Clarice Dall’Agnol

Literatura

A história

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imagem: José Calimero

Não te ouço aqui de dentro.
Sai!
Não dá.
Por quê?
Tô presa
Presa como?
É difícil explicar.
Tenta.
Na verdade não é que é difícil, é constrangedor.
Como assim?
É que fui eu mesma que me prendi.
Se trancou sem querer?
Não, fui me deixando…
Muda de ideia, dá tempo, sempre dá.
Eu admiro o seu otimismo.
Meu avô dizia que só não há remédio pra morte.
E ele morreu de quê?
Morreu de velho, mas minha mãe dizia que viver de remédio não era mais viver, então ele morreu muito antes, segundo minha mãe.
Eu concordaria com ela, se não estivesse aqui dentro.
Como assim?
Aqui dentro eu cresci ouvindo versões de quem eu deveria ser, e de qual caixa cada um a minha volta pertencia.
Caixa?
Sim, e uma vez dentro delas ouvimos histórias com uma única versão que são repetidas centenas de milhares de vezes.
De quem a história conta?
De mim, de você, de todas as coisas.
Você não está exagerando? Aqui de fora parece que é você quem não quer sair.
Acredite, o que parece não é o que é. Aprendi isso aqui dentro.
E eu, o que eu faço? Te deixo?
Mais que isso, você corre, corre pra bem longe de mim, só leve com você as histórias sem certo e errado. E no seu caminho vá colhendo outras, até decidir fincar pé e criar suas próprias histórias.

Música

O piano e o silêncio: as ferramentas de Jamie Saft e Kaada

Chegamos na metade de 2018 e minha lista de preferidos do ano já vai tomando forma. Neste primeiro semestre, percebi que dois dos meus álbuns favoritos têm alguns elementos em comum. São discos silenciosos, com composições instrumentais conduzidas pelo mesmo instrumento: o piano.

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Jamie Saft – Solo a Genova

O nova-iorquino Jamie Saft é um dos meus pianistas preferidos. Seus discos vão do experimental ao reggae, do jazz ao rock. Ele já gravou belos álbuns ao lado de artistas como John Zorn, Iggy Pop e Mike Patton. Mas, em seu novo lançamento, Saft resolveu voar solo.

Acompanhado apenas de seu piano, o músico registrou a performance de algumas de suas canções favoritas em um show em Gênova na Itália. Como não poderia deixar de ser, a seleção é tão eclética quanto o pianista. O jazz aparece representando nas covers de “Naima” de John Coltrane e “Blue in Green” de Miles Davis e Bill Evans. O soul aparece nas versões “The Making of You” de Curtis Mayfield e “Overjoyed” de Stevie Wonder, uma das mais bacanas do disco.

Fã de carteirinha de Bob Dylan, Jamie Saft não poderia deixar o mestre de fora dessa seleção, portanto duas músicas foram incluídas, “Po’ Boy” e “Restless Farewell”. Ainda dentro do folk, a cantora Joni Mitchell é representada em “Blue Motel Room”. Apesar de também saber tocar violão, o músico optou por fazer todas as versões deste disco no piano, o que torna essas interpretações ainda mais inusitadas. Mas a versão mais inesperada é, sem sombra de dúvidas, a da clássica “Sharp Dressed Man” do ZZ Top, de quem Saft pegou, além da inspiração musical, o característico rosto hirsuto.


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Kaada – Closing Statements

Em seu novo disco, o norueguês John Erik Kaada compôs 11 músicas centrado em um mesmo tema: a morte. Os títulos das faixas são fragmentos de frases ditas por pessoas antes de falecer. Poderia ser uma seleção sombria de canções, mas o tom que o compositor encontrou é de serenidade.

Usando sua experiência como compositor de filmes, Kaada criou uma trilha sonora para o último adeus. “It Must Have Been the Coffee” inicia os trabalhos com piano minimalista, coro a la Ennio Morricone e um sutil arranjo de cordas. “Farewell” é facinho uma das músicas que mais escutei neste ano e explora uma melodia circular, que remete ao ciclo da vida. Outra melodia que chama atenção é a da faixa “Everything Is an Illusion” que o músico revelou ser baseada no bater de asas dos pássaros.

