Clarice Dall’Agnol

Música

Brasil revela o lado soul do Nirvana

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Celebrando os 25 anos do In Utero, terceiro e último disco de estúdio do Nirvana, uma penca de músicos brasileiros se reuniu para gravar versões soul de todas as faixas do álbum.

A ideia poderia ter facilmente resultado em um tributo às avessas, mas as gravações surpreendem positivamente o ouvinte. Não tem uma faixa sequer do disco que não tenha ficado matadora. Os arranjos são interessantíssimos e dão nova vida às já conhecidas músicas.

O disco inicia com a bela voz de Raissa Fayet dando um ar jazzístico à maravilhosa “Serve the Servants” com os músicos da Bananeira Brass Band segurando o instrumental. O peso de “Scentless Apprentice” é transformado em um R&B/blues pelo cantor Yuri Lemos e pelo guitarrista Igor Amatuzzi, dando a impressão de que a música foi criada para ser gravada assim. E o que dizer do refrão gritado de “go away“ reinterpretado em um suave falsetto? Brilhante!

“Heart-Shaped Box” ganha balanço funkeado com ares de Barry Adamson e um vocal soulful que me remeteu um pouco à voz de Josh Homme. O vocal rasgado de Michele Mara transforma “Rape Me” em um baita soulzão da porra com um instrumental eletrônico. “Frances Farmer Will Have Her Revenge on Seattle” vira uma linda balada soul na interpretação de Juliana Strassacapa (da banda Francisco, El Hombre).

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Com um pezinho no hip hop, “Dumb” é recriada por JAN & Machete Bomb em uma versão deliciosa e surpreendente, talvez a mais inesperada do disco. Mesclando música eletrônica e uma pegada latina, Natasha Durski dá um toque sexy à rebeldia de “Very Ape”. A barulheira de “Milk It” transforma-se em um eletrônico dark com ares orientais na voz de Blubell e nas batidas de Dopler Beatz.

O single póstumo do disco, “Pennyroyal Tea” é recriado por Tuyo e pela Bananeira Brass Band em uma versão de piano daquelas de fechar o bar. “Radio Friendly Unit Shifter”, uma das minhas preferidas do In Utero, aparece aqui como um funkão altamente dançável nas mãos das bandas Naked Girls and Aeroplanes e Bananeira Brass Band – os vocais cantados por Wonder Bettin e Artur Roman levam os gritos de Kurt Cobain para dar uma passeada pelos campos de Stevie Wonder e George Clinton. A rebeldia punk de “tourette’s” ganha uma delicada levada MPB criada por Isabela Caféfortesemaçúcar em uma inesperada interpretação. O disco fecha com a cantora Letrux juntando-se à Bananeira Brass Band para uma versão quase minimalista da belíssima “All Apologies”, com piano delicado e um suave arranjo de metais. Mais soul que isso impossível.

“Heart-Shaped Tracks: A Soulful Tribute to Nirvana’s In Utero” é um projeto do selo Mezcla Viva Records, que pretende futuramente lançar outras versões inusitadas de discos clássicos. O álbum foi idealizado e arranjado pelo produtor Rodrigo Lemos, que fez um trabalho primoroso que certamente deixaria orgulhoso o próprio Kurt Cobain. Começaram com o pé direito. Que venham muito outros trabalhos como esse!

https://music.youtube.com/playlist?list=OLAK5uy_kwczCWQ4Tfafd4JFUt4FG0zVImqwU4WIk

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Literatura

Aprendendo

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imagem: José Calimero

Descobri esse amar
tão sincero
por você gostar
tanto de viver
simples assim

Tão pouco de falar
é esse sentimento que vive
quando vejo você
lição fácil de me ensinar
que é isso aí, a felicidade é nada demais

Ela nos surpreende bem besta
cachorro abanando o rabo no portão
só porque a gente chegou
e ele é mais só porque não se sente tão só
e assim a gente também é
feliz

Literatura

Paisagem

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imagem: José Calimero

The Broken Column, Frida Kahlo, 1944.

