Do impulso a te expelir e a te atrair Da lua girando no céu estática Da ausência do teu peso levitando no meu corpo Da existência de quem sou na presença de quem tu és Do gosto da tua pele no amargo da minha Do medo do teu excesso e da tua falta Em tudo o que sou tu sobras
É chegada a hora! Os smokings alugados, os vestidos lindos (e nem tanto) pendurados nos cabides… A festa da indústria do cinema norte-americano vai acontecer no próximo domingo! E como também é tradicional, não poderíamos deixar de dar os nossos palpites anuais…
#OscarNotSoWhite
Em 2016 a Academia e o Oscar sofreram uma avalanche de críticas em virtude do esquecimento de atores, diretores, produtores, roteiristas e quaisquer coisas negros. A hashtag #OscarSoWhite refletia a falta de representatividade na premiação, que de forma alguma foi causada pela “ausência de bons trabalhos com negros”, como alguns chegaram a querer insinuar. “Straight Outta Compton”, por exemplo, foi lembrado apenas na categoria de Roteiro (e os roteiristas eram dos poucos brancos da produção). “Creed: Nascido Para Lutar” (Creed, 2015) recebeu apenas a indicação de Sylvester Stallone para Melhor Ator Coadjuvante, sendo esnobado nas categorias Filme, Diretor (Ryan Coogler), Ator (Michael B. Jordan) e Atriz (Tessa Thompson). A Academia acolheu as críticas e anunciou algumas mudanças nas regras, visando uma representatividade maior para um futuro próximo. Se foi ou não resultado desse “puxão de orelhas”, fato é que o Oscar 2017 vem muito, mas muito mais bem representativo na questão racial do que no ano anterior. Dentre os indicados na categoria Melhor Filme, “Moonlight: Sob a Luz do Luar” (Moonlight, Barry Jenkins, 2016); “Um Limite Entre Nós” (Fences, Denzel Washington, 2016) e “Estrelas Além do Tempo” (Hidden Figures, Theodore Melfi, 2016) são dirigidos por negros e contam histórias protagonizadas por negros. Há negros indicados em todas as categorias de atuação. Pela primeira vez, em uma delas, há três (Octavia Spencer, Naomi Harris e Viola Davis, como Melhor Atriz Coadjuvante). Há um negro indicado a Melhor Diretor (Barry Jenkins). Pela primeira vez há um negro indicado na categoria Melhor Fotografia (Bradford Young por “A Chegada” (Arrival, Denis Villeneuve, 2016)). Definitivamente esse ano houve uma atenção maior nas escolhas.
Chris Rock, que não foi bem em 2016
A apresentação da cerimônia ficará a cargo do comediante Jimmy Kimmel, que tem a missão (não tão difícil) de fazer um trabalho melhor do que a confusa performance de Chris Rock ano passado. Enfim, saudades da Ellen, a melhor apresentadora disparada do Oscar nos últimos anos.
Antes de começar os palpites (e chutes) vale lembrar alguns detalhes: o Oscar não é um festival particularmente lembrado por critérios artísticos. Ele é uma celebração da indústria do entretenimento e portanto nem sempre os melhores filmes vencem. É diferente de festivais como Cannes, Berlim ou Veneza, onde há uma curadoria artística mais cuidadosa e um júri mais qualificado. O Oscar é um festão mesmo, onde Hollywood celebra Hollywood e o cinema em língua inglesa (e olhe lá) com uma exceção patinho feio que é o Melhor Filme em Língua Estrangiera.
A partir daí, vamos aos nossos palpites:
MELHOR FILME
Damian Chazelle, Ryan Gosling e Emma Stone homenageiam Hollywood, Los Angeles e os antigos musicais
Indicados: “A Chegada” (Arrival, Denis Villeneuve, 2016), “Um Limite Entre Nós” (Fences, Denzel Washington, 2016), “Até o Último Homem” (Hacksaw Ridge, Mel Gibson, 2016), “A Qualquer Custo” (Hell or High Water, David Mackenzie, 2016), “Lion – A Longa Estrada Para Casa” (Lion, Garth Davis, 2016), “Manchester à Beira Mar” (Manchester by the Sea, Kenneth Lonergan, 2016), “La La Land – Cantando Estações” (La La Land, Damien Chazelle, 2016), “Estrelas Além do Tempo” (Hidden Figures, Theodore Melfi, 2016).
