Black Hammer é uma série em quadrinhos que segue a trajetória de heróis caídos que procuram encontrar seu sentido existencial em um mundo em que não podem mais depender de seus poderes. Quando não há mais máscaras, o que sobra?
Logo na primeiras edição, somos apresentados a seis super-heróis que estão vivendo juntos em uma fazenda, escondendo seus poderes do restante da cidade em que habitam. A história é contada em clima de mistério, revelando aos poucos ao leitor o que levou esses personagens a esse ponto. A cada número, o escritor nos leva a passear pelo passado de cada um deles, expondo quem eram e contrapondo com o que são agora. Por trás de cada mito, há um ser humano cheio de incertezas, sonhos e frustrações.
A arte de Dean Ormston foge do convencional das HQs de super-heróis, optando conscientemente por um clima mais soturno e realista. Algumas cenas silenciosas nos oferecem momentos de contemplação dos personagens em que fica muito claro para nós observadores o que eles estão vivenciando.
Mas o mais interessante é a maneira que o roteirista Jeff Lemire escolheu para contar essa história: cada herói é uma homenagem a um gênero clássico das HQs. Portanto, quando acompanhamos o relato da garota-prodígio Golden Gail, a ambientação e o texto dos quadrinhos nos remete à época de ouro da DC e da Marvel, enquanto a edição da feiticeira Madame Dragonfly é um típico comic de terror. Para a revista que conta a origem do herói espacial Colonel Weird e seu fiel robô Talky Walky, Lemire chegou a convidar um outro desenhista, David Rubín, que pintou um clima completamente diferente para contar a narrativa dos personagens, fazendo referências a clássicos Sci-Fi. A ideia deu tão certo que David Rubín foi indicado para o Eisner Awards pelo seu trabalho.
Tendo sido eleita a Melhor Série Original de 2017 pelo prêmio, Black Hammer volta a concorrer neste ano em quatro categorias: Melhor Série Contínua, Melhor Escritor (Jeff Lemire), Melhor Desenhista (David Rubín nas edições 9 e 12) e Melhor Colorista (David Rubín e Dave Stewart).
Publicada nos EUA pela Dark Horse, aqui no Brasil a revista foi recentemente lançada pela Editora Intrínseca em um volume que reúne os seis primeiros números intitulado Black Hammer – Origens Secretas.
O pensador russo Mikail Bakhtin criou o conceito de circularidade cultural. Resumidamente, o pensador afirma que um elemento influencia a cultura ao mesmo tempo em que é influenciado por ela. Um filme reflete sempre o espírito de uma época. Da mesma forma, ele ajuda a moldá-lo. Na década de 1980 o cineasta estadunidense John Hughes retratou uma geração em filmes seminais como “Gatinhas e Gatões” (Sixteen Candles, 1984), “A Garota de Rosa-Shocking” (Pretty in Pink, 1986) e principalmente “Curtindo a Vida Adoidado” (Ferris Bueller’s Day Off, 1986) e o cada vez mais cult “Clube dos Cinco” (The Breakfast Club, 1985). Os filmes de Hughes (e suas infinitas cópias e imitações da época) deram voz aos adolescentes e inauguraram um novo (sub)gênero, o filme de adolescente onde o jovem ao mesmo tempo se enxerga e se espelha. De lá para cá foram feitas coisas boas e ruins nesse departamento. Os anos 90 viraram um festival de filmes teen, para o bem e para o mal: “Singles” (Cameron Crowe, 1992), “Kids” (Larry Clark, 199%), “Cry-Baby” (John Waters, 1990), “Diários de Um Adolescente” (The Basketball Diaries, Scott Kalvert, 1995), “10 Coisas que Eu Odeio em Você” (10 Things I Hate About You, Gill Junger, 1999), “Segundas Intenções” (Cruel Intentions, Roger Kumble, 1999), “As Patricinhas de Beverly Hills” (Clueless, Amy Heckerling, 1995)… a lista vai ao infinito, com filmes bons (outros, nem tanto), grandes diretores e astros famosos e outros que seriam, mas não foram, enfim. O século XXI também tem sua cota, que vai desde “Meninas Malvadas” (Mean Girls, Mark Waters, 2004) até “As Vantagens de Ser Invisível” (The Perks of Being a Wallflower, Stephen Chbosky, 2012). Todos eles, TODOS eles, são espelhos e releituras dos filmes de Hughes.
