
Having always strived not to settle her steps,
she never quite understood the need to grow roots.
Site da escritora Clarice Dall'Agnol

Having always strived not to settle her steps,
she never quite understood the need to grow roots.

Christopher Nolan é ambicioso, isso não se pode tirar dele. Como quase todo fenômeno das mídias de massa desses meados do século XXI o fervor dos seus admiradores só pode ser comparado com a intensidade dos seus detratores. Tentando deixar as paixões um pouco de lado, o que sobra é um diretor com qualidades difíceis de serem conjugadas. Ao mesmo tempo em que consegue arrastar multidões aos cinemas, ele consegue fazer um cinema indubitavelmente autoral e de uma qualidade artística muito superior a dos blockbusters em geral que andam pelas telonas por aí.
“Dunkirk” (2017) foi bastante elogiado pela crítica e em duas semanas já recuperou o investimento dos estúdios. Mais um sucesso, portanto, do diretor de Interestelar (2014), A Origem (Inception, 2010) e da trilogia Batman (2005, 2008 e 2012), que mais uma vez comprova seu talento para fazer dinheiro sem abrir mão de fazer cinema.

A Batalha de Dunquerque foi um dos pontos importantes na primeira parte da Segunda Guerra Mundial, durante a expansão nazista. A operação britânica para retirar seus soldados e aliados da França ocupada foi fundamental para que posteriormente os aliados, reorganizados e reforçados, pudessem contra-atacar a partir da Normadia e derrotar a Alemanha nazista. Nolan, que é também o roteirista (dessa vez sem a companhia do irmão), resolveu contar uma história de guerra, mas não uma história da Segunda Guerra. Dunquerque, a batalha, acaba sendo apenas um pano de fundo para que o cineasta exponha suas angústias e conte suas histórias. O roteiro de Dunkirk é simples: soldados britânicos na praia francesa, acossados pelo inimigo, esperam pelo resgate. Um barco civil parte da Inglaterra para resgatar os soldados. Um grupamento de caças britânico decola para dar cobertura para a operação de resgate. A partir daí, com pouquíssimos diálogos, Nolan usa a tensão como um fio condutor de três histórias que se juntarão em algum momento. A ênfase do diretor é nos dramas individuais, e não no grande confronto no qual eles estão envolvidos. Chama a atenção, por exemplo, o fato de que, durante o filme inteiro, não vermos suásticas ou bandeiras da Alemanha e sequer escutarmos as palavras “Alemanha”, “Nazista” ou “Hitler”. Os inimigos são quase etéreos, são fantasmas. Isso, além de ser um recurso de Nolan para manter o foco nas histórias que ele quer contar, também serve para evitar o maniqueísmo fácil que perpassa muitos filmes que se passam na Segunda Guerra.
A narrativa de Dunkirk usa recursos dos quais Nolan gosta bastante e com os quais sabe trabalhar como poucos. De início, ele avisa: para os soldados na praia, uma semana. Para o barco, um dia. Para os caças, uma hora. O diretor consegue lidar com muita naturalidade com os diferentes tempos se desenrolando, como já havia feito com maestria em “A Origem”. Ao contrário do que poderia acontecer, não há confusão e sempre fica claro o que está acontecendo. Além da questão dos tempos, Nolan usa e abusa do som para construir suas tensões. A trilha sonora é um dos melhores trabalhos de Hans Zimmer em muito tempo. É justo dizer, aliás, que a trilha do compositor alemão é tão protagonista do longa quanto alguns dos personagens que são apresentados em tela. É da música a responsabilidade de nos deixar constantemente inquietos e nunca relaxados na poltrona. Zimmer cumpre essa função com excelência.

