Clarice Dall’Agnol

Literatura

A casa

Foto: Brunna Stock

Lá está ela.
Toda agasalhada
de verde e marrom.
Coberta de um
vermelho ardente.
Enquanto retângulos
cor de laranja
e uma fita branca
seguram a janela
vazia.
Refletida, no vidro,
está a ausência.
Não há vida
afinal?
Mas e aquela
falta que também
se faz presente…?
Não seria vida
no final?
E o verde e
o marrom que
rodeiam a casa…?
Não seriam
o suficiente
para acalentar
a sua alma?
E as cores…?
Que ainda
sangram eloquentes…
E o gato, escondido
no fundo do galho…?
E a memória que fica
daquele conto
que narrava a minha avó.
Daquela casa…
Toda rodeada de flores!
A casa abandonada
ainda vibra.
Ainda faz
morada.
Ainda enche
e se faz toda
cheia.
De cor.
De memória.
De sopro.
De vida.


O texto de hoje foi inspirado na fotografia acima como parte do Desafio Piras lançado pela nossa colunista Brunna Stock.

Literatura

Breve relato do fim

Foto: Brunna Stock

a folha ainda verde, logo ressequida, deixei-a exposta em meio a confusão das tarefas do dia, reminiscência da árvore frondosa majestade, raízes indomáveis que estalavam o calçamento em ondas, a romper com a dureza cinza da cidade que insistia na guerra de superar a si mesma, progressista, a cidade ia crescendo e a tudo engolia, boca de gula, insaciável, sempre tudo e todos com fome de mais tantas coisas, e também levou embora o jacarandá que morava desde sempre que se é mundo e vida naquele lugar e que muito tempo depois veio a se construir um lindo condomínio, ideal para sua família, era o anúncio, e então lá muitas pessoas de bem foram viver, e o velho jacarandá perdeu sua vez, um dia acordou e estava só o toco, foi para resguardar a segurança de todos que ali passavam e viviam, parece que ele já estava morto, poderia causar um grave acidente, essa foi a justificativa para o seu fim.


O texto de hoje foi inspirado na fotografia acima como parte do Desafio Piras lançado pela nossa colunista Brunna Stock.

Literatura

Ariadne ou Grapefruit com leite e mel

Ilustração: Cassiano Rodka

Não percebeu que dormiu com a taça na mão. Sentiu os lábios colados quando acordou, a língua pedindo água, o batom vermelho beijando a almofada, aquela liquidez toda na lembrança, e os olhos? Não viam mais os segredos. Tinha só a sensação do nome dela, aquele gosto de grapefruit em Creta.

Você sabe que a sentiu, e ela te invadiu pelas beiradas. Soberanamente, e mudou seus parâmetros. Era pra ser apenas matutino, agora são todas as horas, e as semanas se fazem meses em dois segundos. Só dá ela. E ela te dá mais que você entende que merecia. Anos. E aquele desvairio todo.

As cores são sempre as mesmas: laranja, vermelho, amarelo, e aquela sensação de alva liquidez da pele dela, meio leite, meio lúdica, meio luz. O olhar agateado, o mel dela te devorando como se só existisse o hoje. E você manhoso, esperando pela próxima vez, aquela que está longe, mas sempre tão ali, do seu ladinho. Sua nuca de baunilha querendo agrados. Você tenta não lembrar da invasão, mas é em vão, e não consegue dar vazão. Não há mais espaços entre o seu corpo e o dela, e você sabe tão bem disso.

Aurora borealis. E vocês? No êxtase das cores. Como dois animais.

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O texto e a ilustração de hoje foram inspirados nas vídeo-artes de Stephanie Sarley como parte do Desafio Piras lançado pela nossa colunista Brunna Stock.

Literatura

Alegre fantasia

Foto: Isabel Dall’Agnol

Solta a pipa⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Sopra o catavento ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Chuta a bola⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Lança o balão⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Roda o pião ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Risca o lápis ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Pinta a tinta ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Pula no chão ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Tira um pedaço⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
de algodão ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
E come o doce⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
com o dedo e a mão ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
E lambe⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
O restinho⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Que fica no dedão ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Gira ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Cambalhota ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Estrelinha ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Voa no ar ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Cria ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Imagina⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Lança ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
a vagar ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Estica⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Puxa ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Dança ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Balança ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Vira ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Adulto ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Vira ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Criança ⠀⠀⠀⠀⠀

Literatura

Cerimônia

Ilustração: Cassiano Rodka

“Heaven knows, it’s got to be this time
Watching her, these things she said
The times she cried
Too frail to wake this time.”

