Clarice Dall’Agnol

Música

Build Up, de Rita Lee

Build Up é o primeiro disco da carreira solo de Rita Lee. O álbum foi gravado quando ela ainda era parte dos Mutantes, e os músicos da banda, inclusive aparecem em várias faixas.

Arnaldo Baptista foi o diretor musical e compôs três músicas do disco, com destaque para Macarrão com Linguiça e Pimentão, uma bela balada sobre… como fazer macarrão com linguiça e pimentão. Outro parceiro de Rita foi Élcio Decário, que a cantora conheceu em um táxi. Ao voltar para casa depois de um ensaio, começou a conversar com o motorista e… pimba! Ele era compositor, cantou algumas músicas para Rita e ela adorou. Cinco das músicas tem a sua assinatura, destacando-se Prisioneira do Amor, um tango com arranjo de orquestra do mestre Rogério Duprat. Além disso, tem um versão meio James Bond de And I Love Her dos Beatles e uma tradução do hit Joseph (de Georges Moustaki) feira especialmente para Rita por ninguém menos que Nara Leão.

O disco mescla o som dos Mutantes com novas sonoridades que já apontam para o futuro de Rita com artista solo, com pitadas de deboche, muitas xícaras de talento, não se esquecendo do caldo de carne em banho-maria, em fogo brando, e está pronto pra você! 

Quadrinhos

A Gigantesca Barba do Mal, de Stephen Collins

Escrita e ilustrada por Stephen Collins, A Gigantesca Barba do Mal é uma história fantástica que pode gerar diversas interpretações.

Dave mora na cidade Aqui, onde tudo é super organizadinho e as pessoas fazem as mesmas coisas do mesmo jeito todo santo dia. Bem diferente de Lá, uma cidade misteriosa que dizem ser um verdadeiro caos. Ninguém quer ir pra Lá. Ou… talvez? Dave também segue uma rotina, que inclui escutar Eternal Flames todos os dias. Um belo dia, de forma kafkiana, Dave desenvolve uma barba enorme que não para de crescer. Isso faz ele parecer mais alguém de Lá do que de Aqui. Ele passa a destoar dos outros habitantes, o que muito lhe incomoda… a princípio.

Esse é o máximo que eu vou entregar da história, que fala sobre rotina, individualidade, inadequação e aceitação. Tudo feito de forma poética, engraçada e inventiva. A HQ foi lançada no Brasil pela Nemo. Vale conferir!

Literatura

Comida

Foto: Isabel Dall’Agnol

Eu fico
babando.
Dá água
na minha boca.
E o dedo começa
a coçar a coxa,
devagar.
Eu quero.
Quero me lambuzar.
Quero um pedaço.
Quero tudo
Quero mergulhar.
Não interessa.
Seja quente.
Seja morno.
Frio ou muito,
muito quente.
Que se foda.
Eu quero me
queimar.
É gostoso.
Delicioso.
Tá valendo.
Tá doce.
Tá mole.
Assado.
Molhado.
Eu quero mesmo é
me sujar.
E sentir.
O gosto.
De me encher:
de tanto prazer.

Piras

Estapear ou não estapear, eis a questão

Faz parte do mal-estar da pós-modernidade essa necessidade (ou até mesmo cobrança) de darmos nossa opinião sobre absolutamente tudo que acontece. Acho isso um saco, mas bem contraditória que sou venho aqui falar sobre o causo do momento: o tapão de Will Smith.

Pra quem perdeu o babado da cerimônia de entrega do Oscar, o humorista Chris Rock estava no palco apresentando uma parte do evento e fez uma piada com o cabelo raspado de Jada Pinkett Smith, apresentadora, atriz, cantora e também esposa do Will. A questã é que Jada sofre de uma doença chamada alopecia que causa a queda de cabelo, o que a fez obviamente ficar desconfortável com o comentário de Chris Rock e resultou num Will Smith subindo ao palco e dando um bofetão na cara do comediante.

Surgiram trocentas questões a partir daí que, inclusive, revivem uma treta antiga da família Smith com o Chris Rock (e me parece que o Rock tem treta com todo mundo com suas ~piadas~ bem questionáveis). Muitas opiniões vieram sobre a validade do tapa ou não (visto que Will estava rindo logo antes do tapão), quais são os limites do humor, quem na academia revisou o texto do Chris Rock, se violência seria a melhor opção, se Jada deveria ter se defendido sozinha e até mesmo o mapa astral do Will Smith rolou por aí, alegando que o senso se justiça dele vem do lado libriano (sei como é, vide meu ascendente em libra – risos). Acho que a gente super poderia pirar no que é violência (será que é só agressão mesmo?), mas esse rolo reviveu uma história que aconteceu comigo.

