Clarice Dall’Agnol

Literatura

Este exato momento

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imagem: Cassiano Rodka

Nada me encanta mais do que este exato momento. O inigualável sabor do início de algo que não sei bem ainda o que é, mas que será o que for em breve. É a luz refletindo na cabecinha do bebê que chega ao mundo chorando. É a primeira frase de um livro que reconheço que vou gostar já nas primeiras palavras. É Mrs. Dalloway indo ela mesma comprar as flores, é a busca pela Maga – encontrarei a Maga? – e são os olhos no teto, a nudez dentro do quarto. É como assistir um filme e torcer pelo herói que, veja bem, sou eu mesmo. É o primeiro registro da (provável) melhor viagem da minha vida. É o gosto do café às nove da manhã, o fechar dos olhos na última hora do dia. É o inaugural e incerto passo em uma outra direção. Qual? Outra. É o aceitar da transformação, o atrapalhado bater das novas asas. É o convite que te faço para entrar na minha vida, bagunçar tudo, mudar os móveis de lugar e achar teu próprio espaço no meu álbum de fotografias.

Literatura

Ambíguo

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imagem: Cassiano Rodka

Não é mais você quem diz o que sou.
O que não sou
Eu sei bem.
Não sou inércia
Tardo a acostumar com dias sem sol
Mas há dias em que ele nasce dentro, no meio de minha sala
Não sou somente vida
Apesar de minha maior parte viver
Longe de mim ter flor sem espinhos
As minhas se armam e desarmam como a lua
Quando sou fruto
Não sou apenas doce
Salgo, lá pelo meio
Acidifico pelos cantos
Evito a todo o custo a amargura
Que, assim como na língua, quando pega,
Indica final
Não, não tenho asas
A não ser quando sonho
Não sonho tanto quanto gostaria
Quando sonho encontro
Menos do que procurava
As palavras não ditas me intrigam
Porque não gosto da certeza inexata
As admiro apenas em forma de arte
Porque o poeta é o alquimista da verdade
A ilusão do controle se esvaiu
Mas a vontade de controlar ainda está enraizada
Não aprendo mais nada repetindo
Agora erro meus próprios erros
E tendo a não mais os repetir
Eu não anseio os teus anseios
Eles são teus
O que já não me bastava ontem
Hoje é apenas uma de minhas porções.

Quadrinhos

Por que diabos ler quadrinhos?

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Não encontramos apenas super-heróis, nos deparamos com pessoas reais – às vezes, espelhos. Não são só histórias leves ou descartáveis, há tramas profundas e instigantes. Não é apenas para crianças, é para você também.

O universo das histórias em quadrinhos sempre foi fascinante para mim. Meu interesse pela leitura surgiu nas revistinhas da Turma da Mônica, passou para os gibis do Batman e atualmente perambula pelas mais variadas graphic novels. É comum a crença de que os comics se limitam a histórias infantis e banais, o que é um grande engano. Há um universo de quadrinhos adultos que têm o mesmo valor literário de um bom romance ou um grande filme.

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“Pílulas Azuis”, de Frederik Peeters, narra o romance real entre o quadrinista e sua atual esposa, que tem HIV.

Eu acredito que a arte dos quadrinhos é a ponte que liga a literatura ao cinema. Na literatura, a participação do leitor é imprescindível. Há uma história apresentada, mas é ele quem cria a aparência dos personagens, os cenários, os sons, o clima de cada momento. Nossa criatividade é convidada a complementar o que estamos lendo, criando uma espécie de filme em nossas mentes. Por isso, é tão fácil nos decepcionarmos com interpretações cinematográficas de obras que lemos. Quando enxergamos a história materializada na visão de outra pessoa, ela certamente não bate 100% com o que nós havíamos visto em nossas cabeças. É importante mantermos essa consciência de que a adaptação do livro será sempre a versão visual de como outra pessoa enxergou aquela história.