Vim ao mundo rasgada ao meio. Nunca fui inteira e não acredito em quem seja. Nasci para buscar e me ocupo dessa tarefa com suor e lágrimas. Enxergo a latente completude das árvores, e invejo a capacidade intrínseca de criar raízes e gerar frutos. Curvo-me diante delas como não me curvo diante de nenhum deus.

Eu teço um manto a todo instante para saciar o chamado do vazio, para pertencer ao humano infalível; e eu o chamo de meu.

Meu, aqui dentro, só existe a consciência da falta, do tamanho de uma árvore.

Música

Encontrando união em um mundo dividido: o novo disco do Therapy?

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Em seu 15º álbum de estúdio, os irlandeses do Therapy? apostaram suas fichas naquilo que eles fazem melhor: canções curtas com bons riffs e refrões memoráveis. Cleave é um disco que te diz que tu tem todo direito de estar puto da cara com o mundo e que é preciso unir forças para lutar e provocar mudanças.

Ao sentarem para compor o novo álbum, os músicos do Therapy? decidiram que era necessário abordar o estado das relações humanas (ou a falta delas) na sociedade contemporânea. Para passar a sua mensagem claramente, decidiram gravar canções bem diretas ao ponto, tanto musicalmente quanto naquilo que eles precisavam desabafar. O resultado são os 33 energéticos minutos de Cleave.

As faixas são curtas e agressivas, mas com aquele senso de melodia que a banda domina como poucas. As letras apontam o dedo na cara dos problemas mundiais, confidenciando ao ouvinte que ele não está só em sua frustração. O refrão de Kakistocracy tenta confortar ao declarar com simplicidade: “It’s OK not to be OK”. A faixa fala sobre a decadência dos EUA, mas poderia ser aplicada perfeitamente a vários outros países, incluindo o Brasil. O título do álbum em si já é uma reflexão em relação às polaridades que estamos vivendo: “cleave” é uma palavra que poderia ser traduzida como “divisa”, sendo tanto um local que separa como um espaço que une.

O primeiro single, Callow, é um clássico instantâneo. A música se alia rapidamente aos melhores momentos do cancioneiro da banda, já se posicionando à vontade ao lado de hits como Nowhere, Screamager e Opal Mantra. A letra aborda os perigos do uso exagerado de medicação, especialmente antidepressivos, que podem fazer as pessoas ficarem completamente apáticas. Para o refrão, Andy Cairns pegou uma frase dita pelo ator Stephen Fry em relação ao seu período usando remédios contra a depressão: “If you take my demons, you’ll take my angels too” (Se você eliminar meus demônios, vai acabar eliminando meus anjos também).

Outro refrão que pega emprestado uma frase célebre é o da música Success? Success Is Survival. Perguntado certa vez sobre o que sucesso significava para ele, o cantor Leonard Cohen respondeu que “sucesso é sobreviver”. Foi a deixa perfeita para Andy escrever uma letra sobre como a sobrevivência se tornou algo mais difícil do que nunca nos dias de hoje. Expelled é uma das mais estranhinhas, pegando uma sequência de acordes emprestada de Radio Friendly Unit Shifter do Nirvana e unindo a um riff de baixo debochado, vocais megafônicos e uma bela sentada de bateria do grande Neil Cooper – que, aliás, não deixa nada em pé neste disco.

Para produzir o álbum, a banda chamou novamente Chris Sheldon, que foi responsável pelo grande clássico do grupo, Troublegum. A adição de Sheldon certamente colaborou para a conexão da sonoridade das novas músicas com o som primordial do trio. Faixas como Crutch (sobre alcoolismo), I Stand Alone (sobre solidão) e Wreck It Like Beckett (sobre chutar o balde e recomeçar) remetem aos clássicos da banda, mas sem serem puramente nostálgicos.

