Clarice Dall’Agnol

Quadrinhos

Brian Michael Bendis saindo da Marvel e indo para a DC!!

                No final de 2017 o mundo dos quadrinhos foi atingido por uma bomba: Brian Michael Bendis, um dos roteiristas mais importantes da Marvel, estava terminando seu contrato de exclusividade com a Casa das Ideias e assinou para os próximos anos um contrato com a DC. No mundo do futebol, seria o equivalente ao Messi anunciar que está indo para o Real Madri ou o Cristiano Ronaldo assinar contrato com o Barcelona. Bendis não só é um bom escritor: ele foi o responsável por toda a reestruturação da Marvel no século XXI. Suas ideias (as que acertaram e as que erraram) conduziram a uma Marvel toda nova e diferente. A importância do escritor de Ohio era tanta que, em determinado momento, o Editor-Chefe da Marvel, Joe Quesada, disse que era proibido que Bendis e Mark Millar entrassem juntos no mesmo avião.  Desde a sua chegada, em 2000, até hoje, Bendis se tornou o principal roteirista da Marvel e pôs a mão em todos os títulos importantes da editora. Criou personagens importantes (Jessica Jones, Miles Morales), resgatou e popularizou outros (Luke Cage, Jessica Drew, O Capuz) e modificou profundamente alguns (Novíssimos X-Men). A importância de Bendis na editora (e nos quadrinhos) durante o século XXI é tão grande que sites sérios comparam a ida dele para a DC com a de Jack “The King” Kirby, que fez o mesmo caminho nos anos 70.

                Se estamos nos despedindo de Bendis na Marvel, nada melhor então do que um apanhado do que ele fez de melhor na editora. Vamos a uma lista para relembrar e nos preparar para o que o careca vai aprontar na DC.

Homem-Aranha Ultimate (2000 – 2013)

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                O primeiro projeto de Bendis na Marvel foi um balão de ensaio: uma minissérie para recontar a origem do Homem-Aranha de forma mais moderna. O projeto deu tão certo que a minissérie se tornou uma série regular que durou mais de 10 anos. Na verdade, o projeto deu TÃO certo que tivemos versões Ultimate dos X-Men, do Quarteto Fantástico, dos Vingadores e de quase todos os personagens da Marvel, dando origem ao Universo Ultimate, talvez a grande jogada da Marvel em muito tempo. Sabe o universo cinematográfico da Marvel que você tanto gosta? Pois é, ele saiu daqui. A base dele é o Universo Ultimate.

Voltando ao Ultimate Homem-Aranha, o Peter Parker de Bendis cativou os adolescentes de forma muito semelhante a que Stan Lee fez nos anos 1960. Enquanto no universo Marvel tradicional (o 616, segundo Neil Gaiman) Parker se formou, casou, teve filha e se tornou um adulto, o Peter de Bendis continuava na escola. Seus dramas pessoais eram não decepcionar a Tia May e tentar impressionar a vizinha, Mary Jane Watson. Enquanto estudava para provas e enfrentava bullying na escola, tinha que se deparar com o Duende Verde, o Doutor Octopus ou o Abutre (e sempre com Shocker, que se tornou uma piada recorrente de Bendis).

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Mark Baglay inspira-se no clássico Homem-Aranha magricela de Steve Ditko e Todd McFarlane.

          A arte de Mark Bagley casou brilhantemente com o argumento de Bendis e a parceria deles por 111 edições consecutivas se tornou a mais longeva da história da Marvel (batendo a seminal parceria Stan Lee – Jack Kirby em Quarteto Fantástico, que durou 102 edições). Os diálogos de Bendis e o lápis de Bagley marcaram o design dos personagens e as últimas versões cinematográficas do Homem-Aranha (Andrew Garfield e Tom Holland) são referências claras à essa versão Ultimate.

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A morte do ultimate Peter Parker

          Bendis voltou ao Homem-Aranha Ultimate para matar Peter Parker. A história do herói tem, portanto, início meio e fim. Além da coragem de matar o principal ícone da Marvel (mesmo que na versão Ultimate), Bendis criou seu sucessor: o jovem Miles Morales. Num século XXI onde os debates sobre representatividade se tornaram tão importantes, o Homem-Aranha de Bendis é um menino negro e porto-riquenho. Não dá para dizer que ele não tem coragem. Morales se tornou um personagem tão importante que quando a Marvel acabou com todos os seus universos paralelos, em 2015, Morales foi um dos personagens do universo Ultimate que sobreviveu e hoje está no universo “principal” da Marvel, sendo bem aceito e um dos heróis mais queridos da editora.

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Miles Morales: um dos importantes personagens criados por Bendis.

