Clarice Dall’Agnol

Literatura

Sede

Ilustração: Cassiano Rodka

não quero migalhas do tempo, segundos não me preenchem,
quero horas,
busco a selva em mim,
vasculho, no teu reflexo,
os pedaços mais obscuros de meu ser,
deleito-me em ti,
todas as tuas manhas
(e detalhes)
os recantos teus que poucos conhecem,
Galega,
assim eu brado,
sou lobo,
não vibro em cativeiro,
sinto-me um rio de corrente forte sendo represado,
quero das experiências
as plenitudes todas,
meu domínio:
te desejo inteira,
absoluta,
teus olhos de lince,
me devorando por completo,
linda,
livre,
radiante,
engolindo o mundo,
sugando a essência da vida
(e também a minha).
vivendo o agora,
sem antes nem depois,
corpos ardendo,
apenas.

Literatura

Puérpera

Foto: Isabel Dall’Agnol

A todas as puérperas. Jornada confusa, leve, doída, doida, bonita. Caminho de todas em cada uma.

Dizem que ela está bem
porque magra.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Porque usa vestes bonitas e⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
está maquiada.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
E exibe os filhos, ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
sempre arrumados.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Dizem que ela está bem
porque, de novo, está magra.
A barriga enxugada.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
A cicatriz escondida. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
E a boca pintada, ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
num sorriso e olhar,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
de fato, atentos e afetuosos⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
aos seus filhotes. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Dizem que ela está bem
porque ela segue magra. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
E segue com o rímel nos olhos.
E segue com o lápis no contorno dos lábios.
E segue com o cabelo lavado.
E bem penteado.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Dizem que ela está bem.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Afinal, ela teve dois filhos.
E está magra. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
A barriga enxugada.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
E a cara maquiada.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
A magrinha passa ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
jorrando leite.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
E longe do banquete.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Ela não tem hora para dormir.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Ela não tem hora para tomar banho.
Ela alimenta todos à sua volta.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
A magra se vira.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
De um lado e para ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
o outro.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Ela embala o bebê
no seio.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Canta para o mais velho e, assim,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
faz os dois adormecerem.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Ao mesmo tempo. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Mas ela segue alertada.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Mesmo nos sonhos.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
– sonhos? –
O tempo todo.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Alertada.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Ela não caminha.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Corre.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Contra o tempo,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
as panelas,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
as toalhas,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
as roupas,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
e a bagunça espalhada
na sala.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
E, sim,⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
ela segue magra. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
E segue sorrindo⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
de batom vermelho.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
E segue terna.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
E segue ninho.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Afinal, o puerpério só
dura 42 dias, certo?
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Dizem que ela está bem.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Ela está magra.

Quadrinhos

Sweet Tooth, de Jeff Lemire

Sweet Tooth é uma série de HQs criada pelo quadrinista canadense Jeff Lemire. A história acompanha as desventuras de um jovem parte humano, parte animal em busca de suas origens. Apelidado de Sweet Tooth devido a seu gosto por doces, o protagonista é um ser tremendamente inocente, pois foi criado pelo seu pai isolado do mundo. Ao perder o pai, ele decide sair de casa e enfrentar a realidade. Em sua jornada, ele encontra uma série de pessoas não muito legais. Enfim, seres humanos! O tom dark e ríspido característico de Lemire está por todas as páginas e o contraste entre a inocência do personagem e as atitudes egoístas do ser humano nos faz várias vezes parar para refletir.

Atualmente os livros foram transformados em uma série da Netflix, em uma versão mais… para toda a família. O roteiro é BEM mais brando, o que pode causar um rebuliço estomacal para os fãs das HQs. Mas, depois de aceitar que é apenas baseado nos quadrinhos e não uma versão literal, dá pra se divertir. Minha dica é leia primeiro, depois assista.

