Piras

Muita gente apanhou pra que nós pudéssemos sarrar na avenida Paulista hoje

Até 1962, em todo o território americano, era crime se relacionar com pessoas do mesmo sexo. O país era tomado de leis antissodomia que criminalizavam inclusive o cross-dressing (que nada tem que ver com ato sexual), tornando-o passível de prisão e punições corporais. Pasmem: alguns estatutos antissodomia só foram abolidos em 2003 nos EUA, e ainda hoje há lugares em que relações homoafetivas são crime, principalmente em função de uma herança colonial ou crenças religiosas.

Essa mensagem é o que o meu amigo gay que mora em Dubai recebe ao entrar no Tinder: um aviso de que não é uma zona segura para pessoas LGBTQIAPN+ (mar/2023)

É nesse clima que se firmou o Stonewall Inn, bar em Nova York frequentado por pessoas marginalizadas pela sociedade. O Stonewall Inn era o bar mais ace$$ível para a população LGBTQIAPN+ na época, tornando-se referência para a comunidade e lugar de abrigo para pessoas que eram expulsas de casa ou buscavam onde trabalhar.

Os donos do local possuíam relação com a máfia, e por isso a polícia fazia vista grossa. Mas as batidas eram frequentes, e na noite de 28 de junho de 1969 houve mais uma. Porém, dessa vez diferente: as drag queens se recusaram a ir para a delegacia, as yags não mostraram suas identidades. Do lado de fora do bar, mais e mais pessoas se juntavam para testemunhar e hostilizar a ação policial que se tornou truculenta. Houve confronto, prisões e confusão por mais de uma noite.

Não somente como reação à violência no atraque, mas principalmente como um basta a uma série de opressões, essa noite ficou conhecida como a revolta de Stonewall. A partir dela surgiram articulações do movimento LGBTQIAPN+ nos EUA que culminariam em protestos, nas primeiras marchas do orgulho e em coletivos de organização coletiva para demandar políticas de proteção a essa população.

Il 28 giugno si celebrano i Moti di Stonewall: cosa sono? - Gay.it
Marsha P Johnson e Sylvia Rivera, ativistas que participaram dos primeiras manifestações pelos direitos LGBTQIAPN+ nos EUA.

A revolta reverberou em todo o mundo e essa data foi escolhida como Dia Internacional do Orgulho LGBTQIAPN+. Importante lembrar que, na época da revolta, o Brasil passava pelos anos mais duros da ditadura militar (o AI-5 foi menos de um ano antes!). Não havia espaço para lutar por esses direitos quando se morria por apenas criticar o governo, então o movimento LGBTQIAPN+ no Brasil acaba por se organizar alguns anos mais à frente.

Ainda por aqui, tivemos uma manifestação no Ferros’s Bar, referência para a comunidade lésbica de São Paulo, que ficou conhecido como “o pequeno Stonewall brasileiro” em 19 de agosto de 1983. A data da manifestação no bar foi adotada como Dia do Orgulho Lésbico no Brasil.

Mas o que quer dizer ter orgulho?

Orgulho é honrar quem se é, é admirar a si. É o contrário de ter vergonha, é não querer esconder-se. É por isso que as datas de orgulho são tão importantes individual e coletivamente: olhar para si com orgulho é entender a própria existência como um presente, e reconhecer no coletivo nossas semelhanças e diferenças através de um movimento empático.

Nesse sentido, cabe perguntarmos: as paradas do orgulho LGBTQIAPN+ que tradicionalmente acontecem em junho são um momento de festa ou de luta?

Avenida Paulista durante a Parada do Orgulho LGBTQIAPN+ em 2023 (acervo pessoal <3)

Eu penso que são os dois: só celebra quem está vivo, só (r)existe quem luta. Se por um lado é importante não reduzir as demandas de um grupo socialmente marginalizado a fazer comemorações coloridas ao som de Pabllo Vittar, por outro a própria ocupação da rua é uma forma de manifesto, de dizer “oi, estamos aqui!”. No país em que a expectativa de vida de uma pessoa trans é de 35 anos, dizer que está vivo já é muito.

