado no caminho. Sentei no meio-fio novamente e me pus a ler. Curiosamente, o capítulo começava com uma certa continuidade daquilo que eu havia escrito. Me deu uma estranha, mas boa sensação. Parecia que a história ia, de fato, tomar a direção que eu estava prevendo. Mas alguns personagens começaram a tomar atitudes que eu não esperava… A história se desdobrou por curvas inusitadas e eu não tinha mais o poder de contorná-la com a minha caneta para pô-la de novo no caminho que eu pretendia. Começou a ficar impossível de seguir aquela leitura… Uma tristeza se apoderou de mim e atirei o livro no chão. Segui em frente sem olhar para trás. Triste em saber que alguém, algum dia, o encontraria…

Música

Guns N’ Roses em POA: a banda do Slash toca na capital gaúcha

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O Guns N’ Roses foi a primeira banda que eu gostei que era minha. Minha mesmo, não interessava o que os outros pensavam dela, pouco me importava o que a mídia dizia deles e muito menos o que a velha geração achava do som deles. Minha! Foi o primeiro grupo que me fez sair de casa para comprar os discos, vestir (literalmente) a camiseta da banda, acompanhar a carreira dos caras e procurar tudo o que eu pudesse encontrar deles. Quando o Use Your Illusion foi lançado, eu (e o meu amigo Michael) estávamos plantados na Multisom à espera dos primeiros vinis a chegar na loja. Era o início da vida musical de um adolescente roqueiro. Era pura diversão!

Os anos foram se passando, fui conhecendo outras bandas e gêneros musicais, e cada vez mais o Guns foi perdendo espaço no meu dia a dia. Adicione a isso o fato de que a banda foi se desmantelando graças ao gênio do vocalista Axl Rose e… bum! Perdemos contato.

Já nos anos 2000, o enroladíssimo lançamento de Chinese Democracy me fez voltar a ter interesse pelo o que o grupo podia apresentar ao mundo. Mas sem o guitarrista Slash e o baixista Duff McKagan, a sonoridade do disco não era exatamente Guns N’ Roses, estava mais para um projeto solo do Axl Rose. Era bom, mas… nhé! Os shows contavam sempre com mega atrasos da maior prima donna do rock e soavam mais como uma banda cover do que o grupo original. Estiveram em Porto Alegre, mas passei a oportunidade. Nhé! Perguntado sobre a possibilidade de tocar novamente com Slash, Axl respondeu a um entrevistador: “Not in this lifetime!”.

Pulamos para 2016 e – para surpresa geral! – o Guns anuncia que vai fazer uma turnê com o trio principal da formação original: Axl, Slash e Duff. Nome da turnê? “Not in This Lifetime Tour”. Ok, chamaram minha atenção!

Dia 8 de novembro, lá estava eu com meus amigos para assistir a banda da minha adolescência. O setlist não poderia ter sido melhor, muitas faixas dos discos clássicos da época em que eram a “minha banda” mesclados com algumas canções de Chinese Democracy e covers de grupos que influenciaram o Guns. O show iniciou dentro do horário previsto (uma novidade muito bem vinda dessa turnê) com uma dobradinha clássica dos shows da era do Appetite for Destruction: It’s So Easy e Mr. Brownstone.

As faixas épicas de 8 minutos (ou mais) marcaram presença ao longo do show: os singles Estranged, November Rain e Civil War foram bem recebidos pelo público e, para minha alegria, ainda rolou o peso de Coma – grande surpresa da noite para mim, já que não havia visto o que eles andavam tocando na tour. O álbum mais recente, Chinese Democracy, apareceu representado em três faixas. Mas a maioria das canções era da época áurea da banda, dos discos Appetite for Destruction e Use Your Illusion I e II.

O Guns deixou bem claras as suas influências em algumas covers e citações instrumentais. Rocket Queen contou com uma menção instrumental de Kiss, do Prince. O símbolo do cantor também estava estampado no baixo de Duff McKagan. Jimi Hendrix foi citado em Civil War em um pedacinho de Voodoo Child. Wish You Were Here, do Pink Floyd, apareceu em um dueto entre os guitarristas Slash e Richard Fortus. Logo em seguida, Axl puxou a sequência final de Layla, do Eric Clapton, no piano, servindo como introdução da balada November Rain. (Sim, era novembro. Mas não, não choveu.)