O cinema talvez seja a forma de comunicação através da arte em que o material apresentado chega ao observador da maneira mais “mastigada”. Salvo algumas exceções, os filmes tendem a trazer ao público uma história definida, com imagens e sons escolhidos para cada cena, deixando pouco a ser complementado por quem os assiste. Nós mergulhamos em um mundo que foi criado por outra pessoa, o que certamente é uma delícia, mas não temos tanto espaço para usar nossa imaginação. Está mais para um papel de ouvinte/recipiente do que uma construção conjunta.

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Utilizando um universo fantástico, Brian K. Vaughan conta a história de um casal inter-racial que enfrenta dificuldades para criar sua filha em “Saga”.

No caso dos quadrinhos, temos um meio-termo em relação a esses dois mundos – o do cinema e o da literatura. As HQs nos apresentam uma história definida e com imagens prontas, mas temos uma grande liberdade em interpretar a parte gráfica. É um pouco como olhar uma fotografia. Apesar de ser uma imagem estática, nossa imaginação nos permite preencher os espaços daquela imagem com sons, cheiros e sensações. É como se nós fôssemos os atores, editores de som e, talvez até, codiretores daquela história. A própria velocidade com que se degusta o enredo está em nossas mãos, nos dando o direito de observar com calma cada desenho e ler com a atenção que julgarmos necessária cada frase.

Se você nunca se deu a chance de experimentar essa arte, convido você, amigo leitor, a acompanhar esta coluna de Quadrinhos que eu e o Pedro Cunha traremos sempre às sextas-feiras aqui no PáginaDois. Vamos falar sobre algumas das grandes obras dos últimos tempos e dar dicas de leitura tanto para quem já é fascinado por HQs quanto para quem nunca leu uma. Prepare-se para uma boa viagem! Há muito a ser descoberto.

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“Thief of Thieves”, de Robert Kirkman, acompanha a trajetória de um ladrão de arte que procura largar o crime para recuperar sua vida normal.
Literatura

Abismo

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imagem: Cassiano Rodka

Para meu pai, que, mesmo sem saber, me inspirou para este poema.

Para o mestre José Saramago, que me ensinou que a cegueira pode estar na mente.

Teus olhos nus,
antes tão livres,
agora são cegos,
céticos,
amargos,
perdidos,
amarrados,
prontos para assistir tua implosão:
não fantasiam mais
não imaginam mundos
não desenham delírios oníricos.
Apenas veem a vida como achas que ela deve ser:
real.
(Que lástima).

Literatura

Deixa estar

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imagem: Cassiano Rodka

Sei que estou apaixonado quando te vejo piscar. Num simples e natural gesto, me ponho a sorrir. Vibro estupidamente com o teu desaparecer. O teu sorriso manso, o teu silêncio longo. Sei que te amo porque não tenho a menor razão para te querer. Num coçar de barba, num esticar de perna, num respirar, me sinto maior. Me pelo em saber que posso te alterar. Clarear teu gesto, prender teu rosto, te apagar. Se nessa distância é possível te ter, deixo estar. E sigo cego a tatear; em um cálice vinho, em uma mesa de bar.

Cinema

Café Society

por Pedro Cunha

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Café Society (Cafe Society, Woody Allen, 2016)

Todo mundo sabe que todo ano vai ter o “filme novo” do Woody Allen. E ninguém erra essa previsão. O realizador nova-iorquino é extremamente metódico em seu trabalho e pouco se importa com a repercussão dos seus filmes, começando a trabalhar no filme seguinte assim que termina o atual. Segundo o próprio, em entrevistas citadas no livro “Conversas com Woody Allen”, fazer isso é uma forma de livrar-se das expectativas e frustrações que costumam vir junto com o acompanhamento do desempenho do filme. Começar a trabalhar impede Allen de ler as críticas ou acompanhar o caixa do filme que acaba de entrar em cartaz. Nas palavras do próprio diretor, no momento em que ele finaliza um longa ele perde completamente o interesse no mesmo.