Há uns anos eu estava com o companheiro da época no transporte público e um senhor ficou encarando as minhas belas pernas exibidas pela curtíssima saia que eu usava. Eu estava de costas e não tinha visto. Quando saímos do metrô, meu companheiro começou a xingar o senhor dizendo que aquilo era desrespeitoso e tudo mais. Naquela situação, eu disse que achava massa ele se posicionar sobre, mas que a forma como aconteceu me colocou numa posição de objeto sendo cobiçado, e não como pessoa que tem uma voz para se posicionar. Orientei que eu preferia que, quando acontecesse novamente (porque sim, aconteceria), ele me avisasse do que estava ocorrendo e ficasse ao meu lado para que EU dissesse pra pessoa que aquilo não era legal. Expliquei que muitas mulheres assediadas não se manifestam por medo de sofrerem retaliações e que ele estar ao meu lado me dando apoio na minha manifestação era o ideal pra mim.

Pra mim. Eu, Brunna. Isso não é uma receita e, mesmo que fosse, dependeria muito do contexto: será que havia outra forma de reagir? Naquele contexto, o que essa reação implicaria? Quem são as pessoas envolvidas? A minha história e a treta do Oscar são situações completamente diferentes em função da natureza da ação (uma “piada” e assédio), mas principalmente pelas pessoas envolvidas e importância da reação. A @pretararaoficial trouxe em post no insta como as mulheres pretas são ridicularizadas até mesmo por seus companheiros e enfatizou a importância do posicionamento de Will Smith no Oscar – taí um ponto que a gente tem que olhar. Fecho com a @gabidepretas, que diz que o ideal seria que o Will segurasse o Chris Rock pra Jada bater rs. Não precisava nem isso, mas só ele estar ali do lado dela simbolizando o apoio, o “ahã, é isso aí, amor”, sabe? Mas por quê? Porque eu tenho a certeza absoluta e inquestionável que se ela fosse sozinha socar a cara do humorista diriam que ela é louca e não sabe brincar, que ela é barraqueira – afinal, é esse o rótulo que serve a mulher negra.

Em toda a discussão que eu entro sobre aborto encontro homens falando que o corpo é da mulher e ela faz o que ela quiser: lindo, é uma grande pauta feminista. Mas nesse discurso velado está o ESSE É TEU B.O., FILHA, que faz com que o cara simplesmente suma e deixe a mulher tendo que lidar com o peso físico, psicológico e financeiro dessa decisão. Eu também vejo muitos homens dizendo como as lutas feministas são importantes e que devem respeitar o lugar de fala das mulheres, bacana. Mas é com essa justificativa que esses mesmos homens não mexem uma palha para se manifestar e usar da sua posição de privilégio numa sociedade machista e patriarcal para fazer algo. E eu não estou dizendo aqui pro cara subir num palanque, mas, sim, pra ele dizer pro parça amigo dele que aquela atitude com a mina é palha; pra na reunião da empresa ele dizer pro chefe que faltam mulheres em cargos de decisão; pra ele repensar as suas ações diárias e entender que isso faz parte de questionar um sistema que naturaliza a opressão das mulheres. Uma vez vi relatos das ações do 8 de março no Chile (que são gigaaaantes) em que os homens distribuíam água para as manifestantes e auxiliavam com cuidados médicos e enfrentamento com a polícia. É sobre isso.

Em resumo, achei emblemático o Will Smith levantar a bunda da cadeira e fazer algo. Talvez não tenha sido a melhor reação, talvez tenha sido a única possível no contexto: sei lá, isso é assunto pra outra problematização. Mas é importante sempre lembrar que fazer nada é se posicionar, e ficar no “isso é luta das mulheres” é extremamente cômodo, pra não dizer mau caráter. Como se posicionar? Não sei. Depende. E nesse processo nós vamos errar, mas faz parte. Espero que o Oscar 2022 seja lembrado como a noite em que um homem negro, a comunidade surda e mulheres receberam premiações: foi foda! Mas que também seja um lembrete de que justiça social e respeito exigem posicionamento e, às vezes, se conquistam à tapa.

Música

Black Monk Time, do Monks

A banda Monks surgiu da reunião de cinco soldados norte-americanos que prestavam serviço militar em uma base em Frankfurt na Alemanha nos anos 60. Nenhum deles estava interessado em servir e, sempre que tinham tempo livre, eles se reuniam para tocar rock. 

Fugindo do pop que dominava as rádios, o foco era mais no ritmo do que na melodia, os vocais eram falados ou gritados e as guitarras eram simples e percussivas. Tinha a agrressividade do punk antes do punk existir. Tinha a repetição hipnótica da música eletrônica antes do gênero nascer. 

Eles lançaram apenas um único disco em 1966, intitulado “Black Monk Time”, que é uma pérola. Em 1967, a banda chegou a lançar dois singles um pouco mais convencionais, mas ainda assim eram muito à frente de seu tempo para as rádios. Sem ninguém entender nada, a banda acabou decidindo se separar.

Com o passar do tempo, o disco foi redescoberto e passou a ser citado como influência por músicos como Jack White, Iggy Pop e Jello Biafra, impulsionando um novo interesse na banda. O álbum foi relançado em vinil, com a adição de todos os singles e uma música inédita que era apenas tocada ao vivo. Vale a viagem!