Clarice Dall’Agnol

Literatura

Bordini, 28

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imagem: Isabel Dall’Agnol

Quantos pés
passaram?
E mãos
abraçaram?
E bocas
suspiraram?
E beijaram?

Quantos
sussurros
voaram?
E lábios
sopraram?
E lágrimas
gritaram?
E sossegaram?

Quantos sonhos
roubados.
Tesouros
encontrados.
Devaneios
acomodados.
Planos
despertados.

Pulos.
Prantos.

Alegria!
Viva!
A vida.

Que lástima!
Esquece!
E passa.

Tua lembrança cerca
meu pensamento.
Ainda sangras
na minha alma.

Fazes parte do meu
contentamento.
E descontentamento.

És tristeza.
Desgosto.
Sabor.
E glória.

És pedaço
de mim.
E fazes
de mim.

Esmero.
Pondero.
E te quero.
Para sempre.
Parte de mim.

Música

Angel Dust – 25 anos de um disco de contos

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Vou começar sendo bem direto ao ponto: Angel Dust é o melhor disco do mundo.

Eu lembro perfeitamente bem da primeira vez em que escutei o álbum. Era inverno em Porto Alegre e eu fui até a extinta loja Melody Laser pois haviam me avisado que o aguardado novo disco do Faith No More estava na mão. Eu e meu amigo Gustavo B.G. pegamos o CD e fomos até uma cabine onde se podia escutar os discos antes de comprá-los. Nós não estávamos preparados para o que sairia daquelas caixinhas. As risadas maníacas em “Land of Sunshine”, o piano country de “RV”, as cheerleaders cantando o refrão de “Be Aggressive”, a dance japonesa de “A Small Victory”, uma música de consultório de dentista fechando o disco… Eu nunca tinha escutado nada parecido com aquilo tudo. Minha impressão era de que tinham reunido todas as sonoridades possíveis em um mesmo pacote. Era como chegar em uma confeitaria e pedir um bolo com todos os sabores. Eu senti minha cabeça expandir, meu cérebro pulsar, o sangue correr mais rápido nas veias e aquele som tomar conta de mim para sempre.

Foi amor à primeira ouvida.

Angel Dust é o resultado de uma banda no topo da sua criatividade, experimentando com diversos gêneros, ritmos e arranjos, sem limites impostos. As músicas são densas, cheias de camadas de teclados, guitarras, baixos, vocais e muitos samples. Há tantas ideias acontecendo em cada canção que é possível descobrir melodias e sons mesmo depois de trocentas audições. O Faith No More estava deixando claro que não queria apenas fazer funk metal, a banda estava disposta a se aventurar nos mais diversos universos musicais. Não havia regra. A bem da verdade, essa foi a época em que a banda mais nadou contra a correnteza. Se a regra da vez era fazer clipes simples e sujos, a banda decidia filmar um vídeo super produzido e pop (“A Small Victory”). Se o rock era dominado por letras machistas, o Faith No More escrevia uma letra gay (“Be Aggressive”). Se o mundo queria uma cover do Black Sabbath, eles gravavam uma versão do Commodores (“Easy”). Essa postura questionadora da banda sempre me fascinou e, em Angel Dust, ela chegava ao ápice.

Todos os músicos da banda estão afiados em Angel Dust, mas é inegável que o grande salto criativo no disco fica por conta do vocalista Mike Patton. O cantor decidiu ir além das suas possibilidades de letrista e compositor, tratando cada canção como se fosse um conto. Em cada faixa, ele interpreta um personagem e canta como se fosse ele. O resultado é extremamente eficiente, fazendo com que cada música tenha uma voz completamente particular.

Angel Dust é um disco de contos.

“Land of Sunshine” dá início ao disco com o pé na porta, como sempre foi de costume na discografia da banda. Pesada, com teclados climáticos e baixo funkeado, a faixa dá o tom caótico do álbum. A letra de Patton é uma mistura de perguntas tiradas de um questionário de cientologia, frases encontradas em biscoitos da sorte chineses e referências a telemarketing e auto-ajuda. Patton ri (literalmente) do desespero das pessoas ao depositarem sua fé em qualquer coisa que as faça acreditar que são felizes.