Demolidor (2001 – 2006)

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                O Demolidor, uma das criações clássicas de Stan Lee, foi o primeiro título regular da Casa das Ideias entregue a Bendis. O Homem Sem Medo vinha de um longo período bastante irregular e havia quem dissesse que era um personagem de um autor só, que apenas Frank Miller sabia escrever o advogado cego da Cozinha do Inferno.  Bendis assumiu o título em 2001 e recolocou Matt Murdock na primeira linha de heróis da Marvel. O careca mostrou em Demolidor muito daquilo que o faria ser respeitado e conhecido: a capacidade de ao mesmo tempo modificar personagens modernizando-os e respeitar profundamente o cânone e a mitologia do personagem. O run de Bendis no Demolidor tem Mary Typhoid, tem Mercenário, tem Rei do Crime, tem Elektra, tem Foggy, tem Tentáculo. Mas tem gente nova, coisas novas e pontos de vista novos e personagens novos, como Mila Donovan a namorada cega de Matt Murdock. O trabalho de Bendis no Demolidor atingiu altíssimo nível de excelência, entre outros motivos, pela parceria com o artista búlgaro Alex Maleev, cujo traço único caiu como uma luva para retratar o Homem Sem Medo. O Demolidor rendeu a Bendis dois prêmios Eisner (o Oscar dos Quadrinhos) e deixou tanta coisa rica para ser trabalhada que tanto Ed Brubaker quando Mark Waid, os escritores que o sucederam, também foram bastante premiados nas suas passagens pelo título.

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                Se você quer conhecer mais sobre o Demolidor de Bendis, a Panini está publicando a série completa em caprichados volumes encadernados. O primeiro deles é “Revelado”, o arco de estreia de Bendis onde ele decide tornar pública a identidade secreta do Demolidor. O segundo é “O Rei da Cozinha do Inferno“, quando Murdock decide que se não pode acabar com o crime em Hell’s Kitchen então ele vai controlá-lo. O terceiro (e, na minha opinião, o melhor) volume é “Decálogo“, no qual, a partir da simbologia católica (um dos elementos importantes do Demolidor), Bendis analisa as consequências das ações do personagem na vida das pessoas comuns.

                Sobre o herói cego da Marvel, temos um texto bem completo aqui e aqui.

Alias (2001 – 2004)

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                Nos anos 90 a DC mudou o mercado dos quadrinhos criando o selo adulto “Vertigo”, onde a editora Karen Berger foi responsável por uma revolução ao endossar títulos autorais, criativos e ousados como Sandman (Neil Gaiman), Monstro do Pântano (Allan Moore), Os Invisíveis (Grant Morrison), Preacher (Garth Ennis) e Transmetropolitan (Warren Ellis), que ajudaram a mudar um pouco a linguagem dos quadrinhos e revelaram toda uma nova geração de autores e desenhistas. A Marvel, é claro, não ficou (muito) atrás e lançou o selo “Max”, com a mesma premissa.  O título de lançamento do selo foi “Alias”, sob responsabilidade de Bendis. Alias era uma história de detetive noir estrelada por uma personagem nova, criada pelo careca: Jessica Jones. A anti-heroína era uma mulher forte, mas cheia de defeitos. Havia deixado para trás o colante por motivos que não nos entendíamos. Jessica bebia (muito), falava palavrão e descontava suas frustrações em sexo casual e agressivo. A história era derrota atrás de derrota, de forma que muitos de nós nos identificávamos (e não era pouco). O estilo noir da história casava divinamente com a arte de Michael Gaydos (as capas de Alias são das mais lindas que eu já vi, até hoje), bem diferente dos quadrinhos mainstream tradicionais.

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                Alias deu origem, quinze anos depois, à série “Jessica Jones”, do Netflix, que iniciou o universo urbano das séries Marvel que hoje abundam no serviço de streaming. A personagem criada por Bendis se tornou uma das mais conhecidas (e queridas) do universo Marvel, em função da série. Além disso, a passagem de Bendis pelo título e a série serviram também para redefinir e atualizar um antigo vilão de terceiro nível da Marvel, o Homem Púrpura (Zebediah Killgrave, criação do próprio Stan Lee), que deixou de ser um bucha de canhão para se tornar verdadeiramente aterrorizador.

Os Vingadores (2004 – 2013)

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Os Novos (e Improváveis) Vingadores de Bendis, em sua primeira versão.

                “Os Maiores Heróis da Terra”: os Vingadores sempre usaram esse título, mas nunca conseguiram ser essa equipe. No começo do século XXI eram a terceira equipe da Marvel, em nível de importância (atrás dos X-Men e do Quarteto Fantástico). Bendis recebeu carta branca para fazer o que quisesse com o título, o que mostra como ele não vinha bem. Em seu primeiro arco, “A Queda”, Bendis acaba com os Vingadores. Não só termina com o grupo, ele destrói, dilacera o grupo. Se a morte do Valete de Copas não foi tão importante, não se pode dizer o mesmo do Gavião Arqueiro. Ou ainda do Visão, rasgado ao meio por uma Mulher Hulk enfurecida. Nesse arco, Bendis passeou por toda a mitologia dos Vingadores, matou personagens clássicos, destruiu a mansão e o grande vilão por trás de tudo não era Ultron, Kang ou os Mestres do Terror: era a Feiticeira Escarlate, cobrando do grupo seus pecados pretéritos.