Para Kaada, a mensagem do álbum é que temos que aprender a escutar uns aos outros durante a vida e não apenas quando já é tarde demais. O valor que damos às últimas palavras de alguém tem mais a ver com o fato de que sabemos que nunca mais veremos a pessoa do que por alguma revelação grandiosa final. “Eu temo que a gente esteja vivendo em um ritmo acelerado demais”, declarou o músico, “é importante procurar aqueles momentos na vida em que tudo para”.

Literatura

Líquida

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imagem: Cassiano Rodka

“The truth that makes men free is for the most part the truth which men prefer not to hear.” 
(Zygmunt Bauman, Liquid Modernity)

Ontem tinha minha alma fora do corpo,
Tal qual criança desgarrada da mãe,
Só porque não era terça-feira.
Hoje converso com Angelina a caminho da escola,
Ouço Harry Connick Jr,
Leio Saramago,
Tomo um espresso machiatto,
E sinto as coisas todas voltando à ordem anterior.
Quero liberdade, sim,
Mas também quero segurança.
(E graças a Bauman – e à Marcella Marx – hoje escrevo este poeminha).

Literatura

O retorno do sentir V

O retorno do sentir V_P2
imagem: José Calimero
eu acordei
“sou uma boa pessoa”
Pensei
enquanto contemplava a luz tímida da manhã
colunas translúcidas de vida
perpassando a persiana
 
Mas
eu estava com pressa
“o dia está sempre atrasado”
carros, sinais fechados, tudo que não pode se mover, notícias em jornais
guerras que não terminam
fora e dentro
não há tréguas
 
civilizada e sem paz
permaneci incrédula
observando minha humanidade se esvair
no cruzamento da existência com a avenida do cotidiano
Literatura

Isabel em flor

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imagem: Cassiano Rodka

Para a Beli e, obviamente, para o pequenino fruto que ora habita seu sarado ventre

De tempos em tempos, meu mundo transborda surpresas. Sou daquelas que adota pessoas. Amo amar. Doar. Dividir pedacinhos meus. Saber que minha prima Isabel está em flor foi a última delas: “Claris, estou grávida.” E eu me vi chorando. A minha prima-irmã (irmã-prima, como prefiro chamar) Beli é uma dessas pessoas que adotei ao longo da vida. A questão principal da “adoção afetiva” é aquela vontade incondicional de proteger aquela pessoinha. Mas a pessoinha precisa querer ser protegida também. A Bel é muito aberta para o amor, assim, nossa relação adotiva funcionou perfeitamente desde o início.

Tenho uma irmã de sangue e mais quatro de coração (e um pouco de sangue também, porque somos primas duas vezes: eu adoro explicar nossa relação de parentesco para as pessoas e vê-las com aquela expressão ótima de “What the fuck??”!). Bom, nossa irmandade, à qual chamamos carinhosamente de “Carnes Dall’Agnol”, uma piada interna, e, como qualquer piada interna, proibida de ser explicada e só entendida pelos membros daqueles microcosmos, quando muito por alguns satélites! Assim, nós seis, eu, Cami, Luluca, Laurinha, Beli e Livinha somos parte da formação original das “Carnes”. Em 2005, tivemos a adição valiosíssima da minha filha Angelina, já bem conhecida dos meus leitores, e em 2016, chegou a amada Martina, minha primeira sobrinha, filha da Livinha, a caçula das “Carnes”. Desse modo, agora somos oito. Entre nós, circula aquele amor de irmãs, com muitas confidências e conselhos, sempre regado a muitas Margaritas, vodca com guaraná pra Bel, Cosmopolitans, Aperol Spritz, Champas, e mais recentemente, o renascido dos 60s, Gin&Tonic!

Bom, o texto era pra falar da Bel em flor, e acabei desviando pras Carnes todas… Sem problemas, porque, conosco, é aquela coisa meio “Três mosqueteiros”, se uma está no barco, estaremos todas. O que eu quero com este texto é fazer uma homenagem bem explícita a este momento da Beli, minha mana, minha prima, minha protegida, minha aluna de poesia, meu ouvido para todas as horas. É muito estranho imaginar que, essa que um dia vi micro guria, fazendo mil loucuras, agora é mãe! Quero que ela saiba que a tarefa é árdua e exaustiva, porém, magnífica. Nada se compara à criação de um filho. É aquele amor altruísta e ao mesmo tempo egoísta, afinal, amas um pedacinho de ti mesmo, sem pudores, que maravilha…! E Bel terá um menino, Vicente, o que é tão diferente para nós, uma família predominantemente de mulheres. Fico imaginando o quão mimado será esse gurizinho por esse bando de entusiasmadas tias! Lucky boy!