As covers não foram poucas e incluíram Live and Let Die, do Wings, Attitude, do Misfits (com trecho de You Can’t Put Your Arms Around a Memory, do Johnny Thunders), Knockin’ on Heaven’s Door, do Bob Dylan, The Seeker, do The Who e Speak Softly Love, o tema de amor do Poderoso Chefão, de Nino Rota.

A banda é ótima e não deixa nada a desejar, mas o grande destaque do show, sem sombra de dúvidas, é o guitarrista Slash, que conduz a noite de rock ‘n’ roll mostrando porque os seus riffs conquistaram o mundo. E sobra criatividade e habilidade em seus improvisos durante as canções, em especial nas músicas Speak Softly Love, Double Talkin’ Jive, Rocket Queen e Nightrain.

No bis, a balada Don’t Cry inicia os trabalhos com a galera cantando em uníssono e a clássica Paradise City fecha com chave de ouro a noite com explosões de fogos de artifício, chuva de papel e Slash com a corda toda. Foi uma gostosa visita aos bons anos da minha adolescência. E é bom demais ver essa turma reunida novamente!

setlist:
It’s So Easy
Mr. Brownstone
Chinese Democracy
Welcome to the Jungle
Double Talkin’ Jive
Better
Estranged
Live and Let Die (Wings cover)
Rocket Queen (com “Kiss”)
You Could Be Mine
Attitude (Misfits cover) (com “You Can’t Put Your Arms Around a Memory”)
This I Love
Civil War (com “Voodoo Child”)
Coma (with band introductions)
Speak Softly Love (Love Theme from The Godfather) (Nino Rota cover)
Sweet Child O’ Mine
Wish You Were Here (Pink Floyd cover)
November Rain (com “Layla”)
Knockin’ on Heaven’s Door (Bob Dylan cover)
Nightrain

bis:
Don’t Cry
The Seeker (The Who cover)
Paradise City

Literatura

Bandeira amarela

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imagem: Cassiano Rodka

“Sou mansa, mas minha função de viver é feroz.”
Clarice Lispector em “A paixão segundo G.H.”

Quem nasce, mora ou passa o verão perto do mar sabe bem que bandeira amarela na casinha do salva-vidas sinaliza atenção: o mar parece que está manso, mas oferece perigos. Aí é ter muito cuidado. Pode-se até entrar, mas com muita cautela. Cautela pois ele pode engolir-te aos pouquinhos. Envolver-te. Seduzir-te. Fazer de ti alguém mais vulnerável e propenso a ser por ele atingido. Quem tem medo do mar? Todos nós. É o desconhecido. É o que não sabemos. Queremos, mas não temos certeza do que virá. Muitas vezes, difícil conter o impulso. E é por isso que entramos. Nos aventuramos. O risco atrai, nos move. Sem a perspectiva de arriscar-nos, ficaríamos para sempre no mesmo lugar. Quando a bandeira amarela assusta de forma mais forte, porém, paralisamos. Ansiedade toma conta. Nessas horas, difícil raciocinar. Difícil agir. Impossível lidar. Nessas horas, meus amigos, só nos resta respirar. Fundo. E enfrentar as águas que virão mesmo assim. A outra opção é para sempre permanecer na dúvida. E a dúvida pode matar o que há de melhor em nós: nossa essência e desejos. Assim, meu conselho: mergulhe, sempre.

Quadrinhos

Demolidor: de Stan Lee a Frank Miller (parte 1)

Em 2015 a Netflix iniciou uma parceria com a Marvel, com o compromisso de produzir séries utilizando os personagens da editora. Diferente da concorrente DC Comics, que pertence à Warner Brothers, a Marvel não tem um conglomerado de mídia inteiro por trás e portanto algumas de suas mídias são passadas adiante. Foi o caso das séries de TV. O personagem escolhido para inaugurar essas séries foi o Demolidor, o advogado cego de Hell’s Kitchen. Fazia sentido. O Demolidor vinha de um horrendo filme de 2005, estrelado por Ben Affleck e era um personagem “queimado” em função disso. Se desse errado, o que poderia acontecer? Pois não deu. Deu certo, e MUITO certo. A série do Demolidor vai muito bem, obrigado, para a sua terceira temporada. O sucesso de Murdock, Foggy, Karen Page, Elektra e cia pavimentou caminho para que viessem Jessica Jones, Luke Cage, O Punho de Ferro e todo um universo Marvel/Netflix de heróis urbanos (que mantem ALGUM grau de ligação com o Universo Cinematográfico Marvel, inclusive. Uma das tramas da primeira temporada de Demolidor é a reconstrução de boa parte de Nova Iorque destruída no primeiro filme dos Vingadores).