                Uma vez “limpo o terreno”, Bendis podia começar seus próprios Vingadores. A primeira formação escolhida pelo autor foi bastante polêmica. Havia os clássicos (Homem de Ferro, Capitão América), mas Bendis incluiu também os dois heróis mais populares da editora, o Homem Aranha e Wolverine (Ninguém, NINGUÉM achava que isso podia dar certo). Completavam o time de improváveis: a ninja Echo (usando o manto de Ronin), o herói urbano Luke Cage (que ele já havia usado em Alias), a clássica e esquecida Mulher Aranha (Jessica Drew) e o Sentinela, um personagem MUITO overpower (com o poder de mil sóis explodindo) que na verdade, até então, sequer fazia parte do universo Marvel regular.

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                Era improvável? Era. Era diferente? Era. Tinha tudo para dar errado? Tinha. Deu errado? Não. Deu certo. Deu MUITO certo. Bendis conduziu os Vingadores para que eles se tornassem o que sempre deveriam ter sido: a maior, mais forte e mais respeitada equipe de heróis da Marvel. Mais do que isso, ela se tornou também a mais LUCRATIVA equipe da Casa das Ideias. Jessica Drew, a Mulher Aranha, foi de eterna coadjuvante a um dos pivôs das principais tramas do Universo Marvel. Luke Cage não só se tornou um vingador, mas se tornou um dos símbolos do que é ser um vingador, tendo sido inclusive líder da equipe por um bom tempo.

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Uma das características dos diálogos de Bendis: o não se levar tão a sério

                O run de Bendis pelos Vingadores caracterizou-se pela passagem de grandes eventos (Guerra Civil, Invasão Secreta, Dinastia M, Reinado Sombrio, O Cerco, Era de Ultron), alguns menos regulares que outros. Como mandava a tradição em grandes equipes de heróis, chegadas e partidas eram comuns. Vimos gente antiga voltando (Miss Marvel, Magnum, Gavião Arqueiro…) e gente nova chegando (Doutor Estranho, Coisa, Doutor Voodoo, Punho de Ferro). Os Vingadores foram de destruídos a quase polícia do mundo até serem banidos. O antigo Duende Verde, Norman Osborn, era um vilão do Homem Aranha, mas durante o run de Bendis tornou-se um nêmese da equipe. Uma outra ideia de Bendis no seu tempo dos Vingadores que foi bem aproveitada foi o conceito dos Ilumminati, um grupo de heróis que tomava decisões drásticas sobre assuntos importantíssimos, guiando os outros heróis sem que eles percebessem. Ele também criou os Vingadores Sombrios, vilões que durante algum tempo se passaram pelos Vingadores.

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Jessica Jones tinha uma quedinha por Peter Parker…
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… e Luke Cage não gostou nada disso.

                Hoje não há dúvida que Os Vingadores são a maior franquia de heróis do mundo, e um dos responsáveis por isso é Brian Michael Bendis.

O Homem de Ferro (2015 – 1018)

                A última grande passagem de Bendis pela Marvel está se encerrando agora, na sua saída da editora. O que fazer com Tony Stark depois dele ter se tornado o centro do universo heroico Marvel? Acabar com ele, é claro. Bendis assumiu os títulos do vingador-playboy-bilionário-filantropista e mexeu em muita coisa. Mudou o passado de Tony, fazendo com que a família com quem ele classicamente tem problemas (Arno e Maria) passasse a ser uma família adotiva. A comunidade heroica acabou rachada na Segunda Guerra Civil e o lado de Tony perdeu, o que acabou com ele sumindo do mapa e sendo substituído. Na verdade substituído DUAS vezes. Em Infamous Iron Man quem assume o manto de Homem de Ferro é nada mais, nada menos que Victor von Doom, o Doutor Destino. A sincera busca de Destino por redenção fica divertidíssima de acompanhar em função da personalidade egocêntrica e pretensiosa do personagem ainda estar ali.

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                Enquanto isso, em Invincible Iron Man uma adolescente negra de 15 anos, Riri Williams, constrói sua própria armadura e torna-se Iron Heart. O Homem de Ferro, um dos mais icônicos personagens da Marvel no século XXI, passou a ser uma menina negra. Pois então, Bendis é um dos nomes sobre os quais obrigatoriamente temos de falar quando falamos de representatividade nos quadrinhos.

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Riri WIlliams, mais uma das criações de Bendis.

                Enfim, por mais que nem tudo que ele fez em 18 anos na DC seja maravilhoso (seu run nos Guardiões da Galáxia é bem fraquinho e seu tempo nos X-Men é, no mínimo, polêmico), a DC está com sangue novo e estamos todos muito ansiosos para ver o que o careca vai fazer com Superman, Batman e cia.