Depois de todo este papo, o que quero deixar registrado para a minha Beli new mommy é: nesta jornada deliciosa da maternidade, não há erros. Há apenas várias tentativas no sentido de acertar, sempre. E há milhões de acertos. Há só o melhor de nós, em cada gesto carinhoso, em cada fralda trocada, em cada momento de mamada, em cada troca de olhares, em cada banho, em cada papinha, em cada passeio de carrinho, em cada noite mal dormida, em cada dia exaustivo e ao mesmo tempo delicioso com ele, em cada nova palavra que ele vai aprender, em cada vez que se sente aquele cheirinho de baby, em cada risadinha e cada gritinho que ele vai dar, em cada música dos Beatles que ele ouvir pela primeira vez, em cada passinho inicial dele, e em cada poema que a Bel vai escrever sobre ele e para ele. Sim: há aquele famoso “amor incondicional”, um de encher a alma com tanto êxtase, que é melhor que qualquer vodca com guaraná, hehe…!

Que venha nosso gurizinho, e que seja muito feliz em meio às loucuras deliciosas da Família Dall’Agnol!

 

Piras

Da intensidade

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imagem: Cassiano Rodka

Inverno tá chegando, galera, e eu estou aqui num dilema terrível de como me alimentar de coisas vegetarianas, quentes e não tão absurdamente calóricas como todas as que eu penso (quer mais #whitegirlproblem que isso, bb?). No verão, a combinação vegetariano + não tão calórico é fácil porque tenho um amor eterno por frutas; mas no inverno não dá, sabe? Quando eu volto de alguma atividade física, até vem a vontade de algo geladinho, mas fora isso eu só penso em frutas no modo banana assada ou maçã quente com canela ou fondue com chocolate e aí já meti o açúcar – socorro! Por mais que eu odeie o verão, esse é um ponto positivo: as coisas geladas são bem reconfortantes.

Lanches quentes e vegetarianos é de boa, mas a parte do não tão calórico a gente come. Por exemplo, no Chile tive o prazer de provar uma coisa maravilhosa chamada scone quatro queijos. BAH. Apenas. Mas acho que a minha percepção gustativa foi alterada pelo prazer da conversa com uma ex-aluna com quem tive essa experiência gastronômica. Cê vê como são as coisas: a gente não encontra as pessoas em Porto Alegre, mas encontra em Santiago. Conversamos demais sobre diversas coisas da graduação, dos planos, do que estava acontecendo nas nossas vidas. E ela, naquele momento minha professora, me falou de como tinha vindo para essa cidade com o coração aberto, sozinha, repentinamente, para trabalhar diretamente com pessoas e pesquisar em uma língua estrangeira. Ela veio disposta a viver intensamente aqueles meses, e não seria qualquer coisa que faria ela deixar de aproveitar aquele momento da melhor forma possível.

Fiquei pensando sobre essa resolução dela que foi tão consciente e me perguntei quantas vezes fiz isso na vida. Quantas vezes pensei: “quer saber? Vou aproveitar o máximo desse momento porque ele é realmente único!”. E a resposta imediata veio na forma das paixões. Sabe quando tu para e percebe o quanto tu tá mega apaixonada por alguém? Também conhecido como aquele momento do “É, fodeu”. Sempre que esse pensamento me ocorreu, parei para refletir e decidir (ou achar que estava decidindo) se eu viveria aquilo com todo o meu ser ou esconderia aquele sentimento e sofreria quietinha no meu cantinho – dramática? Capaz. Mas quem nunca escondeu um amor, né non?

Por mais bonita que essa associação com paixão/amor seja, é ainda pouco. Tudo o que a gente vive é único e não escolher vivenciar tudo o que aquele momento pode propiciar é o mesmo que escolher viver só uma parte dele. E eu, que sempre clamei pela prudência (Dear prudence, won’t you come out to play?), hoje me pego pensando que parece absurdo dizer que alguém gostaria de viver algo pela metade. Lembro que, quando entrei na faculdade, a minha irmã mais velha me disse para aproveitar tudo que a UFRGS poderia me dar: todos os cursos, todas as palestras, recursos, trocas e o que mais tivesse. Eu não fiz isso. Poderia dizer que sou bem hipócrita, porque digo para os meus alunos e minhas alunas aproveitarem; mas acho que, na real, agora que sou mais velha, eu consigo ver quantas oportunidades perdi por fazer coisas pela metade (ou 75%, 60%, 3,14% e por aí vai).