Mas como ir além para que mais pessoas possam viver com orgulho e dignidade? Para que a população LGBTQIAPN+ não seja lembrada apenas no mês de junho?  Trago aqui algumas pistas a nível de Estado:

  • Políticas de proteção: criminalização do crime de homo/lesbo/transfobia, formação de agentes do direito e da polícia para acolhimento, atendimento e reconhecimento de violências;
  • Políticas de saúde: acesso a ginecologistas, testes, medicamentos, hormonioterapia e apoio de saúde mental;
  • Políticas de educação: promoção de discussões sobre autocuidado e respeito com perspectiva de gênero nas escolas, campanhas de proteção no ambiente escolar, formação de profes;
  • Políticas de informação: pesquisas e geração de dados sobre as condições da população LGBTQIAPN+ para conduzir as demais normativas.

Para isso tudo acontecer, precisamos de três coisas: verba, vontade e gente. Gente qualificada temos de sobra neste país em coletivos, cargos governamentais, academia e sociedade civil em geral. E aí, governo? Bora fazer acontecer?

Piras

Estapear ou não estapear, eis a questão

Faz parte do mal-estar da pós-modernidade essa necessidade (ou até mesmo cobrança) de darmos nossa opinião sobre absolutamente tudo que acontece. Acho isso um saco, mas bem contraditória que sou venho aqui falar sobre o causo do momento: o tapão de Will Smith.

Pra quem perdeu o babado da cerimônia de entrega do Oscar, o humorista Chris Rock estava no palco apresentando uma parte do evento e fez uma piada com o cabelo raspado de Jada Pinkett Smith, apresentadora, atriz, cantora e também esposa do Will. A questã é que Jada sofre de uma doença chamada alopecia que causa a queda de cabelo, o que a fez obviamente ficar desconfortável com o comentário de Chris Rock e resultou num Will Smith subindo ao palco e dando um bofetão na cara do comediante.

Surgiram trocentas questões a partir daí que, inclusive, revivem uma treta antiga da família Smith com o Chris Rock (e me parece que o Rock tem treta com todo mundo com suas ~piadas~ bem questionáveis). Muitas opiniões vieram sobre a validade do tapa ou não (visto que Will estava rindo logo antes do tapão), quais são os limites do humor, quem na academia revisou o texto do Chris Rock, se violência seria a melhor opção, se Jada deveria ter se defendido sozinha e até mesmo o mapa astral do Will Smith rolou por aí, alegando que o senso se justiça dele vem do lado libriano (sei como é, vide meu ascendente em libra – risos). Acho que a gente super poderia pirar no que é violência (será que é só agressão mesmo?), mas esse rolo reviveu uma história que aconteceu comigo.

Há uns anos eu estava com o companheiro da época no transporte público e um senhor ficou encarando as minhas belas pernas exibidas pela curtíssima saia que eu usava. Eu estava de costas e não tinha visto. Quando saímos do metrô, meu companheiro começou a xingar o senhor dizendo que aquilo era desrespeitoso e tudo mais. Naquela situação, eu disse que achava massa ele se posicionar sobre, mas que a forma como aconteceu me colocou numa posição de objeto sendo cobiçado, e não como pessoa que tem uma voz para se posicionar. Orientei que eu preferia que, quando acontecesse novamente (porque sim, aconteceria), ele me avisasse do que estava ocorrendo e ficasse ao meu lado para que EU dissesse pra pessoa que aquilo não era legal. Expliquei que muitas mulheres assediadas não se manifestam por medo de sofrerem retaliações e que ele estar ao meu lado me dando apoio na minha manifestação era o ideal pra mim.

Pra mim. Eu, Brunna. Isso não é uma receita e, mesmo que fosse, dependeria muito do contexto: será que havia outra forma de reagir? Naquele contexto, o que essa reação implicaria? Quem são as pessoas envolvidas? A minha história e a treta do Oscar são situações completamente diferentes em função da natureza da ação (uma “piada” e assédio), mas principalmente pelas pessoas envolvidas e importância da reação. A @pretararaoficial trouxe em post no insta como as mulheres pretas são ridicularizadas até mesmo por seus companheiros e enfatizou a importância do posicionamento de Will Smith no Oscar – taí um ponto que a gente tem que olhar. Fecho com a @gabidepretas, que diz que o ideal seria que o Will segurasse o Chris Rock pra Jada bater rs. Não precisava nem isso, mas só ele estar ali do lado dela simbolizando o apoio, o “ahã, é isso aí, amor”, sabe? Mas por quê? Porque eu tenho a certeza absoluta e inquestionável que se ela fosse sozinha socar a cara do humorista diriam que ela é louca e não sabe brincar, que ela é barraqueira – afinal, é esse o rótulo que serve a mulher negra.

