Clarice Dall’Agnol

Literatura

Manifesto

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imagem: Cassiano Rodka

E eis que me surge um poema
Depois de tanto tempo,
Vem ele me tomando, devagarinho…
Conhece todos os cantinhos da minha mente e do meu corpo,
que fica tentando me dizer o que posso e o que não devo fazer – em vão.
Hoje sou líquida.
Mas não quero ser pura.
Ao contrário da água,
sou senhora absoluta das minhas formas de me libertar.
Entre estranhos limites,
Faço meu ninho,
Desenho desatinos,
Me esvaio, escandalosa.
Não busco mais sentido, porém.
Nas veias, a plenitude,
No corpo, a certeza,
Em todos os olhares, a exatidão.
Na alma, o retrato que desenho em detalhes, e guardo em mim.
E não deixo fugir.

Piras

Dos relacionamentos abertos

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imagem: Cassiano Rodka

Eu vivi nos últimos 11 anos apenas relacionamentos abertos. Ufa, que alívio! É gostoso poder dizer isso e não ouvir de volta o tradicional “Como assim?” ou “O que isso quer dizer?”. Toda vez que alguém me pergunta isso me dá vontade de questionar como funciona o relacionamento monogâmico dela, como isso foi decidido entre o casal e se o parceiro ou a parceira aceitou de boa – que são as coisas que mais escuto. É quase como quando alguém te pergunta quando que você percebeu que era gay e dá vontade de perguntar quando que a pessoa descobriu que era hétero, como foi contar pros pais dela, essas coisas. Mas, num mundo em que relacionamentos abertos são tidos como “incomuns” (e isso é altamente questionável, pois, vivendo um, você descobre que tem muuuuuito mais gente em relacionamento aberto do que parece), eu prefiro dar explicações para não deixar a imaginação das pessoas ir muito além.

Um relacionamento aberto é um relacionamento que não é necessariamente monogâmico. Fim. Essa é a única cláusula básica. O resto da brincadeira vocês inventam, vão ser felizes, bjs de luz. Tem gente que tem relacionamento aberto e fica aaaaanos sem ficar com outra pessoa, tem os que ficam sempre, tem os que ficam só quando o parceiro ou a parceira está junto, tem poliamor, tem um monte de coisa – e não há uma regra do que é certo ou errado aqui, mas do que serve ou não a quem está vivendo isso. O que acho interessante desse pensar os termos de um relacionamento aberto é que você faz algo que não se costuma fazer em nenhum relacionamento, e que, a meu ver, é super necessário. Não que você vai chegar pra pessoinha com um contrato com cláusulas e malditas letras miúdas, mas isso pode ser discutido e construído à medida que se vai vivendo. O ponto é bem este: processo, nada está dado a priori (o que, em geral, é a base de um relacionamento monogâmico).

Note que eu tenho problemas com a premissa da definição do relacionamento monogâmico, mas não com ele em si. Gente, cada um vai viver sua vida como quiser! Não acho que relacionamentos abertos são para pessoas evoluídas como já ouvi por aí, algo tipo “calma queridinha, um dia você vai ser desconstruidona e vai chegar lá”. Apenas pare. Inclusive tem uma cambada de gente usando esse discurso de evolução para se colocar em uma posição de “ditador(a) de regras do relacionamento”, não fazendo nenhuma discussão com o(a) parceiro(a). Palha. Ahhh , sim… não vamos esquecer o esquerdomacho desconstruidão que diz que amor livre é lindo, mas só se ele pega todas as minas e a namorada dele não. Se ele beija todo mundo e a namorada dele só fica com meninas, mas, com outro homem, não. Isso não tem nada a ver com relacionamento aberto, a pessoa que é idiota mesmo. Então, mores, relacionamento aberto não é sinônimo de algo incrível e não é pra todo mundo, você que tem que decidir se, com essa(s) pessoa(s) específica(s) você quer viver uma relação nos termos tal e tal. Conversem, essa é a dica.