Dumbdown foi composta pelo baterista Neil Cooper utilizando sintetizadores e, segundo o vocalista, soava como Daft Punk em sua demo. Nas mãos do baixista Michael McKeegan e do guitarrista Andy Cairns, ela ganhou as cores do Therapy?, mas permaneceu uma faixa peculiar, com guitarras percussivas e vocais rapeados. Outra que traz um pouco do pezinho da banda na música eletrônica é Save Me from the Ordinary, que remete um pouco às faixas de Never Apologise Never Explain.

O disco fecha com a bela No Sunshine, descrita pelo vocalista como um trip hop mesclado com black metal. Nela, Andy fala um pouco sobre a sua própria depressão, usando-a como exemplo do sentimento geral da sociedade em que vivemos. Cleave é um reflexo da falta de esperança com a qual encaramos o mundo atualmente. Mas, assim como o seu título ambíguo, ele tenta nos mostrar que, enquanto pudermos encontrar pessoas no mesmo barco que a gente, podemos seguir remando.

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Quadrinhos

Uma Nação Sob Nossos Pés

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                Em 2017 o universo cinematográfico da Marvel vinha entrando num ciclo perigoso de confiar em fórmulas de sucesso já testadas e repetir-se. A carta tirada da manga foi o sensacional “Pantera Negra”, de Ryan Coogler, no início de 2018. O sucesso do filme abriu espaço para que a  Panini pudesse publicar alguma coisa do ótimo material que a Marvel anda produzindo nos EUA. Assim chegaram aqui, em 2018, os três volumes de “Uma Nação Sob Nossos Pés”, de Ta-Nehisi Coates ilustrados por Brian Stelfreeze e Chris Sprouse.

                Ao chamar Coates para escrever as histórias de T´Chala, a Marvel faz uma aposta de sair do lugar comum: Ta-Nehisi Coates é um escritor premiado, frequentemente na lista dos mais vendidos do New York Times, mas nunca tinha escrito quadrinhos antes. Não é exatamente incomum isso por parte das grandes editoras. A DC, por exemplo, obteve êxito da mesma forma quando entregou um personagem clássico, o Sandman, nas mãos de um “novato”, Neil Gaiman. A mesma DC começou a reinventar a sua Liga da Justiça quando o também “virgem” de quadrinhos Brad Meltzer.

                “Uma Nação Sob Nossos Pés” nos apresenta a Wakanda que nos embasbacou no cinema de uma maneira toda diferente. O trono estava com irmã de T´Challa, Shuri, que faleceu. Não há unanimidade no Reino a respeito do reinado de T´Challa. Wakanda foi atacada pelos atlantes de Namor e pela Ordem Negra de Thanos, mostrando-se mais vulnerável do que nunca. Há divergências entre o povo. Há fome. Há revolta. Há dissidentes querendo tomar o poder (ou derrubá-lo) e há aproveitadores de fora querendo tirar uma casquinha do vibranium de Wakanda.

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Wakanda enfrenta uma série de ameaças, a maioria delas vinda de dentro

                T´Challa embarca numa jornada na tentativa de reconstruir seu país e torna-lo, novamente “uma nação sob nossos pés” (como diz o título, enfim). Ao mesmo tempo, a jornada também é pessoal: a morte de Shuri talvez não seja exatamente uma morte e o seu resgate não será simples. T´Challa tem que fazer as pazes com sua nação, com sua família e consigo mesmo. Não vai ser fácil.

                Coates mergulha nas referências da negritude e da africanidade com bastante força. O traço de Stelfreeze o ajuda bastante, com muitas cores e uma riqueza de detalhes que nos remete ao continente africano. A flora e a fauna, eterno clichê, estão presentes na medida certa. O autor também faz uma escolha a respeito do elenco de apoio: os outros heróis da Marvel que aparecem na trama (Tempestade, Luke Cage, Misty Knight, Dobra) são todos negros e isso não é uma coincidência. O autor inclusive faz o próprio T´Challa verbalizar essa intencionalidade.

