Clarice Dall’Agnol

Literatura

Abuso

Foto: Isabel Dall’Agnol

As tuas mãos pesadas,
simplesmente,
ainda pesam
E as minhas,
seguem curtas demais
para abraçar-te

A dor não fica
tão apenas naquele
corpo pequeno
Arrasta-se…
E, com o passar
dos anos, se exibe
Pois já não quer
calar-se

É uma veste,
ainda que invisível,
que quer fazer
deste corpo maduro nu

Acho que agora
percebo
O pouco que se sabia
Que se sentia
Que se entendia

A culpa já passa
batida
E a vergonha
encolhida
É a dor, que
fingia escondida,
que desvenda
este andar

Nunca é tarde pra
falar
Nunca é hora de
calar

É um fardo
Eterno
Que merece
mirada
Que merece
amparo
Que merece
reparo

Ainda temo a dor
que fica
Deito com teu espelho
vil
E sonho que possas
descarnar-se deste
corpo manchado

Literatura

Do pedaço do guardanapo

Foto: José Calimero

Acabou mais uma canção
Nada toca mais
As pessoas vão
Despedidas sempre tristes
A tarde escurece
Ainda algo de radiante quer viver
As pessoas correm
Eu permaneço sentada
Entre o copo e o corpo
A aflição de quem já não pode mais voltar
Não escolhi
Não pedi
Apenas aconteceu assim
Aí chorei e você viu
Mas não importa
A culpa é da cerveja
E dessa tarde morna.

Literatura

Outra pra você (Ou só porque eu não te conheço)

Foto: José Calimero

Todos os comuns
they do
juntos
festas
supermercados
sorvetes no quiosque do shopping
filhos mal-educados,
vícios insuficientes
cafeína, cocaína, fluoxetina
não exatamente nessa ordem
existe a sua falta
a ausência
a solidão por entre a gente
do poeta de muito tempo atrás
eu me acho tão diferente
but i do too
versos de rimas primárias
precárias
tão comum
mente.