Clarice Dall’Agnol

Música

L7: chutando a bunda do presidente

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Em uma época em que a caretice está querendo dominar o mundo, nada melhor do que saber que um grupo ativista e subversivo como o L7 está criando novamente. A banda voltou a fazer shows em 2015, depois de 14 anos de hiato e, recentemente, anunciou que está gravando um novo disco.

A primeira faixa do novo trabalho chama-se “Dispatch from Mar-a-Lago” e é um ataque debochado ao presidente Donald Trump. Na letra, a banda narra uma invasão ao resort do político enquanto ele calmamente tuita em seu telefone sem saber que logo vai ter sua bunda chutada dali.

O L7 sempre foi uma banda engajada. Feminista até o caroço, o grupo surgiu em uma cena roqueira dominada por homens e nunca poupou esforços para cavar o seu espaço e abrir portas para outras mulheres.

Formada em 1985 pelas guitarristas Donita Sparks e Suzi Gardner em Los Angeles, as composições misturavam a agressividade do punk rock com os riffs pesados do metal, e as letras mostravam uma busca pela igualdade de direitos. Com a adição de Jennifer Finch no baixo e Dee Plakas na bateria, o grupo gravou seus dois primeiros discos, “L7” e “Smell the Magic”. Os shows eram intensos e o visual casual deixava claro que elas não estavam ali para agradar marmanjo com o seu look, elas queriam ser escutadas e vestir (e fazer) o que bem entendessem.

Com o lançamento do terceiro disco, “Bricks Are Heavy“, por uma grande gravadora em 1992, o mundo finalmente se rendeu ao som do L7. O movimento grunge estava dominando a cena musical e o clipe de “Pretend We’re Dead“ passou a rolar direto na Mtv. Nele, a banda mandava o seu recado em alto e bom som: “meninas, não se finjam de mortas, façam suas vozes serem ouvidas”.

Transformando a mensagem das músicas em ação, o L7 juntou forças com o grupo Feminist Majority Foundation para criar o Rock for Choice, uma série de shows beneficentes que levantava dinheiro para grupos a favor da legalização do aborto. No line up, brilhavam os melhores expoentes da época, incluindo Nirvana, Soundgarden, Pearl Jam e Red Hot Chilli Peppers.

Depois de lançar mais dois discos, “Hungry for Stink” e o excelente “The Beauty Process: Triple Platinum”, a banda fechou as contas em 2001, entrando em um longo hiato. Foi o inesperado interesse de fãs no Facebook do grupo que fez com que as integrantes considerassem uma reunião. Em 2015, voltaram a tocar juntas em várias cidades pelos Estados Unidos. O sucesso da turnê fez com que decidissem seguir na ativa, anunciando um novo álbum para breve.

Enquanto o disco não vem, vale a pena conferir o documentário “L7: Pretend We’re Dead”, um apanhado sobre a “primeira temporada” da banda, que será lançado em DVD e Blu-ray no dia 13 de outubro de 2017.

Literatura

Estar

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imagem: Isabel Dall’Agnol

Acalma,
corpo.
Acalma
e desanda.

Sinta a tua dor
e o teu rancor.

Abraça
o que sofre.
E descubra.

Deixa de agir
e sumir.

Acalma,
corpo.
Acalma
e entrega.

Brote
o teu ninho.
Bem
devagarinho.

Deixa de guiar
e se deixe levar.

Calado.
Fique.
E aqueça
o mundo.

Espalhe
o teu profundo.

Entra.
Não sai.

Acalma,
corpo.
Corresponda
a tua alma.

Desmancha
o teu anseio.
Chove
em desejo.
E assista
ao teu beijo.

Literatura

Somos todas Simones (?)

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imagem: Cassiano Rodka

“I tell you what freedom is to me: no fear”.

(Nina Simone – pianista, cantora, compositora e ativista política nos Estados Unidos nos anos 1960)

 

Simone de Beauvoir dizia que não se nasce mulher: torna-se. Peço licença à mestra maior do feminismo para respeitosamente dela discordar, em termos. Nascemos mulheres sim, Simone. E com o nascimento, começamos imediatamente a carregar uma série de porcarias cor-de-rosa conosco, a corzinha “de menina”. E a ouvir outras tantas besteiras que nos subestimam e fragilizam, como “princesa” e “sexo frágil”. E então passamos a ter que ouvir idiotices como a que acabo de ouvir do cara na mesa ao meu lado no café, dirigindo-se a um amigo, “Cara, o problema é que as mulheres em geral não entendem nosso espírito empreendedor…”. Se eu tivesse um chilique toda vez que ouvisse “mulheres em geral”, já estaria internada num hospital psiquiátrico há muuuito tempo…!