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Durante anos, Bendis usou como piada um maluco qualquer gritando coisas nonsense em delegacias de polícia. Na sua última edição de Jessica Jones ele se despede colocando ele mesmo essa situação…
Literatura

Crossroads

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imagem: Cassiano Rodka

Ao Chuck, trôpego e constante

Diante da encruzilhada de um novo modo de pensar, o mundo se revela imenso. Grande como um cachalote, crescente como uma avalanche. Os pés se fincam na terra e os olhos se enchem de horizontes. Como a chegada de uma onda na praia ou um novo livro na estante.

O descolar da bunda do sofá e o lançar-se porta afora são magnólias postas ao vento enquanto a chuva, inconsequente, chora. O simples andar na rua torna-se revolucionário e consistente. Como o bater dos dedos nas teclas de um laptop, como um cálice borbulhante.

Me ponho desnudo no asfalto com a fluidez de água corrente. Conecto-me com o adiante seduzindo a serpente. Maçã não é pecado e o paraíso está posto na gente. Não é um ato de vandalismo, é o saborear a semente.

Quando o vento bate, eu o sinto nas costas. Não tanto um empurrão, um convite. Nem pra esquerda, nem pra direita, pra frente. Sem soprar escolhas ao pé do ouvido, apenas dirigindo a caminhada a um horizonte distante. Um desafio colocado na testa e eu me encontro caminhante.

Com o sabor inebriante das incertezas, sinto o passo firme em um instante. Como um sapato novo, onde o conforto (ainda) não está presente. Deixo os dedos reclamarem e as solas tornarem-se um tanque. Em cada tropeço, estou eu, uma pegada adiante.

Cinema

Os (meus) melhores de 2017

Antes que encerre janeiro e a gente se atire de cabeça na reta final da temporada de premiações, ainda dá tempo (dá, né?) de recapitular os melhores de 2017. Foi um ano onde eu não vi tudo que gostaria, mas que muita coisa boa esteve em cartaz por aqui…

Até O Último Homem (Hacksaw Ridge, Mel Gibson, 2016)

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                O filme conta a história real de Desmond Doss, o pacifista que serviu na Segunda Guerra Mundial e foi condecorado por bravura mesmo sem nunca ter segurado uma arma na mão. Andrew Garfield, que sempre é um rapaz simpático, faz o papel de rapaz simpático de quem é difícil de não gostar e ajuda a levar o filme. Hugo Weaving, no papel de pai do rapaz, também está muito bem. O que poderia ser muito bem apenas mais um filme biográfico de homenagem torna-se, em sua metade final, uma AULA de cinema. A indicação de Mel Gibson ao Oscar de Melhor Diretor poderia se justificar só pelas maravilhosas cenas bélicas que ele constrói, que são bonitas como há muito não se via nos filmes de guerra. A precisão dos cortes, o uso das cores, da luz e do som está perfeito, tudo se misturando e construindo uma quantidade absurda de frames que poderiam ser enquadrados. Só isso já valeria o filme, mas definitivamente Gibson sabe contar e conduzir uma história. Para mim, “Até O Último Homem” foi uma grata surpresa.

La La Land (Damien Chazelle, 2016)

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                O jovem diretor e roteirista de “Whiplash” (2014) mais uma vez fez um filme sobre música, numa abordagem completamente diferente. “La La Land” é uma homenagem ao cinema e uma releitura deliciosa dos musicais antigos. O filme também é uma declaração de amor à cidade de Los Angeles, que é uma das protagonistas do filme. A relação entre Sebastian (Ryan Gosling) e Mia (Emma Stone) é uma parábola sobre o amor entre a música e o cinema, que começa de forma inusitada, cresce e se torna rica e fértil até ficar monótona e repetitiva. A belíssima canção “City of Stars” acompanha a história dos personagens, em suas várias leituras e diferentes interpretações. “La La Land” homenageia os musicais antigos (e vários números musicais do filme são homenagens e referências muito claras) e se pretende, pretensiosamente, o último musical: ele é, na verdade, uma elegia. As luzes e cores do diretor ressaltam um design de produção impecável para um filme esteticamente muito bonito e agradável.

                “La La Land”, além disso, me tocou de forma particular em função do momento da minha vida onde o filme me pegou. “City of Stars” está, definitivamente, na trilha sonora da minha vida.

Logan (James Mangold, 2017)

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                A despedida de Hugh Jackman do icônico Wolverine não poderia ter sido em melhor estilo. O ator australiano viveu o carcaju em oito filmes antes desse e, segundo os fãs, só no nono filme nós vimos o Wolverine de verdade. O road movie de James Mangold (Garota, Interrompida, 1999) nos mostra um Logan já velho, com menos poderes e lidando com culpa e remorso em grandes quantidades. O moribundo Professor Xavier (Patrick Stewart, numa performance maravilhosa) encarrega-se de ajudar Logan a encontrar sentido na vida salvando e guiando a jovem Laura (Dafne Keen), em quem ambos enxergam muito do próprio Wolverine jovem.

