Clarice Dall’Agnol

Música

Jamie Saft e New Zion Trio em Porto Alegre

Conhecido no circuito underground nova-iorquino por transcender gêneros musicais, o pianista Jamie Saft esteve em Porto Alegre apresentando o som do seu New Zion Trio. Neste projeto, o compositor mescla dois universos sonoros muito importantes em sua carreira: o jazz e o reggae, mais especificamente, o spiritual jazz e o dub. Em uma conversa após o show, Jamie me contou que percebeu que os dois gêneros musicais tinham uma intenção semelhante, a de elevar espiritualmente o ouvinte e os intérpretes através da música. Sendo assim, aliar ambos lhe pareceu muito natural.

Jamie Saft e New Zion Trio
New Zion Trio: Jamie Saft no piano, Brad Jones no contrabaixo e Ben Perowsky na bateria. Imagem: Cassiano Rodka

Com três discos gravados (um deles ao lado do percussionista brasileiro Cyro Baptista), o New Zion Trio passou a percorrer o mundo em shows intimistas. Este ano, foi a vez da América do Sul ganhar uma turnê do grupo e, para minha surpresa, Porto Alegre foi incluída no circuito. O aconchegante auditório do Instituto Ling foi o local perfeito para o pianista apresentar o seu repertório. Ao lado do baixista Brad Jones e do baterista Ben Perowsky, Jamie Saft tocou para uma plateia pequena em clima totalmente informal, como se estivéssemos assistindo um ensaio da banda. Entre uma música e outra, comentava as suas canções sem usar o microfone, falando alto alto para todos como se estivesse recebendo convidados em sua casa. Sobre “Pinkus”, confessou “eu realmente gosto dessa música, ela está praticamente em todos os meus discos”. De fato, a faixa aparece em pelo menos três álbuns do compositor, sempre em uma nova interpretação.

Além de suas próprias composições, Jamie Saft ainda presenteou a plateia com duas belas covers: “I Can’t Help It” do rei do pop Michael Jackson (composta por Stevie Wonder) e “Drifting” do guitarrista Jimi Hendrix, que ficou sensacional no piano. Sobre esta versão, Jamie me contou que foi incluída no álbum da cantora coreana Youn Sun Nah, produzido por ele e lançado neste ano. Outro lançamento do músico em 2017 que merece ser conferido é o álbum “Loneliness Road”, em que ele chamou ninguém menos do que Iggy Pop para cantar três composições jazzísticas dele. Phoda!

Se a intenção de Jamie Saft era elevar o espírito das pessoas presentes, digo tranquilamente que ele e seus comparsas conseguiram alcançar esse feito magnificamente. Para quem ainda não conhece, recomendo o álbum “Chaliwa”. Deixe tocar e voe longe!

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Piras

Da história única

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imagem: Cassiano Rodka

Ao discutir a História da Matemática como metodologia de ensino, acabo por ter que falar de história – ah, essa arte de falar sobre coisas das quais sei muito pouco. Certa vez, um professor de história sensacional elaborou e ministrou comigo essa aula e decidimos discutir a relação de poder presente no discurso histórico a partir do vídeo “O perigo da história única”, aproveitando para dar visibilidade a essa palestrante e incrível escritora Chimamanda Adichie.

O vídeo fala de diversas situações vivenciadas por Adichie em que as pessoas (ela, inclusive) se basearam em uma única história sobre alguém para definir quem esse alguém é. É algo como estereótipos, mas o enfoque é na construção deles a partir da história desse alguém – e poderia ser estendido para lugares, experiências, etc. Sempre que vejo esse vídeo me lembro do episódio do Simpsons no Brasil, o seriado mais baseado em pré-conceitos que existe, onde a TV brasileira apresenta um programa educativo estrelado por uma mulher com adorno de rainha de bateria e outras figurantes que se esfregam no alfabeto. Interessante para refletirmos sobre o estereótipo da mulher brasileira (em especial, a mulher negra) hipersexualizada, mas isso é papo para outra hora.

Com certeza vi esse vídeo da Adichie mais de dez vezes e, em todas, eu me pego refletindo sobre os momentos em que acreditei em apenas uma versão da história, nos julgamentos realizados e ideias pré-concebidas. Me envergonho de todas. Mas sabe quando algo acaba ficando tão presente nas reflexões que começa a se tornar meio óbvio e você começa a ficar meio bolado com quem não pensa sobre isso? Pois é. Eu estou nesse ponto. E aí as pessoas acreditarem numa história única sobre qualquer coisa começa a me irritar real oficial.

Penso que isso é, em parte, reflexo das relações desta modernidade e o que chamamos de era da informação. Pode parecer contraditório, porque a ideia de muita informação justamente iria contra o princípio de uma única fonte e uma única história. Porém, o que aprendi até agora sobre as relações atuais, é que todxs falam; mas poucxs escutam. Maior exemplo disso, a meu ver, é o Twitter, onde as pessoas falam sem parar sobre as coisas mais banais do mundo para esse ouvinte tão especial que é todos e ninguém ao mesmo tempo – e várias verdades são tiradas daí.