E então me pergunto, “Como é que é, querido? Ah, só vocês sabem empreender, né? Coisa fofa…!”. Vocês, os poderosos. Sabem qual a verdade, leitores? Os caras “em geral” estão apavorados. Sim, é isso mesmo. Estão zonzos e cambaleantes, em razão do nocaute gigantesco que o novo feminismo deu neles. Uma sábia parte deles juntou-se a nós, e vestiu a camiseta com fervor, batendo no peito e deixando bem claro que não sairão do nosso lado. Esses são umas coisinhas queridas do nosso coração…! Há aqueles que acham “legal”, desde que não seja muito “radical” (traduza-se: “pode ser feminista, mas me faz o favor de estar sempre de unhas feitas e depilada, tá?”). E então há o grupo revoltado, aqueles que amam o passado e não veem que o novo sempre vem (tal qual na música “Como nossos pais”, da grande Elis Regina), e que não se conformam que possamos (que estranho!) trabalhar como eles, ter equiparação salarial a eles, estudar como eles, sair sem dar satisfações a ninguém (como eles fazem), falar palavrão, tomar cerveja no gargalo e fazer sexo sem compromisso. Eu tenho a sorte de não ter nenhum homem do último tipo no meu círculo social, mas os do meio termo tenho alguns… Oh, Gosh.

Isso está mudando, porém. Ufa, né? Mais do que hora de a nova geração de meninas – e meninos! – acabar com esta palhaçada toda. Eu li recentemente os dois livros-manifesto geniais da Chimamanda Adichie, uma escritora nigeriana mega inteligente e poderosa (não, não vou usar o termo “empoderada”, porque acho pouco para tudo que estamos conquistando ultimamente). Chimamanda dá um tapão de luva de boxe na sociedade mundial: criada no ambiente super machista da Nigéria, a moça lutou muito para encontrar seu lugar ao sol nesta imensa praia povoada por meninos mimados e mandões. Minha filha Angelina, de 11 anos, também leu, adorou, e discutimos sobre as obras de igual para igual, de menina para menina, de companheira para companheira. Quando ouço minha filha, aquela coisinha magrela de olhos vivos cor de amêndoa, dizendo coisas fantásticas sobre ser mulher com muito mais propriedade e maturidade que várias meninas por aí que – sim, também, por incrível que pareça – contribuem para a manutenção do machismo, penso, “Que baita trabalho estou fazendo como mãe!”. Aplausos, minha Dear Prudence: o mundo é definitivamente teu e da gurizada da tua geração, porque se todos (ou pelo menos uma boa parte deles) puderem articular ideias como tu, o novo futuro das mulheres está mais que garantido.

E não posso esquecer de falar aqui sobre a Laís Bodansky, essa mulher sensacional e única que escreveu e dirigiu “Como nossos pais”, filme lindo e tocante estrelado magnificamente pela Maria Ribeiro e pela Clarisse Abujamra, e que arrebatou vários Kikitos no último Festival de Cinema de Gramado, e também alguns prêmios internacionais. O filme é muito denso, e ao mesmo tempo tão delicado. É uma ode ao feminino, ao amor, à transgressão e à coragem da mulher de comprometer-se primeiramente consigo mesma para buscar a felicidade – se não completa, pelo menos profunda, mesmo que momentânea. Um brinde às Chimamandas, às Laíses, às Marias, às Clarisses e às Angelinas do mundo, que desbravam a própria essência, para em seguida poder desbravar o mundo. O universo. Por que não?

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Nota final: pedi à Angelina que lesse esta crônica quando a concluí. Ela gostou muito e discutimos as questões aqui abordadas, mas ela teve um adendo a fazer. Disse-me que acha que ainda não será a sua geração a dar a grande guinada na mudança definitiva do pensamento machista, porque ainda vê muitos amiguinhos e amiguinhas se comportando de maneira machista, uma herança lamentável de seus pais, da minha geração. Angelina pensa que os bebês que estão nascendo agora, esses sim, serão os grandes responsáveis por uma maior mudança de comportamentos, pois estão vindo ao mundo justo nesta época onde as alterações estão ainda surgindo e se consolidando, e meninas como minha filha estão a abrir caminho! Bravo!

Piras

Dos melhores amigos instantâneos

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imagem: Cassiano Rodka

Esses dias eu superei minha velhice de alma e me prestei a ficar 1h30min numa fila para uma festa. Nem eu acredito que estou escrevendo isso. Bom, estávamos eu e minha amiga bebendo e conversando, até que nós expusemos em voz alta nossa tensão de “será que vamos conseguir entrar na festa?”. Isso foi o suficiente para o pessoal que estava na nossa frente puxar papo e pronto: novo melhor amigo. Falamos sobre música, trabalho, estudos, tretas amorosas, teve até avaliação de nudes. Cada vez que nos víamos na pista era o momento mais lindo do universo e nada poderia ser mais forte do que aquele encontro e o nosso rebolar conjunto ao som do pancadão. No dia seguinte, nos cruzamos pela universidade e não nos falamos, apenas um abano à distância. Nunca mais nos encontramos na noite e assim foi decretado o fim da amizade – talvez até o próximo encontro.