Maaaas, toda essa introdução foi pra relatar uma história que eu ouvi esses dias de um cara que falava que estava namorando uma menina super bacana, linda, querida, massa. Relacionamento monogâmico, ela é o amor da vida dele. THE ONE. Aí ele contou que ficou com outra esses tempos e eu fiz uma expressão de “q?”. Nisso vem aquele sorrisinho que dá vontade de esfregar a cara da pessoa no asfalto acompanhado de um “Ahhh, sabe como é, né?… a carne é fraca… sabe como homem é”. Sinceramente, se eu fosse homem, sentiria vergonha desse exemplar da minha espécie. E pausa para observar o machismo básico da afirmação: homem é que faz essas coisas; mulher, não. Se a mulher fizer, é vagabunda, não merece respeito. Se o homem faz, é pegador, é da natureza. Tenho certeza que a fala desse cara não contempla todos os homens do mundo e não é a questão do machismo que me interessa neste exato momento.

Justamente por essa história não ser a primeira que eu escuto de pessoas que têm um relacionamento monogâmico e ficam com outras pessoas que o que eu realmente – REALMENTE – não consigo entender é: como que um relacionamento aberto pode ser tratado como a coisa mais absurda da face da Terra e um relacionamento monogâmico onde alguém trai é tão naturalizado? É explicado biologicamente até, pois “a carne é fraca”. ATA.

O status de uma relação é algo construído socialmente, não existe uma tábua dos dez mandamentos dizendo como cada um tem que viver o seu e tudo mais. Então quem sabe a gente para de aceitar as definições (de tudo, eu diria) como se elas não tivessem sido por nós construídas e nos tornamos autores e autoras dessa história? Ouso dizer que talvez as definições nem tenham mais espaço em alguns contextos, mas isso é papo para outra hora. Mas, dentro da conjuntura atual de atribuir nomes para nossa identidade, relações, etc., temos que analisar o que essa definição quer dizer: monogâmico tem “mono” no nome, veja só. Se essa configuração não te serve, blz. Crie outra! Só não pode duas coisas: 1) vomitar regra do que é um relacionamento ideal; reflita e crie a sua forma de viver isso com quem quer que seja. E 2) seja monogâmico, aberto, livre, poliamor ou whatever: permaneça fiel à definição. Pelo menos a ela, já que às pessoas muitos não estão sendo, né nom?

Literatura

Mãos do tempo

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imagem: Cassiano Rodka

Mais um para a Angelina e para a Marx, as maiores incentivadoras do meu retorno à criação literária, para as quais sempre tenho e sempre terei tempo.

O tempo da literatura não é como este, da vida.
Há que se ter tempo para os caprichos do tempo literário.
Necessário entender suas manhas,
suas marras (e amarras).
E mimos, e dengos.
Estou há tempos para escrever meu poema mais dengoso.
Ele fica aqui em mim, resmungando, choramingando…
Gritando, por vezes, e agitando suas palavras de modo ansioso.
E eu penso, “te aquieta, mas que chatice…!”.
Ele não desiste, porém. Ele quer sair, quer olhar de perto o mundo dos “outros” (o dos leitores, claro).
Quer desabitar sua mãe, que, bem, sou eu.
Sou uma mãe ciumenta. Cuidadosa, prestimosa. Carinhosa em excesso. Tenho medo dos desatinos do mundo.
Tento nunca desafinar.
Mas, como toda mãe, também falho.
E mesmo com todo o meu zelo, vejam só: o danadinho acaba de fugir do meu ser, às nove e meia da noite de uma quarta-feira qualquer…

Literatura

História de Maria: sobre o perder(-se)

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imagem: José Calimero

Maria temia perder. Detestava competir, mas, se desafiada, Maria seguia em frente, mesmo ultrapassando a linha de chegada de seu limite.
Maria receava se perder, no entanto, adorava atalhos, trilhas mal sinalizadas e caminhos cujos avisos alertavam: proibido ultrapassar.
Maria enlouquecia ao perder de vista o que lhe era mais caro. Quando criança, havia sido sua coleção de ursinhos carinhosos. Misteriosamente desapareceram do jardim onde ela brincava. Haviam, acreditava ela, criado vida própria, cavado um túnel e construído seu império subterrâneo longe do alcance das crianças.
Perder para Maria era tão vital quanto havia sido cair enquanto aprendia a andar.
Quando Maria se perdia em suas andanças pelo mundo, ela frequentemente encontrava o que nem sabia ser desconhecido.
Os bens mais preciosos de Maria não podiam ser guardados no armário, ou na gaveta da penteadeira. Ficavam soltos ao vento e, se permaneciam com ela, era porque Maria os deixava voar.