Em toda a discussão que eu entro sobre aborto encontro homens falando que o corpo é da mulher e ela faz o que ela quiser: lindo, é uma grande pauta feminista. Mas nesse discurso velado está o ESSE É TEU B.O., FILHA, que faz com que o cara simplesmente suma e deixe a mulher tendo que lidar com o peso físico, psicológico e financeiro dessa decisão. Eu também vejo muitos homens dizendo como as lutas feministas são importantes e que devem respeitar o lugar de fala das mulheres, bacana. Mas é com essa justificativa que esses mesmos homens não mexem uma palha para se manifestar e usar da sua posição de privilégio numa sociedade machista e patriarcal para fazer algo. E eu não estou dizendo aqui pro cara subir num palanque, mas, sim, pra ele dizer pro parça amigo dele que aquela atitude com a mina é palha; pra na reunião da empresa ele dizer pro chefe que faltam mulheres em cargos de decisão; pra ele repensar as suas ações diárias e entender que isso faz parte de questionar um sistema que naturaliza a opressão das mulheres. Uma vez vi relatos das ações do 8 de março no Chile (que são gigaaaantes) em que os homens distribuíam água para as manifestantes e auxiliavam com cuidados médicos e enfrentamento com a polícia. É sobre isso.

Em resumo, achei emblemático o Will Smith levantar a bunda da cadeira e fazer algo. Talvez não tenha sido a melhor reação, talvez tenha sido a única possível no contexto: sei lá, isso é assunto pra outra problematização. Mas é importante sempre lembrar que fazer nada é se posicionar, e ficar no “isso é luta das mulheres” é extremamente cômodo, pra não dizer mau caráter. Como se posicionar? Não sei. Depende. E nesse processo nós vamos errar, mas faz parte. Espero que o Oscar 2022 seja lembrado como a noite em que um homem negro, a comunidade surda e mulheres receberam premiações: foi foda! Mas que também seja um lembrete de que justiça social e respeito exigem posicionamento e, às vezes, se conquistam à tapa.

Piras

Transbordo

Esses dias eu fiquei extremamente irritada porque esqueci de tirar o lixo seco. Mas assim, sabe aquilo de ficar PUTA consigo mesma?? De pensar “Porra, Brunna, por que tu faz essas merdas, cara? Agora o lixo vai ficar ali mais dois dias”. Isso mesmo, dois dias. Eu vou recapitular a história como estratégia narrativa para dar ênfase: eu fiquei extremamente DE CARA comigo mesma porque, em virtude da minha absurda falha de caráter de não colocar o lixo seco no contêiner, ele ficaria mais dois-gigantes-e-intermináveis-dias na minha casa. Aí eu entendi que estava num limite.

Mas não sabia muito bem de quê. Já me acompanha há um tempo uma sensação de copo cheio. Não cabia mais nada na minha cabeça, nos meus pensamentos, na minha vida. Eu lia e não assimilava nada, parecia que não era mais capaz de aprender (o que, vindo de uma professora, fica ainda mais ridículo e nonsense). Eu comia e tudo parecia demais – quente demais, frio demais, gorduroso demais, frio demais, comida demais. Toda e qualquer pessoa que chegava pra me contar algo era entendia como demanda, e eu não tinha condições – não, NÃO TINHA – para ouvir mais nada. Até o que me dava prazer parecia obrigação, e coitadas das plantas que morreram no processo. Não cabia mais nada nem ninguém.

Fui acometida de uma vontade gigantesca de fugir, de me esconder de todos os ~tenho quê~ que apareciam. A sensação – ou esperança – era que ir para um mato sem ninguém, sem contato algum e sem explicações faria os pensamentos saírem pelo ouvido e a pressão intracardiochakrascraniana diminuir. Faltava espaço para eu existir em mim.