(“Ceremony”, New Order)

Cuida do meu coração,
Guarda-o bem guardadinho, 
Enquanto eu teço este fio
azul-pacífico:
Fio-Síntese,
Fotossíntese
dos segundos,
e dos minutos, 
e das horas todas nossas,
Enternecidas,
(Jamais entristecidas),
Cheias de melodias cálidas,
(Cálices)
E cores,
(Explosão de sensações)
E dos aromas entrecortados, 
E das gotinhas 
(Gotículas)
Do que foi dito, 
e também não dito
(Segredos e sussurros),
Sentidos por meu corpo da maturidade, 
Tão sábio,
Marcado, 
Absoluto.
Satisfeito. 
(Guardo-te meu coração 
Guarda-me teu coração 
Guardo-te
Meu guarda
Meu aguardo
Meu agrado
– bem guardadinho).

Piras

Da rua

Gosto da rua. Sempre gostei, era daquelas crianças que ficavam passeando por aí. Gosto de rolê na rua. Tá, na real eu gosto de rolê e ponto. Mas rolê de rua tem outro gosto: dançar olhando o céu, encontrar pessoas que estavam apenas de passagem, sentir o sol nos olhos junto com a vibe. A rua tem essa coisa do encontro, do acaso (algo que eu senti muita falta no isolamento). Saudades de correr o risco de se apaixonar ao virar uma esquina, sabe?

Ainda mais quando se vive em um musical, como eu. A regra é clara: saindo de casa, use sempre máscara, álcool gel e uma boa música que te faça dançar como se ninguém estivesse vendo. Suba nas muretas, faça aquele seu passinho clássico, dance na sinaleira, sorria (que seja com os olhos) para transeuntes, deixe a energia fluir e ignore os olhares julgadores. Engraçado que meio que existe um protocolo de como se portar na rua e pessoas felizes cantando parecem não fazer parte dele. Estou cheia de trabalho e preocupações com crises existenciais, políticas e sanitárias? Obviamente. Mas, em alguns dias, ainda consigo cantar.

E aí teve um dia em que uma senhora cantou junto. AHÃ. Estava ela passeando com seu catioro fofinho; eu seguia pela rua performando imunizada ao som de Cold cold man, da banda Saint Motel. Ela me olhou, se alegrou, deu uma mexida nas cadeiras e perguntou o que eu estava ouvindo. Tirei o fone, passei pra ela, ela entrou no ritmo na música e perguntou o nome. Eu disse, e ela: “ah sim, Coldplay! Eu conheço!”. Dei-me por satisfeita com essa resposta e seguimos. Eu, ainda dançando pensando sobre essa senhora com quem minha vibe bateu; ela, ainda com seu catioro, talvez pensando sobre essa menina empolgada que ela encontrou. Acasos.

Uma vez, no chão, encontrei um negativo de filme de câmera fotográfica. Para quem não é cringe como eu, essa coisa ficava dentro das câmeras analógicas e é nele que fica “estampada” a foto, algo tipo um esboço. Depois a gente mandava revelar num lugar específico e aí recebia a imagem impressa em papel fotográfico com o tamanho desejado e nas cores corretas. Pois bem, encontrei um negativo com fotos de uma viagem pra um lugar lindo, tinha mar e muita natureza. Havia um grupo de pessoas muito sorridentes, que na minha fic eram amigues que planejaram com muita empolgação aquela trip com barracas de acampar e até de barco andaram! Encontrei pessoas que nunca me encontraram. Fiz parte daquele momento ao melhor estilo Amélie Poulain. Coisas que a rua proporciona.

A rua fala. Fala pra muitos e pra poucos ao mesmo tempo. A rua ecoa o som de mil vozes juntas, mas também silencia algumas solitárias. Mas, inegavelmente, ela é lugar de encontro, às vezes de uma, de duas ou de várias pessoas; de alguém com a coisa; de coisa com coisa; de natureza com alguém. De tudo com tudo e com nada ao mesmo tempo. Rua de Schrödinger.

Pra encontrar, basta olhar. O acaso sempre vem. E numa dessas talvez você encontre uma pessoa dançando ou abraçando uma árvore ou olhando coisas esquecidas no chão ou admirando o céu ou apenas seguindo, de corpo presente e cabeça longe. A rua é democrática – e por isso gostamos tanto dela.

Literatura

Maternar – Parte II

Foto: Isabel Dall’Agnol

Meu corpo é⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
morada.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
E os meus braços ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
também.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Meu útero é ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
ninho.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
E o meu colo⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
também.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Caminho em ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
desafio.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Sou ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
transformação.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Estou em ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
revolução.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Ainda que difícil ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
encontrar-me⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
em espelhos.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Encontro-me em⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
sorrisos.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
E abraços.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
E palavras.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
E nos pés,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
que abrigo ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
no ventre.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Não sinto ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
privação.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Pois, em meio ao caos⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
e à exaustão, sinto ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
a força e o orgulho.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Sinto-me ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
bonita.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Sinto-me ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
transbordando.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Amor.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Vida.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Liberdade.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Uma escolha.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Minha.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Acertada.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Meu corpo é ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
morada.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Meus braços⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
um ninho.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Multiplico⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
vidas. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
E as acompanho,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
as norteio. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Estou em ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
aventura.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Estou em ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
expansão.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Estou livre de ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
qualquer prisão.