Cinema

Oscar 2018 – As Previsões

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     Prepare seu smoking, marque seu salão: a noite de gala do cinema se aproxima! Podemos esperar um pouco do de sempre: vestidos glamorosos (outros nem tanto), badalação, surpresas, discursos emocionados e homenagens aos falecidos. Por outro lado, teremos novidades também. Depois do #OscarSoWhite do ano passado tivemos uma preocupação grande da Academia com a representatividade desde as escolhas dos indicados (Greta Gerwig é a quinta mulher NA HISTÓRIA a ser indicada a Melhor Diretora por “Lady Bird” e o excelente “Corra!” teve múltiplas indicações) até aos apresentadores.  A atriz chilena Daniela Vega, que faz o longa chileno “Uma Mulher Fantástica”, será a primeira pessoa trans a apresentar um prêmio no Oscar. Certas ausências também serão importantes: Casey Afleck, vencedor do prêmio de Melhor Ator no ano passado, romperá uma tradição e não entregará a estatueta de Melhor Atriz esse ano. O envolvimento dele em casos de estupro e abuso sexual e a seriedade com que essas questões passaram a ser encaradas mais recentemente (com o movimento #me_too tornando-se fundamental) certamente colaboraram para que isso acontecesse.

Enfim, será uma noite de emoções, de gala, de festa. E também de protestos, injustiças e escolhas inusitadas, temos certeza. Dito isso, vamos partir para os nossos palpites da noite:

Melhor Filme

Indicados: “The Post – A Guerra Secreta” (The Post, Steven Spielberg, 2017), “Dunkirk” (Christopher Nolan, 2017), “Lady Bird – Hora de Voar” (Lady Bird, Greta Gerwig, 2017), “Trama Fantasma” (Phantom Thread, Paul Thomas Anderson, 2017), “Corra!” (Get out!, Jordan Peele, 2017), “Três Anúncios Para Um Crime” (Three Billboards Outside Ebbing, Missouri, Martin McDonagh, 2017), “O Destino De Uma Nação” (The Darkest Hour, Joe Wright, 2017), “Me Chame Pelo Seu Nome” (Call Me By Your Name, Lucca Guadagnino, 2017).

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Nos últimos anos a premiação nessa categoria tem sido embaçada. Tradicionalmente o vencedor de Melhor Filme também leva o de Melhor Diretor e é o vencedor do PGA. Em 2016 “Spotlight” venceu Melhor Filme sem levar nem o PGA (A Grande Aposta) nem Melhor Diretor (Alejandro Iñarritú, por “O Regresso”). Em 2017 “Moonlight” levou Melhor Filme sem levar Melhor Diretor (Foi Damian Chazelle por “La La Land”) nem o PGA (“La La Land, novamente). Ainda assim, aposto na tradição. “A Forma da Água” levou o PGA, o DGA e tem Guillermo del Toro indicado ao prêmio de melhor diretor. É o favorito e acredito que deva ser o vencedor na categoria. O concorrente mais forte é “Três Anúncios Para Um Crime”, que pode sim fazer o crime (!!) e levar a estatueta. O filme de Martin McDonagh levou o prêmio de Melhor Elenco do SAG enquanto a fábula de del Toro não foi sequer indicada na categoria. “Dunkirk”, o filme tecnicamente mais bem acabado de todos eles, e “Me Chame Pelo Seu Nome”, o mais bonito entre os indicados, correm mais por fora. “Me Chame Pelo Seu Nome” é um pouco prejudicado, sim, pela vitória de “Moonlight” ano passado. Por mais que não haja NENHUMA relação direta entre os dois filmes, muita gente na Academia repete o bordão de “já premiamos isso ano passado.

Enfim, GANHA: “A Forma da Água”

MEU VOTO: “Dunkirk”

MELHOR DIRETOR

Indicados: Christopher Nolan (por “Dunkirk”), Greta Gerwig (por “Lady Bird”), Jordan Peele (por “Corra!”), Gullermo del Toro (por “A Forma da Água), Paul Thomas Anderson (por “Trama Fantasma”)