Mas o alívio veio no modo de um tantrum, essa incrível palavra do inglês pra falar daqueles ataques de birra que as crianças têm desses de se jogar no chão e chorar esperneando, saca? Talvez eu tenha assustado ligeiramente minha terapeuta, mas foi aí que consegui gritar o que me sufocava, abrir espaço e me escutar.

Dispensei tudo e todos, e marquei um horário para conversar com ela, a pessoa mais importante da minha vida: eu mesma. E, enfim, sentimos, pensamos e escrevemos. Transbordei.

Piras

Hoje eu quero

Hoje eu quero fazer amor. Às vezes nem sei direito o que isso significa. Como se “faz” amor? Pra mim, naquele momento, se fazia com olho no olho: ritmo lento, conexão profunda, sentimento à flor da pele. A sensação de ser uma pessoa só. As posições eram essas que deixam as pessoas próximas, que permitem o maior contato possível. Não tinha espaço ali para chupar nada, nem pra segurar forte ou, até mesmo, para um orgasmo. Era outra coisa. O som era Ben Howard e seu violão embalando um carinho, sabe? 

Uma vez falei pra um amigo que queria que alguém aparecesse, me fizesse gozar e não falasse mais comigo depois. Mas assim, sem reciprocidade nenhuma, saca? Eu estou dando pra essa pessoa o PRIVILÉGIO de me fazer gozar, entenda. Um desejo assim bem egoísta: hoje eu quero que alguém me faça gozar. 

Hoje eu quero fazer sexo. Sabe, SEXO? Aquilo ao som de um R&B exalando sensualidade, nas posições mais variadas, os lugares mais inusitados e o desejo mais latente que você parece um vulcão. A doideira de agarração que bota todo o corpo pra jogo, tira o ar e faz sentir a indescritível mistura que é êxtase com cansaço e perfume e gozo e suor. Hoje eu quero foder até não saber mais meu nome. 

Hoje eu quero compartilhar: chama mais alguém.

Tem gente demais aqui: hoje eu quero só nós.

Hoje eu não quero ninguém. Quero explorar meu corpo e sentir cada toque meu sabendo que ele é apenas meu. Ser a dona da minha vontade e rainha absoluta do meu prazer. Hoje eu vou me fazer gozar como ninguém faz. 

Hoje vou gozar com a Natalie Portman. E com o Javier Bardem. E com aquela colega de trabalho que super acho que quer me pegar, mas nunca falamos sobre isso.

De onde vem essa vontade, por que ela nesse dia específico, até que ponto isso é vontade ou uma construção social do que é sexo (sim, problematizei): não sei. NÃO SEI REAL. Mas talvez mais difícil que entender a origem dessa vontade é realmente se ouvir pra identificar que vontade é essa. Digo mais: para essa missão deveríamos investir o nosso mais valioso tempo, pois evitaria muito sexo pra afogar as mágoas, ligações indevidas para embustes, saídas que poderiam ser resolvidas com a bateria do vibrador carregada. 

Eu costumo dizer que sexo é só sexo, não precisa todo esse auê sobre. Mas, também, sexo nunca é só sexo. É sobre prazer, é sobre respeito, é sobre outras pessoas e é muito sobre nós. E tudo que é sobre nós é confuso e bem gostoso. Hoje cê tem vontade de quê?

Piras

Lembrança

Lembro perfeitamente quando li pela primeira vez. Eu estava dormindo durante uma festa de família –dormindo cedo nos rolê desde sempre, vê se pode – e estava acontecendo um alvoroço no pátio. Meu primo, um ano mais velho, estava em pé lendo um livro, enquanto adultos o enalteciam e sorriam de orgulho. Eu, leonina que sou, não suportei não estar nos holofotes: tirei o livro das mãos dele e li. Assim, escrotona mesmo.

A Brunna professora de hoje consegue olhar pra essa cena e dizer que não aprendeu a ler naquele momento, e que provavelmente a convivência quase diária com alguém em outro estágio de desenvolvimento teve influência maior do que o ciúmes. Mas o que marcou não foi o processo; mas, sim, o incômodo, o sentimento. Lembro também de como achei estúpida aquela história de dobrar o papel higiênico que minha colega da pré-escola me mostrou (acho que essa é a lembrança mais antiga). Não fazia sentido – e ainda não faz. Amassa, limpa e deu; tudo certo. Que frescura.