A ideia, hoje, é falar um pouco mais sobre o personagem de quadrinhos Demolidor e colocar algumas sugestões de leitura para quem se interessou, a partir da série ou não, por conhecer mais sobre o “Homem Sem Medo”, como ele também é chamado.

  1. A Origem

Stan “The Man” Lee é o maior criador de personagens da história dos quadrinhos. Num período incrível de dois anos, entre 1961 e 1963, Lee criou o Quarteto Fantástico, o Hulk, o Thor, o Homem Aranha, os X-Men, o Doutor Estranho e o Homem de Ferro. A sacada de Stan Lee foi humanizar seus personagens, tornando-os mais próximos de seus leitores. O Quarteto é uma família, com todas as questões que envolvem as famílias tradicionais (além dos problemas do Coisa e da personalidade do Tocha Humana, com os quais os adolescentes se identificavam). Os X-Men eram uma metáfora para falar das questões raciais e do preconceito nos EUA. O Hulk era um herói que era um monstro irracional. Thor tinha que alternar sua presença com a figura frágil de Donald Blake. O Homem de Ferro tinha o problema no coração e o alcoolismo. A maior criação de Lee, o Homem-Aranha, era o próprio adolescente da época. Inseguro, morador do subúrbio, azarado com as garotas e com problemas para pagar o aluguel.  Stan Lee, naquele biênio, mudou os quadrinhos para sempre. Todo criador de quadrinhos, dali para frente, pensaria suas obras de maneira diferente.

Em 1964 Lee queria criar algo ainda mais diferente, o que era um desafio e tanto. Em parceria com o desenhista Bill Everett criaram o Demolidor (em inglês, Daredevil. Veja de quantas traduções infames escapamos, não?). Já na capa do primeiro número havia a pergunta: “Você adivinha o por quê de o Demolidor ser diferente?”. A grande diferença, dessa vez, era a deficiência física: o Demolidor era cego. Quando garoto Matt Murdock envolveu-se num acidente e acabou exposto a um isótopo radioativo que lhe tirou a visão. O mesmo acidente, no entanto, amplificou seus outros sentidos e lhe dotou de um sentido de localização equivalente a um radar.

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Capa de Daredevil #1, de Stan Lee e Bill Everet

O Demolidor teve um sucesso relativamente discreto nos seus primeiros anos. Nunca foi um dos destaques da editora, mas também nunca teve sua revista ameaçada de cancelamento. As histórias da fase escrita por Lee são muito simples. Funcionavam na época, mas hoje não tem mais do que o valor histórico. Beiram ao infantil e colocam o Demolidor enfrentando o mesmo tipo de ameaças genéricas de supervilões que enfrentavam os outros heróis da Marvel. A vida de Matt Murdock como advogado dava aos roteiristas a oportunidade de contar histórias um pouco diferentes. O próprio Lee gosta de dizer que a história do Demolidor da qual ele mais se orgulha é uma na qual Murdock assume a defesa de um veterano do Vietnã cego que estava sendo falsamente incriminado. Além de Lee outros roteiristas importantes escreveram o Demolidor nos anos 60 e 70, como Gerry Conway, Marv Wolfman e Jim Shooter.

  1. Frank Miller e a Reinvenção do Demolidor

O Demolidor, como nós o conhecemos, começa a ser criado no final dos anos 1970. Em 1979 Roger McKenzie era o roteirista do título quando um jovem promissor de 22 anos assumiu como desenhista. O menino se chamava Frank Miller. Miller desenhava as histórias de McKenzie mas frequentemente se queixava da qualidade dos roteiros do veterano, o que levou o editor da Marvel Denny O´Neil a tomar a arrojada decisão de demitir McKenzie e entregar os roteiros também para aquele jovem impertinente. Frank Miller reinventou o personagem, modificando inclusive questões que eram fechadas na cronologia do personagem. A relação de Murdock com o pai tornou-se muito mais tumultuada e antigos personagens como o repórter Bem Urich ou o Mercenário foram quase que reintroduzidos, de certa forma ignorando todo o bakcground que já tinham com o Demolidor.