Versão televisiva mais amigável e inofensiva. 😄

Literatura

Eu ando pelo mundo

Ilustração: Cassiano Rodka

eu ando pelo mundo
disseram para andar como se a gente beijasse a terra com os pés
acho bonito aquilo

minha vida está acabando?
a vida está sempre acabando
como será acabar?
acho que nunca acabei
não por completo

olho para baixo
vejo minha pele nua
tão nua
que reflete tudo que por mim passa
e por mim não passa nada

não pude salvar o mundo
não tem problema.
não tem problema porque não tem o que fazer
não mais
caramba,
me prometi que não ia pensar

gosto de não pensar
despensar?
(acho que por eu pensar tanto)
é quando mais sou feliz,
e mais aproveito a vida

fecho os olhos
sinto a água lambendo meus pés
quem foi que deixou?
às vezes queria ser igual o mar
viver sem barreiras
viver sem me importar
viver
nem pelos outros,
nem por mim
viver, e só viver

respiro fundo
e tento
por um só instante que seja
viver
apenas viver
e mais nada:
não consigo.


O texto de hoje é da convidada Isabela Bevilacqua.

Piras

Fixidez

Eu adoro colar coisas na parede. Ilustras, fotos, plantas… principalmente recados. É uma forma de ocupar aqueles metros quadrados com algo que é meu. E, mesmo o que não foi criado por mim, se torna muito meu porque feito pra mim. Minhas colagens também são momentos, algo que fez sentido em algum dia e que achei relevante guardar. Por algum motivo, não estão em molduras e aí caem e se deterioram. Mas decidi mudar essa história.

Quase dois anos já no apartamento e finalmente fui numa dessa grandes lojas de departamentos comprar molduras. Cores, tamanhos e formatos variados, ótimo: sem dúvida alguma vai servir pras ilustras que levei. Sim, eu levei – minha capacidade imaginativa não vai tão longe pra acertar o tamanho do passe-partout ou se tal cor vai funcionar. Certamente fiquei mais de meia hora experimentando combinações, trocando os quadros de lugar, olhando de perto e de longe. Até que achei uma combinação interessante e soltei o fatídico: “eu não estou pronta pra isso”.

Essa loucura é totalmente do campo simbólico: entendi que, naquele momento, o emoldurar não significava o cuidado com o papel que eu imaginava; mas, sim, dar limites. A parede, que era toda uma grande tela, se transformaria em… parede. Seria tão somente o local onde coloco registros imagéticos que agora teriam fim determinado por quatro segmentos de madeira. Emoldurar era ter que colocar pregos, o que implicava em não poder trocar tudo de lugar a cada mudança de humor, estação, coração partido ou sei lá o quê. Era fixar. E, bom, não estava(ou) pronta pra isso.

Talvez as coisas caírem da parede não seja tão ruim assim. Talvez elas se deteriorarem seja apenas parte do processo e eu, afinal das contas, goste disso. Efemeridade como própria da essência, seja do que se é ou de onde se está. Seria essência, se tão mutável? Não sei. Mas sei que gosto da ideia de que chega um momento em que as coisas apenas não servem mais, e aí a gente muda. Assim será com essa casa, que um dia não vai mais me servir, tal como um exoesqueleto. E eu, bem lagosta, vou deixá-la pra trás, tirar com pressa o que resta na parede e ir pra próxima.


Este texto foi escrito dentro do Desafio da Lagosta, que instigou a equipe do PáginaDois a produzir conteúdo partindo do inusitado tema “lagosta”. 

Literatura

Por trás da casca

Ilustração: Cassiano Rodka

No teu olho, o reflexo de uma casca. 
Não sou eu. 
É um invólucro todo teu. 
Uma imagem que reflete o que pensas de mim. 
Não o que reflito eu. 

Na tua mente, a silhueta de uma mentira. 
Não sou eu. 
É uma crosta toda tua. 
Um contorno que revela tuas imagens de mim. 
Não o que revelo eu. 

No meu ser, sinto-me sempre despida. 
Sim, sou eu. 
É uma vida toda nua. 
Mas teus olhos me veem e me cobrem 
de cascas 
de esperas 
de despedidas. 


Este texto foi escrito dentro do Desafio da Lagosta, que instigou a equipe do PáginaDois a produzir conteúdo partindo do inusitado tema “lagosta”.