“Caffeine” é uma das prediletas da banda e dos fãs, com suas guitarras pesadas, baixo hipnótico e clima paranoico. A letra foi escrita durante um experimento que Patton fez consigo mesmo, ficando alguns dias seguidos sem dormir, à base de café e televisão. Aqui o cantor parece apontar para pessoas falsas, que seguram uma pose e um discurso para agradar o mundo.

“Midlife Crisis”, o primeiro single, fala sobre a criação de falsas emoções. Patton revelou que a música se baseou um pouco na cantora Madonna em uma época em que ela parecia estar desesperada por atenção. O destaque aqui vai para o baixo de uma nota só tocado por Bill Gould. Durante todos os versos, o baixista toca repetidamente um Mi, marcando o tempo insistentemente como uma dor de cabeça pulsante. Segundo Gould, quando ele mostrou o baixo para o produtor do disco, Matt Wallace, ele achou que o baixista estava de sacanagem. Não estava. Bill sempre foi genial de maneira minimalista.

“RV” é uma balada country conduzida pelo piano de Roddy Bottum, com guitarras havaianas e um baixo tocado em ritmo preguiçoso. Cenário sonoro perfeito para o personagem white trash de Mike Patton. Um cara que vive com sua família em um trailer, bebendo cerveja e assistindo TV. O personagem não espera nada de sua vida e sabe que vai deixar o mesmo vazio de herança para os seus filhos. Levei pelo menos uma década para entender que o personagem acaba se suicidando enforcado com um cinto – se duvidarem, me chamem num chat que eu explico.

“Smaller and Smaller” é a única faixa do disco que nunca foi tocada ao vivo. Segundo o baixista, o ritmo arrastado e os muitos samples tornaram ela não muito apropriada para um show. A letra parece ser uma reflexão sobre as relações de poder entre conquistadores de terras e os nativos indígenas, tendo inclusive samples de cantos de índios norte-americanos.

“Everything’s Ruined” é um rock como só o Faith No More consegue fazer. A estrutura não é comum, tendo várias partes diferentes e nenhum refrão. Cada instrumento brilha nessa faixa, dos teclados crescentes de Roddy Bottum à bateria africana de Mike Bordin. Eu nunca vi o Patton falando sobre essa letra, mas para mim é sobre a exploração de crianças e adolescentes pelos seus pais, sacrificando a infância dos pequenos para encher os bolsos de dinheiro.

“Malpractice” é uma faixa de rock industrial, pesada e cinematográfica, com samples de orquestra e alarmes disparando. O personagem da música é uma mulher viciada em fazer cirurgias porque adora sentir as mãos do médico dentro dela. Yep!

“Kindergarten” é, talvez, a que mais se aproxima dos discos anteriores da banda, mesclando vocais de rap com um refrão melodioso em cima de um instrumental funk rock. Na letra, Patton fala sobre pessoas que sentem-se eternamente adolescentes por serem tratadas como tal. Creio que ele esteja falando especificamente de rock stars e se incluindo nessa lista.

“Be Aggressive” inicia com um órgão de igreja para depois ser conduzida por uma guitarra a la Jimi Hendrix e uma letra peculiar… Escrita por Roddy Bottum, que saiu do armário na época, ela fala sobre sexo oral entre homens. O intuito do tecladista era provocar o universo machista do rock, e o vocalista Mike Patton topou o desafio de cantá-la. Além disso, Patton trouxe a ideia de incluir um refrão entoado por cheerleaders, o que deu uma outra vida à canção. Um clássico absoluto!

“A Small Victory” é um rock dançante com toques orientais e samples típicos de música eletrônica, algo totalmente uncool para uma banda roqueira fazer na época. O riff, que sempre me pareceu criado em alguma escala oriental, é uma simples sequência de notas na escala mais básica do rock, a pentatônica. Eu apostaria que é uma criação do baixista Bill Gould. A letra é sobre a obsessão das pessoas em ganharem mesmo nas coisas mais superficiais, incluindo vitórias esportivas. Patton conta que seu pai era treinador de basquete, portanto ele cresceu com essa cobrança nas costas de ser sempre um vencedor.