John Hughes e os filmes que criaram um gênero
Mas afinal, por que ele foi tão diferente? Porque Hughes deu voz aos adolescentes. Essa foi a grande novidade dos filmes dele. Os adolescentes deixaram de ser um estereótipo de como eram vistos por adultos e passaram a ser sujeitos tridimensionais, com angústias, medos e contradições típicos a essa época da vida. Mais que dar voz aos adolescentes, Hughes deu voz às meninas. Em vários dos seus filmes as meninas eram as protagonistas e tinham a fala, o que muitas vezes não acontece no cinema ainda hoje. Quem fez uma belíssima reflexão sobre os filmes de Hughes, sua importância e as problematizações hoje necessárias para vê-los foi a atriz-musa do diretor, Molly Ringwald, num artigo da New Yorker que você pode ler AQUI.
Mas por que falar sobre John Hughes agora? Porque eu vi “Com Amor, Simon” (Love, Simon, Greg Berlanti, 2018). O filme é mais um teen movie da escola John Hughes, como tantos que Hollywood industrialmente lança todo ano. Um garoto, Simon (Nick Robinson), enfrenta as agruras e desafios do ensino médio norte-americano, o High School. Simon tem pais normais (Josh Duhamel, da franquia Transformers, e Jennifer Garner, a Elektra do cinema), uma irmã e um cachorro. Tem uma turma de bons amigos (Katherine Langford, Alexandra Shipp e Jorge Lendenborg Jr). Planeja ir ao show do Radiohead num futuro próximo. Uma vida adolescente normal, enfim. O que chama a atenção então? O fato de Nick ser gay. Mais do que isso: “Com Amor, Simon” não é um filme sobre homossexualidade. É um filme adolescente onde o protagonista é gay. É isso. O conflito do filme não tem relação com a orientação sexual de Nick, mas com suas descobertas e questões relativas à adolescência. No filme há paixões platônicas, paixões não correspondidas, triângulos amorosos, sites anônimos (e quem lida com adolescentes hoje em dia sabe O QUANTO isso está presente no dia a dia deles…) e tudo mais que os filmes de adolescentes devem ter. O roteiro, por vezes previsível, nos permite empatizar bastante com os personagens e nos faz torcer por eles. O final pode não ser apoteótico como o de “As Vantagens de Ser Invisível”, mas também nos faz sair da sessão mais leves e sorrindo.
Nick no colégio com os amigos e em casa com a família. Enfim, um adolescente.
“Com Amor, Simon” não é “Me Chame Pelo Seu Nome” (Call Me by Your Name, Luca Guadagnino, 2017) e sem dúvida é, artisticamente falando, muito menos filme. Mas junta-se a ele na importante questão da representatividade: em ambos os filmes encontramos adolescentes não-heterossexuais passando pelas questões típicas dessa fase do desenvolvimento. Diferente de outros filmes, a homossexualidade não é A questão. Não há briga com os pais, não há rejeição. E somos TÃO condicionados que passamos o filme inteiro (nos dois casos) esperando que aconteça. Molly Ringwald, naquele artigo que citei, fala da importância da representatividade lá nos filmes dos anos 80. Nada melhor, portanto, que naturalmente ela seja ampliada e os jovens tenham chance de se ver no cinema, se identificar e ter a certeza de que não são anormais, não são “diferentes”: são jovens, na dor e delícia de ser jovem. Apresentar o jovem LGBTQ+ como protagonista de filmes que não tratam apenas dessa questão, mas que evidenciam o que é ser jovem, pode ajudar a transformar a nossa sociedade num lugar mais justo e menos cruel. Enfim, a sociedade influenciando os filmes e os filmes ajudando a mudar a sociedade.
O que acontece quando você perde aquilo que lhe define como pessoa? Em Extremity, acompanhamos uma história sobre a perda da identidade e as difíceis escolhas que fazemos para resgatá-la.
A narrativa inicia com Thea contando sobre o pior dia de sua vida: quando perdeu sua mãe e sua mão direita em um ataque à sua cidade. Para ela, seu maior dom era a habilidade de desenhar. “Era o que me definia”, ela confessa. A partir daí, passamos a acompanhar a vida da personagem e sua busca por uma nova forma de se posicionar no mundo.
Além de Thea, acompanhamos a forma com a qual seu pai, Jerome, e seu irmão, Rollo, lidam com a perda. Enquanto um fica obcecado por vingança, o outro procura diferentes caminhos para fazer sua vida funcionar novamente. Ao longo das páginas das doze revistas que compõem a saga, vamos conhecendo novos personagens que trazem diferentes olhares à trama, revelando aos poucos as diversas camadas do que levou o clã de Thea, os Roto, entrarem em guerra com os Paznina.
