Clarice Dall’Agnol

Música

The House That Dirt Built, The Heavy

O segundo disco do Heavy foi o que fez me apaixonar pela banda. The House That Dirt Built é o melhor currículo possível pros caras, mostrando todos as suas facetas musicais.

O vocalista Kelvin Swaby é um filho do soul com o rock, resultando num Al Green from Hell. As guitarras do Dan Taylor trazem uns riffões pesados alla Black Sabbath contrastando com a pegada mais funkeada do baixo do Spencer Page e da bateria do Chris Ellul. Têm metais, dando aquele sabor James Brown para as faixas. Além disso, tem samples de artistas bacanudos, como Screamin’ Jay Hawkins e Dyke & the Blazers. É uma sonoridade anos 60 traduzida para a atualidade. O maior hit da banda está aqui, How You Like Me Now?, uma música que eles tocaram no David Letterman e o cara curtiu tanto que pediu para eles tocarem de novo. Única vez que ele fez isso!

É soul misturado com rock, com reggae, com trilha de western, com rap, com surf music. É cool pakaralho! 

Piras

Transbordo

Esses dias eu fiquei extremamente irritada porque esqueci de tirar o lixo seco. Mas assim, sabe aquilo de ficar PUTA consigo mesma?? De pensar “Porra, Brunna, por que tu faz essas merdas, cara? Agora o lixo vai ficar ali mais dois dias”. Isso mesmo, dois dias. Eu vou recapitular a história como estratégia narrativa para dar ênfase: eu fiquei extremamente DE CARA comigo mesma porque, em virtude da minha absurda falha de caráter de não colocar o lixo seco no contêiner, ele ficaria mais dois-gigantes-e-intermináveis-dias na minha casa. Aí eu entendi que estava num limite.

Mas não sabia muito bem de quê. Já me acompanha há um tempo uma sensação de copo cheio. Não cabia mais nada na minha cabeça, nos meus pensamentos, na minha vida. Eu lia e não assimilava nada, parecia que não era mais capaz de aprender (o que, vindo de uma professora, fica ainda mais ridículo e nonsense). Eu comia e tudo parecia demais – quente demais, frio demais, gorduroso demais, frio demais, comida demais. Toda e qualquer pessoa que chegava pra me contar algo era entendia como demanda, e eu não tinha condições – não, NÃO TINHA – para ouvir mais nada. Até o que me dava prazer parecia obrigação, e coitadas das plantas que morreram no processo. Não cabia mais nada nem ninguém.

Fui acometida de uma vontade gigantesca de fugir, de me esconder de todos os ~tenho quê~ que apareciam. A sensação – ou esperança – era que ir para um mato sem ninguém, sem contato algum e sem explicações faria os pensamentos saírem pelo ouvido e a pressão intracardiochakrascraniana diminuir. Faltava espaço para eu existir em mim.

Mas o alívio veio no modo de um tantrum, essa incrível palavra do inglês pra falar daqueles ataques de birra que as crianças têm desses de se jogar no chão e chorar esperneando, saca? Talvez eu tenha assustado ligeiramente minha terapeuta, mas foi aí que consegui gritar o que me sufocava, abrir espaço e me escutar.

Dispensei tudo e todos, e marquei um horário para conversar com ela, a pessoa mais importante da minha vida: eu mesma. E, enfim, sentimos, pensamos e escrevemos. Transbordei.

Literatura

Clarice

Ilustração: Cassiano Rodka

Do conforto da escuridão, foi puxada para a claridade.
Ganhou essa missão ingrata de nascer primeiro.
Tateou, cheirou, lambeu, escutou e observou.
“Tá limpo, galera! Bora!”
Serviu de compasso para os irmãos.
Ora apontando pro Norte, ora pra Sorte.
Ora Lady Leste, ora Mae West.
Rainha do Sul com império no Sudeste.
Engatinhou, caminhou, correu.
E não parou.
Segue até hoje
na direção do amanhã.

Quando não há luz, escuridão.
Onde ela existe, Clarice.

Música

Transa, de Caetano Veloso, faz 50 anos

Segundo álbum que Caetano gravou no exílio em Londres, Transa virou um disco cult. O nome veio de Transamazônica, pois os militares haviam pedido que o cantor fizesse uma música elogiando a rodovia Transamazônica, que estava em construção. Ele não fez a música, não. Mas achou de bom tom fazer aquele deboche gostoso e colocou o nome do disco de Transa.

Gravado em 4 sessões com produção de Ralph Mace, tecladista do David Bowie no disco The Man Who Sold the World. (Tamos bem de produtor ou o quê?) Foi imprescindível também a participação de Jards Macalé que “regeu” os músicos, colocando ordem na bagunça.

A influência do rock inglês se faz presente, bem como o reggae, que o músico escutou pela primeira vez em Portobello Road. Nas letras ora em inglês, ora em português, Caetano traduzia sua tristeza e sua saudade dos amigos, da família e do seu país. O Brasil também carecia de Caetano. 

Música

50 anos de Acabou Chorare, dos Novos Baianos

O clássico segundo disco dos Novos Baianos está completando 50 aninhos neste ano. Acabou Chorare foi lançado em 1972 e chamou atenção por unir Jimi Hendrix com João Gilberto. O rei da Bossa Nova era amigo da gurizada do grupo e foi ele, aliás, quem sugeriu à banda que gravasse o samba-exaltação Brasil Pandeiro, que abre esse disco. A faixa era uma composição de Assis Valente feita em 1940 sob medida para – pasmem! – Carmem Miranda. A cantora, ao escutar a música pela primeira vez – pasmem de novo! – achou ela muito “borocoxô”. Trinta anos depois, os Novos Baianos adotaram a música, que virou um hino da banda. Mas tem ainda “A Menina Dança”, “Swing de Campo Grande”, “Mistério do Planeta” o disco é hino atrás de hino, com letras lisérgicas que falam desde amor ao Carnaval até abelhinhas fazendo zum zum pra mim e pronto. É samba, é rock, é nosso e é foda demais!

Literatura

Fuga nº4: Barro

Seria tão mais fácil fingir que nada aconteceu.
Soterrar a boneca no terreno fértil da memória,
deixar o balão seguir o caminho desgovernado do destino
e aceitar as escolhas do peixinho ao nadar em busca de si.

Mas o trauma é como água na terra.
Cria o barro.
E do barro, vem a perda do equilíbrio,
vem o desmoronamento de quem se é.

Todavia o barro também cria.
Cria objetos, cria arte, cria um lar.
Para esse barro, qual seria a sina?
Está nas mãos de uma menina.