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Historicamente essa categoria é casada com a de melhor filme. Nos últimos 20 anos estiveram juntas treze vezes. Também é verdade que nos últimos cinco anos essa situação mudou: os prêmios só estiveram juntos em 2015, quando Alejandro Iñarritú venceu junto com seu “Birdman (ou a Inesperada Virtude da Ignorância)”. Ainda assim, acho que esse ano os prêmios vão casar e del Toro vai levar sua estatueta para casa. Além de ter feito um filme lindo, que homenageia o cinema e a própria Hollywood, o que a Academia gosta bastante, ele mesmo é bastante querido no meio e há o consenso que “já fez por merecer”. Se o prêmio não for de del Toro, deve acabar nas mãos de Nolan, outro que será premiado mais cedo ou mais tarde, se não hoje. Greta Gerwig ou Jordan Peele seriam surpresas chocantes. São duas carreiras ainda muito iniciantes. Paul Thomas Anderson, por outro lado, tem uma carreira consolidada e é o único dos indicados a estar concorrendo por uma segunda vez. Tudo isso pode pesar a seu favor.

Enfim, GANHA: Guillermo del Toro.

MEU VOTO: Christopher Nolan

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL

Indicados: Martin McDonagh (por “Três Anúncios Para Um Crime”), Greta Gerwig (por “Lady Bird – Hora de Voar”), Jordan Peele (por “Corra!”), Guillermo del Toro e Vanessa Taylor (por “A Forma da Água”), Kumal Nanjiani e Emily V Gordon (por “Doentes de Amor”).

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Esse deve ser o prêmio para “Três Anúncios”, que conta uma história maravilhosamente bem contada. E será justo. É um roteiro direto e conciso, com reviravoltas nas horas exatas e personagens multidimensionais. É difícil gostar de alguém em “Três Anúncios”. Mas é difícil odiar completamente também. O filme levou o prêmio do WGA e deve, sem surpresas, levar o Oscar também.

Enfim, GANHA: “Três Anúncios Para Um Crime”

MEU VOTO: “Três Anúncios Para Um Crime”

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO

Indicados: Aaron Sorkin (por “A Grande Jogada”), Dee Rees e Virgil Williams (por “Mudbound – Lágrimas Sobre o Mississipi”), James Ivory (por “Me Chame Pelo Seu Nome”), James Mangold, Scott Frank e Michael Green (por “Logan”), Scott Neustadter e Michael H. Weber (por “O Artista do Desastre”).

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A grande (e boa) surpresa dessa categoria foi a indicação de “Logan”. Os filmes de heróis costumam ser levados em consideração pela Academia só nos quesitos técnicos, como figurino, efeitos visuais e som. As categorias mais “nobres” em geral ignoram solenemente esses filmes (mesmo quando alguns deles mereciam, sim, mais consideração). “Logan” é a despedida de Hugh Jackman do papel de Wolverine e finalmente traz uma história que faz juz ao baixinho mais enfezado do Canadá. Não tem nenhuma chance de vencer, mas só ter sido lembrado já é um avanço interessante. O prêmio deve ir para “Me Chame Pelo Seu Nome”, um roteiro muito bonito e sensível que conta uma história de personagens extremamente críveis e cativantes. Além disso, o prêmio de roteiro muitas vezes é uma espécie de “prêmio de consolação” para filmes um pouco mais artísticos e de alta qualidade que não tem chance de levar o prêmio de “Melhor Filme”

Enfim, GANHA: “Me Chame Pelo Seu Nome”

MEU VOTO: “Me Chame Pelo Seu Nome”

MELHOR ATRIZ

Indicadas: Saoirse Ronan (por “Lady Bird – Hora de Voar”), Frances McDormand (por “Três Anúncios Para Um Crime”), Sally Hawkins (por “A Forma da Água”), Margot Robbie (por “Eu, Tonya”), Meryl Streep (por “The Post – A Guerra Secreta”).

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Essa categoria sempre é incrível, esse ano não é diferente. Saoirse Ronan tem a sua terceira indicação (segunda como Melhor Atriz, uma como Melhor Atriz Coadjuvante) e será premiada logo (mas não esse ano). A disputa, eu acho, fica entre a excelente Frances McDormand, que conduz “Três Anúncios Para um Crime”, e a encantadora Sally Hawkins, que protagoniza “A Forma da Água”. Margot Robbie está sensacional com a triste e debochada história da patinadora Tonya Harding, mas pelo menos por enquanto a Academia deve considerar que a indicação já é prêmio suficiente para ela. Meryl Streep está indicada a Melhor Atriz pela décima nona vez (ganhou duas) e deve encarar mais uma derrota.

Enfim, GANHA: Frances McDormand.