Lembro de perceber estar amando, tão bem quanto a dor do coração partido pela primeira vez (e pela segunda, terceira, quarta…). É engraçado que, apesar da lembrança ter essa conexão direta com o sentimento, tem coisas que me digo: “não esquece dessa merda que tu passou”. Acho que volta e meia o cérebro dá uma bugada e faz a gente esquecer do que foi difícil DEMAIS, porque viver com isso tão a flor da pele seria apenas too much. Já li algo parecido em relação ao parto: uma dor que, depois de algum tempo, se esquece; se não, as pessoas não teriam mais bebês – então, evolutivamente falando, esquecer garante a propagação da espécie. Faz sentido. Mas não deixa de ser curioso.

Afinal vivemos num (não) lugar entre passado, presente e futuro, equilibrando o bittersweet da lembrança de algo incrível que não teremos mais com o pânico daquilo que queríamos esquecer. E seguimos tentando entender quais as coisas temos que colocar um post it para marcar a página da nossa história e quais temos que deixar ir pelo ralo para podermos seguir em frente.

Piras

Fixidez

Eu adoro colar coisas na parede. Ilustras, fotos, plantas… principalmente recados. É uma forma de ocupar aqueles metros quadrados com algo que é meu. E, mesmo o que não foi criado por mim, se torna muito meu porque feito pra mim. Minhas colagens também são momentos, algo que fez sentido em algum dia e que achei relevante guardar. Por algum motivo, não estão em molduras e aí caem e se deterioram. Mas decidi mudar essa história.

Quase dois anos já no apartamento e finalmente fui numa dessa grandes lojas de departamentos comprar molduras. Cores, tamanhos e formatos variados, ótimo: sem dúvida alguma vai servir pras ilustras que levei. Sim, eu levei – minha capacidade imaginativa não vai tão longe pra acertar o tamanho do passe-partout ou se tal cor vai funcionar. Certamente fiquei mais de meia hora experimentando combinações, trocando os quadros de lugar, olhando de perto e de longe. Até que achei uma combinação interessante e soltei o fatídico: “eu não estou pronta pra isso”.

Essa loucura é totalmente do campo simbólico: entendi que, naquele momento, o emoldurar não significava o cuidado com o papel que eu imaginava; mas, sim, dar limites. A parede, que era toda uma grande tela, se transformaria em… parede. Seria tão somente o local onde coloco registros imagéticos que agora teriam fim determinado por quatro segmentos de madeira. Emoldurar era ter que colocar pregos, o que implicava em não poder trocar tudo de lugar a cada mudança de humor, estação, coração partido ou sei lá o quê. Era fixar. E, bom, não estava(ou) pronta pra isso.

Talvez as coisas caírem da parede não seja tão ruim assim. Talvez elas se deteriorarem seja apenas parte do processo e eu, afinal das contas, goste disso. Efemeridade como própria da essência, seja do que se é ou de onde se está. Seria essência, se tão mutável? Não sei. Mas sei que gosto da ideia de que chega um momento em que as coisas apenas não servem mais, e aí a gente muda. Assim será com essa casa, que um dia não vai mais me servir, tal como um exoesqueleto. E eu, bem lagosta, vou deixá-la pra trás, tirar com pressa o que resta na parede e ir pra próxima.


Este texto foi escrito dentro do Desafio da Lagosta, que instigou a equipe do PáginaDois a produzir conteúdo partindo do inusitado tema “lagosta”. 

Piras

Mar revolto

Pensar sobre o processo criativo é algo que me fascina. Isso vai da arte visual, passando pela escrita e chega na nossa prática diária: planejar uma aula, resolver problemas, cozinhar… tudo exige criatividade e, às vezes, nem percebemos isso. Inclusive bato muito na tecla da criatividade no trabalho docente junto com questões de valorização profissional, mas isso é papo pra outra hora. Sou dessas que talvez não consiga imaginar um jantar super diferentão assim do nada, mas me diz o que tem na sua geladeira que a gente dá jeito nesse troço em quinze minutos.