Mas não é somente nessa rede social que isso acontece. Esses dias eu postei uma foto com uma amiga no Instagram escrito “crush” porque ela é meu mozão mesmo, hihi. Noooossa, altos comentários e perguntas se ela era minha namorada. Mas não para por aí: poucos dias depois postei no Facebook uma foto com um amigo que foi meu companheiro, e novos comentários surgiram perguntando se estávamos juntos novamente. No dia SEGUINTE, postei foto de uma amiga comigo, e mais comentários foram feitos. Não sei se me sinto lisonjeada por acharem que eu tenho tantos namorados e namoradas ou se deveria me preocupar de me acharem promíscua (nem vou dormir hoje de tanta preocupação). Mas fiquei viajando sobre isso e a ideia de fala e escuta. Foi criada uma narrativa para aquele contexto baseada na vivência dxs leitorxs e no que elxs sabem de mim. Menos de 10% de quem viu a foto veio perguntar sobre ela, apenas espalharam o que achavam que ela representava.

Há pano pra manga para discutir sobre exposição na internet, sobre se importar com opinião dxs outrxs… sobre mil coisas. Mas, sem sombra de dúvida, também tem para questionarmos o nosso lugar de fala na contação de histórias – as nossas e as dxs outrxs. E no lugar de ouvintes também. E se tem alguma coisa que a Adichie me ensinou é que uma história sobre alguém é sempre incompleta e repleta de estereótipos.

Literatura

The wind

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imagem: José Calimero

Should we allow the wind to carry us?
It feels nice, the breeze blowing against my face,
Caressing me from all directions.
I can let myself go,
It’s choice free, just the way I like it.

Not knowing where to go
I place my boat in the middle of the ocean
Exactly where I am equidistant from any land
Unbiased

I trust the wind will keep on doing what it does to me
I trust its unpredictability to guide me
To wherever it wants me to go.
Untamed

Little did I know about the wind’s true nature.

There are days in which my boat is so still it seems anchored
Days in which the wind can’t find me
On these days I see myself mirrored at the bottomless sea
On these days I regret not having grown my own wings
To flee my boat and go meet the wind
Wherever it is.

Música

Unhand me now as if you’ve always known my name: Chuck Mosley (1959-2017)

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Vou começar realizando o trabalho sujo (alguém tem de fazê-lo) de declarar: Chuck Mosley nunca teve uma grande voz. Ficou conhecido por ter sido o cantor dos dois primeiros álbuns do Faith No More, mas comparar o vocalista com o seu sucessor Mike Patton sempre foi de uma disparidade absurda. Ele não foi o melhor vocalista, mas a sua importância para a banda é inegável. Chuck criou um estilo de cantar que serviu de base para o Faith No More se transformar na banda que se tornou e influenciar diversos grupos que surgiram dali em diante.

 

 

 

 

 

 

 

Não tendo um grande alcance de voz, Chuck aprendeu a cantar usando suas próprias armas: energia e carisma. Segundo ele, a mistura de rap com rock foi mais uma necessidade do que uma opção consciente. Os instrumentais da banda eram insólitos e cheios de camadas, portanto Chuck tinha que fazer sua voz aparecer gritando e, muitas vezes, falando por sobre as bases. Foi assim que ele criou o estilo vocal do Faith No More, que depois foi adotado por seu sucessor no disco The Real Thing. Mike Patton só encontrou seu próprio estilo a partir do álbum seguinte, Angel Dust. Em The Real Thing, ele seguia a cartilha de Chuck Mosley.

 

 

 

 

Assim como a maioria dos fãs da banda, eu só fui ouvir os dois primeiros discos do Faith No More, We Care a Lot e Introduce Yourself, após conhecer The Real Thing. Fiquei curioso para escutá-los graças ao VHS (BluRay de velho, crianças!) Live at the Brixton Academy, onde a banda tocava duas músicas antigas da banda, “We Care a Lot“ e “As the Worm Turns”. E dê-lhe rewind para escutar “As the Worm Turns” repetidas vezes! Consegui comprar ambos na antiga loja Technique (R.I.P.) aqui em Porto Alegre, onde era possível encontrar CDs alternativos. Lembro que estranhei um pouco a voz de Chuck logo que o escutei cantando “Faster Disco” pela primeira vez. Mas as melodias daqueles dois discos foram facilmente encontrando lugar na minha mente e no meu coração. A importância do vocalista ficou muito clara: não existiria o som do Faith No More se Chuck Mosley não tivesse feito parte da banda. É impossível encontrar um fã que faça uma lista de melhores faixas do grupo sem incluir “Mark Bowen”, “Why Do You Bother”, “As the Worm Turns”, “The Crab Song“ ou “Chinese Arithmetic”. Pelo menos uma delas estará lá.