“Crack Hitler” é Donna Summer numa bad trip. Uma disco com teclados de filme de aventura e vocais cantados num megafone. Nela, Mike Patton assume o papel de um traficante de drogas – supostamente uma figura da vida real – que se iguala a Hitler e vê a sua vida como a de um super-herói.

“Jizzlobber” é um pesadelo em forma de música. Riffs pesados, vocais berrados e teclado de filme de terror. O personagem está na cadeia, condenado a anos de reclusão, distante de tudo o que mais lhe apraz. A faixa termina com Patton cantando em desespero: “Eu sou o resultado do que eu fiz. Desculpe-me!”. Enquanto os vocais vão baixando, um imponente órgão de igreja surge com um coro dramático. Redenção?…

E eis que o acordeon de “Midnight Cowboy” surge como um anjo. Depois de você ter sido tragado, pisoteado, cuspido e ter seu suco de laranja cagado, a última canção fecha o disco em clima tranquilo de fim de filme, com os créditos subindo enquanto você está lá sentado na cadeira, ainda abalado pelo que acabou de vivenciar, sentindo que a sua vida nunca mais será a mesma.

E não será.

Literatura

Sob o olhar de Angelina

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imagem: Cassiano Rodka

“Querida Mamãe,

Você não pode parar de fazer poemas. Que ideia maluca é essa?

Você diz que não é falta de inspiração, mas sim falta de vontade. Pois eu acho que não é nada disso. Acho que é só questão de você voltar a abrir seus olhos. Esses olhos que você gosta tanto de maquiar. Esses olhos antes contidos, hoje tão curiosos…!

Você sempre me conta que era uma menina muito tímida, tão diferente de mim. Sendo assim, você observava todo mundo quietinha, e depois registrava tudo no seu diário. Ali, você começou a ser escritora, sem perceber. Quando eu os li, pensei (e te disse!) que você poderia ter sido uma amiga minha, caso existisse máquina do tempo e nos encontrássemos! E eu iria te ajudar a ser menos tímida, e juntas inventaríamos belas histórias.

Hoje você não é mais tímida: é professora, e escreve coisas lindas que às vezes fazem as pessoas chorarem. E agora até canta e toca violão conosco. Mamãe, fala a verdade: você enganou aquela menina tímida, né? Ou melhor, mesmo sem máquina do tempo, nos tornamos grandes amigas, e eu te ajudei a ser como você é hoje! Confesso: quando “morei” na sua barriga por nove meses, plantei uma sementinha de coragem…! E então, quando eu nasci, você começou a se transformar na mulher que é hoje: aquela que semeia todos os dias poesia na minha imaginação.”

Quadrinhos

Clássicos X-Men: “Crepúsculo dos Mutantes” e “A Sombra de Sauron”

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                Nos últimos anos muita gente tem entrado no universo dos quadrinhos. O sucesso das versões do cinema e das séries fez mais gente querer conhecer o Deadpool, o Demolidor, o Groot, a Arlequina ou o Flash. Nessa hora, é normal ficar um pouco perdido e há aquela pergunta: por onde começar? São cinquenta anos de quadrinhos da Marvel e setenta anos de DC! São tantas possibilidades que muita gente desiste antes de começar, sentindo-se intimidado.

                A editora Salvat, há uns três anos, tem feito um trabalho muito bacana para quem está entrando nesse universo. Eles lançaram a coleção “Graphic Novels Históricas”, uma coleção grande em que alguns dos principais clássicos dos 50 anos da Marvel foram publicados em excelente qualidade e por um preço honesto. Desde clássicos mais antigos, como “A Última Caçada de Kraven” (Homem-Aranha de J. M. DeMatteis), “A Queda de Murdock” (Demolidor de Frank Miller) e “O Último Viking” (Thor de Walt Simonson) até algumas publicações bem recentes, como vários títulos do Capitão América de Ed Brubaker (“O Soldado Invernal”, “Tempo Esgotado”), os X-Men de Joss Whedon (“Superdotados”, “Perigoso”) e os Vingadores de Brian Michael Bendis (“A Queda”, “Motim”, “Guerra Civil”, “Dinastia M”).