Quem nunca fez uma melhor amiga no banheiro? Nossa, cê divide até as maiores inseguranças com aquele ser humano desconhecido. E em viagem então? Horas e horas compartilhando vivências e sonhos até você se dar conta que não sabe o nome da pessoa. Me pego pensando: como surge esse laço tão fácil de construir quanto de romper? Talvez seja uma questão de receptividade, pois, em geral, numa festa você está disposto a conhecer pessoas, assim como em uma viagem. Ou talvez eu estivesse, sei lá. Na real, estou sempre disposta a conhecer pessoas e trocar vivências – e acho que tenho uma cara de ~convite~, porque atraio gente a fim de conversar na rua aleatoriamente. Sem sombra de dúvida, tem relação com o momento. A pessoa que você encontra na festa ou viagem está passando por uma vivência, no mínimo, parecida: a mesma angústia de talvez não entrar na festa lotada, ou o descobrimento de um lugar novo. É vibe, sabe? E se a vibe é uma onda, então é aquele momento de ressonância. Superposição de ondas, alteração da energia do sistema, aumento da amplitude.

Talvez na vida seja por aí também. Sabe aquela pessoa que você conhece há pouquíssimo tempo e já construiu um laço super forte? Aquela pessoa que, há alguns meses, nem estava na sua vida e que agora está presente todos os dias? Melhor amigo instantâneo da vida. Talvez, ano que vem, esse melhor amigo já não seja mais presente, mas sempre há a possibilidade de ele se tornar aquele que vai pra fila com você ou com quem você vai planejar a viagem. Aí o instantâneo se torna duradouro. O louco é perceber esse movimento de pessoas que ficam e de pessoas que saem, identificar a fragilidade ou força do sistema. É também se ver nessa abertura para o novo, tanto para receber alguém quanto para deixar ir.

Então é isso: receptividade e ressonância. O bom das amizades duradouras é que não se precisa estar receptivo, aquela pessoa está lá e você sabe que pode contar com ela; porém, às vezes, a frequência das vibes está bem diferente. Já nas amizades instantâneas, talvez o bonito e, ao mesmo tempo, o problema seja a ressonância: de tão intensa ela pode quebrar o sistema. Mas, se todas as amizades são compostas de um pouco desses dois quesitos, então todas são, de certa forma, instantâneas – a grande questão é o que é ser instantâneo dentro do panorama de um lifetime. E, então, já não é mais uma questão de mecânica ondulatória, mas da relatividade, algo bem mais complexo, assim como as amizades. Afinal, talvez seja a vida uma grande festa ou uma imensa viagem, cheia de laços a serem (des)feitos.

Literatura

5h45 (no espelho matutino)

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imagem: Cassiano Rodka

Para aquela outra em mim.

Gosto quando me olhas,
(Observas)
inexata,
transbordando a ti mesma.
Afogando-me no teu mar de ideias desconexas
(tão conexas).
Me conectas,
colando os meus estilhaços aos pouquinhos,
Soprando vida
(e música, e poemas…)
em meus dias indecisos.
Vibrante
Viciante
Enfeitiçante
Simplesmente complexa,
Em modo elétrico
(Eletromagnética)
De modo a me cativar:
Modela-me.
Acalma-me.
Desvenda-me.
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Música

Violent Femmes: Dois microfones e a verdade

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Lançado em vinil e limitado a 1.500 cópias, “2 Mics & The Truth: Unplugged & Unhinged in America” é uma coletânea de apresentações acústicas do Violent Femmes em rádios norte-americanas durante a turnê de lançamento do álbum de 2016 “We Can Do Anything”.

A banda optou por utilizar apenas dois microfones para captar o som, como se fazia antigamente para gravar shows de jazz. Um deles foi apontado para o vocalista e guitarrista Gordon Gano e o outro, para o baixista Brian Ritchie. Os outros instrumentos foram captados pelos mesmos dois microfones, ficando mais de fundo, resultando em uma gravação mais acústica e lo-fi. Numa época dominada pelo uso do Auto-Tune, a sonoridade é um alívio para os ouvidos: completamente verdadeira.

A escolha das músicas abrange quase todos os discos da banda, com exceção de “3” (de 1988) e “Rock!!!!!” (de 1995). Além dos clássicos imprescindíveis do Violent Femmes, como “Blister in the Sun” e “Kiss Off”, os músicos adicionaram canções menos conhecidas, como “I’m Nothing” e “No Killing”, resultando em uma seleção bem diversa e surpreendente.

O disco é um deleite tanto para quem já é velho conhecido da banda como para quem nunca escutou os caras antes, portanto não hesitem em colocar essa bolachinha para girar e mergulhem fundo no universo acústico-punk do Violent Femmes.

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