 

 

Quando o Faith No More se reuniu em 2009, o ex-vocalista fez algumas participações em shows junto com a banda, cantando músicas de sua época, incluindo um super inusitado dueto com Mike Patton. A parceria foi mais adiante em 2016, quando o grupo decidiu relançar seu primeiro disco em versão remasterizada e resolveu realizar dois shows com Chuck tocando o álbum na íntegra. As apresentações foram memoráveis. Não para o mundo, mas certamente para os fãs e para a banda.

 

Recentemente, o vocalista estava em turnê fazendo shows acústicos ao lado do percussionista Douglas Esper. Anunciou que estava gravando um novo disco com Matt Wallace, clássico produtor do Faith No More. Ele parecia estar retomando as rédeas de sua carreira e um futuro promissor parecia estar a sua frente. No dia 10 de novembro, recebi a triste notícia de que o vocalista havia morrido no dia anterior. Sua família declarou que o havia perdido devido à “doença do vício”. Foi triste ver que o trem descarrilhou em um momento em que ele estava tomando uma nova e estimulante direção.

Chuck Mosley não entrará para a história da música como um dos melhores vocalistas do mundo. Ele conseguiu algo muito melhor. Ele será eternamente lembrado com carinho e respeito por todos aqueles que souberam escutar a verdade e a paixão que ele sempre colocou em sua arte.

O trabalho está feito, Chuck. Descansa.

Literatura

A canção de Fausto

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imagem: Cassiano Rodka

De prazer em prazer
Quem é o próximo a entrar?
Fecha a porta e abre a boca
Não esquenta o teu lugar

Larga a máscara na entrada
E qualquer boa intenção
Deixa bater a porta
Mas não me mova o coração

Até quando eu vou seguir?
E por quanto eu vou parar?
Até quando eu vou seguir?
E por quanto eu vou parar?

De vazio em vazio
Quem te disse pra ficar?
Abre a porta e fecha a boca
Não espera eu ligar

Deixa a alma na saída
E o amargo da omissão
Larga de leve a porta
Mas não me leve o coração

Até quando eu vou seguir?
Perco a aposta pra ganhar
Até quando eu vou seguir?
E por quem eu vou cessar?

Música

Paul McCartney e sua caixinha de surpresas

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imagem: Cassiano Rodka

Passando pela segunda vez por Porto Alegre, Paul McCartney trouxe um show empolgante e cheio de surpresinhas. Do topo dos seus 75 anos, o músico deixou claro que tem energia de sobra em uma apresentação de três horas que poderia tranquilamente ter sido cinco.

A nova turnê traz um setlist bastante focado no repertório dos Beatles, diferentemente da anterior, que dava mais destaque aos Wings e à carreira solo de Paul. Nem por isso as canções são óbvias, e é precisamente nessas escolhas inusitadas que o músico acertou bonito. Além de alguns clássicos obrigatórios, como “Hey Jude” e “Yesterday”, McCartney tirou do baú várias surpresinhas. Para iniciar o show, o músico elegeu “A Hard Day’s Night”, faixa que ele não tocava ao vivo desde a época dos Beatles. Foi também o caso de “Love Me Do”, primeiro single da banda que ele nunca mais tinha incluído nos concertos.

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imagem: Cassiano Rodka

Já outras canções foram totalmente inesperadas, não só pelo tempo em que não eram tocadas ao vivo, mas por não serem muito conhecidas do grande público, como “In Spite of All the Danger”, que Paul explicou que teria sido a primeira música que os Beatles tocaram juntos quando o grupo ainda se chamava The Quarrymen. Do disco aniversariante “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, McCartney desencavou a lisérgica “Being for the Benefit of Mr. Kite!”, possivelmente a faixa mais improvável de se tocar daquele álbum. A música é também originalmente cantada por John Lennon, mostrando que Paul se sente cada vez mais confortável interpretando canções que não eram entoadas por sua voz. Ele inclusive fez uma sequência de músicas que não eram cantadas por ele: “I Wanna Be Your Man” (Ringo), “Something” (George) e “A Day in the Life” (John).

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imagem: Cassiano Rodka

De seus lançamentos mais recentes, McCartney escolheu os singles “My Valentine” (dedicada à Nancy, sua atual namorada), “Queenie Eye”, “New” e “FourFiveSeconds”, gravada por Paul com Rihanna e Kanye West. Na versão ao vivo, McCartney canta os vocais de Rihanna e não há espaço para Kanye. Aprovado!

