
Tantas alternativas
é o que o app prometia
e eu ali só queria
romance
à moda antiga
Site da escritora Clarice Dall'Agnol

Tantas alternativas
é o que o app prometia
e eu ali só queria
romance
à moda antiga

Para Susana, minha querida tia, que hoje se foi para alegrar os anjos, e encontrar sua mãe e seu pai.
Mulher-menina,
Dentro da tua concha,
Entre desenhos e cartinhas,
Entre dancinhas e músicas e showzinhos que criavas,
Nos programas de TV que amavas,
Nas comidinhas e churrascos que saboreavas com prazer,
No teu jeito de ser toda arrumadinha
(perfumada, maquiada, e cheia de anéis bem coloridos),
No amor por teus ídolos musicais (Elvis, Magal, Perla, Ritchie),
E na paixão pelas telenovelas, (das quais sabias detalhes e nos contavas),
E com teu jeito de amar que poucos entendiam,
(Mas entendia muito especialmente a tua mãe, tua protetora).
Brincavas comigo como igual,
Conseguias colocar-me em teu mundo todo peculiar,
Fazendo nele mergulhar contigo, tentando mostrar-me que eras como eu,
Mas única e especialmente tu.
(É assim que ficas em minha memória, guardo teu sorriso e tua alegria de viver, e, se o Céu existir, que te recebam bem todos os anjos, a Vó Margot e o Vô Gilfredo).

Deslizamos pelas
pedras bagunçadas.
E escorregamos pelas
listras, que não fim.
É o nosso destino.
Caminhar.
Encontrar.
Passear.
Ao teu lado.
Desenhamos
o chão em meio
à canção.

Eu quero viver de amor
me arrastar pelo chão
sentir o prazer
de cada dor
das saudades, dúvidas, mensagens não respondidas, silêncios, hoje não teve “bom dia”, telefone fora da área, fins de semana longe, pequenas mentiras, discussões sem motivo,
vida sem juízo.
Hoje eu quero fazer amor. Às vezes nem sei direito o que isso significa. Como se “faz” amor? Pra mim, naquele momento, se fazia com olho no olho: ritmo lento, conexão profunda, sentimento à flor da pele. A sensação de ser uma pessoa só. As posições eram essas que deixam as pessoas próximas, que permitem o maior contato possível. Não tinha espaço ali para chupar nada, nem pra segurar forte ou, até mesmo, para um orgasmo. Era outra coisa. O som era Ben Howard e seu violão embalando um carinho, sabe?
Uma vez falei pra um amigo que queria que alguém aparecesse, me fizesse gozar e não falasse mais comigo depois. Mas assim, sem reciprocidade nenhuma, saca? Eu estou dando pra essa pessoa o PRIVILÉGIO de me fazer gozar, entenda. Um desejo assim bem egoísta: hoje eu quero que alguém me faça gozar.
Hoje eu quero fazer sexo. Sabe, SEXO? Aquilo ao som de um R&B exalando sensualidade, nas posições mais variadas, os lugares mais inusitados e o desejo mais latente que você parece um vulcão. A doideira de agarração que bota todo o corpo pra jogo, tira o ar e faz sentir a indescritível mistura que é êxtase com cansaço e perfume e gozo e suor. Hoje eu quero foder até não saber mais meu nome.
Hoje eu quero compartilhar: chama mais alguém.
Tem gente demais aqui: hoje eu quero só nós.
Hoje eu não quero ninguém. Quero explorar meu corpo e sentir cada toque meu sabendo que ele é apenas meu. Ser a dona da minha vontade e rainha absoluta do meu prazer. Hoje eu vou me fazer gozar como ninguém faz.
Hoje vou gozar com a Natalie Portman. E com o Javier Bardem. E com aquela colega de trabalho que super acho que quer me pegar, mas nunca falamos sobre isso.
De onde vem essa vontade, por que ela nesse dia específico, até que ponto isso é vontade ou uma construção social do que é sexo (sim, problematizei): não sei. NÃO SEI REAL. Mas talvez mais difícil que entender a origem dessa vontade é realmente se ouvir pra identificar que vontade é essa. Digo mais: para essa missão deveríamos investir o nosso mais valioso tempo, pois evitaria muito sexo pra afogar as mágoas, ligações indevidas para embustes, saídas que poderiam ser resolvidas com a bateria do vibrador carregada.
Eu costumo dizer que sexo é só sexo, não precisa todo esse auê sobre. Mas, também, sexo nunca é só sexo. É sobre prazer, é sobre respeito, é sobre outras pessoas e é muito sobre nós. E tudo que é sobre nós é confuso e bem gostoso. Hoje cê tem vontade de quê?

Derrame-se neste
peito.
Agasalhe-se nestes
braços.
Repousa.
Fique.
Sinta.
Suave.
E faça, daqui,
morada.

O sem fim de tristeza
que me habita
é quem me ensina
todos os dias
a viver a alegria
como se fosse
Infinita

Olhos cansados,
os fito no vidro e
os vejo calados.
Olhos cansados,
parecem arranhados,
em constante emaranhado.
Ah! Olhos cansados!
Caçoem, enfim.
Com o que resta,
no fim.
Rolem em
leito.
Enrosquem no
feito.
E descansem…
Descansem.
Fastio.
Enfeitem esta
noite assombrosa.
Derretida…
Em mais um dia,
que se deseja-se vadio.

Enquanto criança, eu gostava
de observar os mistérios banais.
Eram pequenas descobertas do dia-a-dia.
A vida era um deleite somente em existir.
Como quando eu olhava pela fresta da janela,
pela manhã,
A luz entrava engraçada,
como se fosse um pedaço ou algo de se tocar.
E em seu trajeto fazia um belo desenho geométrico,
da fresta até o chão.
E continha aquele trecho materializado de luz
milhares de partículas brilhantes,
que revoavam sem parar.
E eu pensava se aquilo era o que formava o mundo
“Ou até eu mesma, quem saberia, meu Deus”.
E, Deus, ele também poderia ser aquela “poeirinha”
que tanto se mexia na luz de pegar.
Algo me afligia e angustiava.
Eu não entendia.
Era um sentimento grande de inquietude que me tomava.
Era notar as coisas pequenas,
e divagar até alcançar questionamentos maiores.
Surgiu, assim, a consciência de minha incompreensão.
Então, eu desejei crescer e aprender.
Eu lia todas as histórias, todos os mitos, todos os livros.
Ainda só, busquei por diversas companhias,
que, em sua maioria, eram aventuras divertidas.
Ou grandes desilusões.
Mas ainda assim não deixava de pulsar
aquele algo que imanente, latejava dentro de mim.
…
E percebo que nada descobri,
já que não sei aqui me explicar.
Mas, percebi esses dias, enquanto observava
a luz pela fresta da janela,
que me senti um tanto em paz.