Ano passado a vitória de “Spotlight” surpreendeu a todos. Esse ano, no andar da carruagem, surpresa será se “La La Land” não ganhar. Chazelle, que já fez o ótimo “”Whiplash” (2014), produziu um musical que homenageia o cinema e os musicais antigos, temas que são caríssimos aos membros da Academia. Como se não bastasse, seu filme ainda é uma homenagem a cidade de Los Angeles, onde moram a grande maioria dos membros votantes da Academia. Contar no elenco com Ryan Gosling e Emma Stone, dois dos atores mais “queridinhos” do momento, também ajuda. O filme de Chazelle ganhou um caminhão de Globos de Ouro e, bem mais importante, foi bastante premiado nas festas dos Produtores, Diretores, Atores e Roteiristas (as famosas “Guildas”, que são um termômetro bem mais acurado que o Globo de Ouro.
Eu não ficaria triste (bem pelo contrário) se “A Chegada” surpreendesse e saísse com a estatueta. “Moonlight”, bastante elogiado pelos críticos, corre por fora bem como “Manchester à Beira Mar”, que perdeu força no final da corrida. Ainda assim a estatueta deve ficar com La La Land.
MELHOR DIRETOR
Damien Chazelle indica onde Emma Stone deve servir o frapuccino
Indicados: Damien Chazelle (por La La Land), Mel Gibson (por Até o Último Homem), Barry Jenkins (por Moonlight), Denis Villeneuve (por A Chegada) e Kenneth Lonergan (por Manchester à Beira-Mar.
Tradicionalmente essa categoria casa com a de melhor filme. TRADICIONALMENTE, eu disse, nem sempre. Ainda assim, deve ocorrer esse ano e o prêmio deve ficar com Chazelle. Podemos saudar a (justa) indicação de Villeneuve, que fez um filme primoroso de Ficção Científica, gênero que a Academia tradicionalmente relega a um segundo plano. “Até o Último Homem” talvez seja o melhor trabalho de Gibson, que mostra ser um diretor seguro e que sabe o que faz quando suas convicções religiosas não se misturam ao seu trabalho.
As chances de Jenkins e Lonergan são as mesmas de seus filmes (que não são muitas).
MELHOR ATRIZ
Ainda acho que Huppert vai ganhar. Mas escolhi uma foto de Natalie Portman porque sim.
Indicadas: Ruth Negga (por “Loving” (Jeff Nichols, 2016)), Emma Stone (por La La Land), Isabelle Huppert (por “Elle” (Paul Verhoeven, 2016), Meryl Streep (por “Florence – Quem É Essa Mulher” (Florence Foster Jenkins, Stephen Frears, 2016) e Natalie Portman (por “Jackie” (Pablo Larraín, 2016).
A favorita da categoria, já há algum tempo, é Isabelle Huppert. A veterana francesa do excelente “Amor”, de Michel Hanecke, é o centro de “Elle”, que foi o escolhido pela França para concorrer a Melhor Filme em Língua Estrangeira e a sua performance é o que há de melhor no filme. Natalie Portman é considerada a melhor atriz de sua geração e já tem um Oscar em sua prateleira. Há quem diga que a sua Jackie Kennedy é o papel de sua vida.
Um componente político importante pode interferir nessa categoria. A recente rusga pública de Meryl Streep com o presidente Trump pode ser suficiente para que haja uma premiação política na categoria? Alguns acreditam que sim. Só domingo para sabermos.
MELHOR ATOR
“Denzel, meu velho, você vai levar mais essa!” “Eu sei!”
Indicados: Casey Affleck (por Manchester à Beira-Mar), Andrew Garfield (por Até o Último Homem), Denzel Washington (por Um Limite Entre Nós), Ryan Gosling (por La La Land) e Viggo Mortensen (por “Capitão Fantástico” (Captain Fantastic, Matt Ross, 2016).
É uma categoria bem disputada. Casey Affleck venceu quase todos os prêmios da temporada e é um jovem talento. Denzel Washington, porém, é um nome consagrado e venceu o prêmio mais importante da temporada, o troféu de Melhor Ator Principal do Screen Actors Guild Awards. Obrigado a chutar, acho que o prêmio vai para Denzel, esse ano. Uma surpresa seria Gosling, que é muito querido no meio e que pode ser ajudado no caso de La La Land ter aquele efeito furacão e levar uma quantidade enorme de prêmios.