No bis, os músicos surgiram no palco balançando três bandeiras: uma do Brasil, uma da Inglaterra e uma com um arco-íris. Sir Paul mandando o seu recado. Na sequência, apenas músicas dos Beatles, incluindo uma pérola quase esquecida do álbum branco: “Birthday”. Para acompanhar a canção, Paul chamou ao palco quatro meninas brasileiras que o músico já conhece de vista dos shows, pois aparecem sempre cedo e caracterizadas com roupas a la Sgt. Pepper. Quando perguntadas por Paul de onde eram, três responderam “São Paulo”, o que gerou uma vaia bairrista (aparentemente amigável). Nada que a simpatia de McCartney não conseguisse transformar em piada: “Vocês querem dizer ‘Porto Alegre’, né?”.

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imagem: Cassiano Rodka

Para encerrar a noite memorável, a banda toca a tríade clássica do Abbey Road: “Golden Slumbers/Carry That Weight/The End”, colocando todos os presentes a entoar uma das grandes frases dos Beatles “And in the end, the love you take is equal to the love you make”. Quando Paul deixa o palco, dá para sentir no ar a quantidade de amor que ele fez brotar. Torçamos para que cada um faça a sua parte e não deixe que esse sentimento desbote com o tempo e perca todas as cores que McCartney nos fez lembrar que ele tem.

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imagem: Cassiano Rodka

Paul McCartney em POA (Estádio Beira Rio, 13/10/2017)

A Hard Day’s Night

Junior’s Farm

Can’t Buy Me Love

Jet

Got to Get You Into My Life

Let Me Roll It/Foxy Lady jam

I’ve Got a Feeling

My Valentine

Nineteen Hundred and Eighty-Five

Maybe I’m Amazed

We Can Work It Out

In Spite of All the Danger

You Won’t See Me

Love Me Do

And I Love Her

Blackbird

Here Today

Queenie Eye

New

Lady Madonna

FourFiveSeconds

Eleanor Rigby

I Wanna Be Your Man

Being for the Benefit of Mr. Kite!

Something

A Day in the Life/Give Peace a Chance

Ob-La-Di, Ob-La-Da

Band on the Run

Back in the U.S.S.R.

Let It Be

Live and Let Die

Hey Jude

Bis:
Yesterday

Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (Reprise)

Helter Skelter

Birthday

Golden Slumbers/Carry That Weight/The End

Cinema

mãe! parte 2: explicações e teorias

Este texto é a segunda parte. Se você está começando por aqui, sugiro que volte e leia primeiro o outro aqui. Ambos contêm spoilers!

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“mãe!” é uma metáfora bíblica, entre outras.

A primeira e mais óbvia referência é essa. Desde o início, Aronofsky praticamente esfrega o texto sagrado na nossa cara. O que não significa, é claro, que outras interpretações estejam erradas ou incorretas. O diretor se diverte em entrevistas falando a respeito e ele mesmo fala ora na metáfora bíblica, ora na questão do alerta ecológico, outras vezes até sobre o tema do culto às celebridades. Não existe, portanto, “certo” ou “errado”. Algumas questões a respeito, Aronofsky responde claramente. Outras, ele diz que não quer responder e que quer deixar as interpretações em aberto. Eu vou misturar um pouco essas explicações, teses, visões e teorias um pouco, usando a questão bíblica como “linha condutora”. Vem comigo!

Javier Bardem é Deus (a letra maiúscula em seu nome é a única em todos os créditos finais do filme). Durante o filme são constantes as referências diretas a ele como “Criador”, inclusive. Jennifer Lawrence é a mãe, é a natureza. Por vezes uma criação dele, por vezes uma parceira, por vezes simplesmente o cenário onde as coisas acontecem. Ao mesmo tempo em que ela é criada por ele, ela tem vontades e intenções também, mesmo que sejam ignoradas por todos em boa parte do filme. Bardem, solitário em seu paraíso, cria o primeiro homem, Adão (Ed Harris). Adão é diferente deles, ele tem defeitos. Ele é doente, fuma, esquece as bitucas de cigarro. E, desde o início, ignora os pedidos e advertências da mãe (como vou me referir ao personagem de Lawrence). A chegada de Adão (e sou eu que o chamo assim. Nos créditos do filme ele é apenas “man”, podendo ser um homem qualquer ou a humanidade toda.) também mostra o início da desarmonia na casa. A mãe, meio contrariada, derruba uma bandeja e quebra uma xícara, incidente para o qual Deus não dá muita importância. Deus se empolga com a presença dele, e justifica para a mãe que ele não tem para onde ir se não ficar lá. Na medida em que a presença dele se torna incômoda, ele diz para ela com todas as letras: “Eu gosto que ele esteja aqui. Ele é meu admirador!”.