                O sucesso da coleção fez com que a Salvat, além de reimprimir os primeiros lançamentos, criasse continuações da série, com o subtítulo de “Clássicos”. Essa expansão tem muito material publicado no Brasil pela primeira vez, além de muita coisa publicada pela primeira vez em um formato decente, sem os cortes e redimensionamentos que a Abril fazia para as histórias caberem em suas revistas. Tem muito material do próprio Stan Lee (“Origens – Década de 1960”) e parcerias dele com John Romita (“Homem-Aranha Nunca Mais!”) e Jack Kirby (“Os Inumanos” e “A Vinda de Galactus”). Há muita coisa boa na coleção e, se você está começando do zero, não é uma ideia ruim cogitar comprá-la toda.

                Hoje eu vou falar especificamente de dois encadernados dessa expansão, os volumes XV e XVI. Essas edições são estreladas pelos X-Men, num momento bem singular da história dos heróis mutantes. Os X-Men surgiram em 1963, criados por Stan “The Man” Lee e Jack “King” Kirby. A ideia era uma revista com protagonistas jovens e que pudesse, mesmo que por meio de uma metáfora, discutir as questões sobre preconceito que chacoalhavam os Estados Unidos naquela década. A revista dos mutantes nunca foi um grande sucesso de vendas e equilibrou-se até 1970, quando foi cancelada. Em 1975 a série sofreu um reboot nas mãos de Len Wein (um roteiristas extremamente subestimado pela sua contribuição aos quadrinhos) e Dave Cockrum, que introduziram nos X-Men personagens como Colossus, Noturno, Tempestade e Wolverine, que seriam desenvolvidos na longa passagem de Chris Claremonth e John Byrne, os grandes responsáveis pelo sucesso que os X-Men são hoje, no final dos anos 70 e início dos anos 80 através de sagas como a da Fênix Negra e “Dias de Um Futuro Esquecido”.

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Neal Adams deu sequência ao trabalho de Jim Steranko num estilo novo de diagramação de quadrinhos.

                Por mais que a fase Claremonth/Byrne seja incensada como a origem do sucesso da turma do Professor Xavier, o material publicado pela Salvat não fala desse período. Bem pelo contrário: “Crepúsculo dos Mutantes” (volume XV) e “A Sombra de Sauron” (volume XVI) trazem as últimas histórias dos X-Men antes do cancelamento em 1970. Ao contrário do que se possa pensar, os títulos são excelentes.

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O “novo estilo” deu mais dinamismo e movimento aos quadrinhos, aproximando-os do cinema

                No final dos anos 60, o retorno que as editoras recebiam sobre suas revistas era muito menos instantâneo do que hoje. Não havia a fluidez e o imediatismo que só a internet e as redes sociais proporcionam e portanto as decisões eram muito mais lentas. O roteirista Don Heck conduzia as histórias dos mutantes já fazia algum tempo e as tramas estavam repetitivas, dando voltas em torno de Magneto e da sua Irmandade de Mutantes. As vendas baixas levaram Stan Lee, então Editor-Chefe da Marvel, a decidir pelo cancelamento da revista. Claro que na época isso não era algo simples: cancelar uma revista implicava em colocar outra no seu lugar e isso envolvia um processo bastante demorado. O volume XV da série da Salvat começa na edição 50 de “X-Men”, quando o veterano Arnold Drake assumiu o roteiro e o novato Jim Steranko tornou-se responsável pelos desenhos. Steranko deu uma renovada bacana no layout das revistas e é um dos responsáveis pela transição do estilo mais clássico de desenhistas como Kirby e Ditko até o traço mais cinematográfico (que pauta os quadrinhos ainda hoje) de Byrne, Miller e Pérez. Na metade do volume temos uma grata surpresa: já que a revista iria ser cancelada, o sempre esperto Stan Lee deu os lugares de roteirista e desenhista para dois jovens e deu carta branca para eles. Estamos falando do roteirista Roy Thomas e do desenhista Neal Adams.