                Optei por “Logan” mas fiquei com o coração partido para não por “Mulher Maravilha” (Wonder Woman, Patty Jenkins, 2017) e até Liga da Justiça (Justice League, Zack Snyder e Joss Whedon, 2017). “Mulher Maravilha” se tornou uma das três grandes bilheterias do ano e uma das maiores de filme de origem, provando que um filme sobre uma heroína (e dirigido por uma mulher) pode ter, sim, a rentabilidade que os estúdios procuram. Além deles, A Marvel fez bons filmes (apesar de um pouco repetitivos) com “Guardiões da Galáxia vol2” (Guardians of The Galaxy vol 2, James Gunn, 2017) e “Thor: Ragnarok” (Taka Waititi, 2017), dois filmes leves e divertidos no melhor estilho Sessão da Tarde.

Star Wars: Os Últimos Jedi (Star Wars: The Last Jedi, Rian Johnson, 2017)

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                Esperamos dois anos para ver o que o Luke ia fazer com o sabre de luz levado pela Rey. Rimos e choramos com os personagens de nossas infâncias e com os nossos novos heróis. O filme trouxe despedidas: Carrie Fisher, a princesa que virou general. Luke Skywalker, o Jedi que entendeu que era mais útil como lenda do que como guerreiro. O diretor e roteirista Johnson deixou de lado alguns dos muitos caminhos abertos por JJ Abrahms no longa anterior e nos deu um lindo filme sobre fracassos. Conseguiu dar profundidade para Kylo Ren (o maior problema do filme anterior) e nos fez torcer desesperadamente por planos que… deram errado. “Os Últimos Jedi” aponta corajosamente para o futuro ao mesmo tempo em que trata com muito carinho e respeito o passado. Star Wars está vivo, e muito vivo.

Mãe! (Mother!, Darren Aronofsky, 2017)

                Muita gente odiou. Muita gente não conseguiu assistir até o final. Mas o fato é que nenhum filme em 2017 causou reações tão fortes quanto o thriller de Aronofsky. O filme é uma parábola bíblica. O filme trata sobre obsessão. O filme fala sobre relacionamentos abusivos. O filme fala sobre criação artística. O filme fala sobre tudo isso (e sobre várias outras coisas também). O filme é pretensioso. E a resposta para todas essas perguntas é “sim!”. Jennifer Lawrence carrega o filme inteiro na melhor atuação de sua carreira, em um filme que é experimental em vários momentos e tem trabalhos de fotografia e som maravilhosos. Javier Barden faz um Deus egoísta, vaidoso e autocentrado, que consegue ao mesmo tempo nos fazer adorá-lo e ter raiva dele.  Ed Harris e Michelle Pfeiffer completam o elenco como Adão e Eva, sem deixar a peteca cair nunca. “Mãe!” mobilizou paixões e ódios na mesma medida e apesar de ter sido esnobado nas indicações ao Oscar, vale a pena ser visto e revisto.

Enfim, teve muita coisa boa que não entrou nessa minha lista de destaques. “Moonlight” mereceu ganhar o Oscar e é um filme lindo. “Manchester à Beira Mar”, apesar da polêmica envolvendo Casey Affleck, vale a pena ser visto. “Capitão Fantástico” vai ser daqueles filmes que ficam, como “Na Natureza Selvagem”. “Estrelas Além do Tempo” conta uma história necessária de uma maneira muito bacana. Já falei em “Mulher Maravilha”, mas se você ainda não foi atrás, vá que vale a pena! E o cinema nacional, apesar das bombas como “Polícia Federal” e “Real – O Plano por Trás da História” e da enxurrada de filmes de youtubers continua fazendo coisas bacanas como “Bingo – O Rei das Manhãs”, “Como Nossos Pais”, “Corpo Elétrico” ou “O Filme da Minha Vida”. Tem muita coisa boa de 2017 para ser visto, ainda bem!

Literatura

Yourselves

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imagem: José Calimero

“…these selves of which we are built up, one on top of another, as plates are piled on a waiter’s hand, have attachments elsewhere, sympathies, little constitutions and rights of their own, call them what you will (and for many of these things there is no name)…”
Orlando, Virginia Woolf

Have you peeked through a keyhole? Have your ears become fond of doors and their touch? Have your eyes turned into lip readers?
You are wrong if you think you are a veil lifter.
At first you are dragged into a spiral of self portraits and no doubt it is you standing there alone naked, it is you no matter what they say. The sound, it is your voice echoing in the library, in your room and it is the same one resonating within you. The words your mind deciphers, they are a copy of the ones already written on a much perennial fabric – impossible to erase or overwrite – it is part of the whole. Regardless of the direction you move, the digging has begun. It only ceases when you surface

Música

Melhores de 2017

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Mais um ano vai, mais uma lista vem. Entre os meus discos preferidos de 2017, há espaço para riffs rápidos de hardcore, pianos delicados de jazz e experimentações eletrônicas.