A partir de uma costela de Adão (a cena do banheiro mostra um detalhe de um ferimento nas costas dele), cria a primeira mulher, que chega no dia seguinte e é vivida magistralmente por Michelle Pfeiffer. A personagem é, a princípio, Eva, mas em vários momentos pode ser Lilith ou até a própria Serpente. A presença dos dois desagrada a mãe, mas Deus gosta deles. E gosta principalmente porque é adorado por eles. Ele permite que façam tudo dentro da casa, com exceção de tocar no cristal que fica na sala da criação. O cristal atrai a atenção dos dois, que ficam fascinados por ele e tentam tocá-lo sempre que possível. Sob a influência do álcool (que também pode ser a Serpente), Eva entra na sala da criação e quebra o cristal. O fruto proibido está colhido. Pela primeira vez vemos a ira de Deus, que lacra a sala da criação e expulsa Adão e Eva de lá. Logo depois disso, a mãe abre uma porta e flagra Adão e Eva transando: a partir de agora existe o pecado, que não existia antes.

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Adão e Eva descobrem o pecado.

No dia seguinte, chegam os filhos do casal (interpretados por dois irmãos, Brian Gleeson e Domhnall Gleeson). Eles brigam por ciúmes e um deles mata o outro. Sim, Caim e Abel. O assassinato macula a casa. Não por acaso Caim, assim que mata o irmão, passa a mão com o sangue no rosto da mãe (Jennifer Lawrence, não Michelle Pfeiffer). A Terra fica marcada. A casa fica marcada. A pequena mancha no assoalho (que durante boa parte do filme fica metaforicamente escondida debaixo do tapete) leva a personagem de Lawrence ao subsolo, onde o sangue do assassinato acaba lhe mostrando uma porta escondida que leva a uma sala escura com uma fornalha de onde sai um sapo (inúmeras pragas e maldições bíblicas são representadas pelo sapo). Foi o sangue do assassinato que levou àquele lugar, que pode ser entendido como o inferno. Biblicamente falando, a definição de Inferno é “a ausência de Deus”. Pois a porta do Inferno surge quando Deus não está na casa e ele nunca vai lá, pelo menos até o final do filme.

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Raro momento de ira de Deus: expulsando Adão e Eva do Paraíso.

A partir daí, as pessoas se multiplicam. Os personagens, no entanto, não têm nome. Nos créditos do filme, são apresentados como conceitos ou arquétipos: “A Donzela”, “A Sussurradora”, “O Idiota”, “O Incompetente”, “O Promíscuo”, “O Preguiçoso”… A maioria deles, inclusive, é vinculada a pecados na cultura judaico-cristã. Entram na casa sem permissão, trazem comida, modificam a casa. Começa a ficar mais clara outra das metáforas de Aronofsky: as agressões e modificações na Terra feitas pelos seres humanos. Eles amam Deus, são inspirados por ele, mas não ligam para ela. De maneira ostensiva vemos isso quando um dos convidados pinta o teto da casa, mesmo com a contrariedade manifesta da mãe. A mãe, a dona da casa, é reprimida, inclusive, por Eva: “Cubra-se!”, como se ela estivesse inadequada na sua própria casa. Nenhum dos personagens a escuta, seja quando ela pede que não mexam na casa, seja quando ela chama a atenção do casal que estava no quarto dela (“Esse é o meu quarto!!” “Seu quarto… aham…”). Salta aos olhos, nesse momento do filme, um dos outros temas recorrentes no filme: a misoginia. A opinião da mulher (no caso a mãe vivida por Lawrence) não é levada a sério, nunca. Há inclusive um convidado inconveniente do velório que a assedia grosseiramente, tocando nela e ignorando as negativas dela. Quando fica claro que ela não vai ceder, de forma alguma, às investidas dele, ele a xinga de vagabunda e de uma série de outros impropérios, antes de ir embora. Se eu me senti mal vendo, imagino como deve ter sido para as mulheres (e quantas já não passaram por situações semelhantes?). As pessoas ignoram solenemente os apelos e avisos dela, inclusive os óbvios e recorrentes, como sobre a fragilidade da pia. Quando a pia quebra e a casa é inundada, todos são, enfim, expulsos. Inevitável lembrar do Dilúvio Universal.