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A diagramação revolucionária de Neal Adams

     Thomas e Adams foram, juntos, responsáveis pelas edições de 54 a 66 da revista “X-Men”, que então foi cancelada. Sabendo que poderiam fazer o que quisessem, Roy Thomas criou novos X-Men (Polaris, Destrutor, Banshee, Solaris), inseriu elementos importantes na história dos Sentinelas, criou inimigos como o Monolito Vivo e Sauron e trouxe de volta o Professor Xavier, que estava morto fazia algum tempo. Já Neal Adams continuou o trabalho de Jim Steranko e fez com que o título dos X-Men se tornasse bastante inovador, tanto na diagramação quanto nos traços dos próprios personagens. Adams modificou alguns dos uniformes dos X-Men, como o do Anjo, criando alguns designs que seguem sendo usados até hoje.

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O antigo uniforme amarelo (e azul, e vermelho, e preto) do Anjo e a repaginada feita por Adams

     Apesar da visível melhora na qualidade das histórias, a repercussão das mudanças chegou tarde demais e a revista foi cancelada no número 66, que fecha o volume XVI. É interessante perceber, no entanto, que a fase Thomas/Adams (e Drake/Steranko, também) foi base e inspiração para a grande fase de Chris Claremonth e John Byrne, segundo eles próprios. Além de ser importante para os X-Men, os dois volumes retratam um momento bastante singular da indústria dos quadrinhos, com a velha guarda da Marvel (Lee, Ditko, Kirby) passando o bastão para os jovens que revolucionaram o Universo da Casa das Ideias. Neal Adams, depois dos X-Men e em parceria com Dennis O’Neil, foi o responsável pela revitalização do Batman e pela fantástica série do Arqueiro Verde com o Lanterna Verde. Roy Thomas foi roteirista dos Vingadores durante muito tempo (inclusive sendo o responsável por clássicos como “A Guerra Kree-Skrull”), foi o responsável pela adaptação de “Conan” para os quadrinhos e pela criação de personagens como o Motoqueiro Fantasma. Em 1972 sucedeu o próprio Stan Lee como editor-chefe da Marvel, cargo que ocupou até 1974. Nos anos 80 trabalhou na DC em títulos como Mulher Maravilha, Sociedade da Justiça e Comando Invencível. Desde meados dos anos 90, Thomas dedica-se a quadrinhos de caridade e a títulos alternativos.

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Destrutor (Havok) foi um dos personagens criados por Thomas. O visual minimalista preto e branco de Adams foi pouquíssimo alterado até hoje.

     Para quem gosta dos X-Men e quer conhecer um pouco da rica mitologia dos quadrinhos dos mutantes, esses dois volumes são um prato cheio e oferecem uma alternativa aos clássicos que são sempre citados, como “Dias de Um Futuro Esquecido” ou a “Saga da Fênix Negra”.

Piras

Do moletom

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imagem: Cassiano Rodka

Faz uns dias li uma reportagem de um cara da comunicação relatando uma experiência no trabalho. Esse cara trabalha em uma agência de publicidade e tem uma colega que, supostamente, não é tão eficiente quanto ele, pois ela demora mais para fechar os contratos com os clientes. Porém, ao trocarem as assinaturas dos e-mails e ele passar a responder como se fosse ela, ele viveu um inferno de questionamentos (que antes não eram feitos) sobre as suas decisões para as campanhas. Ou seja, a moça não demorava mais para fechar os contratos por ser ruim no seu trabalho, mas porque ela era consideravelmente mais questionada e tinha que dar mais explicações do que o cara sobre cada coisa que ela fazia. O cara ficou chocado e revoltado com aquilo e a colega disse que isso era normal e já tinha acontecido várias vezes. E eu, leitora, não entendia como o cara não via isso acontecer com a sua colega.