O mundo fantástico de Extremity foi criado, escrito e desenhado por um nome relativamente novo nos quadrinhos, Daniel Warren Johnson. O artista havia escrito apenas um webcomic (Space-Mullet) e foi contratado pela Skybound (empresa de Robert Kirkman, criador de Walking Dead) para lançar um trabalho autoral. Baseado no seu próprio medo de perder seu principal instrumento de trabalho, Johnson criou o fascinante universo de Extremity.
Os personagens são muito bem desenvolvidos e o traço do desenhista carrega um vivacidade que dá um toque incrivelmente realista às cenas de ação. As batalhas são violentas e os momentos silenciosos de contemplação são realmente comoventes.
Recentemente, Extremity foi indicado ao prêmio Eisner 2018, o Oscar dos quadrinhos, na categoria de Melhor Minissérie (Best Limited Series). Não duvido que leve!
Na padaria, o cheiro do pão novinho faz o mundo parar de girar por uns instantes. No vidro do balcão, o reflexo de um sorriso encontra a bomba de ganache. O ruído da máquina moendo o café é música para quem quer que passe. Na gritaria entre os atendentes, uma chuva de deleites. Se não tem mais mesa vazia, no balcão há sempre espaço.
Na padaria, o amargo da vida se perde por entre os doces. O avô conversa com os netos inquietos, cuca cheia de açúcar. A moça flerta com o telefone, luz azul brilhando em seu rosto. A atendente não anota os pedidos, os carrega na mente. Os colegas de trabalho reclamam – é claro – do chefe. O escritor, como bem lhe cabe, observa.
Na padaria, o relógio deixa de funcionar por uns minutos. Ali, o tempo não se perde, se encontra. Mesmo que não dure (como nada dura), cada segundo é confeito. E amassa o papel do doce, sorve o último gole da taça e a moça recolhe o prato.
Gosto de ficar sentada
O olhar perdidamente estático
Debruçada sobre mim mesma
Contemplando minha existência
Fumo um cigarro imaginário
E observo a fumaça a subir feito ideias
Inspiro, expiro
Vida sem vícios ou prejuízos
Cá estou
Toda deste lado humano
Observo o círculo vicioso
Do imaginar incendiário,
Tragadas do que não existe
Encho os pulmões daquilo que não é matéria
Cerro os olhos e sinto
Tudo aquilo que o tudo é e ainda assim não se vê
Com um pé lá outro cá, de dia era Maria, de noite, era outra. Para ser mais fácil, Maria deveria ser uma só. Fincar bem os dois pés cá ou lá. “Descomplica, Maria, o mundo gira, você, fica parada.” Maria nunca se confundia, sabia onde estava, entendia a alternância de seus passos. Não nasceu assim, buscou ser assim. Outros, sim, a confundiam, com a nobre intenção de defini-la, encaixá-la, adequá-la ao dever. Afinal, a dança de Maria causava medo – a desconheciam. “Aqui está, Maria, seu kit de sobrevivência na Terra, use-o e não sofrerás.” Mas não havia nada o que fazer, pois Maria era o dançar; entre lá e cá, sempre com um de seus pés tocando o chão.
Em uma época em que as pessoas parecem não lembrar da sombra sob a qual o nosso país já viveu, o novo álbum do El Efecto surge como uma luz guia.
Nas letras de Memórias do Fogo, a banda carioca urge para que não esqueçamos de todo o mal pelo o qual o povo brasileiro passou – e segue passando. Ditadura, exploração, escravidão, preconceito, as canções parecem gritar para que os mais desavisados recordem de todos os erros do passado (e do presente) para que, quem sabe, possamos acertar o passo em direção a um melhor futuro.
O vocalista Tomás Rosati preparou para o PáginaDois um faixa a faixa do novo álbum da banda, cuja turnê inicia nesta quinta-feira, dia 29 de março, no SESC Pompeia em São Paulo. Os ingressos podem ser comprados aqui: https://www.sescsp.org.br/programacao/148239_EL+EFECTO
Outras datas confirmadas:
14/04 – Teatro Rival, no Rio de Janeiro
11/05 – Rockers, em Santa Maria
12/05 – Bar Opinião, em Porto Alegre
MEMÓRIAS DO FOGO – faixa a faixa
Café
A ideia da letra partiu da leitura do poema “Moça feliz”, de Cassiano Ricardo. Na música, em vez da “moça”, optamos por um “casal feliz”.