A mãe engravida após uma briga e alguns beijos, sem que haja o sexo em si (se há, nós não vemos). A partir daí, a personagem múltipla de Lawrence ganha mais uma faceta. Se ela já era a Mãe Natureza e a Mãe Casa, passa a ser a Mãe propriamente dita e também, de certa forma, Maria. A partir da inspiração dada pelo Filho, Deus cria novamente, e o seu novo poema, cuja mensagem principal é sobre compartilhar, é escancaradamente o Novo Testamento. A partir daí o diretor acelera e os adoradores se tornam cada vez mais irracionais e fanáticos. A mensagem de amor e compartilhamento é usada como desculpa para que a casa seja roubada, pilhada, destruída de todas as formas. “Por que vocês estão fazendo isso??” pergunta desesperada a mãe para um personagem que arrancava pedaços do marco da porta. Ele responde “Para provar que estivemos aqui”. A mensagem do diretor sobre a questão ambiental fica mais clara e escancarada nesse momento. Mais uma vez a mãe apela, grita, reclama e protesta sem ser escutada. O Filho, enfim, nasce. E aí há um pequeno momento de tranquilidade, quando, trancados no quarto, o Pai, a Mãe e o Filho recebem os presentes dos adoradores. Nesse momento mais uma persona pode ser incorporada à personagem de Lawrence: ela é o Espírito Santo, completando a Santíssima Trindade. Num pequeno momento de descuido dela, ele toma o Filho do seu colo e o leva para ser adorado. Imediatamente ele é tomado pela turba e morto. Deus perdoa tudo e tem pena da dor das pessoas, mas não da dor da mãe. A comunhão está presente, de forma literal, com as pessoas provando a carne e o sangue do Filho morto. A passagem de tempo, nessa parte, fica fragmentada e vemos guerras acontecendo, um culto organizado florescendo e ninguém dando atenção ao sofrimento da mãe, que apanha de todas as formas enquanto Deus, benevolente, perdoa e tem pena, ao mesmo tempo em que é adorado. Enquanto tudo isso acontece, vemos barbaridades ocorrendo em nome Dele: a estruturação de cultos, a hierarquização de religiões, as brigas em função delas (há uma disputa literal pela posse física do poema), cenas de guerra, de canibalismo, de campos de concentração, de prisões de mulheres… enfim, há que se assistir o filme muitas vezes, para entender tudo que se passa nessa parte final. É muita coisa acontecendo muito rápido.

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mãe encontra o Inferno.

Agredida e vilipendiada, mãe decide terminar com tudo. E tudo termina com fogo, da mesma forma que começou. Ela desce até o inferno e abre as portas dele para acabar com o mundo. O instrumento que ela usa para dar fim ao mundo, o Apocalipse, é um isqueiro. É o fogo, como o de Prometeu, que vai limpar e purificar o mundo. Esse isqueiro, lembrem, foi trazido por Adão, o primeiro homem. É do homem (e especificamente de um vício do homem), portanto, que vem a faísca que vai terminar com o mundo. O mundo é consumido em chamas e enxofre e sobra apenas ele, Deus, e os restos dela. Nessa hora, como que se justificando, ele olha para ela e diz “Eu sou o que sou”. Se havia dúvida que ele era Deus, essa frase é textual. É Deus conversando com Moisés. Ela já havia dado tudo a ele, e, no entanto, ele pede mais. Pede a essência do amor dela. Ela dá. E o ciclo, dali, se reinicia. Tudo vai acontecer da mesma forma. Porque Deus não se importa com o sofrimento das pessoas, mas ele gosta da adoração. É isso o que ele quer, é disso que ele vai atrás.

Aronofsky, não é de hoje, não tem uma visão boa de Deus. Seu Deus é egoísta, vaidoso e egocêntrico. Em determinado momento, mãe acusa Deus: “Você nunca me amou! Você só amou a maneira como eu o amava!”. Ele não diz nada. Não diz porque ela tem razão: o Deus de Aronofsky preocupa-se em ser adorado, admirado, citado, louvado. Está disposto a tudo perdoar naqueles que o seguem e, em especial, admiram o seu trabalho. Nesse sentido, a visão do diretor/roteirista nos apresenta a mãe como uma segunda divindade (por várias vezes inclusive o próprio Deus a chama de “Deusa”, durante o filme), complementar e por vezes antagônica. Ela, que é a Natureza e a Casa, sofre em função da presença dos adoradores dele. O ciclo é interminável justamente por esse prazer mórbido que ele tem em ser adorado incondicionalmente.

A leitura do “alerta ecológico”, que já foi admitida publicamente por Aronofsky e Lawrence, também é muito clara: o filme é um alerta, também, sobre ignorarmos os sinais e apelos da Terra. É um manifesto ecologicamente correto contra o aquecimento global, as mudanças climáticas e as catástrofes ligadas a ele, que na visão do diretor e roteirista pode levar à própria extinção da espécie humana.

“mãe!” também pode ser um filme sobre o processo de criação artístico e sobre obsessão. Nesse sentido, Aronofsky dá sequência aos temas que já tratou em “Cisne Negro” e “O Lutador”, filmes sobre pessoas obstinadas que incessantemente buscam dar o melhor de si para atingir um ideal utópico.

O filme também pode ser visto como uma grande metáfora sobre relações. O casamento entre Deus e mãe é uma relação onde ele a sufoca. As necessidades dele se sobrepõem às dela naturalmente e a vemos se anular em nome do espaço dele, da criação dele, da obra dele, dos amigos dele, dos prazeres dele. Parece com alguma situação que você conhece? Pois é. Nesse sentido, há também uma leitura que bate na tecla da opressão de gênero: a mãe pede ajuda a todo momento e é ignorada. Fala, repete, ninguém dá bola. Apanha, é agredida, é xingada, nada acontece. Quando, enfim, ela reage… é exagerada. Acabar com o mundo, onde já se viu?

