
Há de caber⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Luas, estrelas e Sóis⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
nesse cosmos⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
supernova pulsante⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
brilhantes, espiral⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
de sonhos⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
que se espalham por mim
nessa noite-dia⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
tempo infinito ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
que se é⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Existir
Site da escritora Clarice Dall'Agnol

Há de caber⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Luas, estrelas e Sóis⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
nesse cosmos⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
supernova pulsante⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
brilhantes, espiral⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
de sonhos⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
que se espalham por mim
nessa noite-dia⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
tempo infinito ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
que se é⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Existir

Em 2004, a cartunista Laerte tomou uma decisão arriscada em sua carreira: ela largaria de mão as personagens recorrentes de suas tirinhas para explorar uma gama de ideias espontâneas. A intenção era deixar seu traço livre, libertar as palavras de sentido e dar carta de alforria às interpretações dos leitores. Ela optou por perder-se num labirinto de ideias criativas. Portanto, nada mais coerente do que chamar a nova fase de Manual do Minotauro – um conjunto de ideias que podem ajudar o ser mitológico que vive dentro de nós a (quem sabe) encontrar a saída.
A Companhia das Letras reuniu as mais de 1500 tirinhas publicadas entre 2004 e 2015 em um livro com mais de 400 páginas. Ele vem recheado com tudo o que essa fase trouxe de melhor: humor, política, metafísica, nonsense e poesia em um traço sensível com ideias fascinantes e ousadas que dão um nó no cérebro. Pra quem ama essa era da Laerte, esse livro é um sonho. Perca-se nas páginas de Manual do Minotauro e aventure-se a descobrir o caminho de volta.


No teu sorriso
cabe meu coração
que se abate, e baticum
tumtumtum
repica feito bateria
porque é carnaval aqui
dentro
quando vejo
sua boca se abrir
assim

Eu vou te buscar
pequenina, você está
recôndita
te guardei
tão bem guardada
dentro de mim
essa frágil pequena eu
menina sonhadora, risonha e leve
dança, flutua, lentos gestos
por vezes o olho nu não pode ver
tudo que é tão singelo
que habita em
Você

À equipe multicolorida do PáginaDois, que tem orgulho.
A todos os escritores e artistas que não puderam ser “proud” em sua época, mas usavam a arte como grito de Liberdade.
Orgulho?⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Sim, orgulho de amar,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Amar sem pudor, ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Mergulhar em quem se escolheu,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Não importando a forma,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Cor,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Gênero,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Interessam:⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
A música,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
A poesia,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
A risada,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
O cheiro, ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Olhos que penetram, ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Boca que explora,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Corpo que se funde ao teu. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Que venham todas as cores, ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Múltiplas:⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Apenas que se ouça o sino,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
E assim, ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
A sina soa,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Sedenta,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Simples, ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Saborosa,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
– Sinceramente?⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Orgulhosamente.
Teve uma época da minha vida em que entrei numa crise gigantesca por não ter um sonho. Eu não tinha uma direção, uma aspiração de vida. Eu só ia indo – e fui. Agora, com meus 31 anos, muito sábia – só que não – e vivendo à base de surtos, decidi contar o que ninguém tinha me contado até agora. TÃ-DÃÃÃÃ! *pausa dramática*
Um: não nos contam que os sonhos podem ser simples. Não precisam ser uma coisa magnânima tipo ser CEO de uma grande empresa aos 25 anos ou fazer uma viagem de volta ao mundo. Aliás, nem sei de onde veio essa história de que sonhos são essas coisas gigantescas que demandam trocentos anos de planejamento – aposto que é dos filmes de Hollywood. Porque, se a gente for pensar nos sonhos sonhados, esses de quando a gente dorme, eles nem sempre são esses super planos enormes – inclusive, a maioria sequer faz sentido. E os meus são basicamente de putaria. Pera, acho que precisamos de parênteses aqui: por que será que chamamos de sonho esses grandes planos/aspirações/desejos/metas de vida? Será que é por que no sonho sonhado a gente tem manifestações do nosso inconsciente dizendo o que realmente queremos? Ou será que fazemos um paralelo de mau gosto com a ideia de irrealidade do sonho sonhado com as nossas aspirações de vida? Tipo, chamamos de sonho justamente por ser difícil de realizar? Tá, divaguei.
Dois: não nos contam que nenhum sonho é melhor que o outro. Tá tudo bem em sonhar ser uma super profissional nômade que vive relações fugazes sem ter nenhum laço que a prenda a qualquer lugar. E tá tudo bem querer construir uma família a dois – sozinha – a três – quantos for e criar raízes, morar na mesma casa no subúrbio por 45 anos e se sentir realizada com o gramado verde, o cachorro correndo e a airfryer na cozinha. Enquanto for um sonho nosso, tá ok. O problema é quando é um sonho-embuste, e me dou a liberdade de fazer essa definição: sonho-embuste (s.m.) – ideal de vida incutido em função do contexto sócio-histórico, não se configurando um desejo verdadeiro, mas, sim, uma forma de legitimação social. Ex: constituir família porque se entende que é isso que uma mulher deve fazer; ser workaholic em função da romantização da produtividade. A recompensa desse sonho não vem na sua realização, mas, sim, no enaltecimento das outras pessoas por você ter realizado esse feito. A gente se sente bem, mas talvez não seja o que a gente queira. Então, na real, não se sente tão bem assim. Uó.
Três: não nos contam que os sonhos são mais gostosos – e possíveis – se compartilhados. Sabe aquela máxima de “não vou contar pra ninguém porque vai que dá errado”? Se pah não é bem por aí. Às vezes a gente só precisa de alguém que não olhe aquela vontade como inatingível apenas por ser sonho, e que coloque uma pitadinha de materialidade. O risco é, nesse encontro, reconfigurar o sonho, porque (quatro:) esquecem de dizer que os sonhos não são imutáveis. De boas a gente querer mudar de sonho por algo ou alguém porque agora as coisas têm novo sentido, ou porque mudamos, ou o contexto é outro ou tudo isso junto e misturado. Tenho uma impressão de que abandonar um sonho antigo é algo malvisto, mas minha interpretação é outra: o encontro que faz a gente se perder e trocar de rota talvez justamente esteja fazendo a gente se achar.
O que leva ao ponto cinco: não nos contam que às vezes os sonhos já estão sendo vividos – e foi aqui que eu parei pra rever toda a minha concepção de sonho. Ali, naquela cerveja pós expediente que na real significa morar no bairro que sempre quis, ter um emprego bacana, poder ir a pé pra casa e ter grana, saúde e disposição para ir naquele bar muito massa aproveitar a própria companhia. Está ali nos filhos chamando por você ao mesmo tempo e te deixando meio louca, mas lembrando da sua importância e reafirmando esse amor incondicional em meio a roupas sujas, machucados e vômitos de bebê. No inglês costumam dizer “I’m living the dream” pra esse momento, mas será que a gente tem discernimento pra perceber que realmente está vivendo o sonho?
Então, chamo o ponto seis: não nos contam que os sonhos não serão como imaginamos, mas serão melhores porque reais. E é isso.
*Esse texto foi inspirado pelo curta The Neighbors’ Window (Marshall Curry, 2019), selecionado pelo Pedro Cunha para o desafio de cinema do Página Dois! O curta venceu o Oscar 2020 na categoria Melhor Curta-metragem e está disponível no YouTube.

