Clarice Dall’Agnol

Quadrinhos

Apocalipse zumbi em São Paulo

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Capas dos quatro volumes de São Paulo dos Mortos.

Uma horda de mortos-vivos toma a Avenida Paulista, um time de futebol é atacado no Estádio do Pacaembu e vários corpos se amontoam pelo bairro Santa Cecília. Essas são apenas algumas das cenas bizarras encontradas nos quatro volumes de São Paulo dos Mortos.

Criada e escrita por Daniel Esteves, a HQ nos apresenta o apocalipse zumbi acontecendo na maior capital do Brasil. Utilizando pontos clássicos da cidade como cenário, o roteirista conta diversas histórias ilustradas por diferentes desenhistas.

No primeiro volume, encontramos cinco histórias curtas. Ora bem humoradas, ora mais sombrias, as narrativas seguem personagens em situações extremas, tendo que lutar pelas próprias vidas em meio a uma infestação de mortos-vivos. Apesar de ter personagens interessantes, as histórias são um tanto rápidas e não nos dão tempo suficiente para criar uma conexão com eles. Esse problema parece ter sido identificado e corrigido no segundo volume.

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Página do 1º volume de São Paulo dos Mortos.

A segunda edição da revista aposta em uma única história. Com arte de Alex Rodrigues, “Mortoboy” (baita título!) conta as desventuras de Deivison, um entregador de… bem, o que você quiser. Durante o apocalipse zumbi, o motoqueiro resolve se virar fazendo trocas para sobreviver em meio ao caos. O personagem é super cativante e a história é mais envolvente que as anteriores, o que fez com que o personagem retornasse no volume seguinte.

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Introdução do primeiro personagem recorrente, Deivison. 

A terceira revista explora mais a fundo a criação de personagens permanentes, adicionando ao time a patinadora Gabi e sua fiel escudeira, a cadela Furiosa, e o misterioso e apático dentista conhecido apenas como Doutor. Os personagens e as histórias são ótimos e as tramas se cruzam, inclusive com personagens dos dois primeiros números. O que nos leva novamente ao encontro de Deivison, que se mete em uma cilada junto com o Doutor em uma de suas peculiares entregas. Esse volume merecidamente ganhou o 29º Troféu HQ Mix em 2017 na categoria “Melhor Publicação Independente de Grupo”.

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O insensível e taciturno Doutor.

Em seu quarto e mais recente volume, Daniel Esteves foca mais uma vez em contar apenas uma história. Com o traço de Sueli Mendes, conhecemos mais da vida e da personalidade de Gabi e sua cadela Furiosa, conectando um pouco do seu passado com o seu trágico presente. Lançado na CCXP de 2018, o gibi parece ter ganhado um adendo de última hora bem propício aos tempos atuais: o epílogo desenhado por Al Stefano mostra Gabi enfrentando um tipo diferente de zumbi, algo que poderíamos apelidar de… zumbinions? É uma ótima mensagem de perseverança. Zumbis no Brasil? Não enquanto houver resistência!

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Vamos resistir! 

 

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Rodka com parte da equipe de SPM: Samuel Bono, Al Stefano, Daniel Esteves e Alex Rodrigues. 
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Alex Rodrigues autografando…
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… Alex Rodrigues atacando!!
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Sim, se você procurar, vai encontrar os desenhistas e o escritor nas páginas das revistas. Não é mesmo, Daniel Esteves?
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Confere, Al Stefano? 
Cinema, Quadrinhos

Homem-Aranha no Aranhaverso (Spider-man Into the Spider-verse, Bob Perichetti, Peter Ramsay e Rodney Rothman, 2018)