“mãe!”, enfim, é um filme sobre muitas coisas. Não é um filme fácil, sem sombra de dúvidas. Passa longe de ser um filme agradável: minha sensação, ao final da sessão, era de ter tomado uma surra na poltrona do cinema. Muita coisa fica sem explicação. O que é o líquido amarelo? Quem é a editora? Por que os personagens nos créditos não têm nomes? Terminei o filme exausto e completamente tenso. O terço final, em especial, pode ser pesado para os mais sensíveis. Mas, para mim, foi uma experiência absolutamente gratificante. Perturbadora. Maravilhosa. E horrível, também.

Cinema

mãe!

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Já nos cartazes, muitos significados e explicações sobre “mãe!”

                É difícil começar a falar sobre “mãe!” (mother!, Darren Aronofsky, 2017). O novo filme do diretor de “Cisne Negro” (Black Swan, 2010) e “Réquiem Para Um Sonho” (Requiem for a Dream, 2000) já era polêmico antes do lançamento e torna-se ainda mais uma semana depois, em função de todas as discussões levantadas pelo longa. Teria Aronofsky ido longe demais? Teria ele mergulhado em pretensão? Ou teria ele cometido uma obra prima cinematográfica? Vamos tentar chegar perto de responder essas perguntas hoje.

ALERTA DE SPOILER: “mãe!” é uma experiência cinematográfica intensa. Para quem gosta de ir ao cinema sabendo pouco ou quase nada a respeito do filme, como eu, sugiro que pare de ler por aqui e volte depois de ter visto o filme. Se já viu o filme, siga adiante!!

                Aronofsky é um artista obcecado. Certos temas são recorrentes em sua filmografia e são quase previsíveis. O diretor tornou-se conhecido por “Pi” (1998) e “Réquiem Para Um Sonho” no começo dos anos 00. Em “O Lutador” (The Wrestler, 2008) o cineasta provou que poderia ser um grande diretor de atores, trazendo de volta do ostracismo tanto Mickey Rourke quanto Marisa Tomei. A explosão da popularidade de Aronofsky veio com o thriller sobre ballet “Cisne Negro” (Black Swan, 2010), que valeu para o diretor indicações a quase todas as premiações e também o Oscar de Melhor Atriz para Nathalie Portman. Depois do sucesso estrondoso de “Cisne Negro” o artista resolveu mergulhar em suas questões religiosas, e daí nasceu “Noé” (Noah, 2014). Tenho, aliás, que rever “Noé” em função de muitas coisas de “mãe!”. A obra de Aronofsky tem algumas temáticas recorrentes: a obsessão, a decadência e o questionamento de Deus, suas intenções e seu caráter(!!). Tudo isso está presente em “mãe!”.

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Era uma vez uma casa. No meio do nada, num lugar onde não há caminhos para chegar ou sair. E nessa casa, sempre, uma mulher.

                “mãe!” é um filme difícil de enquadrar em algum gênero. Os cinemas brasileiros tem chamado de “horror”, mas não é exatamente isso. Também não é drama. Não é exatamente um thriller. Não é um filme bíblico. E consegue ser todas essas coisas ao mesmo tempo. O filme é sobre um casal: uma mulher jovem e um homem mais velho habitam uma casa no meio do nada, um lugar onde não há caminhos, estradas ou ruas, apenas uma natureza idílica e genérica ao redor. Ele é um poeta, obcecado com a criação. Ela é a esposa dele, e seu papel é reconstruir a casa, que foi destruída por um incêndio. Essa informação do incêndio anterior é a única que temos sobre o passado de ambos. Enquanto o poeta tenta superar um bloqueio criativo, a mulher trabalha para tornar o ambiente mais agradável para ele e tenta incomodá-lo o mínimo possível. Há na casa e entre os dois uma tranquilidade tensa, um clima leve que dá a impressão de esconder algo pesado, algo que não estamos vendo. Essa pretensa calmaria é quebrada quando visitantes inesperados começam a aparecer na casa. Um médico. Sua esposa, no dia seguinte. Seus filhos. E a partir daí, o caos e a perda de controle, até o momento em que todos são expulsos da casa, após um acesso de fúria do personagem de Lawrence (é difícil escrever sobre personagens sem nome).

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Num dos raros planos abertos do filme, a mãe e a casa. É difícil dizer onde uma começa e a outra termina.