MEU VOTO: Bah, esse é difícil. Sally McRobbie. Frances Robkins. Margot McHawkins. Qualquer uma das três estão sensacionais.

MELHOR ATOR

Indicados: Gary Oldman (por “O Destino de Uma Nação), Daniel Day-Lewis (por “Trama Fantasma”), Daniel Kaluuya (por “Corra!”), Timothée Chalemet (por “Me Chame Pelo Seu Nome”), Denzel Washington (por “Roman J. Israel, Esq.”)

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Talvez a categoria mais fácil de prever. Apesar da presença de Day-Lewis, Gary Oldman levou todos os prêmios da temporada e vai ser uma surpresa muito grande se não for ele a receber a estatueta das mãos de Emma Stone. Oldman se transformou para viver Winston Churchill e o pessoal da Academia ADORA tanto uma grande transformação física quanto um bom personagem histórico. Por tudo isso, as chances de todos os outros ficam bastante reduzidas. Pena que vai sobrar a atuação maravilhosa do jovem Timothée Chalemet, que faz Elio em “Me Chame Pelo Seu Nome”, que nos conduz pelo filme de uma forma leve, doce e absolutamente natural.

Enfim, GANHA: Gary Oldman

MEU VOTO: Timothée Chalemet

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE:

Indicadas: Octavia Spencer (por “A Forma da Água”), Laurie Metcalf (por “Lady Bird – Hora de Voar”), Leslie Manville (por “A Trama Fantasma”), Allison Janney (por “Eu, Tonya”), Mary J. Blidge (por “Mudbound – Lágrimas Sobre o Mississipi”).

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Todas as atuações são excelentes. Mary J Blidge está indicada também por “Melhor Canção” e talvez seja a maior surpresa da categoria. A premiação deve ficar com Laurie Metcalf ou Allison Janney. Ambas fazem outro dos papeis preferidos da Academia: a mãe intensa. No caso de Janney, intensa e abusiva, bastante abusiva. As cenas dela com Margot Robbie em “Eu, Tonya” são bem chocantes e não por acaso ela tem levado a maioria dos prêmios sérios da temporada. Não deixa de ser interessante que Metcalf, que ficou conhecida como “a mãe do Sheldon”, esteja concorrendo por um papel como… “mãe”. Falando em “mãe”, podemos lembrar de um esquecimento. Michelle Pfeiffer poderia estar indicada pela atuação sensacional em “Mãe!”, se o filme não tivesse sido COMPLETAMENTE esnobado pela Academia. A própria Jennifer Lawrence, aliás, poderia ter sido indicada a Melhor Atriz, também.

Enfim, GANHA: Allison Janney

MEU VOTO: Allison Janney.

MELHOR ATOR COADJUVANTE

Indicados: Sam Rockwell (por “Três Anúncios Para Um Crime”), Woody Harrelson (por “Três Anúncios Para Um Crime”), Richard Jenkins (por “A Forma da Água”), Christopher Plummer (por “Todo O Dinheiro do Mundo”), Willem Dafoe (por “Projeto Florida”).

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Antes da temporada começar, todos tinham Kevin Spacey como o grande favorito dessa categoria. Vieram as denúncias de assédio e estupro e as chances dele viraram pó. Ridley Scott e a equipe de “Todo Dinheiro do Mundo” tomaram uma decisão inédita: tiraram Spacey do filme DEPOIS de o filme estar pronto. Plummer foi convocado e inserido digitalmente no lugar dele e só por isso foi indicado. Essa indicação, aliás, é um dos tantos sinais que a Academia está dando de mudanças importantes. A não indicação de James Franco a Melhor Ator por “O Artista do Desastre” e a solene ignorada em “Roda Gigante”, de Woody Allen, são sinais claros de que o tempo de tolerância e silêncio sobre determinadas posturas em Hollywood acabou. Sam Rockwell faz um trabalho muito bom e deve ser o vencedor por “Três Anúncios”. Jenkins (que está muito bem em “A Forma da Água”) pode ter chance se acontecer de “A Forma da Água” levar um caminhão de prêmios e ele for “carregado” pelo filme, mas acho improvável.

Enfim, GANHA: Sam Rockwell

MEU VOTO: Sam Rockwell

Enfim, prepare a sua pipoca e olho nos comentários amanhã! Durante a cerimônia vou estar dando os tradicionais palpites e comentários no twitter, no @prof_pedro . Aparece por lá!