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Em 2000 a Marvel lançou algumas mini-séries recontando as origens de seus heróis, atualizando-as para o século XXI. Aquilo deu tão certo, mas tão certo que as mini-séries se tornaram séries regulares e circularam por mais de quinze anos, como realidades paralelas aos quadrinhos. Era o “Universo Ultimate”, ou “Ultiverso”, como foi chamado aqui no Brasil. A Marvel sempre teve seu universo “principal” e vários universos alternativos paralelos, mas nunca um deles tinha circulado com tantos títulos e por tanto tempo quanto o Ultiverso. O Ultiverso foi tão bem sucedido que o Universo Cinematográfico da Marvel baseou-se nele para criar os seus Vingadores, hoje de tanto sucesso no cinema. A nova versão do Homem-Aranha (do ótimo “Homem-Aranha: De Volta ao Lar” e do aguardado: “Homem-Aranha: Longe de Casa), estrelada por Tom Holland, também. O escritor de Homem-Aranha Ultimate, Brian Michael Bendis, numa decisão polêmica, matou o Peter Parker Ultimate. Aquela versão do herói, portanto, teve início, meio e fim. E foi então que ele criou Miles Morales, talvez o maior acerto da Marvel nos últimos 30 anos. Morales deu tão certo que em 2015, quando a Marvel resolveu colidir seus universos para acabar com a multiplicidade deles, decidiu também que Morales ia ficar. Não importa que no universo “base” da Marvel já houvesse Peter Parker: a Marvel resolveu (acertadamente) que não tinha problema algum em se ter dois Homens-Aranha.

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Miles Morales é o protagonista da animação “Homem-Aranha no Aranhaverso”. O personagem criado por Bendis está lá: um jovem secundarista cheio de dúvidas e com dificuldades para se adaptar à nova escola, onde ele acha que não mereceria estar. O pai, policial, é rígido e cobra muito do menino, porque sabe que um jovem negro nos EUA tem que se esforçar muito mais que a média se quiser ser bem-sucedido. Miles encontra na figura de seu tio, Aaron, a cumplicidade que não tem com o pai. É numa de suas “fugas” (dos pais, da escola, do mundo) buscando refúgio com o Tio Aaron que Miles é picado por uma aranha geneticamente modificada. E, bom, você conhece o resto da história.

“Homem-Aranha no Aranhaverso” parte de um arco de HQs escrito por Dan Slott (que talvez seja, juntamente com Stan Lee e Brian Michael Bendis, um dos roteiristas mais importantes da história do Homem-Aranha) onde as pessoas-aranha de diversas realidades se encontram em função das tramas de alguns dos inimigos mais clássicos do cabeça-de-teia. A trama poderia ser MUITO confusa. Poderia ser, inclusive, hermética, inacessível para quem não tenha lido os cinquenta anos de quadrinhos do “Amigão da Vizinhança”. Mas não é. Phil Lord (Uma Aventura Lego) e Rodney Rothman, os roteiristas, conseguiram bolar uma história linear e fácil de acompanhar, onde nos conectamos facilmente com Miles e com os outros personagens. Além de Miles, temos um Peter Parker de outra dimensão, mas velho, gordinho e fracassado, que vai servir de “mentor” para o protagonista. A “Spider-Gwen”, que surgiu como uma piada e acabou fazendo um sucesso tremendo, também está lá, assim como a versão mangá Peni Parker, a versão do Homem-Aranha Noir (na versão legendada, a voz dele é de Nicolas Cage, que, sempre que pode, se envolve nas produções sobre heróis, já que é fã) e o simpático Peter Porker, o Porco-Aranha (uma paródia deliciosa do Homem-Aranha e também de personagens da Warner, que é dona da DC, a principal concorrente da Marvel).