A parte musical surgiu a partir da descoberta e do encantamento com o Joropo, gênero venezuelano/colombiano. Depois, na construção da música, tentamos mergulhar no universo das canções de luta latino-americanas.
Chamamos a Daíra pra compor junto com o Tomás, a voz do “casal feliz”. Também contamos com a parceria do compositor russo Tchaikovsky, que chegou junto com algumas melodias bem legais, enriquecendo o drama. É uma canção sobre as veias abertas da América Latina.
O Drama da Humana Manada
A ideia surgiu de uma pixação que vimos num muro perto da Central do Brasil, aqui no Rio: “Malandro é o cavalo marinho, que se finge de peixe pra não ter que puxar carroça”. Assimilamos o recado e pensamos que daria um bom samba de breque.
Uma música contra a exploração e a alienação do trabalho, contra a falsidade do discurso da meritocracia, contra a reforma trabalhista, contra a reforma da previdência, um chamado pra greve geral, pela redução da jornada de trabalho…
Enfim, um samba abordando esse drama, essa luta que se faz urgente no atual contexto de precarização da vida.
Carlos e Tereza
Nessa faixa, celebramos a memória de um outro casal. Dois personagens históricos que, em tempos e contextos diferentes, batalharam e deram a vida na luta contra os absurdos vigentes. Na parte musical, foi uma tentativa de voltar a trilhar os caminhos do axé, da swingueira e do pagodão baianos, tentando nos atualizar diante das linguagens mais contemporâneas desses gêneros.
O Monge e o Executivo
Uma homenagem à capa de um dos discos mais fundamentais da nossa formação (Rage Against the Machine), sendo lida sob a perspectiva do capitalismo zen, desse falso orientalismo, empreendedorismo samurai, espiritualidade new age e todas as formas de autoajuda empresarial. Chamamos a Helen Nzinga pra fazer um rap no meio disso tudo e puxar as pessoas “elevadas” pro chão. Gabriel Ventura também foi chamado, com a missão de expressar uma pessoa em chamas através dos sons da guitarra.
Uma canção sobre a gratidão, trazendo a lembrança de que, sem justiça, não há paz.
Chama Negra
Quando pensamos no conceito do disco, na ideia do fogo, nos lembramos dessa canção da Rachel Barros. Tínhamos tido contato com a música em outra situação e achamos que ela trazia uma outra perspectiva sobre o tema, um outro olhar, que não saberíamos dar, mas que agregava algo fundamental nesse conjunto de canções sobre fogo e luta. Daí pedimos à Rachel pra gravarmos a música e a convidamos para cantá-la no disco. O arranjo foi feito em parceria com a Aline Gonçalves, que fez toda a parte de sopros/percussão. A Aline trouxe a linguagem do festejo peruano e o resultado foi uma ponte entre a música afrobrasileira e a afroperuana.
Trovoada
É uma canção inspirada pela poesia de Elaine Freitas e pela força do jongo.
Contamos com as participações de Nina Rosa e Thiago Kobe, que, além da participação fundamental como músicos e intérpretes, também nos ajudaram nas discussões sobre a letra. Também contamos com a colaboração fundamental da Ingra da Rosa que, além de fechar a canção com sua poesia, acabou nos levando até o Rafa Éis, autor da capa e das artes do disco.
Incêndios
Melancolia tangueira em forma de hardcore pra levantar o questionamento sobre a necessidade individual e coletiva de dar um passo atrás, de não seguir reproduzindo a desgraça. Inspirações no disco “Il pleut sur Santiago” de Astor Piazzola, no filme “O Ódio”(la Haine), na poesia de “A Rosa do Povo” e no poeta paulista Lucas Bronzatto. O baixo dessa faixa foi gravado pelo Patrick Laplan, produtor musical do disco.
Ficha técnica do disco Memórias de Fogo
Gravação: Tomás Alem (Estúdios Toca do Bandido e MK Estúdio) e Patrick Laplan (Estúdio Fazendinha) no Rio de Janeiro/RJ
Mixagem: Tomás Alem no Estúdio Aura (exceto “Chama Negra”, mixada por Gustavo Loureiro) Produção Musical: Patrick Laplan, Tomás Alem e El Efecto
Produção Executiva: Iuri Gouvêa
Masterização: Robert Carranza, em Los Angeles, CA – EUA
Composições: El Efecto (exceto “Chama Negra”, composta por Rachel Barros e arranjada por Aline Gonçalves e El Efecto).
Direção de Arte: Rafa Éis e El Efecto
Projeto Gráfico e Desenhos: Rafa Éis