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Misty Knight, Luke Cage e Tempestade aparecem em Wakanda para dar uma força.

                “Uma Nação Sob Nossos Pés” é uma história de reconstrução e de busca pela identidade. A identidade do herói e a identidade de seu país, que por muitas vezes se confundem. A ideia de construir uma narrativa de negritude, do início ao fim, faz com que a história seja muito rica. Diferente de muitos dos quadrinhos de herói da atualidade, “Uma Nação Sob Nossos Pés” não exige um alto conhecimento sobre 50 anos de quadrinhos e é uma leitura que se sustenta só, ainda que abra uma série de possibilidades de desdobramentos e enriquecimentos da mitologia do personagem.

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Wakanda no traço sempre deslumbrante de Jack Kirby

                Vale destacar ainda as histórias-bônus que vem nas edições, onde temos a primeira aparição do Pantera Negra por nada mais nada menos que Stan “The Man” Lee e Jack “King” Kirby, a estreia do vilão Killmonger (que fascinou a todos no cinema vivido por Michael B. Jordan) e outros momentos clássicos da trajetória do Pantera Negra.

Piras

Do Tinder

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imagem: Cassiano Rodka

Uma das máximas do universo é: entrarás em qualquer sala de profes e encontrarás uma revista da Avon. OK, pode ser Natura, MaryKay ou qualquer uma dessas que mostra os cosméticos e até produtos de casa ou livros – nenhum sentido. Você já deve ter visto alguma dessas e a história é sempre a mesma, que ilustrarei em quatro momentos. Primeiro, a ilusão: “Uau, deve ter um monte de coisa interessante! Que perdição!”; segundo, a decepção: “Não gostei… não gostei… é, legal…”; terceiro, o interesse: “Humm esse batom parece bom, vou ler a descrição”; por fim, o quarto momento – resignação: “Tá, até que vale pelo preço. Vamos comprar pra ver qual é”. Bem-vindxs ao Tinder.

O Tinder é exatamente isso, só que com seres humanos. Você baixa um aplicativo que é, basicamente, um catálogo de gente: algumas fotos, breve descrição (quase sempre lotada de emojis e informações sobre signos ou uma frase “de impacto”) e eras isso. Algumas pessoas conectam com o Instagram ou com o Spotify para impressionar com aquelas fotos de viagem do #tbt ou pra ter uma musiquinha bacana para começar assunto. Se a pessoinha te interessa, você dá um like. Se ela não der like quando você aparecer no catálogo dela, nada acontece e ela nunca fica sabendo do seu interesse (ufa!); se ela também dá like em você, AE AE AE vocês têm um match.

Eu entrei nesse aplicativo para beijar pessoas – aham, lida com isso. Aqui as coisas começam a complicar porque, mesmo ele sendo um catálogo pra todo mundo, a forma que cada um usa é diferente. Eu, por exemplo, nem leio o que as pinta colocam lá: vejo a primeira fotinho e, se achei interessante, vou pra próxima; se aparentemente me atraiu, vou pra descrição ver se tem algo horrível tipo #bolsonaro2018 que eliminaria x candidatx. Não tendo, blz: like. Meu modus operandi só muda quando encontro alguém conhecido, quando ou dou o like direto sem nem olhar nada ou já passo adiante saio correndo deus me livre nem vi. Pra complicar mais, é claro que, como em um bar ou em uma festa, têm pessoas com objetivos diferentes. Tem quem só queira dar um UP na autoestima recebendo likes e se sentindo desejadx, e tem quem queira trolar a galera com perfil falso. Tem altos perfis de casal procurando ménage e perfil de grupos que buscam amigues. Tem tudo. Microcosmos da sociedade.