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Gwen-Aranha, Peter Parker (de calças de moletom) e Miles Morales

Se o roteiro é seguro e tradicional, bebendo direto da Jornada do Herói, não se pode dizer o mesmo da animação em si. “Homem-Aranha no Aranhaverso” tem um estilo de desenho moderno e arrojado. A trama se sustenta num estilo de animação baseado em grafites, já que esse é o mundo de Miles. É muito interessante o quanto a animação se transforma quando cada um dos Aranhas está em tela, adotando o estilo dele. O Homem-Aranha Noir, por exemplo, está sempre em preto e branco. Peni Parker é mangá e Peter Porker uma animação clássica. Uma direção menos cuidadosa poderia fazer um filme poluído, a partir desse festival de referências, mas não é o que temos: o filme flui maravilhosamente bem, visualmente, sempre com a referência maior de ser um filme sobre quadrinhos.

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O Homem-Aranha Noir tem a voz de Nicolas Cage

“Homem-Aranha no Aranhaverso” é um filme divertidíssimo e eleva as animações da Marvel (por mais que seja um projeto da Sony) a um novo patamar, abrindo novas oportunidades. Apesar do domínio da Marvel no cinema, as animações eram um terreno dominado pelas ótimas produções da DC. O sucesso de crítica e público de “Homem-Aranha no Aranhaverso” pode ajudar a Marvel a começar a reverter esse quadro.

Literatura

Vou-me embora de São Paulo

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imagem: José Calimero
Vou-me embora de São Paulo,
lá sou inimiga do Rei
nada gosto
daquele amargor
do stress cinza
 
Montes de amontoados de gentes
gentes que não são pessoas
quase bichos em sobrevivência
por espaço, por lugar, por tempo,
por dinheiro, por compreensão, por espaços verdes,
e tantas outras coisas,
bichos carentes
 
Tristes, dentro dos seus carros,
metrôs, ônibus, motos,
olhando seus celulares
para não olhar nos olhos dos outros
e ver o desprezo por si mesmo
 
O que os une é a perda
do tempo, de vida, de esperança,
de paciência, de alegria, de liberdade, de gentileza
de existência
 
Eu não sou diferente
sou bicho paulistano meio amargo
querendo fugir do trânsito
para ter tempo de de viver e ser melhor
 
Mas o que nesse momento me resta
enquanto tudo pára e paira
sobre essa decadência
é escrever esse desabafo
em saber que hoje
não moro mais aqui
só estou de visita
Quadrinhos

Pût e Mäq: guerreiros desbocados em busca de aventura

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Pût e Mäq são duas histórias distintas criadas pelo paulista Eduardo Ribas. Apesar de serem narrativas independentes, as HQs são parte de uma série de aventuras. Cada revista apresenta personagens diferentes em busca de atos de heroísmo em mundos fantásticos. O grande bacana das duas histórias é a maneira que o autor escolheu contá-las. O quadrinista parte de cenários comuns a esse gênero, mas as desventuras encontradas ao longo do caminho e o humor empregado nos diálogos dão uma cor muito especial à leitura.

Em Pût, acompanhamos a jornada de dois aventureiros à procura de uma fortuna guardada por um dragão. Gírias gauchescas, palavrões e pegações no pé são comuns nas conversas da dupla, como se dois moradores do Bonfim (bairro porto-alegrense) tivessem sido transportados para uma terra imaginária. Os diálogos e as cenas de violência contrastam com o traço do desenhista, que tem um quê de cartum infantil.

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Em Mäq, duas guerreiras partem em busca de uma lendária espada com a ajuda do espírito de uma feiticeira. Sim, uma história protagonizada apenas por personagens femininas. Na dedicatória, o autor declara que é uma homenagem às mulheres de sua vida que o ensinaram a resistir e persistir. Eu particularmente preferi o roteiro e as personagens dessa revista, ri um bocado com a bruxa que fala pelos cotovelos. Em alguns diálogos, ficou uma sensação de que talvez vejamos essas heroínas novamente em edições futuras.

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As aventuras encontradas em Pût e Mäq são curtas e divertidas, deixando aquele gostinho de quero mais no leitor. Acredito que, com mais histórias produzidas, o autor venha a fazer uma coletânea reunindo as diferentes narrativas. Daria certamente uma boa leitura.