Dead Cross – Dead Cross
O melhor do ano tranquilamente! Uma banda de hardcore com Dave Lombardo (ex-Slayer) na bateria, Michael Crain e Justin Pearson (integrantes do Retox) na guitarra e no baixo, respectivamente, e – cereja do bolo – Mike Patton nos vocais só poderia dar certo. O grupo, inicialmente, fez alguns shows com Gabe Serbian (The Locust) como vocalista e, depois que ele decidiu sair para curtir mais tempo com a família, a entrada de Patton deu uma guinada que mudou radicalmente o approach das canções. O que poderia ser apenas um bom disco de hardcore se tornou um excelente álbum de rock, graças à enorme paleta de cores proporcionadas pelo gogó de Mr. Mike Patton. Fez toda a diferença, e a gente agradece!

Soulwax – From Deewee
De longe, o melhor disco de música eletrônica de 2017! Os belgas do Soulwax sempre surpreendem com suas melodias e seus experimentos, criando música para dançar para quem gosta de escutar novas sonoridades. Em From Deewee, sintetizadores esquisitoides e vocais robóticos passeiam em meio a furiosas batidas quebradas. Segundo a banda, as gravações para o disco foram feitas em um só take. O vídeo do belíssimo single “Is It Always Binary” mostra como as canções foram criadas: utilizando três bateristas (incluindo Igor Cavalera) e diversos sintetizadores. Os show do grupo utilizam esse mesmo formato, sendo uma verdadeira instalação musical! Melhor performance de 2017? Sem sombra de dúvida!

Violent Femmes – 2 Mics & The Truth: Unplugged & Unhinged in America
Gravado ao vivo em diversas rádios enquanto a banda fazia a divulgação do mais recente álbum, We Can Do Anything, este disco apresenta uma bela seleção de faixas, que inclui muitas canções não tão óbvias da carreira do Violent Femmes em meio a alguns hits. A captação foi feita apenas com dois microfones, um deles apontado para o vocalista e guitarrista Gordon Gano, e o outro para o baixista Brian Ritchie. O resultado é a cara da banda, um clima intimista acústico e lo-fi.

Selton – Manifesto Tropicale
O quarteto gaúcho Selton lançou mais um belo disco de canções brasileiras salpicadas com temperos italianos, norte-americanos, latinos e o escambau. Um pouquinho mais sereno que os álbuns anteriores, Manifesto Tropicale traz a alegria e a melancolia característica dos guris embrulhada em uma produção caprichada e arranjos bem sacadinhos. World music contemporânea para ouvidos atentos!

Absynthe Minded – Jungle Eyes
Depois de um silêncio de cinco anos, os belgas do Absynthe Minded ressurgiram com um disco de canções acústicas, mas com pegadas funk e vocais pop. Relativamente conhecida na cena musical indie da Bélgica e de Portugal, a banda não tem muito alcance no resto do mundo. As canções são gostosas e os músicos são bons, deem uma chance pros carinhas!

William Patrick Corgan – Ogilala
Acústico e despretensioso, o segundo disco solo de Billy Corgan é o melhor lançamento do músico desde as épocas áureas do Smashing Pumpkins. O renomado produtor Rick Rubin foi convidado para assumir os botõezinhos em Ogilala e acabou sendo o grande responsável pelo som desnudo do álbum. Quando escutou as demos das músicas, sugeriu que as faixas fossem gravadas exatamente daquela forma, sem muitos overdubs e frufrus. Acertou na mosca!

Jamie Saft, Steve Swallow, Bobby Previte with Iggy Pop – Loneliness Road
Como se não bastasse a união do trio de piano, baixo e bateria composto por Jamie Saft, Steve Swallow e Bobby Previte, este disco traz ainda a presença de ninguém menos que Iggy Pop emprestando seus fantásticos graves para três faixas. Sim, Iggy fuckin’ Pop cantando jazz! O vozeirão do cantor se presta perfeitamente para costurar as melodias criadas pelos músicos. Segundo Jamie Saft, quando ele escutou o resultado das canções em sua cozinha, a sua filha pequena disse “Nossa, papai, eu nunca havia visto você sorrir dessa maneira!”

Filipe Catto – Catto
O gaúcho Filipe Catto mais uma vez acerta bonito ao apostar em uma sonoridade MPB com sabor atual. Muito além de utilizar elementos eletrônicos, o músico adiciona elegantes arranjos de corda para criar instrumentais impecáveis para ele destilar suas letras poderosas. A voz de Catto é um show à parte e, neste disco, ela brilha como nunca. Talvez seja o melhor do cantor, o guri é foda!

