Clarice Dall’Agnol

Literatura

The Elephant. A Aliá.


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imagem: José Calimero
She was moving away from me, back to her hometown.
Eu, me mudando pra longe, bem longe de minha terra natal.
She was going to become a high-performance athlete.
Eu ia tentar a sorte, ser livre, ou tentar ser.
She was moving to her own place: a two-bedroom apartment fully renovated.
Eu, para um chalé alugado no campo, com telhado de pano.
– Será que eu não vou passar frio? Eu pergunto para os locatários.
– Nós sobrevivemos bem, ele me responde, passando a mão no pano para mostrar como era de boa qualidade, algodão grosso!
She was happy.
Eu, confusa.
*
Cozinha da casa de minha mãe. Eu estou passando uns dias, me despedindo antes de me mudar para o chalé com teto de pano. Comigo está nossa ajudante de anos, alguém que sempre esteve aqui mas que, na verdade, eu não conheço. Meu olhar é pego pelo movimento de algo grande e cinza andando pelo corredor do lado de fora da janela da cozinha.
– O que é isso? Eu pergunto.
– Ah, é a aliá. Ela tem andado pela vizinhança nas últimas semanas.
– Mas como ela entrou aqui? Não devíamos ter fechado o portão? Eu, aflita.
– Não, todos os moradores combinaram de deixar os portões abertos pra ela poder entrar e andar livremente. Ela diz, como se nada fosse.
Enquanto ando até o quintal atrás da casa, eu me pergunto por que só eu percebo a gravidade de termos uma aliá andando pelo bairro. Tento me esconder, com medo, mas ela me vê, para de comer e levanta a cabeça. Nunca olhos tão grandes me encararam assim. Ficamos nos reconhecendo por algum tempo, até eu e a aliá começarmos a fazer sentido.
Cinema

Bohemian Rhapsody (Bryan Singer, 2018)

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Quando saíram os primeiros trailers da cinebiografia do Queen eu fiquei com medo. Medo por que é bastante comum que trailers grandiosos promovam os (únicos) melhores momentos de um filme meia-boca. Esquadrão Suicida que o diga, não é Warner/DC? Bom, o trailer de Bohemian Rhapsody era poderoso. Como não poderia deixar de ser poderoso um trailer turbinado com a trilha sonora do Queen. Quaisquer que fossem as canções escolhidas para o trailer, seria difícil não ficar bom. O trailer era emocionante. E, felizmente, meu medo era infundado: Bohemian Rhapsody entrega o que promete.

A primeira coisa que chama a atenção no filme é Rami Malek. O relativamente desconhecido ator norte-americano (já recebeu uma indicação ao Globo de Ouro pela série Mr. Robot) encarnou o vocalista e performer com uma assombrosa semelhança. Lembrou Jamie Foxx como Ray Charles em “Ray” (Taylor Hackford, 2004) ou Morgan Freeman como Mandela em “Invictus” (Clint Eastwood, 2009). Impressiona o trabalho do ator em incorporar gestos e maneirismos de Freddie Mercury. A partir daí não surpreende que o diretor tenha escolhido levar todo o filme em torno dele. Se a ideia era uma cinebiografia do Queen, na verdade o que nós temos é um filme sobre Freddie Mercury. O que, de forma alguma, é ruim. Gwilym Lee, Bem Hardy e Joe Mazzello (respectivamente Brian May, Roger Taylor e John Deacon), que vivem o resto da banda, também estão visualmente extremamente parecidos com as versões reais de seus personagens, mas ficam em segundo plano durante o filme todo.

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Elenco do filme reproduzindo fielmente o visual da banda

Quando se faz uma biografia sobre um cantor, sempre cogita-se a possibilidade de o ator cantar as músicas. Foi, por exemplo, a escolha de Antônio Carlos da Fontoura em “Somos Tão Jovens” (2013), onde Thiago Mendonça viveu Renato Russo e cantou. Quando isso é feito, os resultados podem ser ótimos ou nem tão bons assim. Bryan Singer optou pelo caminho menos arriscado e o que temos é Malek dublando as canções de Freddie Mercury. Na minha opinião, uma escolha muito acertada do diretor. Mercury era um cantor tão marcante, com uma forma de cantar tão característica que por mais que Malek se esforçasse, seria difícil uma performance que não fosse (bastante) criticada. A forma como as músicas são incluídas, ainda, é caprichosamente pensada. Algumas canções são apresentadas em performances ao vivo (em geral representando a passagem de tempo durante as turnês, com muitas imagens de shows) e outras são mostradas durante o seu processo de produção. Como fazer para mostrar a própria “Bohemian Rhapsody” de forma que já não tenha sido mostrada? Singer decide desconstruir a canção, paradoxalmente mostrando o processo de construção dela. Fica bom, além de diferente.