Interessados no trabalho do Eduardo Ribas, deem um pulo no site da Epicdoo: http://epicdoo.iluria.com/

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Rodka com o autor Eduardo Ribas na CCXP 2018.
Quadrinhos

Bendita Cura, uma HQ em azul e rosa

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Em época de “menino veste azul e menina veste rosa”, nada mais pertinente do que analisar o primeiro volume de Bendita Cura, história em quadrinhos criada pelo cartunista Mário César, que já foi duas vezes vencedor do Troféu HQ Mix.

Nas páginas de Bendita Cura, o leitor acompanha a vida de Acácio do Nascimento, um homem que foi submetido desde criança a diversos tratamentos em busca de uma suposta cura para sua homossexualidade. Nesse primeiro volume, vivenciamos junto ao personagem toda a dor e o sofrimento que ele passa em sua infância e adolescência tentando se adequar ao que seus pais e colegas consideram normal. De surras a tratamentos médicos equivocados, Acácio se vê submetido a diversas tentativas de apagar a sua personalidade. Quando ele tem momentos de felicidade, há sempre alguém por perto pronto a reprimi-lo.

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A grande sacada de Mário César na hora de ilustrar a história foi a de colorir os desenhos com apenas duas cores: azul e rosa. Já nas primeiras páginas, vemos o pai de Acácio de azul e a sua mãe, toda de rosa. Ele? Vestido em uma camiseta listrada com as duas cores. Há ainda sutilezas, como a casa do personagem principal, que é predominantemente azul, deixando claro quem manda ali. O próprio menino varia as cores de acordo com o que ele está passando na vida. Esse toque faz toda diferença na maneira em que absorvemos a narrativa, nos fazendo parar várias vezes para pensar nas razões dessas vãs distinções.

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Bendita Cura é uma história sobre preconceito e sobre os males que a dita “cura gay” pode causar a uma pessoa. O que não pode ser curado só será reprimido. Não precisamos só do rosa ou só do azul. Precisamos do verde, do roxo e do vermelho também. Mais laranja, marrom e amarelo. Branco, preto e cinza. Vamos abraçar as diferenças. Vamos aceitar que o mundo é feito de muitas cores.

Se é preciso desenhar para entenderem… Que venha logo o segundo volume!

Leia gratuitamente em: tapas.io/series/Bendita-Cura

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Rodka com o autor Mário César na CCXP 2018.
Literatura

De mudança

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imagem: José Calimero
Lá vem 2019
acomodando os bons ventos
que por vez pareceu furacão em 2018
 
fim de ano, entrando 2019
a vida é a fresca que bate
no fim de tarde
quase lusco-fusco, reflexões
para além do horizonte
 
raios de sol quase indo embora
despedidas de tantas coisas
que cada vez mais se deixa para trás
 
2019 parece céu de brigadeiro
claro e tempo firme
sem previsão de chuvas e trovoadas
para aquele que quer logo alçar voo
e para o alto voar
quando o céu não é mais o limite
Piras

Do desapego

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imagem: Cassiano Rodka

Se realizar uma mudança já nos faz pensar no que a gente tem, imagina quando vamos para outra cidade. Adicione a isso o fato de que você está indo para uma casa montada, ou seja, aquelas canecas todas que você tem (e até gosta) não terão utilidade alguma. Esse foi o meu dilema em 2018 ao me mudar de Santa Maria para a casa da minha irmã em Porto Alegre. Então eu tentei vender tudo, estilo garage sale mesmo, abrindo a casa e colocando preço nas coisas. Me dei o título de A DESAPEGADA e me enchi de orgulho.