No desafio de julho do P2, convidei o pessoal a pirar sobre alguns elementos que expus no formato de foto ou vídeo seguido de perguntas sobre o que (não) se via naquele registro. E aí começa minha pira sobre a pira (PIRACEPTION, OMG) porque, nesse processo, me peguei pensando sobre como eu penso sobre as coisas. O que me mobiliza? Que questões surgem quando olho algo? O que eu vejo? O que eu crio sobre aquilo? Então entendi que a minha mente é caótica rs Talvez todas sejam assim, não sei – e por isso estou contando sobre a minha. Mas, a cada segundo, sou atingida por trilhões de pensamentos sobre absolutamente qualquer coisa que aparecer na minha frente, desde uma parede descascando até a complexidade da existência. Isso não é bom nem ruim, não é virtude ou defeito; é característica. É um pouco cansativo, admito; mas é interessante.

É isso, minhas piras são sobre o que vejo. Isso parece totalmente óbvio agora falando em voz alta, mas eu nunca tinha visto dessa forma – e olha que escrevo aqui faz mó tempão. Eventos únicos me tiram do prumo e fazem meus olhinhos brilharem, tipo aquela vez que fui num show e escrevi três textos sobre isso. Bateu forte a coisa. Criar é sobre deixar o sentimento nos possuir e ver o que sai dessa emoção toda. É vômito. Mas a loucura é que o cotidiano é igualmente intrigante, curioso e cheio de nuances que falam muito sobre nós (e temos o Maturana viajando no cotidiano pra comprovar isso). Veja só o exemplo do caminhão de lixo.

A minha rua é bem movimentada e tem aquela coleta de contêiner, saca? Pois bem, todo dia, mais ou menos pelas 8h, o caminhão de lixo passa, faz três paradas na minha rua e entra na próxima quadra à direita pra seguir seu rumo. Eu assisto isso da minha janela da cozinha e é um clássico: o motor do caminhão, o freio, as engrenagens funcionando para erguer o contêiner, o barulho do lixo caindo… e as buzinas. Um barulho INCESSANTE de buzinas por causa do trânsito que se forma com o trancamento da rua pelo caminhão, afinal todo mundo sabe que socar a buzina é garantia de que o trânsito flui mais rápido. Um dia eu me prestei a cronometrar: a operação de limpeza de um contêiner durou 32 segundos. No total, menos de 2 minutos é o tempo que o caminhão fica na minha rua. Dois minutos. Aí fiquei viajando que mundo é esse em que dois fucking minutos são motivo para um caos generalizado por causa de atrasos e impaciência. Super podemos linkar com relações de trabalho, urbanização e o que mais a gente quiser.

Foi pensando nisso que, no desafio de julho, mandei o vídeo do caminhão para o Cassiano Rodka e ele escreveu um texto na perspectiva do pequeno Davi, para quem o encontro com o caminhão de lixo era o momento mais esperado do dia. BAM! Sem saber, a narrativa dele foi para o sentido completamente oposto do que eu tinha pensado, interpretando o cotidiano de outra forma, numa perspectiva mais lírica e imaginada, enaltecendo a criatividade de Davi. Sensacional. Criar fala muito sobre quem cria, nossas referências, nossos momentos.

E nessa doideira dos momentos, tenho que falar sobre o meu diário. Eu o comecei no ano passado e percebi que ele está meio abandonado nos últimos meses. Esse diário nasceu de um momento muito fudido da pandemia, em que eu tinha que fazer um esforço para enxergar coisas bonitas – e decidi que todos os dias eu registraria algo bacana pra lembrar que existe beleza no meio do caos. Não tenho sentido mais essa necessidade porque as coisas têm outro gosto agora (ahhh a paixão…), mas, depois dessa pausa nos registros, identifiquei uma dificuldade de colocar as coisas pra fora. Romper com o hábito diário da escrita criou entravas no meu processo criativo, deixou que o mar de pensamentos que me habitam ficasse revolto e eu não conseguisse olhar mais pra ideia alguma. É tudo absolutamente fugaz, nada fica pra eu trabalhar sobre aquilo com mais calma e atenção. Criar também é rotina, é esforço, é seleção.