Nolan é conhecido como um diretor detalhista, e o cuidado dele com o som em “Dunkirk” merece atenção. Durante todo o filme há um “tique-taque” quase constante, que serve para marcar o tempo e para nos deixar impacientes, como estavam os soldados na praia esperando o resgate ou aqueles que atravessavam o Canal da Mancha para resgatá-los também. Tanto a mixagem quando a edição de som do filme são candidatas sérias a todos os prêmios técnicos possíveis. Elas são parte do que faz “Dunkirk” um desbunde sensorial e, principalmente, dos motivos pelos quais vale a pena assistir o longa no cinema, de preferência em uma sala com um som potente e bem regulado. Esse, aliás, é talvez um dos grandes méritos de Chris Nolan hoje: ele é um realizador capaz de fazer um filme que realmente merece ser assistido no cinema. Vivemos num tempo em que o cinema como hábito, como passeio, como lugar vem sendo contestado. Mídias e plataformas alternativas crescem. As pessoas assistem filmes em casa, on demand, no computador, na tela do celular. E, se é verdade que não faz diferença ver o último Woody Allen em 4k e com som Dolby ou na tela do seu telefone, não podemos dizer o mesmo sobre Nolan. Os filmes que ele faz são de tal forma um espetáculo visual e sonoro, que justificam a experiência da sala de cinema por si só.

Bagunce
a minha alma.
E rompe
o silêncio.
Invade
o meu abraço.
E tome
o meu peito.
Roube
os meus carinhos.
E sugue
os meus beijos.
Arranque
meus segundos.
Alimente
meus anseios.
Estique
meus desejos.
Grude
na minha pele.
Espero-te.
E quero-te.
Rogo por teus olhos,
enquanto sangro
esperança.

“Não a dúvida, a certeza é que enlouquece… Mas é preciso ser fundo, ser abismo, filósofo para assim sentir… Todos nós tememos a verdade…” Ecce Homo, Nietzsche
Ele sabia que a certeza estava ali, à sua espera, atrás da pesada porta que costumava ranger enquanto abria. Apenas um pedaço de madeira espesso entre ele e o que deveria ser – a verdade.
Mas era a dúvida que mantinha sua mão a caminho, num ir e vir, avanço e recuo, como na dança das marés e na guerra.
A vontade de girar a maçaneta e ver trancava-se na possibilidade de eternamente imaginar.

Na cidade de Genebra, um quadrinista encontra uma garota que o faz se sentir vivo novamente. Como todo novo amor, ele transforma o mundo ao redor e faz a vida valer a pena. Mas há algo com o qual ele não contava: sua amada possui HIV.
A graphic novel de Frederik Peeters narra a história verdadeira do seu encontro com Cati, sua atual esposa, e toda a jornada emocional que os dois passaram para aprender a viverem juntos. O texto é leve e realista, e o traço de Peeters é simples e preciso nas intenções, alternando diálogos corriqueiros e monólogos aprofundados com belas cenas de puro silêncio.

De forma poética e objetiva, “Pílulas Azuis” nos convida a acompanhar vários momentos íntimos entre os dois personagens. Há épocas de dúvidas e certezas, medo e segurança, alegrias e tristezas, ilustrando vários altos e baixos do cotidiano do casal, sem papas na língua na hora de mostrar as verdades de sua história. Ao mesmo tempo em que Frederik Peeters mostra as dificuldades em se conviver com a doença, ele desmistifica o monstro que as pessoas ainda enxergam ao se falar no vírus. Isso acontece principalmente sob a lente do personagem tranquilo e debochado do médico, que sempre surge para informar e firmar os pés do casal no chão.
Além dos protagonistas, nós somos apresentados também ao filho de Cati, também soropositivo. Através do pequeno, observamos as dificuldades não só de encarar a doença com pouca idade, mas também de lidar com o divórcio e a entrada de um padrasto em sua vida.
“Pílulas Azuis” é uma leitura deliciosa e cativante que se destaca pela sinceridade na hora de tratar de um assunto tabu, uma obra que nos lembra da força que o amor tem quando desafiado pelos mais diversos obstáculos.


Mike Patton sempre surpreende. Depois de uma sequência de composições para trilhas sonoras e discos orquestrados de agradar até a sua mãe, surgiu a notícia de que Patton se aventuraria em uma banda de hardcore. O grupo em questão é o Dead Cross, formado pelo baterista Dave Lombardo, do Slayer, o guitarrista Michael Crain e o baixista Justin Pearson, ambos membros do Retox. Depois de excursionar um tempo com o vocalista Gabe Serbian, do Locust, a banda anunciou que haveria uma mudança na formação. Os vocais ficariam por conta de Mike Patton, parceiro de Lombardo no Fantômas.
É fácil afirmar que a entrada do cantor adicionou cores completamente diferentes às músicas. No YouTube é possível ver alguns shows com o vocalista antigo e ele não chega nem perto dos arranjos de vozes de Patton. E foi esse ingrediente que transformou o hardcore básico do Dead Cross em um pós-hardcore, com melodias mais trabalhadas e uma pegada mais experimental. Nem por isso menos agressivo.