Um tipo que sempre me intrigou é o do “Procura-se mozão”. Alguns até escrevem no perfil: “Se não quer relacionamento sério, nem dá like”. Gente. O aplicativo tem mais fotos do que caracteres, como tu espera concluir que aquela criatura é um potencial mozão com uma descrição minúscula pra saber se dá o like ou não? E tem mais: até agora, do que pude entender bem pouquinho sobre o amor, é que mesmo sabendo até o tipo sanguíneo da pessoa você não tem como saber se ela vai ser o seu mozão. Então o lance todo é só saber se a pessoa tá disposta a se apaixonar? E se ela está disposta, mas não com você? E se não rolar aquela química doida? Acho complexo isso.

Mas entre as pessoas que se dizem na mesma vibe que eu, de “só pegação”, a coisa não é tão mais simples não. Tem muita gente que quer uma meeeeega conversa antes de um encontro real, acredita? Aham. A criatura diz que só quer me dar uns beijos, mas, antes disso, precisa saber toda a minha vida, meus planos pro futuro e a até a relação com meus pais. Isso não faz o menor sentido pra mim. O questionário básico “nome, idade, emprego/estudos, foi golpe ou não” já não tá mais que bom? Quem nunca ficou com gente em balada sem antes perguntar essas coisa tudo?

E é quase um protocolo. Quando você responde um monte de coisas uma vez, até pensa que a pessoa tá super interessada e junta forças pra fazer isso; agora, fazer isso 31793 vezes é um porre. Digo mais: dá pra ver que a pessoa não tá interessada real oficial, sabe? Aquelas respostas “bah, legal”. Parece que ela tá preenchendo um daqueles questionários que a gente fazia na 5ª série que, a bem dizer, é um monte de informações – e todas elas bem selecionadas para se manter fiel a imagem que se quer criar, assim como as fotos, as músicas e tudo o mais. Isso tudo, junto com os vários bolos que tomei em encontros reais, me faz questionar até que ponto a galera tá disposta a sair do perfil, a ter uma troca real mesmo. Abraçar o imprevisível, ver a expressão que a pinta vai fazer quando vocês se virem a primeira vez ou se ela realmente está rindo da sua história em vez de fazer uma aglutinação de letras k.

Então, pode dizer que só quer transar mesmo ou que não tá tão a fim assim; tá autorizado dizer que sonha em encontrar THE ONE, casar e procriar loucamente; vale também procurar gente só pra dividir lanches. O Tinder, enfim, se verificou mais uma experiência antropológica do que qualquer outra coisa. É um não-lugar bem interessante para ver diferentes tipos de postura e relações (e, claro, pra dar umas risadas também). Aí questiono: superficiais mesmo são as relações só de pegação ou essas que ficam só no blábláblá virtual? Sei não. O que vejo é que, pra mim, falta olho no olho, toque, aquela leitura da linguagem corporal pra ver qual é que é mesmo. Talvez seja por eu pensar assim que só saí com duas pessoas do Tinder até hoje: uma virou amiga; outra, mozão (veja só). Mas as duas foram as que primeiro toparam o café e, depois, a conversa de horas. Quer saber? Acho que já deu. Perfil deletado.

Literatura

Eu deveria ser, mas eu sou

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imagem: José Calimero

Quando eu era pequena, eu não ouvia comandos, ouvia histórias de quem eu era e de quem eu deveria ser. Havia limites para quem eu era e poderia ser, e eles eram dados pelas histórias daqueles e daquelas que viveram antes de mim, e que viviam ao meu redor.

O som da infinita repetição de quem eu era e deveria ser abafava a vozinha, ainda tímida, que sussurrava:

– Você é, você pode ser.

Por muito tempo não tive ouvidos para ouvi-la. Foi só quando todos os meus sentidos se voltaram para dentro que eu comecei o caminho inverso, escavando para fora de mim quem eu não era e não queria ser. Tive o cuidado de levantar as camadas uma a uma e de arremessá-las pela janela. Ao  fazê-lo, a consciência de estar utilizando minha força para voltar, ao invés de ir, para redescobrir, ao invés de descobrir, crescia.

– Você é, você pode ser.