Enfim, criar é paradoxo. Esse texto foi escrito justamente pela condição de não conseguir decidir sobre o que escrever. O processo fluiu em função da reflexão sobre a pausa no processo – e agora me pego pensando sobre tudo que pode mobilizar meu ímpeto criativo pela pausa e não pelo esforço. Afinal, sei tudo e nada sobre meu processo criativo; vejo tanto e coisa alguma no meio dos meus pensamentos. Acho que a pira mesmo é essa.

Piras

Da rua

Gosto da rua. Sempre gostei, era daquelas crianças que ficavam passeando por aí. Gosto de rolê na rua. Tá, na real eu gosto de rolê e ponto. Mas rolê de rua tem outro gosto: dançar olhando o céu, encontrar pessoas que estavam apenas de passagem, sentir o sol nos olhos junto com a vibe. A rua tem essa coisa do encontro, do acaso (algo que eu senti muita falta no isolamento). Saudades de correr o risco de se apaixonar ao virar uma esquina, sabe?

Ainda mais quando se vive em um musical, como eu. A regra é clara: saindo de casa, use sempre máscara, álcool gel e uma boa música que te faça dançar como se ninguém estivesse vendo. Suba nas muretas, faça aquele seu passinho clássico, dance na sinaleira, sorria (que seja com os olhos) para transeuntes, deixe a energia fluir e ignore os olhares julgadores. Engraçado que meio que existe um protocolo de como se portar na rua e pessoas felizes cantando parecem não fazer parte dele. Estou cheia de trabalho e preocupações com crises existenciais, políticas e sanitárias? Obviamente. Mas, em alguns dias, ainda consigo cantar.

E aí teve um dia em que uma senhora cantou junto. AHÃ. Estava ela passeando com seu catioro fofinho; eu seguia pela rua performando imunizada ao som de Cold cold man, da banda Saint Motel. Ela me olhou, se alegrou, deu uma mexida nas cadeiras e perguntou o que eu estava ouvindo. Tirei o fone, passei pra ela, ela entrou no ritmo na música e perguntou o nome. Eu disse, e ela: “ah sim, Coldplay! Eu conheço!”. Dei-me por satisfeita com essa resposta e seguimos. Eu, ainda dançando pensando sobre essa senhora com quem minha vibe bateu; ela, ainda com seu catioro, talvez pensando sobre essa menina empolgada que ela encontrou. Acasos.

Uma vez, no chão, encontrei um negativo de filme de câmera fotográfica. Para quem não é cringe como eu, essa coisa ficava dentro das câmeras analógicas e é nele que fica “estampada” a foto, algo tipo um esboço. Depois a gente mandava revelar num lugar específico e aí recebia a imagem impressa em papel fotográfico com o tamanho desejado e nas cores corretas. Pois bem, encontrei um negativo com fotos de uma viagem pra um lugar lindo, tinha mar e muita natureza. Havia um grupo de pessoas muito sorridentes, que na minha fic eram amigues que planejaram com muita empolgação aquela trip com barracas de acampar e até de barco andaram! Encontrei pessoas que nunca me encontraram. Fiz parte daquele momento ao melhor estilo Amélie Poulain. Coisas que a rua proporciona.

A rua fala. Fala pra muitos e pra poucos ao mesmo tempo. A rua ecoa o som de mil vozes juntas, mas também silencia algumas solitárias. Mas, inegavelmente, ela é lugar de encontro, às vezes de uma, de duas ou de várias pessoas; de alguém com a coisa; de coisa com coisa; de natureza com alguém. De tudo com tudo e com nada ao mesmo tempo. Rua de Schrödinger.

Pra encontrar, basta olhar. O acaso sempre vem. E numa dessas talvez você encontre uma pessoa dançando ou abraçando uma árvore ou olhando coisas esquecidas no chão ou admirando o céu ou apenas seguindo, de corpo presente e cabeça longe. A rua é democrática – e por isso gostamos tanto dela.