O primeiro disco da banda está sendo lançado neste mês de agosto e é uma deliciosa pedrada de 28 minutos. As letras parecem focar em uma preocupação com o estado atual do mundo, com críticas ao crescente conservadorismo e a guerras religiosas. Com produção de Ross Robinson, conhecido por gravar discos com a galera do nu metal (Korn, Slipknot e Limp Bizkit), “Dead Cross” é um poderoso cartão de visitas. A turnê de divulgação terá início nos EUA a partir de 10 de agosto e promete ser um trator sonoro. Nada marcado ainda para a América do Sul, mas, considerando a quantidade de público que Patton tem por aqui, a possibilidade é imensa. Eu apostaria em shows no final deste ano. Mas vamos ver.
A faixa de abertura,”Seizure and Desist”, foi a primeira a ganhar um vídeo. Nada sutil, o clipe animado mostra a cara de Donald Trump derretendo, padres virando insetos, pessoas sendo serradas ao meio, bombas e esqueletos.
Os vocais com muitas camadas me lembraram um pouco a forma de Patton compor para o Tomahawk, mas a grande diferença aqui é o como esse approach contrasta com o instrumental agressivo e direto ao ponto dos músicos. O vocalista adiciona elementos não comuns ao hardcore, como backing vocals, coros, palmas, sussurros, onomatopeias e até o som de um beijo ao final da porrada de “Grave Slave”. O álbum conta ainda com uma cover de um clássico do rock gótico, “Bela Lugosi’s Dead”, do Bauhaus, em versão mais pesada e sucinta – a original tem mais de 9 minutos.
Outra faixa que ganhou recentemente um clipe foi a excelente “Obedience School”, mostrando imagens em preto e branco de rinhas de galo. Agressiva e com um belo coro de vozes no final, a música é um bom exemplo do que a banda tem de melhor a oferecer.
Confesso que o álbum me conquistou muito mais do que eu esperava. Achei que seria um bom disco de hardcore, mas os caras realmente conseguiram ir além e compor um trabalho muito interessante e que merece diversas ouvidas. Se você gosta de peso com criatividade, pode apostar tranquilo no Dead Cross.