 

PS: quase todas as montagenzinhas bacanas de fotos desse post foram tiradas daqui

Literatura

Três andares

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imagem: Cassiano Rodka

Instruções para ler o texto: leia todo em voz alta. Quando houver parênteses, leia sussurrando.

São três andares e eu não vou sair vivo daqui.

No terceiro, deste lado eu, do outro lado a sombra de um homem com uma besta à espreita. No meio, uma escadaria que leva até os outros andares. Uma samambaia pende do parapeito da sacada.

No segundo, deste lado eu, do outro lado a silhueta de uma mulher empunhando uma katana. No meio, uma fonte que jorra e molha grosseiramente quem desce.

No primeiro, só eu e mais ninguém. Um lado leva a outro. Nada ao redor.

Revisando.

No terceiro, deste lado eu, do outro lado a sombra de um homem com uma besta à espreita. No meio, uma escadaria que leva até os outros andares. Uma samambaia pende do parapeito da sacada.

No segundo, deste lado eu, do outro lado a silhueta de uma mulher empunhando uma katana. No meio, uma fonte que jorra e molha grosseiramente quem desce.

No primeiro, só eu e mais ninguém
(porque eu não vou fazer um só som até você vir me pegar.)

Música

El Efecto: jazz e rock com azeite de dendê

El Efecto

A banda carioca El Efecto faz um som deliciosamente inclassificável. Samba, metal, jazz, frevo e muito experimentalismo se mesclam em melodias que fazem bastante uso de silêncios e mudanças de tempo, gerando canções orgânicas com estruturas bastante peculiares.

A brasilidade é forte, mas o liquidificador de referências nunca deixa as músicas ficarem presas dentro de um só gênero. Em uma mesma canção escutamos ecos de Caetano Veloso, Los Hermanos, Chico Science e Sepultura. Há influência de muitos ritmos latinos de fora do Brasil também, como o tango metaleiro de “O Último Tango” e a salsa/ska de “Pedras e Sonhos”.

Escutando o som dos caras, é impossível não pensar nas complexas estruturas musicais do Mr. Bungie. Já no primeiro disco, na faixa “Tilt”, podemos escutar um riff que lembra “My Ass Is on Fire” e uma das frases da letra é cantada em jogral a la “The Air-Conditioned Nightmare”. As letras trazem críticas políticas e comentários sociais corrosivos. Em “Adeus Adeus”, os caras criticam a religião através de um gospel bluesístico cheio de trocadilhos sutis. Já em “O encontro de Lampião com Eike Batista”, surge o questionamento do valor das coisas e do poder do dinheiro em uma faixa repentista que parece ser uma versão contemporânea de “Geni e o Zepelim” de Chico Buarque.

Os clipes do grupo sempre mostram basicamente a banda tocando a faixa e os shows também evitam figurinos, cenários e outras distrações, deixando claro que o foco principal é a música. As apresentações são enérgicas e altamente recomendáveis para entrar em contato pela primeira vez com o som do El Efecto. No início deste ano, foi disponibilizado no Spotify e no YouTube uma apresentação no Méier no Rio de Janeiro, que funciona muito bem como um cartão de visitas para conhecer o que a banda já produziu até hoje.

Com 15 anos completos, o grupo está pronto para uma nova fase que vem com o lançamento de um novo disco em 2018, intitulado Memórias do Fogo. Um vídeo para a canção “O Drama da Humana Manada” já foi divulgado, dando um gostinho do que vem pela frente. A canção foi descrita pelo grupo como “um samba de breque em solidariedade à luta dos trabalhadores e trabalhadoras, de hoje e de sempre, contra a precarização da vida”. Então te prepara que o El Efecto ainda tem muito a dizer.

Literatura

The waves

The waves_P2
imagem: José Calimero

“And in me too the wave rises. It swells; it arches its back. I am aware once more of a new desire, something rising beneath me like the proud horse whose rider first spurs and then pulls him back.” The Waves, Virginia Woolf

You can keep yourself stranded in the middle of the sea. You may become an island. A floating memory or a heavy iceberg. You can even build up your own ark, like Noah. Should you have the strength and the tools you can put up a rock castle or dream of its fortitude instead. Will it be enough? Won’t you miss the breaking sound of the waves on the sand? And the fearful anticipation of them crashing onto you?