Piras

O que não nos contam sobre os sonhos

Teve uma época da minha vida em que entrei numa crise gigantesca por não ter um sonho. Eu não tinha uma direção, uma aspiração de vida. Eu só ia indo – e fui. Agora, com meus 31 anos, muito sábia – só que não – e vivendo à base de surtos, decidi contar o que ninguém tinha me contado até agora. TÃ-DÃÃÃÃ! *pausa dramática*

Um: não nos contam que os sonhos podem ser simples. Não precisam ser uma coisa magnânima tipo ser CEO de uma grande empresa aos 25 anos ou fazer uma viagem de volta ao mundo. Aliás, nem sei de onde veio essa história de que sonhos são essas coisas gigantescas que demandam trocentos anos de planejamento – aposto que é dos filmes de Hollywood. Porque, se a gente for pensar nos sonhos sonhados, esses de quando a gente dorme, eles nem sempre são esses super planos enormes – inclusive, a maioria sequer faz sentido. E os meus são basicamente de putaria. Pera, acho que precisamos de parênteses aqui: por que será que chamamos de sonho esses grandes planos/aspirações/desejos/metas de vida? Será que é por que no sonho sonhado a gente tem manifestações do nosso inconsciente dizendo o que realmente queremos? Ou será que fazemos um paralelo de mau gosto com a ideia de irrealidade do sonho sonhado com as nossas aspirações de vida? Tipo, chamamos de sonho justamente por ser difícil de realizar? Tá, divaguei.

Dois: não nos contam que nenhum sonho é melhor que o outro. Tá tudo bem em sonhar ser uma super profissional nômade que vive relações fugazes sem ter nenhum laço que a prenda a qualquer lugar. E tá tudo bem querer construir uma família a dois – sozinha – a três – quantos for e criar raízes, morar na mesma casa no subúrbio por 45 anos e se sentir realizada com o gramado verde, o cachorro correndo e a airfryer na cozinha. Enquanto for um sonho nosso, tá ok. O problema é quando é um sonho-embuste, e me dou a liberdade de fazer essa definição: sonho-embuste (s.m.) – ideal de vida incutido em função do contexto sócio-histórico, não se configurando um desejo verdadeiro, mas, sim, uma forma de legitimação social. Ex: constituir família porque se entende que é isso que uma mulher deve fazer; ser workaholic em função da romantização da produtividade. A recompensa desse sonho não vem na sua realização, mas, sim, no enaltecimento das outras pessoas por você ter realizado esse feito. A gente se sente bem, mas talvez não seja o que a gente queira. Então, na real, não se sente tão bem assim. Uó.

Três: não nos contam que os sonhos são mais gostosos – e possíveis – se compartilhados. Sabe aquela máxima de “não vou contar pra ninguém porque vai que dá errado”? Se pah não é bem por aí. Às vezes a gente só precisa de alguém que não olhe aquela vontade como inatingível apenas por ser sonho, e que coloque uma pitadinha de materialidade. O risco é, nesse encontro, reconfigurar o sonho, porque (quatro:) esquecem de dizer que os sonhos não são imutáveis. De boas a gente querer mudar de sonho por algo ou alguém porque agora as coisas têm novo sentido, ou porque mudamos, ou o contexto é outro ou tudo isso junto e misturado. Tenho uma impressão de que abandonar um sonho antigo é algo malvisto, mas minha interpretação é outra: o encontro que faz a gente se perder e trocar de rota talvez justamente esteja fazendo a gente se achar.

O que leva ao ponto cinco: não nos contam que às vezes os sonhos já estão sendo vividos – e foi aqui que eu parei pra rever toda a minha concepção de sonho. Ali, naquela cerveja pós expediente que na real significa morar no bairro que sempre quis, ter um emprego bacana, poder ir a pé pra casa e ter grana, saúde e disposição para ir naquele bar muito massa aproveitar a própria companhia. Está ali nos filhos chamando por você ao mesmo tempo e te deixando meio louca, mas lembrando da sua importância e reafirmando esse amor incondicional em meio a roupas sujas, machucados e vômitos de bebê. No inglês costumam dizer “I’m living the dream” pra esse momento, mas será que a gente tem discernimento pra perceber que realmente está vivendo o sonho?

Então, chamo o ponto seis: não nos contam que os sonhos não serão como imaginamos, mas serão melhores porque reais. E é isso.

*Esse texto foi inspirado pelo curta The Neighbors’ Window (Marshall Curry, 2019), selecionado pelo Pedro Cunha para o desafio de cinema do Página Dois! O curta venceu o Oscar 2020 na categoria Melhor Curta-metragem e está disponível no YouTube.