
As much as she weaves her thread into a thousand miles, she is irremediably curious of what there is in the hidden paths she will (not) know if she does (not) get lost.
Site da escritora Clarice Dall'Agnol

As much as she weaves her thread into a thousand miles, she is irremediably curious of what there is in the hidden paths she will (not) know if she does (not) get lost.

Pensa demais,
até tirar a paz.
Coração aflito,
batendo o infinito.
Repreende.
Covarde.
O medo,
que invade.
Não perca
o ponto.
Antes que dê
um nó no conto.
Quero que segures.
Repitas comigo.
Até que se canse.
Não cansa.
Não esquece.
A mim,
prefira.
Eu te quero,
pra toda vida.
Aceita.
Aceito.
Agora.
Eterno.
Ao teu lado.
Estou.

Nesta praia de belezas nada óbvias,
E de humores tão inconstantes,
De ventos avassaladores,
E de esperanças indefinidas,
Da lua que reflete na mesa de vidro da sala, dando um sinal de que retornará quando em êxtase,
De metamorfoses perambulantes,
E de ideias desconcertantes,
De olhos vagando na madrugada,
buscando memórias e engolindo mistérios –
Sim,
nela encontrei de novo meu reflexo, um pouco distorcido,
porém nada encabulado:
era aquela de antes,
mas agora perfumada de coragem, e de histórias de anoitecer.

O quadrinista francês Moebius iniciou sua carreira no mundo das HQs através de histórias de cowboy e tiras cômicas na revista Metal Hurlànt. Mas foi quando o desenhista desenvolveu um traço próprio, complexo e psicodélico, que as atenções voltaram-se à sua obra. Suas histórias passaram a focar em contos de ficção científica com personagens peculiares vivendo em universos fantásticos. Diferentemente da maior parte desse gênero, Moebius não abordava um futuro real e possível, mas sim uma realidade alternativa, como se fosse construído em um sonho.

Desde as histórias mudas do misterioso “Arzach” até o seu maior clássico, “A Garagem Hermética”, Moebius desenvolveu um universo criativo singular e cheio de camadas. Sua história “The Long Tomorrow” serviu de base para o filme “Blade Runner” e o quadrinista foi chamado para contribuir com o visual de alguns clássicos do cinema sci-fi, como “Alien”, “O Quinto Elemento” e uma primeira versão de “Duna”, que acabou ficando no papel – literalmente, pois se tornou o livro “O Incal”.
Para mim, a grande obra de Moebius surgiu com a criação do universo de Edena. Lançado no Brasil pela editora Nemo em seis tomos, “O Mundo de Edena” segue as aventuras de dois personagens, Stel e Atan, dois mecânicos de naves espaciais que acabam encarando várias questões humanas que haviam deixado para trás diante de uma vida imersa em contato com máquinas e distante de sua própria espiritualidade.

O primeiro livro do ciclo de Edena, “Na Estrela”, foi criado como um trabalho para a Citroën no início dos anos 80, mas Moebius gostou tanto do resultado que viu toda uma sequência para a história, criando o que ele chamou de “O ciclo de Edena”. O traço usado no primeiro livro é mais simples do que o desenhista costumava usa na épocar, pois ele estava interessado em experimentar com um desenho mais objetivo e menos rebuscado. Ao longo dos livros, podemos perceber que, assim como a história vai ficando mais complexa, também o traço vai ganhando mais expressividade.
Nas páginas do ciclo de Edena, Moebius derrama muito de suas preocupações em relação ao mundo. As histórias abordam temas diferentes como alimentação, sexualidade, gênero, hierarquia social, desobediência civil, espiritualidade, entre outros assuntos que o escritor considerava importante falar a respeito. Portanto, a obra acabou se tornando um verdadeiro tratado de Moebius sobre o ser humano. Mas o quadrinista aborda cada tema de maneira onírica e, muitas vezes, até cômica, nunca sendo um pregador da verdade. Ao contrário, as histórias convidam à reflexão e são bastante abertas a diferentes interpretações.