Mais ou menos na mesma época, mozão estava se mudando também, mas para Europa. Pensa em tudo que cê levaria para começar a vida em outro país. Tudo que pode ser necessário e não pode deixar no Brasil, como documentos e aqueles livros essenciais. Roupas para todas as ocasiões, lembranças. Ele juntou tudo isso e foi com… uma mala, uma mochila e o computador. UMA mala. E eu, ~a desapegada~, precisei de três viagens de carro para trazer tudo de Santa Maria. Dá mais que tá pouco, amore.

Essa surra serviu para eu perceber que eu estava recém engatinhando. Foi uma super vitória pessoal, mas ainda tinha muito que aprender sobre desapego. Assisti, então, o documentário Minimalism (tem no Netflix!) para aprender com os outros. É óbvio que o doc é uma promoção do livro dos caras em vez de uma mega investigação sobre o tema, mas gente… Um dos autores viajou em uma turnê de oito meses com uma mala de mão. UMA. MALA. DE. MÃO. Só por esse momento chocante já vale a pena.

O problema dessas reflexões todas é que, nesse final de ano, as caixas de entrada e de spam totalmente lotadas com propagandas me irritaram mais que o normal. Profundamente, eu diria. Cara, é que a quantidade era absurda! Todos os dias, dezenas de e-mails anunciando coisas que eu não preciso, e é melhor eu nem olhar porque vou acreditar cegamente que não posso viver sem aquilo. E o shopping, então? Ódio mortal, antro do consumo, tudo impessoal. Só que isso evoluiu para “mãe, pra que tu vai me dar presente? Eu nem tenho onde colocar as coisas!” e aí acho que foi longe demais. Paciência, e não desistam de mim, eu estou aprendendo. Buscando o equilíbrio.

Mas o importante é que repensei as minhas compras, os presentes e o próprio espírito de Natal. Foquei muito mais na mensagem e no significado, no ato de presentear em si, do que na coisa. Por exemplo, presenteei um vídeo, uma arte e um livro que eu fiz. Ganhei postais, uma carta linda e coisas que eu realmente vou usar. Entendi que o desapego não era um ato, e, sim, um modo de ser no mundo; ele não quer dizer ter absolutamente nada, mas, sim, ter coisas que realmente tenham valor. Que 2019 seja de mais desapegos para nós, inclusive nas relações.

Quadrinhos

Naves espaciais, zumbis famintos e aias rebeldes: um passeio pela CCXP 2018

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foto: Pedro Cunha

Você olha para um lado e se dá de cara com Stan Lee comprando quadrinhos de um artista independente. Olha para outro e percebe Dick Vigarista na fila para pegar um autógrafo. Como se isso não bastasse, atrás de você está rolando uma luta do Capitão América contra dois zumbis. Bem-vindo à CCXP 2018!

A Comic Con Experience é um evento que reúne milhares de interessados em cultura geek, o que inclui quadrinhos, action figures e estátuas, vídeo-games, filmes e séries de TV. No enorme galpão da São Paulo Expo, diversos cosplayers passeiam por entre os presentes, dividindo atenção com as atrações preparadas especialmente para o evento. Durante quatro dias, a CCXP dispõe de painéis, lojas, exposições e experiências imersivas feitas para divulgar as novidades da indústria geek.

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foto: Pedro Cunha

Logo que cheguei no local, confesso que achei que seria comercial demais e não tão divertido como eu gostaria. A verdade é que há realmente bastante espaço para vendas e promoções de novidades, mas, ao mesmo tempo, existem diversas atrações de graça, produtos exclusivos por bons preços e HQs raras de se encontrar por aí.

Como meu maior interesse no evento era a nona arte, descobri o fim do meu arco-íris no Artists’ Alley, um espaço com diversos artistas famosos e desconhecidos que estão lá para apresentar o seu trabalho. Trocar uma ideia com os criadores das mais variadas HQs é muito bacana, e a vontade é de comprar todas as revistas para descobrir novos universos para se perder. Tive de me conter para não gastar toda minha grana ali, mas, ainda assim, saí com 17 HQs que serão comentadas por mim nas próximas semanas na coluna de Quadrinhos do PáginaDois. Tem MUITO artista brasileiro bom e eu vou dividir com vocês aqueles que não podem ser ignorados.