Por mais que se estude psicologia da aprendizagem nas licenciaturas, ter feito mestrado em Educação serviu para me mostrar o quanto eu não sabia nada sobre esse tema, principalmente sobre a teoria piagetiana. Na tentativa de compreender a complexidade do pensamento desse tal de Piaget (hoje, meu best), uma das leituras que fiz se chama Estudos Sociológicos e ela me marcou pra caramba. Não que as outras obras não tenham sua importância na minha trajetória como professora, mas, veja bem, a minha formação era na Matemática e qualquer coisa que me levasse a tentar compreender seres humanos era surpreendente – e olha só eu, hoje, aqui no PáginaDois, falando sobre comportamento. Ousada.
O Piaget, com sua perspectiva interacionista, afirma que a construção da personalidade só se dá na interação com outras pessoas. Duas coisas a pontuar: 1) isso não é algo inovador, outros autores já disseram isso; 2) isso é óbvio, hoje, consigo ver as marcas da socialização na personalidade em diversos contextos – e a sociedade patriarcal em que vivemos deixa bem evidentes alguns desses casos. Mas, na época em que comecei a ler sobre esse assunto, eu achei surpreendente. “Mas a personalidade não é sobre o individual? Como ela pode, então, se construir (também) no coletivo?” Depois de algumas leituras e, principalmente, trocas sobre isso – obrigada grupo de pesquisa – consegui concluir algumas coisas sobre e, dentro da minha ingenuidade, acreditava que compreendia essa construção do ser na interação.
Eis que, em um não tão belo momento recente na minha vida, eu percebi que ainda tinha muito a aprender sobre personalidade, pois comecei a questionar a minha. Eu não me reconhecia mais e não era algo sobre imagem, era sobre ser: eu não entendia mais a pessoa que eu era. Algumas certezas que eu tinha caíram por terra e eu não entendia algumas atitudes e pensamentos que me ocorriam. Algumas coisas que, antes, não me incomodavam, passaram a me enfurecer. Outras, que eu achava incabíveis, passaram a fazer sentido. Nesse furacão de loucuras da minha cabeça, eu duvidei de mim – do que eu sou e do que eu poderia ser.
Aí, durante esse período turbulento, teve um dia em que meus alunos não leram o texto para a aula. Minha primeira reação foi de fúria descomunal. COMO ASSIM, CARA? Era uma turma de uns 35 alunos e menos de 10 haviam lido o fucking texto. É claro que essa não foi a primeira e nem a última vez que isso aconteceu – e eu, no modo aluna, já fui pra aula sem o texto lido. Evidente que eu sei que meus alunos têm muitas outras coisas para ler e fazer e talvez REALMENTE não tenha dado. Mas, naquele momento de insegurança suprema do meu ser, eu só conseguia pensar que nem dar aula, que era uma das certezas da minha vida, eu estava conseguindo fazer direito. Aos trancos e barrancos a aula saiu e eu fui direto para o banheiro chorar de raiva e frustração.
E foi ali, naquela interação com xs alunxs e comigo mesma, que eu pude ver o quão nebulosos estavam os pensamentos que me habitavam. Foi uma experiência de parar o tempo, sair do meu corpitcho, olhar para mim – aquela pessoa ridícula chorando duvidando de si sentada no vaso sanitário – e dizer: você precisa rever a importância que dá para o seu trabalho. Esse foi o dia em que eu aprendi a importância de me ouvir. Nessa escuta, conheci uma nova pessoa que transpareceu sentimentos e pensamentos que eu não tinha ouvido ainda e ~ olha que louco ~ ela faz isso todos os dias.
Enfim, esse momento de insegurança, frustração e incertezas passou e veio um novo momento cheio de… insegurança, frustração e incertezas. Mas tudo bem, porque eu saí da doideira de tentar me reconhecer, de encontrar aquela pessoa que eu já conhecia, e entendi que o que eu precisava mesmo era me conhecer. Every single day. É como sair com uma pessoa nova todos os dias: “será que ela vai gostar disso?”; “será que ela prefere isso ou aquilo?”. Como em qualquer nova relação, a gente vai anotando algumas coisas à medida que passa pelas experiências. Por exemplo, eu gosto de kiwi. Eu não gostava de kiwi antes. Pode ser que eu não goste amanhã, mas, hoje, eu gosto de kiwi. Pisa menos, kiwi.
Se eu tivesse ficado numa vibe introspectiva eu teria chegado a essas conclusões sobre o meu perrengue ou sobre essa incrível frutinha de aspecto inusitado? Talvez. Dizem que a meditação e outros exercícios do silêncio característicos de culturas orientais são maravilhosos para nos entendermos. Eu arriscaria dizer que o são, justamente, por silenciar o que tem ao redor para conseguirmos ouvir a nós mesmos em alto e bom som. Mas, o que é impossível negar, é que isso não deixa de ser interação, só que conosco, com os monstrinhos da nossa cabeça, em um eterno “Oi, prazer em conhecer”. Manjava das coisas esse Piaget, né não?

My redemption was intimately connected to yours
To your admitting of Thy mistakes
I didn’t go as far as to imagine your cold wrinkled face asking for forgiveness
A word, look, deed
Would have sufficed
But silly me,
I hope for too much
My expectations were in sync with what I thought you were
Only, you are not
You don’t exist in me
You are a distant exiled land
Where I thought I could migrate to
one day
You are my biased childhood memory
Stained by my hands covered in red ink
I don’t even know if you were ever there
Here, in me
I probably invented you
Do you ever wonder if you have lived up to your imaginary self?
I allow my hands to heal from your wounds
So that you can be buried
At your gravestone, one will read:
Here lies he, whose name cannot be pronounced
He who has failed
Rest your selfish self far off from all of us
And guide my steps away from your shadow.

She fears when it all comes to an end
She won’t be able to put together all the Parts of her that went wandering
And if she does manage
Will she look like a mere collage of herself?