Penso que talvez essa prudência estivesse presente sempre na tentativa de viver só a parte boa das coisas. É ridículo pensar que a gente quer vivenciar alguma parte ruim, mas elas, em certa medida, também compõem o todo da experiência – e o viver intensamente é um aprendizado sobre força e resiliência também. Estou ainda trabalhando em admitir que não tenho total controle de tudo e bancar a Frozen (let it gooo) pra ver o que acontece; me abrir para o acaso e para o que pode surgir. Mas é difícil, é processo, é aprendizado. Às vezes, é só consciência e escolha mesmo. Enquanto isso, continuo procurando uma comida vegetariana quente e não tão calórica pro inverno. Aceito dicas, inclusive! Mas, por favor, não me venha com nada morno.

Música

As inesquecíveis canções esquecidas de Mike Patton & Uri Caine

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O mestre dos mil projetos, Mike Patton, surpreendeu todo mundo ao anunciar que faria dois shows apenas com piano e voz. A convite do festival de música experimental italiano Angelica, o cantor preparou duas apresentações ao lado do pianista nova-iorquino Uri Caine e chamou a performance de Forgotten Songs. 

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O interessante é que o espetáculo não faz parte da divulgação de nenhum projeto em específico, o que acabou funcionando como uma noite despretensiosa, incluindo covers de artistas que influenciaram a carreira dos dois músicos. Assim, os setlists trouxeram composições instrumentais de piano mescladas com os mais diversos nomes da música mundial, já que Patton é um cara versátil pra caralho. 

Entre as covers já executadas anteriormente por Patton estavam três faixas do Mondo Cane: “Scalinatella”, “Storia D’Amore” e “Una Sigaretta”. Da época em que tocava com o saudoso Mr. Bungle, duas covers foram resgatadas: “The Thrill Is Gone” e “Begin the Beguine”. Mas o melhor mesmo foi ver ele cantando novamente uma música da própria banda, extinta há 18 anos. A faixa escolhida foi a balada “Retrovertigo” e sua execução se destaca por ser muito raro assistir Patton tocar uma canção de um projeto seu que não seja com a banda que gravou originalmente a música. Algumas poucas vezes em que ele fez isso foi ao cantar “Malpractice” (do Faith No More) com o Dillinger Escape Plan e “Anger Management” (do Lovage) com o Peeping Tom. 

A música produzida na América Latina, é claro, não ficou de fora. Patton é sempre recebido de braços abertos no continente e sua paixão pelo nosso cancioneiro não é novidade. Assim, o cantor soltou o gogó em uma bela interpretação de “Vuelvo al Sur” do argentino Astor Piazzolla, usou seu peculiar vocabulário onomatopaico para desempenhar “Malagueña” do cubano Ernesto Lecuona e revisitou “Que He Sacado con Quererte” da chilena Violeta Parra, que já havia cantado algumas vezes ao lado do Faith No More e do Mondo Cane. 

Entre as covers inusitadas, destacaram-se a versão piano bar do clássico do thrash metal “Raining Blood” do Slayer e a performance de “Heaven on Their Minds”, faixa entoada por Judas no musical “Jesus Christ Superstar” de Andrew Lloyd Webber. 

Além do Slayer, banda sempre citada por Patton como uma grande influência, outros dois artistas que Mike diz terem despertado seu gosto pela música durante a adolescência foram incluídos nos setlists: Elton John na cover de “Better Off Dead” e Stevie Wonder na belíssima interpretação de “They Won’t Go When I Go”. 

Mas um dos grandes destaques da noite acabou sendo a primeira execução pública de “Chansons D’Amour”, uma canção inédita que estará em um disco de baladas orquestradas que Patton está gravando com ninguém menos que Jean-Claude Vannier, arranjador de cordas de Serge Gainsbourg. 

Não se sabe ao certo se Forgotten Songs permanecerá como duas belas noites esquecidas no tempo ou se Patton fará algo com o material apresentado nos shows. Prensa um disquinho duplo aí pra gente, tio!