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Os artistas Naldo Junio, Alex Rodrigues e Gustavo Borges. fotos: Cassiano Rodka

Dentre os painéis oferecidos, escolhi assistir à masterclass do quadrinista John Romita Jr., responsável pelas ilustrações de Kick-Ass, além de algumas histórias do Batman e do Daredevil. Super à vontade no palco, o desenhista e roteirista contou sobre como planeja suas páginas, rabiscando ao vivo para os presentes uma história do Super-Homem. É fascinante ver a facilidade com que o artista bola cada quadro, criando ângulos que valorizam o que a história quer contar e evitando aquilo que ele sabe que não domina direito – ele confessou detestar desenhar carros, portanto ele sempre coloca metade dos veículos aparecendo nas ruas. Brincou que sua ex-mulher servia como base para ele desenhar super-vilãs e respondeu perguntas dos fãs ao final. A palestra não estava lá muito cheia, pois a maioria das pessoas vai ao evento pelas séries de TV e filmes. Portanto os painéis com atores e diretores são concorridíssimos, enquanto os de quadrinhos são tranquilos. Melhor para nós leitores da arte sequencial!

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Masterclass com John Romita Jr. foto: Cassiano Rodka

Depois de muitas compras e da palestra de John Romita Jr., era hora de se jogar nas experiências imersivas. Eu e o meu companheiro na coluna de Quadrinhos do P2, Pedro Cunha, resolvemos mergulhar em tudo aquilo que não tivesse muitas horas de fila. Assim, nos vimos passeando no espaço na nave de Rick and Morty, fomos atacados por zumbis e, o melhor de tudo, sentimos na pele o que é ser uma aia de The Handmaid’s Tale. Fora isso, tiramos foto e conversamos com muitos dos cosplayers que perambulavam pelo evento.

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foto: Olavo Geimba
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foto: Pedro Cunha

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Ainda houve tempo para babar nas estátuas da Iron Studios, uma empresa brasileira que fabrica peças colecionáveis licenciadas de grandes nomes, como Disney, Marvel, DC Comics e Star Wars. Algumas figuras estavam sendo apresentadas pela primeira vez, como o Tony Stark ao lado da Mark I. Alguns dos destaques para mim foram a estátua do Homem-Formiga crescendo (a sensação de movimento ficou muito bacana!) e o diorama com os personagens da Caverna do Dragão. Houve também furor com o anúncio de uma nova licença da empresa: os Thundercats.

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foto: Cassiano Rodka
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foto: Cassiano Rodka

Depois de 10 horas seguidas vivendo no universo fantástico da CCXP, tivemos que deixar o evento e retornar à realidade. A experiência foi definitivamente única e inesquecível. A organização foi surpreendentemente boa considerando a quantidade de pessoas presentes – em torno de 220 mil. A Comic Con Experience acontece todo ano em dezembro na cidade de São Paulo. Recomendo a todos os amigos nerds/geeks pelo menos um dia de imersão nesse mundo à parte em 2019. Ah! E levem uma mochila BEM grande! Ou peçam uma forcinha para o Morty…

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foto: Cassiano Rodka
Literatura

Poeticar

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imagem: José Calimero
 
alcançar o intangível
é este o exercício
a tomada de fôlego
após profundo mergulho
no abissal de si mesmo
 
mirar-se no cume
enquanto para o fundo do abismo
caímos
 
existindo e sentindo
cada tracejado
símbolos da pura matéria do cosmos
que somos e habitamos
 
sonhamos
a glória do amanhã
a beleza de ontem
e o privilégio da dor que nos aflige hoje
 
efêmera
é a nossa condição
eternizada em linhas
registramos
a etérea experiência que é
simplesmente viver