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Todo esse método e indiferença ajudam a explicar os motivos para, de quando em quando, termos um trabalho mais preguiçoso do diretor. Allen já tem 81 anos e continua extremamente profícuo. Na última década conseguiu mais acertos (“Tudo Pode Dar Certo”, “Meia-Noite em Paris”, “Blue Jasmine”) do que erros (“Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos”, “Para Roma Com Amor”) e mesmo quando erra ainda consegue, pelo menos, nos brindar com um domínio absurdo da técnica cinematográfica que talvez só a segurança de já ter dirigido mais de QUARENTA longa-metragens possa dar a alguém.

“Café Society” (2016) encaixa-se mais, infelizmente, no grupo dos erros do que dos acertos. O roteiro, em especial, já nos cinco primeiros minutos dá a impressão de que a história vai trazer todos os clichês de romances (e traz). Por mais que a história seja ponteada de piadas interessantes, a impressão é de que já as vimos, já que a temática de várias delas já foi (profundamente) explorada pelo roteirista e diretor. Estão lá as piadas com a mãe, com a religião, com a própria existência em si e tudo mais. Allen já fez roteiros com reviravoltas, mas em “Café Society” elas são todas previsíveis. Há toda uma trama envolvendo o irmão do protagonismo e a máfia que cria uma expectativa durante todo o filme de quando se tornará importante na narrativa, sem que isso acabe ocorrendo. Pablo Vilaça, diz em sua crítica, e eu concordo, que a impressão que fica é que Allen só colocou essa subtrama para lidar novamente com a temática da máfia dos anos 30, que ele tanto gosta.

Allen não costuma ter problemas de casting, uma vez que seu prestígio faz com que os grandes nomes de Hollywood adorem trabalhar com ele. É uma troca: ele empresta para eles o prestígio de estar em um filme “de arte” enquanto eles retribuem com sobrenomes que ajudam a chamar público no cartaz. Para esse longa o diretor escolheu um par de jovens atores que já chamaram a atenção do público. Jesse Eisenberg já havia trabalhado com ele em “Para Roma, Com Amor” e mais ou menos repete o papel: é o jovem meio inocente/inexperiente que se aventura numa cidade grande diferente da sua (Los Angeles, no caso). Allen fez de Eisenberg o seu personagem, colocando nele diversas características que já conhecemos dos próprios personagens de Allen em outros filmes. O diretor conseguiu dar uma segurada nos maneirismos e na ligeireza de Eisenberg, o que faz com o que o menino tenha uma atuação bacana, por mais que não consiga convencer muito quando assume o papel de maître dos mafiosos. Kristen Stewart continua a sua saga de tentar se livrar da marca “Crepúsculo” fazendo filmes mais artísticos, e trabalhar com Allen com certeza pode ajuda-la nesse sentido. Ganhou de presente do diretor uma personagem que tem profundidade, inteligência e cultura (características que o roteiro mostra até de forma repetida), além de ser sempre mostrada como muito bela, com ajuda de foco e iluminação. Mais uma vez a menina mostra que tem talento, apesar do roteiro não ajuda-los. Não dá para torcer pelo casal. A química meio que não está lá. E também não dá para torcer por causa do terceiro vértice do triângulo, o tio do personagem de Eissemberg, vivido por Steve Carell. O comediante está tão bem e tão convincente no papel (que também tem muitos dos trejeitos dos personagens de Allen) que acaba atraindo a nossa simpatia e nos pegamos torcendo por ele.

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Stewart e os dilemas de sua personagem: Eisenberg ou Carell? 

Se o roteiro é preguiçoso, a parte técnica do filme é um desbunde. Santo Loquasto, velho parceiro de Allen, assina o design de produção e a reconstituição de época é impecável e muito linda. Seu trabalho em conjunto com a fotografia de outro veterano, Vittorio Storaro (“O Último Tango em Paris”, “Apocalipse Now!”, “O Feitiço de Áquila”, “O Último Imperador”…) ajudam a criar um clima perfeito na reconstrução dos anos 30. Os jogos de luzes que marcam a diferença entre a primeira parte do filme (que se passa em Los Angeles) e a segunda (que se passa em Nova Iorque) marcam bem a diferença entre as duas cidades e principalmente as impressões do jovem que vê em Los Angeles a cidade do glamour, da agitação e do cinema enquanto tem em Nova Iorque uma velha conhecida. Os planos de Nova Iorque, aliás, mostram que por mais que viagem, Allen se sente mais a vontade em Manhattan do que em qualquer outro lugar do universo. Ele consegue nos deleitar com planos belíssimos que expõem uma Nova Iorque que foge dos clichês óbvios sem deixar de ser, notadamente, Nova Iorque.