Quadrinhos

Paper Girls: dos anos 80 ao futuro

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Em uma longa viagem de ônibus durante as férias, tive o prazer de mergulhar fundo no universo da nova criação de Brian K. Vaughan, a aventura oitentista Paper Girls.

Nessa série mensal, o escritor narra a história de quatro entregadoras de jornal que se deparam com uma máquina do tempo. A descoberta acaba colocando as garotas em meio a uma guerra entre exploradores e cientistas com as mais diversas intenções em relação ao uso do aparelho.

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Ambientada em 1988, a narrativa explora várias referências a acontecimentos da época, além de trazer um sabor de filmes conhecidos dos anos 80 como De Volta para o Futuro, E.T. e até, mais recentemente, à série de TV Stranger Things – apesar de ela ter sido lançada um ano após a estreia dos comics.

Criador de algumas das melhores histórias em quadrinhos dos últimos tempos, Brian K. Vaughan tem um dom especial de dar vida a personagens muito bem construídos, densos e reais, aos quais nos apegamos facilmente. Assim como em seu clássico Y – The Last Man, o escritor foge do convencional e foca em personagens mulheres, deixando os homens de coadjuvantes. O quarteto de entregadoras de jornal Erin, Tiffany, MacKenzie e KJ são meninas de 12 anos que vão descobrindo suas próprias personalidades, crenças e laços ao longo de uma trama sci-fi cheia de reviravoltas.

Em 2016, Paper Girls foi vencedora do prêmio Eisner na categoria de Melhor Série Nova e o seu ilustrador, Cliff Chiang, ganhou Melhor Desenhista. A partir de 2017, a revista passou a ser publicada em português pela editora Devir. Se não sabia ainda que HQ começar a ler neste novo ano, taí uma aventura na qual vale muito a pena embarcar.

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Literatura

História de Maria: o corpo

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imagem: José Calimero

Como toda criança, Maria queria ser única. Quando a perguntavam com quem ela se parecia, Maria era enfática: “Com ninguém além de mim mesma”. Mas sozinha em seu quarto, Maria se observava e ia enxergando outras pessoas que não somente ela. Começava pelos seus pés. Seu maior dedo do pé esquerdo tinha uma semelhança terrível com o de seu tio, mais que isso, era ele. Maria passava horas observando-o e comparando-o com o do pé direito, este sim era ela, sem interferência. Maria pura. Depois, Maria subia para as mãos, mais especificamente, os dois polegares. Eram seu pai. Maria os escondia, abraçando-os com os outros dedos, estes sim, originais. Maria então ia até o espelho. Sua avó era o nariz. Seu avô as sobrancelhas. Maria perdia um tempo ali, irritada, em meio a pensamentos ranzinzas, absorta em sua resolução de ser somente ela mesma. Maria mais uma vez encara o espelho. Agora ela repara em sua boca, olhos, e orelhas, todos Maria e ninguém mais. Maria conclui então que era sim, Maria, em sua maior porção.

Cinema

Há muito tempo atrás numa galáxia muito, muito distante…

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Star Wars: Episódio VIII – Os Últimos Jedi (Star Wars: Episode VIII – The Last Jedi, Rian Johnson, 2017)

                Desde o relançamento da saga Star Wars pelas mãos da turma do Mickey, dezembro sempre nos reserva um presente. Em 2015 foi o Episódio VII, trazendo elementos para renovar a franquia ao mesmo tempo em que trouxe de volta Han, Luke e Leia. Em 2016 veio Rogue One, que nos contou uma história linda e fechadinha, abrindo novas possibilidades. E desde o meio de 2017 acompanhamos os trailers, teasers e cartazes de “Os Últimos Jedi” (título que foi pluralizado no português, apesar do diretor ter dito em entrevista que “The Last Jedi” estava no singular, enfim).

                O filme começa onde o Episódio VII havia terminado: após a explosão da nova Estrela da Morte a Primeira Ordem, sucessora do Império, busca esmagar a Resistência que quer restaurar a República. Enquanto isso Rey parte em busca do recluso Luke Skywalker, que pode ter papel fundamental na luta contra a Primeira Ordem e ainda deve exercer o papel de mentor e prover a orientação que Rey precisa para compreender seus poderes e seu papel na trama toda. O filme traz de volta Oscar Isaac (Poe Dameron ), John Boyega (Finn) e Daisy Ridley (Rey) nos papeis principais reafirmando o positivo discurso pela diversidade que já estava presente no episódio anterior (ou você acha que é por acaso que uma mulher, um negro e um hispânico são os protagonistas?). Leia Organa, General, está bem estabelecida como a líder da Aliança, que após um ataque inicial bem sucedido (porem custoso) a uma frota imperial, se vê em maus lençóis.