Miller foi, aos poucos, abandonando o cânone tradicional dos heróis e tornou o demolidor um herói urban. Ele estabeleceu as gangues de rua, o tráfico de drogas e os bandidos mais “pé-no-chão” como os inimigos naturais do Demolidor. Um antigo inimigo do Homem-Aranha, Wilson “Rei do Crime” Fisk, foi completamente repaginado e se tornou o arqui-inimigo do Demolidor, a mão que coordenava todo o crime organizado pelas ruas de Nova Iorque.

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As acrobacias do Demolidor enfrentando o Doutor Octopus no traço de Frank Miller

Conforme Miller ficava mais a vontade escrevendo e desenhando o Demolidor, as histórias foram ficando ainda melhores. O estilo de desenho de Miller, as vezes quase cinematográfico e retratando os movimentos em detalhes, ajudava a realçar o Demolidor como um acrobata e também como um exímio artista marcial. Miller tem uma longa paixão por filosofias orientais e artes marciais, o que o fez transformar o demolidor de um brigador de rua em um ninja quase completo.

Durante toda essa época Miller ficou cada vez mais envolvido escrevendo os roteiros e desenhando as histórias que começou a perder prazos. A Marvel então contratou o desenhista Klaus Janson para ajudá-lo. Miller passou a desenhar cada vez menos, fazendo quase que apenas um rascunho que era desenhado e colorido por Janson, artista competente cujo traço casa muito bem com as ideias de Frank. A parceria entre os dois foi longa e frutífera. Janson num primeiro momento era apenas arte-finalista, mas hoje é creditado juntamente com Miller como o artista responsável por aqueles números.

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O Demolidor enfrenta o aliado/inimigo recorrente, o Justiceiro

O herói passou a ter também todo uma ligação com o oriente. Miller criou Stick, o sensei que treinou o Demolidor e que ajudou-o a lidar com a cacofonia dos sentidos ampliados. O clã de ninjas assassinos japoneses Tentáculo, inimigo antigo de Stick, também foi criado e introduzido por Miller nas histórias do Demolidor. O próprio Demolidor, nessa abordagem de Miller, tornou-se praticamente um ninja.

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O Demolidor enfrenta Elektra

De todas as criações de Miller na sua passagem pelo título, nenhuma foi mais marcante do que Elektra, a ninja grega, antiga namorada de escola de Matt Murdock que volta à cena em função de problemas envolvendo Stick e o Tentáculo. Elektra era uma personagem ambivalente, não uma heroína. Suas ações, ora assassina egoísta, ora altruísta, acabavam exercendo nos leitores o mesmo poder de atração e sedução que exerciam em Murdock.

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Assim como criou Elektra, Miller não teve dó nem piedade de matá-la. A trama costurou a aproximação de Elektra com o próprio Demolidor e com o Rei do Crime, que queria contratá-la como assassina. Elektra acabaou morrendo nas mãos do Mercenário, reimaginado quase como um “anti-Demolidor”, numa das cenas de morte mais chocantes da história dos quadrinhos. As batalhas envolvendo o Demolidor, o Mercenário e Elektra, com a arte de Miller, tornavam-se quase um ballet. Quadrinhos no seu melhor.

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Mercenário, até então vilão de segunda linha, e a dramática morte da ninja grega

Pouco tempo depois disso Miller deixou o título para fazer história revitalizando o Batman pela DC Comics (mas isso é outra história). O surpreendente foi Miller ter topado o desafio e voltado, doze anos depois, a escrever o Demolidor. O arco “A Queda de Murdock” (Born Again, numa tradução meio inexplicável) talvez seja o melhor de Miller escrevendo o Demolidor. Uma antiga namorada de Matt, Karen Page, tornou-se uma viciada em drogas que vende a identidade secreta do herói por uma dose. A informação foi sendo repassada e revendida até chegar ao Rei do Crime, que elabora um sofisticado ataque que visa não só acabar com o Demolidor, mas destruir todos os aspectos da sua vida. A arte magistral de David Mazzucchelli torna o arco ainda mais impressionante. A partcipação dos Vingadores (Thor, Homem de Ferro e Capitão América) em “Armaggedon”, talvez a melhor história do arco, mostrados como semi-deuses enquanto o Demolidor seria “apenas” humano, embeleza ainda mais o quadro todo.

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A seguir: Brian Michael Bendis, Ed Brubaker, Mark Waid e o Demolidor contemporâneo.

