Clarice Dall’Agnol

Literatura

Colourblind

imagem: José Calimero

“Quero falar sobre a máscara do silenciamento… Ela era composta por um pedaço de metal colocado no interior da boca do sujeito negro, instalado entre a língua e o maxilar e fixado por detrás da cabeça por duas cordas, uma em torno do queixo e a outra em torno do nariz e da testa. Oficialmente, a máscara era usada pelos senhores brancos para evitar que africanas/os escravizadas/os comessem cana-de-açúcar ou cacau enquanto trabalhavam nas plantações, mas sua principal função era implementar um senso de mudez e de medo, visto que a boca era um lugar de silenciamento e de tortura.” 
(Grada Kilomba, Memórias da Plantação)

MOTHER, MAY WE ALL BE COLOURBLIND? 

Literatura

Arco-íris

imagem: Isabel Dall’Agnol

Eu visto uma cor
diferente da que disseram
ser minha.
Eu visto duas cores.
Eu me transformo
em várias cores.
Eu gosto de
todas as cores.
Eu quero experimentar
todas as cores.
Eu não me entendo
com cor alguma.
Eu tenho medo
de vestir a cor
que eu quero.
Eu troquei de cor.
Eu não tenho cor.
Eu não sei de qual
cor eu gosto.
Eu não sei qual cor
eu sou.
Somos, enfim,
todas as cores, ainda
quando incolor formos.
Somo arco-íris,
sem fim.
Somos alegria.
Somos vibrantes.
Somos amor.
Somos vida.
E eu…
Eu tenho o maior
orgulho desse incrível
e indestrutível
arco-íris. 

Literatura

Desnamorada

Ilustração: Cassiano Rodka

Desnamoro,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Em todas as frequências,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Aquele vem e vai,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Não quero rótulos,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
e sim sal ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
– e Liberdade. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Solenemente,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Afortunadamente,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Ah, as minhas ondas…⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Engajo-me,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
E como não?⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Desnuda,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Em mim nado,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Freneticamente.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Desata-me⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
(Se puderes).⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Sou como a água:⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Revolta,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Livre,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
E encontro meus caminhos,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Sempre.

Literatura

Estado

imagem: Isabel Dall’Agnol

Para, mundo.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Para, não.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Para, brisa.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Leve, não.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Peso.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Pesado.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Ficou.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Para, mundo.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Para, não.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Para, brisa.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Leve, não⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Retrato.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Armado.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Do que ficou. 

Literatura

Ao vento

imagem: Cassiano Rodka

A todos os que foram levados por esta triste pandemia.

A Bob Dylan

“…how many deaths will it take ‘til he knows
That too many people have died?

The answer, my friend, is blowin’ in the wind
The answer is blowin’ in the wind”

(Bob Dylan, “Blowin’ in the wind”)

Fujo do mundo,
Volto em breve,
Quando finita a pandemia,
Assim que terminado o descaso,
Eliminada a ignorância e a negação,
No instante em que estiver extinta
a ausência de amor
e de empatia.
Retorno quando o ar estiver mais cálido e leve,
No momento em que o respeito
ao essencial do humano estiver preservado,
Quando todas e todos
soubermos de novo o que significa sentir e amar,
Quando aprendermos a calçar dos outros os sapatos,
Quando as palavras não sejam só
Meras ideias
sopradas ao vento.
Quero recolher as palavras,
Unir todos os suspiros,
Costurar as súplicas,
E registrar as memórias dos que se foram,
Desenhá-las em um poema,
Fazer dele um hino,
E então viajar até o mar,
Marcá-lo na areia,
E deixar que as ondas selem
todos os nossos destinos:
Poéticos,
Ou não.

Piras

Usucapião

imagem: Brunna Stock

eu reivindico meu corpo

ele não é do Estado omisso

– ou controlador, quando convém

meu corpo não é do Homem, contradizendo a lógica vigente

ele não é da Igreja,
seja ela qual for

ele é meu
apenas meu

meu para ser cuidado
admirado
exaltado
para ser compartilhado
sob a minha lei
para ser tela da pintura
da minha mutabilidade

meu para ser instrumento de prazer
de potência
de luta

meu para dizer que é meu
e de ninguém mais.


O texto e a montagem acima foram inspirados na música “Espia Escuta” da Mulamba. Durante maio de 2021, nossa equipe produziu textos, fotos e ilustrações inspirados em canções selecionadas por Cassiano Rodka. Confira as faixas escolhidas na playlist “P2 #4 | Desafio Musical” no Spotify.