Tivesse eu sido exposta a múltiplas histórias de seres múltiplos, infinitamente simples em sua complexidade; não contidos em nenhuma descrição normativa feita pelo Homem em nome de qualquer deus, e, hoje, o tempo me seria menos caro.

Cinema

Mamma Mia: Lá Vamos Nós de Novo!

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              Quando saí do cinema depois de ver “Mamma Mia: Lá Vamos Nós de Novo!” (Mamma Mia: Here We Go Again, Ol Parker, 2018) eu pensei bastante sobre a franquia “Velozes e Furiosos”. A série que estreou em 2001 já rendeu oito filmes e tem mais dois com lançamentos previstos para 2020 e 2021. Mas o que um musical baseado na obra do ABBA e uma série sobre carros e explosões têm em comum? Pois é.

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Meryl Streep liderou o elenco de “Mamma Mia!”.

                “Mamma Mia!” (Phyllida Lloyd, 2008) foi uma ideia muito divertida e bem feita. Impossível não se empolgar ao som das canções que sacodem as pistas desde os anos 70. Meryl Streep na tela, mesmo que fosse lendo uma lista telefônica, já seria interessante. E se não bastasse, o cenário escolhido para o filme é uma ilha paradisíaca na Grécia. Não tinha como ser ruim. E de fato não é. “Mamma Mia!” é divertido pra caramba e funciona, com uma trama gostosa que nos carrega na curiosidade de querer saber quem é o pai de Sophie.

                Aí, dez anos depois, a mesma equipe resolveu fazer “Mamma Mia! Here We Go Again” (Ol Parker, 2018). Um ano após a morte da mãe, Sophie (Amanda Seyfried) empenha-se em realizer o seu sonho e transformar a casa na ilha em um hotel. As antigas amigas da mãe (Julie Walters e Christine Baranski, repetindo os papeis de 2008) voltam à ilha para prestigiar o evento, assim como os “pais” de Sophie (Stellan Skarsgard, Colin Firth e Pierce Brosnan). A presença de Donna é muito forte o tempo todo, deixando o filme com um clima de luto (e nos privando, durante a maior parte do filme, de Meryl Streep). Há um conflito na relação de Sophie com Sky (Dominic Cooper), com quem ela casou no primeiro filme, mas, apesar disso ser mostrado na primeira cena, lá pelo meio ninguém mais lembra. A trama da jovem Donna, envolvida com os três rapazes, não faz o menor sentido porque JÁ SABEMOS o que acontece, em virtude do outro filme. A novidade inusitada é a chegada “surpresa” da avó de Sophie, no último ato do filme, fazendo o número musical mais cheio de novidade do filme.

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Sim, você já viu isso antes.

                “Mamma Mia: Here We Go Again” traz, portanto, o MESMO elenco do filme anterior (só que pior, pois tem uma menor participação de Meryl Streep). Apresenta a MESMA trama do primeiro (só que pior, pois a trama do casamento Sophie/Sky e a descoberta do pai da Sophie era bem mais interessante). Se passa no MESMO cenário do filme anterior e exibe cenas musicais do MESMO conjunto. Algumas canções, inclusive, se repetem: além de “Mamma Mia!”, do título dos filmes, temos também “Super Trouper”, “Waterloo”, e é claro que não poderíamos deixar de escutar “Dancing Queen”.

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Cher, com Andy Garcia, protagonizou o principal número musical novo do filme, em “Fernando”.

                O filme chega a ser divertido em alguns momentos, mas o que eu fiquei me perguntando: era necessário voltar a essa história dez anos depois, sem absolutamente NADA a acrescentar? A enrascada na qual Hollywood se meteu segue crescendo: cada vez mais sequências e franquias, que possuem um retorno mais garantido, tomam um espaço que poderia ser ocupado por novas ideias, novos trabalhos e novos roteiros. Voltando à comparação com “Velozes e Furiosos”: pelo menos eles trocam o cenário, de vez em quando.