Clarice Dall’Agnol

Música

Emitt Rhodes: Beatles de um homem só

Beatles de um homem só. Assim ficou conhecido o músico Emitt Rhodes nos anos 60. O apelido surgiu porque o compositor norte-americano gravava todos os instrumentos de suas canções. Ele lançou 4 álbuns em 4 anos tocando e gravando tudo sozinho. TUDO! 

Por incrível que pareça, isso não foi o bastante para a sua gravadora, que havia fechado um contrato de 2 álbuns por ano – uma quantidade que já é absurda para uma banda, quanto mais para uma pessoa só. O músico acabou sendo processado pela gravadora e, desiludido, largou os holofotes, trabalhando nos bastidores do mundo da música. A promissora carreira foi interrompida por pura ganância de executivos. 

Em 2016, o compositor foi encorajado por amigos do meio musical a gravar um novo disco. Depois de anos sem dar as caras, Emitt lançou um álbum com participações de Aimee Mann, Jon Brion, Susanna Hoffs (do Bangles) e Nels Cline e Pat Sansone (do Wilco). O que parecia ser um retorno a uma carreira que nunca deveria ter terminado foi interrompido mais uma vez, quando o músico não acordou em uma manhã de julho. 

Emitt faleceu em 2020, mas deixou um legado de discos que merecem ser escutados com atenção. Seu senso de melodia é invejável e seu talento para TODOS os instrumentos é para poucos. 

Literatura

Lenda do Guaíba

Ilustração: Diego Medina

Ensolarado de ideias, o guri correu até o rio. Num rompante pelas areias do Guaíba, ele seguiu até a beirada com os braços abertos, tão esticados que poderiam abraçar o mundo. Seu sorriso não tinha horizontes. Com os pés enterrados na areia, o guri respirou fundo. No aroma que lhe invadiu o corpo, sentiu sua mente ser percorrida por pequenas ondas. Podia sentir seus pensamentos sendo tragados para o fundo escuro das águas. Seu sorriso se encolheu. Esvaziado de possibilidades, o guri deitou-se no chão. Sob um céu encoberto de nuvens escuras, era ele um cemitério de ideias.


Lenda gaudéria criada por Cassiano Rodka e ilustrada por Diego Medina como parte do Desafio Dia do Saci. 

Literatura

Saci

Foto: Isabel Dall’Agnol

Ele saltou
por cima da bola do guri.
E fincou
o único pé no campo.
Ele sorri.
E esfumaça por aí.
Vibra.
Canta.
Torce.
Dança.
E ele sempre dorme,
na bola do guri.
Que juntos
brincam.
E pedem.
E ganham.
E, às vezes,
também sofrem.
Ele usa vermelho
e branco.
Como o guri.
E tomam
chimarrão.
E conversam
de montão.
O saci já
conhece e sabe.
E acompanha o guri.
Que cresce…
E vira gente grande.
Mas, ainda,
seguem…
Na torcida.
Na busca.
E na espera.
De um pouco
de gol…


Inspirado no símbolo do time Internacional que é, por sua vez, baseado na lenda folclórica brasileira do Saci Pererê, como parte do Desafio Dia do Saci. 

Música

Sparks: a banda desconhecida mais famosa do planeta

Poucas bandas tem o privilégio de chegar aos 50 anos de carreira. Mais difícil ainda é atingir esse número sem ter um nome conhecido pelo grande público. Mas é exatamente isso que o Sparks conquistou.

A dupla de irmãos Ron e Russell Mael produz música há mais de cinco décadas e já lançou 25 álbuns. O vocalista Russel canta em falsetto letras que variam entre o dramático e o cômico. O tecladista Ron, nos shows, fica quase 100% estático tocando seu instrumento enquanto encara as pessoas com seus óculos redondos e uma expressão indefinida. E aquele bigodinho, é claro! As composições têm uma perceptível influência de musicais e óperas, mas, ao mesmo tempo, trazem referências do pop, do rock e da música eletrônica. Só escutando para entender!

A pandemia não desacelerou esses incansáveis artistas. Os irmãos assinam o roteiro e a trilha sonora do novo filme de Leos Carax, o drama psicológico Annette, lançado neste ano. E não para por aí! Para celebrar esses 50 anos de carreira, o diretor Edgar Wright estreou recentemente um documentário intitulado The Sparks Brothers, que acompanha e tenta entender a trajetória muito peculiar da mais famosa banda desconhecida do planeta.

Pra começar a adentrar o mundo do Sparks, além do novo documentário, eu recomendo o excelente disco “Kimono My House”.