Outra coisa muito bacana do ciclo de Edena é que as histórias se conectam a outros livros de Moebius, criando um universo enorme e instigante dento da sua obra. O clássico personagem Major Grubert, de “A Garagem Hermética”, ressurge em Edena, revelando um pouco mais sobre a sua misteriosa figura. Os “narigudos” do conto “To See Naples” também aparecem como uma civilização afastada de sua humanidade, tanto fisicamente quanto espiritualmente, vivendo em uma cidade que chamam de Ninho.
Os seis livros de “O Mundo de Edena” retratam o ser humano voltando a entrar em contato com uma humanidade perdida em meio a uma civilização que desvaloriza a diferença e força todos a uma existência monótona e insatisfatória. É um (ainda) atual reflexo de nosso mundo contado por um dos grandes quadrinistas que já passaram por esse planeta.

O ano de 2016 ficou marcado pelas muitas perdas dentro do mundo da música. David Bowie, Prince, George Michael, entre outros nomes conhecidos, fecharam as cortinas e entristeceram muita gente. Mas não sem antes deixarem um legado duradouro. Dentro dessa ótica do músico que produz um material instigante e permanente, podemos dizer que o ano também teve bons ganhos através de discos lançados por artistas que ainda acreditam que a música pode ser algo mais tocante e profundo do que uma seleção de hits momentâneos e descartáveis.
Selton – Loreto Paradiso
Se eu tivesse que citar apenas um álbum de 2016, certamente seria “Loreto Paradiso”. O mais recente disco da Selton encontra a banda brasileira em seu melhor momento, misturando toda a bagagem musical que eles acumularam ao longo dos anos vivendo nas cidades de Porto Alegre, Barcelona e Milão. As letras passam sem cerimônia pelo inglês, português e italiano, assim como os instrumentais costuram influências de rock, folk, eletrônica, R ‘n’ B, samba e tropicalismo. Uma bela trilha sonora para um utópico mundo globalizado, empático e sem fronteiras.
David Bowie – Blackstar
Muito além de ser um belo disco, “Blackstar” é a grande despedida do camaleão do rock. Recheado de canções estranhas e letras sombrias, David Bowie escreveu seu epitáfio em forma de melodia e promoveu um fechamento incrível para a sua extensa e diversa discografia. Longe de ceder a tendências, o músico dá o seu adeus com uma sonoridade nu jazz/downtempo em um climinha manso e etéreo. Um fechar de cortinas espetacular!
Nevermen – Nevermen
O trio de vocalistas Mike Patton, Doseone e Tunde Adebimpe resolveu unir suas diferentes experiências para ver o que sairia dessa colisão. Do caldeirão de ideias dos três músicos surgiram as canções do disco de estreia da banda: uma gororoba saborosa com pitadas de hip hop, eletrônica, doo-wop, rock e pop. A sonoridade do Nevermen curiosamente fica na corda bamba entre o experimental e o radiofônico, rendendo uma audição ao mesmo tempo surpreendente e assobiável.
Violent Femmes – We Can Do Anything
Depois de mais de uma década sem tocar juntos, o vocalista e guitarrista Gordon Gano e o baixista Brian Ritchie deixaram as tretas de lado e compuseram um novo disco cheio de canções roqueiras acústicas. Apesar de não terem se arriscado muito fora da sonoridade que se espera da banda, o álbum acabou resultando em uma boa seleção de músicas graças ao clima descontraído das sessões de gravação – feitas todas ao vivo no estúdio. Em uma época tomada por canções artificiais e sem alma, é um alívio!
Radiohead – A Moon Shaped Pool
Delicado e melancólico, o novo disco do grupo é mais uma peça no enorme quebra-cabeças do Radiohead. Mais interessada em confundir do que explicar, a banda mais uma vez apresenta músicas inspiradas, com construções difíceis de serem compreendidas logo nas primeiras ouvidas. A grande sacada de “A Moon Shaped Pool” é a participação da London Contemporary Orchestra, que acrescenta um novo ingrediente à sonoridade sempre inusitada do Radiohead, dando um clima mais cinematográfico e dramático às melodias.