Piras

Da romantização da parede da sala

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imagem: Cassiano Rodka

“Agora a casa é minha e eu vou decorar como eu quiser” – Esta era a ideia pungente naquela decisão de pintar a parede da sala de laranja. Eu tinha certeza que eu e meu companheiro iríamos nos divertir horrores, que esse momento ficaria na memória como uma lembrança linda e feliz, que ele traria o sentimento de cumplicidade que vemos nestas cenas em filmes.

Foi um saco. Pra começar, decidir o tom de laranja foi um parto (e olha que só eu opinei nisso). A fatídica parede deve ter uns seis metros de comprimento e precisou ser pintada três – TRÊS – vezes, porque eu consegui escolher uma fucking tinta translúcida. Além disso, tive uma ideia genial de testar a cor fazendo desenhos engraçadinhos que só sairiam com uma quarta demão de tinta (e por isso, atrás da minha porta, dependendo da incidência de luz, você ainda pode ver uma caveira, um pi e um coração). Eu só conseguia pensar: o que aconteceu de errado que isso não foi tão legal quanto eu imaginava?

O que aconteceu, baby, se chama vida real. Os filmes nos fazem acreditar que pintar a parede da sua casa nova será lindo, que você e seu(sua) companheiro(a) irão rir e passar por esse momento com calma e alegria; que vocês vão brincar pintando o nariz um(a) do(a) outro(a) e começarão uma guerra na tinta que terminará com um sexo bem sujo e maravilhoso. A realidade (pelo menos a minha) é que essa tarefa não termina nunca, você se arrepende trezentas vezes de ter começado e deseja ter dinheiro para pagar alguém pra fazer isso. Cara, por que os filmes nos fazem acreditar nisso?

Porque eles romantizam toda e qualquer situação em que você está com ~o amor da sua vida~. Cria-se uma ideia de que todos os dias serão lindos com aquela pessoa, que tudo que vocês farão juntos será incrível e terá mais graça do que se você estivesse sozinho, que você verá um mundo de cores onde tudo, antes, era cinza e triste. Não quer compartilhar tudo com essa pessoa? Ah não, tem algo errado. Então ela não é ~o amor da sua vida~.

Na verdade, a ideia em si de ~o amor da sua vida~ já me incomoda pacas. Pra começar, por que “o”? Quem disse que esse amor tem que ser único? Segundo, o que é o amor (baby don’t hurt me… no more)? Como saber se aquilo que você sente pela pessoa é paixão, amor, tesão, desejo, projeção Freudiana ou sei lá o quê? Terceiro, por que “da sua vida”? Tem que ser pra vida inteira? Ai, que saco! Eu não sou a mesma pessoa a vida inteira, como posso esperar que alguém ame as diversas versões minhas que estão por vir? Nem eu sei se vou amar todas elas! Aí a Disney nos ensina que temos que encontrar essa pessoa – pior, temos que esperar ela chegar em seu cavalo branco para nos livrar da bruxa má. Taca-lhe mais romantização que ainda tá pouco.

Essa romantização só complica as coisas. Criamos expectativas em pessoas esperando que elas também criem em nós essas mesmas expectativas, confluindo na reprodução de um momento e de uma relação estipulada por alguém que nem, ao menos, nos conhece. Menos projeção, mais realidade. Olha só: se pintar a parede com seu amor foi legal, ótimo! Mas não tem nada de errado se foi chato. O seu relacionamento não é pior que os outros se vocês não trazem café na cama aos domingos; o seu pedido de casamento não é menos válido se ele não foi feito com uma banda e uma flor para cada dia em que vocês estão juntxs. Você não é uma pessoa ruim se não faz tudo com seu amor – inclusive, acho essa individualidade extremamente saudável.

“Nossa, cê odeia romance mesmo”. Nã nã nã. Eu adoro um romance – ô se goxto! Mas o meu romance, de um jeito só meu com a outra pessoa. Sem diretor, sem produtor, sem arte finalista, sem música de fundo (essa só na minha cabeça). Nesse romance, eu e a pessoa rimos juntas, nos divertimos, amamos muito. Mas a gente também se enche o saco uma da outra, se desentende, se entende de novo, se modifica. A diferença é que essa relação não tá num script, ela se constrói – e nisso está o belo, o frio na barriga e a delícia de se sentir em uma cena de um filme só nosso.