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Rey e Luke: está na hora do novo substituir o antigo

                O encontro entre Rey e Luke era aguardado desde a cena final do filme anterior. Ela precisa entender o que está acontecendo com ela mesma enquanto ele reluta em treiná-la, em função de não acreditar mais na estrutura da Ordem Jedi, muito em função dos acontecimentos que transformaram Ben Solo em Kylo Ren. Enquanto Rey aprende mais sobre a Força e seus poderes, descobre também que tem uma conexão com Kylo, que ela prefere não dividir com Luke. A cena em que Luke explica para Rey o que é a Força é linda e sintética, esclarecendo para Rey (e para o expectador) a amplitude e a beleza do que é a Força. A jornada de autoconhecimento de Rey também passa por descobrir o seu passado, uma vez que ela não conhece os próprios pais (e desde o outro filme insinua-se que eles poderiam ter uma função na trama). A jornada de Rey passa pelos dois lados da Força, o que chega a assustar bastante Luke. Numa rima (dentre tantas) com “O Império Contra-Ataca”, Rey em determinado momento do seu treinamento entra numa caverna para lidar com o seu “lado escuro”. Ao olhar-se num espelho depara-se… consigo mesma. E a grande mensagem para Rey, que busca desesperadamente o “seu lugar nisso tudo”, é que quem vai fazer o seu destino é ela mesma.

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Poe Dameron e seu parceiro, BB-8

                Em paralelo a isso temos uma tensa perseguição entre naves da Primeira Ordem e o pouco que resta dos Rebeldes, com pouco combustível. A decisão do General Hux é por persegui-los até o fim da energia e pôr fim aos Rebeldes de uma vez por todas, o que parece meio inevitável nas circunstâncias apresentadas. Aí entra a impetuosidade de Poe Dameron, que bate de frente com a Almirante Holdo, que ascende ao controle dos Rebeldes após o ferimento grave da General Leia. Indo contra as orientações de Holdo, Dameron se junta ao amigo Finn e à nova conhecida, Rose, para bolar um plano suicida próprio que poderia salvar os rebeldes, mas dependia de encontrarem alguém capaz de danificar a nave do Supremo Líder Snoke de dentro, para que ela não fosse mais capaz de rastrear as naves rebeldes.

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Finn e Rose: ela o ajuda a entender o que é ser um heroi.

                Rian Johnson, o diretor, e JJ Abrhams, o produtor, tomaram algumas decisões que causaram algum desconfortos nos fãs mais xiitas (chatos) e com as quais eu concordo: para seguir adiante, é necessário deixar o passado para trás. É necessário quebrar regras. É necessário abraçar o novo. Não é a toa que, de maneiras diametralmente opostas, tanto Luke quanto Kylo tenham esse mesmo discurso. Em uma das cenas mais significativas do longa quem apoia essa tese é o próprio Mestre Yoda. Vários paradigmas e fórmulas recorrentes na saga são quebradas: planos DÃO errado. Hiearquias SÃO derrubadas. Personagens de moral dúbia não são bonzinhos por natureza. A distinção entre os dois lados da Força torna-se cada vez mais borrada. E a relação entre Rey e Kylo Ren fica muito, muito interessante. Eles se ajudam e se entendem (inclusive na melhor cena de batalha do filme), mesmo que seus objetivos sejam, cada vez mais, opostos. A relação de Kylo com Rey, aliás, nos ajuda a entender melhor o personagem de Adam Driver e o torna mais interessante (uma das queixas justificadas do Episódio VII era justamente isso).

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Luke e Leia: hora de dar adeus

                O filme é um filme de despedidas. Já sabíamos que nos despediríamos de Carrie Fisher, falecida no início do ano. A melhor homenagem que poderiam ter feito a ela foi feita: manter o seu papel de líder, de rocha sólida em torno da qual os Rebeldes se equilibram. A humanidade e a determinação da General Leia vão, sem sombra de dúvida ficar. A despedida é também de Luke Skywalker, o Jedi de uma geração. Se um grande herói pode se tornar uma lenda, a despedida de Luke é épica. Toda essa parte do filme rima com o Episódio IV, o primeiro Star Wars. O confronto entre Kylo e Luke lembra Darth Vader e Obi-wan Kenobi. E o pôr do sol, com a música… sim, rolou uma lágrima.

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Batalha de Crait: imagens espetaculares e inspiradas.

                Há cenas deslumbrantes. O combate final, no deserto de sal, é esteticamente irreparável. Há combates espaciais. Há tensão. Perseguição. Sabres de luz. Tem tudo que Star Wars tem que ter. Mas há uma ideia: para seguir adiante, devemos deixar o passado para trás. O melhor do filme é destruir qualquer expectativa em relação episódio IX. Eu não tenho a MENOR IDEIA do que pode acontecer, e isso é fantástico. Se havia uma preocupação quanto à renovação da franquia, ela ficou para trás. Que venha o Episódio IX, e tudo mais que vier!