The Heavy – Hurt & The Merciless
Menos pesado e menos diverso que os álbuns anteriores, “Hurt & The Merciless” encontra o Heavy em um momento mais funk e soul do que nunca. O disco soa mais ao vivo do que os anteriores, contando com menos samples e mais instrumentos reais. Eu demorei um pouco para me render a esse disco, eu confesso, mas as composições do quarteto continuam de primeira qualidade e, apesar de não ser o melhor trabalho dos caras, é certamente um discaço!
Kamasi Washington – The Epic
O disco de estreia do saxofonista Kamasi Washington deixa claro que o jazzista não está para brincadeira. O norte-americano reuniu 14 músicos, uma orquestra de 9 integrantes e um coro de 14 vozes (que inclui a cantora brasileira Thalma de Freitas) para dar vida a um jazz psicodélico e grandioso. As composições originais unem o melhor do jazz clássico com diversos outros gêneros contemporâneos. É difícil não ver Kamasi Washington como o novo Miles Davis.
The Claypool Lennon Delirium – Monolith of Phobos
A junção do vocalista/baixista do Primus com o filho de John Lennon com Yoko Ono não poderia dar em outra coisa: uma viagem psicodélica com sabores de Pink Floyd, Beatles, Mutantes e Ween. As músicas mesclam as boas ideias melódicas de Sean Lennon com a sagacidade de Les Claypool nos arranjos inusitados e o resultado final é uma bela seleção de deliciosas esquisitices. Ao vivo a dupla tem mandado muito bem também, com excelentes músicos de apoio caprichando nas apresentações.
Daan – Nada
Usando um anagrama de seu próprio nome, o músico belga nomeou seu mais recente disco de “Nada”. O título faz referência ao pano de fundo das novas gravações, realizadas nas silenciosas paisagens da Catalunha, Focando no seu lado mais acústico, Daan apresenta um conjunto de canções melancólicas em arranjos simples. As composições foram criadas sob a condição de não serem muito alteradas, tanto em instrumental quanto nas letras, resultando em um disco natural, sem ser over pensado. Ainda que predominantemente acústico, o lado mais dançante do músico também dá as caras em faixas como a mântrica “Wheel” e a almodovaresca “Bala Perdida”, cantada em espanhol.
Ween – God Ween Satan: Live
Eu não poderia deixar de fechar a lista com esse belo vinil do Ween, que serviu de trilha para a minha última semana de 2016. Gravado ao vivo em 2001, o álbum é um registro do show que a banda fez tocando na íntegra o seu disco de estreia, “God Ween Satan”. Incluindo algumas músicas raramente (ou até nunca antes) tocadas ao vivo, o LP é uma delícia para os fãs da loucura do Ween. Não tem vídeo dessa apresentação, então vai aqui uma performance em outro show de um dos clássicos do disco, “Fat Lenny”.

Por mais que ela enxergue o fio dourado no caminho a sua frente, e o sinta entre seus dedos, ela sempre desejará a sua falta.

Espia a vida lá fora,
pela fresta da janela.
Esconde o que sente.
Esconde o que pensa.
Esconde o que vê.
Esconde o que crê.
Esconde.
Você.
Aperta no peito.
Deixa no canto,
o canto.
E sangra.
Sozinho.
Por dentro.
Inteiro.

Nossa amizade é assimétrica,
e por isso, tão bela.
(Disse ela, no finalzinho da primavera).

Achei que era carruagem, era carroça
Príncipe de nada, rei da troça
Sambando sem molejo, maldizendo a bossa
Achei que era carruagem, era carroça
Achei que era castelo, era palhoça
Um guerreiro tão belo, uma armadura que coça
Bancando o bobo da corte, mergulhando na fossa
Achei que era castelo, era palhoça
Achei que era permitido, talvez não possa
Dar a mão ao inimigo, fazer vista grossa
Então me ponho de castigo, era uma vez essa joça
Achei que fosse consumado, falha nossa!…