Singer, aliás, é um diretor experiente e seguro de “Os Suspeitos” (The Usual Suspects, 1995), “X-Men: O Filme” (X-Men, 2000) e Operação Valquíria (Valkyrie, 2008). Sem grandes maneirismos, ele sabe contar uma história e a escolha de contar a trajetória de Mercury sem cair num quase-musical é muito feliz. A cena do rompimento de Freddie com seu ajudante pessoal, Paul Prenter (Allen Leech) na chuva em Berlim é lindamente construída e vale o ingresso, com certeza.

Os roteiristas Anthony McCarten e Peter Morgan optaram por contar uma boa história, privilegiando o storytellyng em detrimento da “verdade” documental. Quem conhece a história da banda vai perceber que alguns fatos foram atropelados e que a ordem cronológica foi deixada um pouco de lado em função de contar uma boa história. Os primeiros shows do Queen no Brasil, por exemplo, foram em São Paulo em 1981. Singer cola nesses shows a versão de Love of My Life que foi imortalizada no Rock in Rio, em 1985, quando Freddie Mercury regeu o coro da Cidade do Rock durante boa parte da música. Da mesma forma, a impressão que o filme passa é que o concerto no Live Aid, em 1985, foi a volta da banda depois de muito tempo sem tocarem juntos, o que não é verdade. Em 1985, antes do Live Aid, o Queen excursionou por Japão e Austrália, além de ter feito, em janeiro daquele ano, os seminais shows no Rock in Rio (aos quais não há nenhuma referência direta no filme). A banda estava muito azeitada, portanto, e não tinha as dúvidas e questionamentos que o filme mostra. Por fim, no filme o diagnóstico de HIV de Mercury é anterior ao Live Aid e a revelação para os companheiros de banda é bem dramática, num ensaio anterior ao concerto. Segundo as biografias do Queen o próprio Freddie ainda não sabia do HIV quando do Live Aid e May, Taylor e Deacon não ficaram sabendo antes de 1988.

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Rami Malek e Gwilyn Lee recriam Freddie Mercury e Brian May no palco do Live Aid

 Não vejo problema algum nisso numa obra que não se propõe a ser um documentário, mas sim uma obra de celebração da música do Queen e da vida e do talento de Freddie Mercury. Essa celebração passa por escolher terminar o filme no concerto do Live Aid, inclusive. A ideia é mostrar um artista no auge da sua potência celebrando a música e a intensidade que o imortalizaram. Nesse sentido, o filme esmera-se na reconstrução da performance da banda no Live Aid. Chega a ser impressionante rever o show em Londres depois de ter visto o filme. Há um cuidado da produção nos mínimos detalhes, como os copos de Pepsi-Cola em cima do piano, por exemplo.

“Bohemian Rhapsody” vale, com certeza, a ida ao cinema. A poderosa trilha sonora do Queen e a performance de Malek, conduzidos por Singer, levam a uma experiência emocionante. Se o trailer me empolgou, o filme me fez chorar, e mais de uma vez.

PS: De preferência depois de ver o filme, assista esse vídeo. É uma comparação da cena do filme no Live Aid com a filmagem real do concerto. Impressionante!!

Live Aid: no filme e em Wembley

Piras

Da arte

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imagem: RDK

Um daqueles momentos de perceber o quanto se é privilegiada é pensar em quantos museus já se foi na vida. Tive a oportunidade de ir naqueles super incríveis, como o Louvre, o Metropolitan, o British Museum, o Prado. Lembro de entrar no Louvre, com meus amados 18 anos, e um Pedro do meu lado pirar pela Vitória de Samotrácia. E eu disse: “Bah, massa né?”. Não fazia a menor ideia do que era, mas tudo bem porque ele adorou explicar. Acho que posso resumir bem essa experiência dizendo que ele ficou no museu até fechar e eu saí antes pra ir no McDonalds – 18 anos e com fome, gente, me perdoem.