                No segundo ato, logo após a noite da expulsão das pessoas, ela aparece grávida. A vinda do filho ilumina a casa e enche o casal de esperança. Imediatamente o Poeta volta a criar, e acompanhamos o trabalho artístico dele ao mesmo tempo em que vemos a gravidez avançar e o trabalho artesanal dela, cuidando da casa, tomar novas formas. O novo texto do poeta faz muito sucesso e o seu lançamento coincide com a noite do nascimento da criança. Uma série de admiradores começa a chegar na porta do poeta por causa do seu novo trabalho, e a atenção dele se volta para os fãs enquanto deixa sua mulher e seu filho de lado. Esse segundo ato está recheado de referências a “O Bebê de Rosemary” (Rosemary’s Baby, Roman Polanski, 1968). Há uma gravidez que é tensa e pesada, ao invés de leve. Uma mulher mais nova (Mia Farrow/Jennifer Lawrence) que é conduzida na relação por um homem mais velho (Javier Barden/John Cassavetes). Um cenário completamente interno (“mãe!” é a casa, “O Bebê de Rosemary” se passa quase que todo dentro do mesmo apartamento). Um nascimento tenso. Um grupo de cultistas. Há inclusive um pôster de “mãe!” que conversa frontalmente com um dos pôsteres de “O Bebê de Rosemary”. E, bom, há a questão da paternidade também. Acho que poderíamos dizer que aqui o que há é uma simetria entre os dois filmes, já que os pais representam os opostos.

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“O Bebê de Rosemary” tem várias simetrias com “mãe!”

                A partir do nascimento da criança, tem início um terceiro ato em que o caos e a violência se instalam na casa. A narrativa abandona de vez o naturalismo e mergulha de cabeça num surrealismo selvagem. Se o segundo ato remete a “O Bebê de Rosemary”, o terceiro ato é “O Anjo Exterminador” (El Angel Exterminador, Luís Buñuel, 1962). O caos e a destruição física da casa acompanham o sofrimento da mãe (Jennifer Lawrence) que passa por parto e perda com uma proximidade lancinante. O filho é oferecido pelo pai aos seus adoradores, que o matam e quase que instantaneamente choram por ele, enquanto comungam. Violada, espancada, lacerada e tendo o filho morto, a mãe não tem outra escolha: ela termina com o mundo. O mundo acaba com fogo e explosão, da mesma forma que começou. A partir daí vemos o ciclo se reiniciar, sempre da mesma maneira, já sabendo o que vai acontecer.

                “mãe!” é um espetáculo técnico. Aronofsky conduz a história que começa lenta e termina alucinantemente rápida com a mão muito precisa de um diretor que sabe o que quer. A fotografia de Matthew Libatique, parceiro do diretor em quase todos os seus longas, faz um jogo de luzes, cores e iluminações lindo de se ver. A casa, durante o filme, se transforma. De clara e acolhedora no início a escura e claustrofóbica no final. Bardem e Lawrence sempre em roupas claras e tons pastéis, enquanto outros personagens predominantemente em tons escuros (Ed Harris e Michelle Pfeiffer, principalmente). O som do filme é um capítulo à parte e mais um momento de brilhantismo de Aronofsky. Toda a tensão do filme (e o filme é TENSO) é construída SEM MÚSICA. Há uma única música no filme, e ela toca nos créditos finais. O filme se constrói com efeitos sonoros e muita, muita direção.

Não pode deixar de ser elogiada, mais uma vez, a direção de atores de Aronofsky. Javier Bardem está maravilhoso no seu papel. O seu Poeta é egoísta, mesquinho e egocêntrico, mas não conseguimos deixar de gostar dele. A doçura e o cuidado de Bardem, seu tom de voz e uma atuação muito sutil propõem isso. Nós nos indignamos com ele para imediatamente perdoá-lo porque o admiramos e gostamos dele, mesmo que não o entendamos completamente. Temos a noção de que sua obra é importante e muito maior do que nós, e por isso aceitamos seus excessos, seus caprichos e atos que não entendemos.

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Bardem e o seu Poeta, nos olhando de cima para baixo

Jennifer Lawrence é um capítulo à parte. A recente superexposição da atriz e o fato de ela ser vendida como a nova “queridinha da América” nublam o fato de que ela é, desde o início da carreira, uma excelente atriz. Quem duvida que procure por “Inverno da Alma” (Winter’s Bone, Debra Granik, 2010). O filme é todo feito em cima dela. A câmera passa boa parte do filme fechada no rosto de Lawrence. Sua mãe é um personagem que sofre calada, que pisa em ovos o tempo inteiro e que se dedica, de corpo e alma, ao seu companheiro. Sua realização está na obra dele. Seu amor por ele é inquestionável e incondicional. Não importa o que ele faça, ela o ama, sofre por ele e sabe que isso não vai mudar. Seu incômodo com a chegada dos visitantes estranhos, suas tentativas de se adaptar e sua performance incrível no terço final do filme, por si só, valeriam o ingresso.

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A mãe e a casa, uma coisa só.

“mãe!” é um filme que abriu espaço para inúmeras teorias, leituras e interpretações. Comecei a escrever sobre elas, e me dei conta que o texto ficaria muito longo. Aguardem, portanto, um segundo texto sobre “mãe!”. Esse vai se centrar mais nas teorias e interpretações possíveis sobre o filme.