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
“Viola, querida, nós dois ganhamos o Tony por essa história e vamos ganhar o Oscar!” “Eu sei!”
Indicadas: Viola Davis (por Um Limite Entre Nós), Michelle Williams (por Manchester à Beira-Mar), Naomi Harris (por Moonlight), Nicole Kidman (por Lion) e Octavia Spencer (por Estrelas Além do Tempo).
Viola Davis é a primeira mulher negra a ser indicada três vezes a um Oscar de atuação e será grande a surpresa se não sair da festa no domingo carregando sua segunda estatueta. Venceu os principais prêmios da temporada, inclusive o SAG Awards. Michelle Williams já esteve mais cotada, mas perdeu força junto com “Manchester à Beira-Mar”. Nicole Kidman, depois de algum tempo de mais baixos do que altos, volta a ter uma grande atuação. Ainda assim, acho que a única que pode tirar o prêmio de Davis é Octavia Spencer, que além de ter entregado uma atuação maravilhosa em “Estrelas Além do Tempo” tem um carisma único e é extremamente querida pelos seus colegas de trabalho.
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Roteiro Original pode ser o prêmio de consolação de “Manchester à Beira Mar”
Indicados: “Mulheres do Século 20” (20th Century Women, Mike Mills, 2016), “O Lagosta” (The Lobster, Yorgos Lanthimos, 2016), “La La Land”, “Manchester à Beira-Mar”, “A Qualquer Custo”.
Nessa categoria pode vir o prêmio de consolação de “Manchester à Beira-Mar” ou mais um de consagração para “La La Land”. Acho que não escapa desses dois, nessa lógica. Conta a favor de Lonergan já contar com duas indicações no currículo (Conte Comigo, em 2001 e Gangues de Nova Iorque, em 2003), contra a primeira de Chazelle. Conta a favor de Chazelle o “efeito manada” que os prêmios principais (Melhor Filme e Melhor Diretor) costumam provocar.
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Amy Adams (que poderia muito bem ter sido indicada) tenta conversar com os simpáticos heptápodes
Indicados: Lion – Uma Jornada Para Casa, Um Limite Entre Nós, Estrelas Além do Tempo, A Chegada e Moonlight – Sob a Luz do Luar.
Coração e razão num conflito forte, aqui. O coração quer MUITO que A Chegada vença, porque o filme merece todos os prêmios e mais alguns. A razão indica que dificilmente a estatueta careca escapará de “Moonlight”, que apesar de conceituadíssimo pela crítica não deve figurar em outras categorias.
Eu preciso da palavra dita,
sussurrada ou escrita,
tocada ou cantada.
A quero viva,
pulsando na mente
ou pulando da boca,
vindo para mim,
dançando no mundo,
cheirosa e perfeita,
provocando minha curiosidade,
me fazendo de boba.
Eu a desejo –
Inteira,
bem pronunciada, ou
desenhada como manda a gramática,
saciando minhas ânsias,
lavando minhas dúvidas,
gritando bem alto:
Clarice, eu existo.
(Agora, sossega…)
Fall on us
Remind us
Of infinite (im)possibilities
Of freedom and captivity
Bind us
To heaven
To earth
Purple me with all your colors
Just like any
Or no other rain.
Nas páginas de “Placas tectônicas”, a quadrinista francesa Margaux Motin narra os prazeres e dissabores de uma mulher de 35 anos recém divorciada. A personagem em questão é ninguém menos que a própria ilustradora. Baseando-se em experiências pessoais, ela retrata as agruras e as alegrias em ser uma uma mãe solteira à procura de um recomeço.
Com muito humor e perspicácia, a escritora cria sketches que retratam uma mulher verdadeira, ora forte e segura de si, ora frágil e insegura dos seus passos. Entre taças de vinho, ela divide muito dos seus pensamentos com as suas amigas, criando uma versão mais pé no chão e desbocada de Sex and the City. A autora não poupa palavrões, nem situações desconcertantes, dando a real do seu dia a dia, equilibrando-se entre momentos engraçados e emocionantes.