Então, pode-se dizer que eu não era uma pessoa muito ligada nas artes. Mas, como tudo, isso também foi um processo: comecei a me interessar, estudei sobre e, principalmente, liguei o foda-se. O foda-se, esse movimento contemporâneo que tem até livros sobre, foi essencial para a minha (ainda em construção) concepção do que é arte e de como ela me toca. Justamente porque o foda-se me deu a autorização para, respeitando o aspecto histórico e inovador daquela obra no contexto em que foi criada, ainda assim, dizer “meh”.

Esse mesmo foda-se fez com que eu não ignorasse, mas me permitisse dar menos importância ao que as pessoas diziam que eu TINHA QUE visitar, aos museus que eu TINHA QUE ir e aceitar ir naqueles em que eu realmente queria ir – e se preferir, em vez disso, ir no bar, tá tudo ótimo. O que eu não tinha percebido ainda, e que agora vejo (obrigada maturidade e processo reflexivo) é que o foda-se não é somente uma quebra de relação de poder do que se legitima como importante na arte, mas também uma forma de se ouvir. De pensar o que me toca, o que me move, o que me sensibiliza.

Nesses museus ~importantes~ todos, vi obras incríveis, algumas de tirar o fôlego. Um dia vi uma ilustração¹ que me mexeu de uma forma que as lágrimas brotaram na hora. E foi na… Comic Con Experience. Informe: Comic Con Experience é um evento de quadrinhos em São Paulo, nem museu é. Coincidentemente (ou não, vai entender esses caminhos da vida) o Pedro estava comigo e disse: se tu não comprar, eu te dou. Com certeza, aquele abalo foi do momento: aquele dia, aquela fase da minha vida, aquela Brunna, naquela viagem, com aquelas pessoas. Talvez batesse de outra forma se fosse meses depois. Não importa. O que sei é que a aquela ilustração vale mais, pra mim, do que um Picasso.

E não, o foda-se não me fez ir menos a museus. Ele me fez ficar 8h em um ônibus para ir ate o Museu do Escher, porque, pra mim, fazia sentido; me fez ir ver a Moça do Brinco de Pérola porque eu realmente estava instigada a analisar a luz do quadro; me fez achar que valia a pena ir no Museu da Diversidade Sexual, mesmo que ele seja uma única sala na estação de metrô República – e valeu. Me ensinou também a não dizer para as pessoas que elas TÊM QUE ver tal obra porque é incrível, mas, sim, a dizer que seria bem massa ver o que essa obra pode despertar nela. O foda-se, afinal, me tornou mais crítica, mais forte e mais decidida – e, quem diria, ele justamente é se permitir ser sensível. Talvez o que me faltava mesmo era esse caráter libertário e revolucionário da arte, inclusive sobre mim.

Thinking
¹ A ilustração é esta, chamada Thinking (Mika Takahashi, 2017). Linda, né?

Literatura

Iltda Mente

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imagem: José Calimero

Pouso o olhar imóvel
o tempo permanece como magia estática
e transito pela minha história
devaneio possibilidades
sonho acordada
algo mais de viver
do peito transbordar
um grito, correr até não aguentar e continuar
horizonte longínquo, fecho os olhos
Sinto
a luz difusa perpassar minhas pálpebras cerradas
inundar de calor e sentido
enquanto pareço ainda fugir
de toda essa vida demais todo dia
que insiste em nos controlar
Literatura

Quando a gente diz não

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imagem: Cassiano Rodka

Vai lá
Estende a mão
Enlaça teus dedos nos meus
Faz crescer esse cordão
 
Acredita no tamanho dessa massa
Sente o alargar dessa intenção
Abraça o peso da leveza
Deixa rufar o coração
 
Não empunha a arma dos outros
Desenlaça essa corda no chão
Tira o nó do meu pescoço
Me entenda como irmão
 
Pois tem você e eu e eles
E, assim, uma nação
O som do sim seduz o incauto
Mas a coragem ecoa em um não