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Storaro desenha Kristen Stewart com a luz, realçando a sua beleza e construindo a mesma atmosfera que envolvia as divas da antiga Hollywood 

“Café Society” não vai ser lembrado como uma das maiores ou mais importantes obras de Woody Allen. Pelo contrário, vai estar geralmente de fora das retrospectivas e mostras sobre a obra do cineasta, provavelmente. O que não faz com que deixe de ser, no fim das contas, um filme divertido, com boas atuações e uma construção estética absurdamente linda. Mostra também um diretor maduro com pleno domínio da arte cinematográfica. Um domínio tão grande, talvez, que faz com que por vezes pareça preguiçoso ou desleixado.

Música

Violent Femmes – We Can Do Anything

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Depois de 16 anos sem lançar material inédito, o Violent Femmes finalmente decidiu se trancar no estúdio para criar novas canções.

Considerado um dos precursores do indie-folk, o grupo começou sua carreira tocando suas músicas nas ruas de Wisconsin, visto que nenhum club topava dar-lhes uma chance. Assim, eles acabaram desenvolvendo um som acústico com muito espaço para improviso. Por essa razão, estranharam muito a primeira vez que foram gravar em estúdio em 1983. O produtor queria que eles gravassem as suas partes separadamente, o que é extremamente comum, mas eles detestaram a experiência e resolveram gravar tudo ao vivo, todos na mesma sala, como era mais natural para eles. O resultado foi um disco extremamente orgânico, até hoje considerado o grande clássico da banda, trazendo faixas como “Blister in the Sun”, “Kiss Off” e “Gone Daddy Gone”.

A patir daí, mais 8 discos seguiram, com a banda experimentando com os mais diferentes gêneros musicais. As letras do vocalista Gordon Gano refletiam suas frustrações juvenis de forma simples e direta, atingindo em cheio os jovens que escutavam as college radios americanas dos anos 80 e 90. Em 2000, a banda gravou aquele que seria por muito tempo seu último disco, “Freak Magnet”, decidindo seguir apenas tocando ao vivo. Problemas pessoais entre o vocalista e o baixista Brian Ritchie também teriam prejudicado os ânimos, fazendo com que se separassem em 2009.

Em 2013, os músicos fizeram as pazes e voltaram a fazer shows, surgindo a vontade de gravar juntos novamente. Com o baterista do Dresden Dolls Brian Viglione assumindo as baquetas, a banda gravou 10 músicas para o disco “We Can Do Anything”. Respeitando as orgines do grupo, o trio resolveu compor e gravar músicas simples, tocando tudo ao vivo e depois adicionando algumas camadas adicionais. Em uma época de canções artificiais e descartáveis, o disco soa maravilhosamente deslocado, lembrando o quanto a espontaneidade pode ser um ingrediente incrível para a música.

Com 53 anos nas costas, Gordon Gano obviamente não compõe mais sobre problemas adolescentes, mas seu lamento continua sendo sincero e direto, com letras ora melancólicas, ora debochadas. O espírito positivo da banda reaparece intacto na festeira “I Could Be Anything” enquanto o desalento country inconfundível de Gano ressurge na balada “What You Really Mean”. As melodias são despretensiosas, mas certeiras, como o riff de saxofone de “Issues”, que se instala marotamente na cabeça. O álbum não se afasta muito da estrada que o Violent Femmes já traçou, mas mostra um grupo coeso e feliz em fazer música juntos novamente. Tem coisa melhor que isso?