Aí eu fui trabalhar de moletom semana passada. Mais especificamente, fui com uma calça jeans rasgada, um tênis tipo botinha super bacana, um moletom do David Bowie e uma touca (e eu sou professora numa universidade federal ~ui~). Nesse dia, eu tinha aula com uma turma que já foi minha semestre passado e ouvi várias coisas sobre o look: que eu parecia um “rapazinho”, ou que eu tenho uma capacidade grande de mudar de estilo, ou, ainda, que essa roupa tinha muito a ver com a minha personalidade – nem eu consigo dizer isso, não sei como os alunos conseguem. Enfim, segui minha aula normalmente. Exercícios feitos, materiais manipulados, alunos com várias dúvidas: nada de novo no fronte. Mais um dia de trabalho, mesmo eu estando de moletom.

Aí um colega – ressalto: um colega homem – passou pela minha sala, comentou que eu estava *estilosa* e eu brinquei que hoje tinha “chutado o balde e vindo de moletom”. Ele não entendeu o que eu queria dizer e falou que usava moletom o tempo inteiro. Naquele momento eu entendi o cara da agência. Eu tive que explicar pro meu colega que um homem usar tênis no trabalho é algo normal; já uma mulher, não – mulher usa sapatilha, bota, sandália. Um homem usar camiseta de banda é normal; uma mulher, não. Camisa, algo com um corte mais ~feminino~ ou um vestido, a moça não tem? Tive que verbalizar que ele vir de moletom não é nada de mais, mas uma mulher não usar jaqueta, blazer ou casaquinho é.

Aqui se mesclam os (pré)conceitos do que é ser mulher e do que é ser mulher e professora universitária. Eu sou confundida com aluna o tempo todo. Eu recebo olhares desconfiados sobre a roupa o tempo todo. Colegas já vieram abaixar a minha saia porque acharam curta demais e um batom vermelho ainda causa muitos comentários do tipo “hoje tá pela maldade” em um ambiente universitário em pleno 2017. Socorro!

Quando eu comecei a dar aula, talvez pela insegurança do início da profissão ou por ser uma novinha de 18 anos, sentia a necessidade de provar algo. Precisava mostrar pra todxs que eu era a professora e que eu sabia (pelo menos em parte) o que eu estava fazendo. Mas, hoje, eu não tenho mais saco: hoje eu vou com a minha camiseta do Star Wars, uso meus batons intensos, vou de tênis, bota, sapatilha ou o que eu quiser. Estou bem com isso, vlw flw? Mas a questão não é essa. A questão é até quando as mulheres ainda terão que provar alguma coisa, seja numa agência, seja numa sala de aula pelo simples fato de serem mulheres?

É revoltante nas reuniões de departamento ainda se ver (e muito!) bropriating e mansplaining, ainda mais em contextos como o meu em que se tem quase 40 pessoas na reunião, sendo quatro homens no máximo. Por que ninguém questiona a seriedade do meu colega que vem de moletom? Por que ninguém questiona a seriedade do meu colega at all, independente do que ele veste, enquanto as mulheres têm que provar que são sérias e competentes mesmo estando de terninho? Por que ninguém questiona o conhecimento de Matemática dos meus colegas homens? Porque eles, simplesmente, são homens.

É, galera… é institucionalizado. É geral. É todo dia. E é por isso que a luta é constante e a revolução é necessária, que seja começando por um moletom.

Literatura

Mini noia noturna (ou uma cartinha de amor para Angelina ausente)

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imagem: Cassiano Rodka

Aqui, vendo esse filminho mental
dos teus momentos de liberdade pre-teen,
Com a certeza de que qualquer preocupação é só em razão dessa quantidade imensa de amor incondicional que tenho por ti.
Dorme bem, filha minha,
Aí longe,
Mas pertinho do meu pensamento,
Juntinho do meu ninho
(este, que nunca se apaga),
que te acolherá no infinito,
ou até meu anoitecer.