Clarice Dall’Agnol

Literatura

Palavras

Foto: Isabel Dall’Agnol

Passou, e ainda o faz, a vida inteira se questionando. Criava conceitos a respeito da tão buscada felicidade, com base em tudo aquilo que lhe diziam ser preciso para tanto. Assim, nunca parou para refletir sobre o que, de fato, lhe traria alegrias. E se ela não quisesse sair correndo atrás dessa utopia só para dizer que estava completa? Sentia-se tão confusa e tão pequena. Isso doía tanto, que decidiu engavetar seus sentimentos, escondê-los em lugares que desconhecia. Por isso, não os encontrava mais. Mas, às vezes, de alguma forma, quase que invisível, eles a assombravam. Foi, então, que descobriu o poder das palavras. Percebeu que, com elas, poderia encontrar tudo aquilo que parecia estar perdido. E, o que era ainda melhor, percebeu que, juntas, poderiam desvendar tudo aquilo que lhe faltava, criar histórias, personagens, cenários, ocasiões, enfim, inventar um mundo novo. Pegou algumas folhas e uma caneta. Deitou-se no chão. Começou a escrever.

Música

50 anos do disco Construção do Chico Buarque

O quinto disco de Chico Buarque mostrou um lado mais feroz do compositor que, até então, era visto como um bom moço da MPB.

De volta do seu exílio na Itália, o músico decidiu soltar o verbo em um álbum que refletia o período sombrio onde o país se encontrava.

Pra enfrentar a ditadura militar, Chico montou o seu próprio exército. Na produção, o comandante Roberto Menescal; nos arranjos, o major Rogério Duprat (responsável pelos arranjos de cordas mais doidos do tropicalismo, a começar pelos discos dos Mutantes) e para acompanhar Chico nas composições, os soldados-poetas Vinicius de Moraes, Toquinho e Tom Jobim.

Tamo bem ou o quê?

Deus Lhe Pague abre o disco. É praticamente um rock, com um riff furioso no piano e uma letra cínica que agradece pela permissão concedida para fazer coisas básicas, como respirar e sorrir, enquanto se leva uma vida desgraçada. O arranjo de Duprat brilha aqui, com harmonias dissonantes que trazem o clima de desconforto que a faixa propõe. O clima de frustração segue na faixa seguinte, Cotidiano, onde vemos uma dona de casa que dedica a sua vida a agradar o marido dia após dia.

A faixa-título, com seus versos dodecassílabos terminados em proparoxítonas, é poesia pura. Ela conversa diretamente com a primeira faixa – é no mesmo tom e chega a citar vários versos de Deus Lhe Pague –, dando a entender que estamos reencontrando o mesmo personagem. Eu até ousaria dizer que a dona de casa de Cotidiano é a esposa desse trágico operário.

O animado Samba de Orly, composto com Toquinho e Vinicius, traz uma letra, na verdade, triste sobre a vida no exílio, num eterno aguardo de “uma notícia boa” que, de preferência, seja “o fim dessa temporada”. A faixa Minha História (Gesubambino) – que é uma versão de um hit italiano da época – também traz um instrumental pra cima acompanhando uma letra controversa sobre o filho de uma dançarina de cabaré com um marinheiro. O pai abandona a mãe, que decide dar à criança o nome de Menino Jesus. Pra ninar o filho, a mãe canta músicas de cabaré. A faixa é seguida por uma canção de ninar intitulada Acalanto, feita sob medida para o período da ditadura, onde Chico canta os penosos versos “dorme minha pequena, não vale a pena despertar”.

Até as músicas românticas do disco trazem um clima melancólico. É o caso de Olha Maria, composta com Tom Jobim, onde o protagonista convida a sua amada a lhe abandonar, pois ele só teria agonia a lhe oferecer. Em Desalento, vemos um amor desencontrado, que sofre para acontecer por uma dificuldade em aceitar o perdão.

É importante lembrar que Desalento foi lançada como primeiro single do álbum e trazia em seu lado B, o hino antifascista Apesar de Você, que já dava o tom político que o novo álbum traria.

Mas há músicas que trazem um tantinho de esperança em meio a tanta tristeza. E acredito que essas faixas sejam imprescindíveis na proposta do álbum. Valsinha nasceu como uma música de Vinicius de Moraes que convidou Chico Buarque a escrever a letra. Chico não fez feio na frente do poeta e construiu uma das letras mais lindas do mundo. Os versos cantados nos levam a acompanhar o reacender da chama de um casal (aparentemente de maior idade) que redescobre o amor daquela maneira sonora que todos os vizinhos ficam sabendo.

Pra terminar, eu não poderia deixar de falar de Cordão é uma das minhas músicas preferidas do Chico Buarque. Quase ninguém lembra dela. Eu, nunca esqueço. A letra é, pra mim, um resumo do papel do artista em períodos turbulentos e a maneira que todos. É um mantra necessário, que termina com Chico declarando: “Enquanto eu puder cantar, alguém vai ter que me ouvir”.

Literatura

A caravela de lixo

Ilustração: Cassiano Rodka

“Lá vem o caminhão de lixo!”, gritava a mãe de Davi.

Para os adultos daquela pequenina cidade do interior, era hora de levar os sacos pretos (cheios de tudo aquilo que eles haviam dispensado de suas vidas) para fora de casa. Era preciso correr para não perder a passagem do veículo. Imagina ter que levar de volta pro lar tudo aquilo que já havia sido descartado e considerado sem
serventia. Uma calamidade!

Mas nos olhos de Davi, aquela chegada era PURA AVENTURA. Ouvia de longe o caminhão se aproximando e sabia que tudo iria mudar. O som caótico de gritos incompreensíveis e um motor baderneiro que fazia a rua tremer… Ahh, música pros seus ouvidinhos!

Enquanto os adultos enxergavam um caminhão de lixo, os olhinhos curiosos da infância – ansiosos! – avistavam uma caravela com rodas se aproximando com intrépidos piratas. Um deles, o comandante, trazia uma mão no volante e a outra para fora da janela fazendo sinais indecifráveis para os outros aventureiros pendurados na traseira. Eles, é claro, entendiam tudo e berravam uns para os outros aparentemente em uma outra língua. Um idioma que ele, algum dia, dominaria. Sim, porque Davi sonhava em ser lixeiro. Queria navegar pelas ruas da cidade pendurado a bombordo, descendo sempre que necessário para capturar os sacos de lixo (ou seriam tesouros?) que os nobres cidadãos traziam desesperadamente para as mãos desses impetuosos corsários.

Quando o caminhão passava na frente de sua casa, o menino abanava para os parceiros de aventura. Eles sinalizavam de volta, pois sabiam – é claro! – que ele, um dia, também seria um deles. Assim que a caravela motorizada desaparecia em meio a um lindo e tóxico nevoeiro preto, a rua era preenchida por um silêncio com sabor de normalidade. Blergh!… Por alguns segundos, ele fitava o horizonte, sabendo que a aventura continuava além daquela misteriosa linha.

Mas, assim como as grandes embarcações, logo a mente de Davi mudava de curso. Sem seguir qualquer bússola, sua imaginação passava a vagar por outras ondas, levando o menino a desbravar novas terras, ilhas e outras maravilhas que só ele poderia explicar.


O texto de hoje foi inspirado na fotografia acima como parte do Desafio Piras lançado pela nossa colunista Brunna Stock.