O traço da ilustradora é expressivo e com toques de desenhos da Disney, referência que ela deixa evidente nas estampas das roupas da personagem. Ela também utiliza fotografias como pano de fundo para algumas ilustrações, criando uma conexão de sua arte com a realidade.
“Placas tectônicas” é o primeiro lançamento de Margaux Motin no Brasil e rende boas horas de diversão. Inventivo e realista, o livro é certamente uma boa maneira de entrar no universo dos quadrinhos.
Ao discutir ensino e aprendizagem com xs alunxs da graduação, sempre aparece a teoria do contrato didático. A concepção de contrato didático trazida por Brousseau é relativamente simples: existe um acordo estabelecido entre professorx e alunx que é composto por várias cláusulas construídas no fazer diário e na trajetória da turma (ou do aluno, enfim). Interessante é que nem sempre essas cláusulas necessitam estar explícitas. Exemplo óbvio: não se pode tacar fogo na sala de aula; exemplo não tão óbvio: todo problema de matemática terá no enunciado as informações necessárias para ser resolvido.
Ninguém precisa te dizer que você não pode dar uma de Nero, isso está subentendido nas regras de convívio social e foi construído social e historicamente na interação com outras pessoas que passaram por esse ambiente chamado escola. Sobre o problema de matemática, a problematização (sim, sempre – eu sou um saco, sei disso) consiste em justamente tentar romper essa cláusula e questionar se isso é realmente necessário, provocando que se utilize diversas formas de problemas (com uma solução, com várias soluções, sem solução) para serem discutidos com os estudantes.
“Mas Brunna, ele é um contrato didático por que se refere à sala de aula?” Não exatamente. Ele é mais do que ~sobre a sala de aula~, ele é sobre uma relação específica desse ambiente. Há tantos outros contratos quanto relações possíveis (ou mais ainda, se pensarmos que, em grupo, se cria uma nova dinâmica e, assim, um novo acordo). Logo, esse tal de contrato didático tem uma relação direta com esse incansável ser chamado “professor” e com esse eternamente insatisfeito ser chamado “aluno”.
Esta semana me peguei refletindo sobre os tantos outros contratos existentes nas relações sociais que não a professorx – alunx. Por exemplo, o contrato existente entre “namoradxs”. Pra começar, isso sempre foi confuso pra mim: o que define ser “amigx”, “ficante”, “rolo”, “namoradx” ou “noivx”? Já ouvi que:
Amigx cê não beija – fale por você, meu bem.
Ficante você não quer ficar para o resto da vida – você quis ficar para o resto da vida com todas as pessoas com quem namorou? Gzuz!
Rolo é coisa indefinida que você usa pra quando não consegue colocar a situação em uma definição melhor – tá, essa faz sentido.
E por aí vai… O fato é que todas essas relações se estabelecem a partir de uma palavra imbuída de um significado em um contexto social e, consequentemente, de um contrato – só que a gente não fala muito dele não. Pior ainda é que se assume que esse acordo é igual para todas as relações. Quando uma pessoa te pede em namoro, dificilmente tu vai olhar pra ela e perguntar “mas o que isso significa?”: em geral, ou você está de acordo ou não está em função do que VOCÊ acredita que é um namoro e todas suas implicações, e não no que você e a outra pessoa pensam que deveria ser um namoro. Maluco isso, né? Mas mais louco ainda é você definir e julgar a relação dx outrx, pois você faz isso baseado no que você, que nem está nessa relação, acredita que deveria ser essa relação. Mas, como vimos pela repercussão do vídeo da Jout Jout sobre o fim do relacionamento dela, gente pra apontar dedinhos pra relação dos outros é o que não falta.
Gente, tive uma ideia agora: imagina que louco se a gente não assumisse como a relação dos outros deveria ser? Será que dá? Acho que dá, hein? Eu digo prxs alunxs que devemos questionar as cláusulas desse contrato didático, discuti-las e reconstruí-las com a turma. Acho que tá faltando a gente desconstruir as cláusulas desses outros contratos interpessoais: não com um fim burocrático (não precisa reconhecer em cartório não, tá?), mas para sermos autores desse acordo. Os tempos mudam, as pessoas mudam e esse contrato nunca vai ficar lá, pronto, estático: novos acordos serão necessários e novas relações estão se configurando. Ainda bem, né?