Não me adapto. Não me adapto. Calço o seu sapato. Mas não me adapto. Traço o seu caminho, sigo o seu compasso. Mas não me adapto. Não me adapto. Tomo o seu café, tomo o seu metrô, tomo na cara de cansaço. Não me adapto. Compro o seu sucesso, abraço o meu fracasso. Faço o que cê diz, não faço o que eu faço. Não me adapto. Não me adapto. Tomo o seu remédio, tomo o seu amor, tomo o seu lugar e não me adapto. Não sou daqui, não sou você e não assino esse contrato. Não me adapto. Não me adapto. Eu não me adapto.
O texto e a ilustração de hoje foram inspirados no curta Anima, um filme que se comunica através da dança para contar a história de um amor que se perde em meio à repetição do dia a dia. O curta pode ser conferido na Netflix. Durante esta semana, nossa equipe foi desafiada pelo nosso colunista de cinema Pedro Cunha a produzir conteúdo baseado em curtas escolhidos por ele.

Pare.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Instante. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
E espia a⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
vida de perto.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
O coração late.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Já não bate.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Sim.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
É emoção que⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
invade.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
E vai.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Pois. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Jogue-se.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Sem medo.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Sem tempo.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Não esconde,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
não.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Sem vergonha,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
sim.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Não teme,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
vai.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
E mergulha.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
É curioso.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
É gostoso.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
É maior.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
É inevitável.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
É vida.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Não é⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
de fantasia.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
É coração.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
O teu.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
O dele.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
O meu.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
O nosso.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
É olho⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
no olho.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
É mão que⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
enrosca.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Corpo que⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
engole.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
É vida.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Sem medo,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
vai.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Viva.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Deite-se.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Pois. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Jogue-se.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Sinta.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
A vida.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Não teme.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Sem tempo.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Sem medo.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Parte do seu.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Parte que vem.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Enrosque⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
na história.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
E a viva.
O texto e a ilustração de hoje foram inspirados no curta In a Heartbeat, uma história sobre um menino tímido que se apaixona pelo seu amigo. O filme pode ser conferido no YouTube. Durante esta semana, nossa equipe foi desafiada pelo nosso colunista de cinema Pedro Cunha a produzir conteúdo baseado em curtas escolhidos por ele.

De algum lugar
de mim
receberás
ansiosa mensagem
o alento chegará
como carta viajante
a apaziguar a dor
dos corações distantes