Ao longo dos últimos anos, Suzanne Vega lançou uma série de discos que trazia regravações intimistas de seu catálogo. Cada disco trazia uma temática: o primeiro chamava-se Love Songs, reunindo apenas as músicas de amor, o segundo foi o People & Places, com canções sobre pessoas e lugares, o terceiro foi States of Being, que a cantora declarou ser seu preferido, sobre sentimentos e emoções humanas, e o quarto e último foi Songs of Family, com faixas que falam sobre relações familiares.
Neste ano, ela resolveu reunir os quatro volumes em uma caixa de vinis caprichadérrima, com capa dura, todas as letras, fotos e o escambau. As releituras são maravilhosas e te fazem prestar atenção nas letras de Suzanne que são verdadeiras poesias. Eu confesso que nunca tinha percebido a poética da canção Language até escutar ela nesse formato acústico. O vinil é a mídia perfeita para essa série e, desde já, esse box entrou na minha lista de preferidos da minha discoteca.
Neal Adams nasceu em 1941 em Nova Iorque, EUA. Começou a trabalhar com quadrinhos ainda na década de 1950 e já nos anos 1960 fazia trabalhos menos destacados e fillers na DC. Em 1969 começou a trabalhar na Marvel, desenhando os X-Men. Seu trabalho no título dos mutantes teve uma liberdade criativa muito grande, já que a revista estava para ser cancelada e o então editor Stan Lee deixou as rédeas muito soltas. Adams participou, junto com o roteirista Roy Thomas, da criação de personagens importantes como Destrutor, Polaris, Sauron e Banshee. Os visuais dos personagens principais foram revitalizados e podemos dizer que Adams criou os uniformes que são base da maioria dos looks dos X-Men até hoje. O visual arrojado e minimalista em preto e branco do uniforme do Destrutor, por exemplo, sofreu pouquíssimas alterações até hoje. O celebradíssimo trabalho de Chris Claremont e John Byrne nos X-Men só pode acontecer por usar como base os X-Men de Roy Thomas e Neal Adams. A dupla também trabalhou em uma fase importante dos Vingadores, que incluiu a Guerra Kree-Skrull.
O trabalho de Adams (aqui em X-Men) é marcado pelo dinamismo e pelas quebras da diagramação de página
Enquanto estava na Marvel Adams nunca deixou de trabalhar também pela DC. Em 1970 assume a revista do Batman junto com o escritor Dennis O´Neil, com quem vai formar uma parceria histórica. A dupla foi responsável por revitalizar o Cruzado Encapuzado, cujas histórias tinham o tom camp do seriado dos anos 1960. Neal Adams reestabeleceu um tom mais sombrio e noturno ao Batman e é um considerado um dos desenhistas definitivos do personagem. Com O´Neil foi responsável pela origem de personagens como Ra´s al Ghul, a Liga dos Assassinos e o Morcego Humano. O Batman de O´Neil e Adams consolida o personagem como “o Detetive”, um enxadrista que tem como maior equipamento não o cinto de utilidades, mas sim o cérebro.
O visual do Batman de Neal Adams é, para muitos, o definitivo do personagem.
A parceria com O´Neil vai se tornar lendária quando ambos assumem o título “Lanterna Verde/Arqueiro Verde”. O próprio Adams já havia revitalizado o Arqueiro, sendo o responsável pela criação do hoje icônico cavanhaque de Oliver Queen. A série do Lanterna e do Arqueiro durou dois anos e retrata uma imersão de ambos pelo interior dos EUA, tomando contato com problemas sociais reais como a miséria, o racismo e o alcoolismo. A histórica capa em que Roy Harper, o ajudante-mirim do Arqueiro Verde, é mostrado como um viciado em heroína é uma das mais importantes da década de 1970 pela DC. A abordagem de O´Neil e Adams nesse título é diretamente responsável por muito do amadurecimento que os quadrinhos da DC se permitiram nos anos 80. Se o Cavaleiro das Trevas e a Vertigo foram possíveis, foi por conta da abordagem mais madura e bastante política deles nesse título. O próprio Adams contou em bate-papo na CCXP, em 2019, que a publicação da capa e da história geraram uma grade briga com o editor Julius Schwartz.
“Você ajudou um planeta com seres de pele laranja. Já escutei também sobre seus feitos ajudando seres de pele roxa. Por que você nunca se preocupou com os de pele preta? Responda, Sr Lanterna Verde!”
O ativismo político, aliás, foi marca da carreira de Adams nas páginas dos quadrinhos e fora delas. O desenhista contava que a criação da qual mais se orgulhava era o Lanterna Verde John Stewart. Fugindo dos estereótipos da época para personagens negros, Stewart não era um presidiário ou oriundo de um bairro barra-pesada marcado pela pobreza. O personagem é um arquiteto, com nível superior, emprego e estabilidade. Só a existência de John Stewart já era afrontosa, na década de 70. Nos anos 90/00 ele acabaria se tornando o Lanterna Verde mais conhecido e popular, muito em função da animação Liga da Justiça Sem Limites.
John Stewart: negro, ex-fuzileiro e arquiteto, o Lanterna Verde que não usa máscara porque não tem nada a esconder
A militância política de Adams pelos direitos dos artistas foi bastante marcante. O próprio fato de trabalhar na Marvel e na DC ao mesmo tempo, o que não era tão comum na época, era encarado por ele como uma sinalização para outros criadores de que poderiam fazer o mesmo. Adams militou por melhores pagamentos e pela revisão da questão dos royalties e direitos autorais de desenhistas e roteiristas. Foi um dos responsáveis pela mudança da política das grandes editoras, que retinham as artes originais dos quadrinhos. Essas obras passaram a pertencer aos artistas e se tornaram, inclusive, importante fonte de renda para eles. Também foi Adams uma das lideranças do movimento de artistas que participou do resgate de Jerry Siegel e Joe Shuster do ostracismo. No final dos anos 1970, às vésperas da estreia de “Superman: O Filme”, os criadores do personagem sequer eram creditados pela DC. O reconhecimento de Jerry Robinson como co-criador do Batman também foi resultado de manifestações de Adams
O jovem Neal Adams com Jerry Siegel, Joe Shuster e Jerry Robinson, criadores que ele ajudou a resgatar
Se a militância política era uma característica pessoal de Neal Adams, sua arte também foi marcante e revolucionária. O artista pode ser considerado quase que uma ponte: ele inicia a transição do estilo mais clássico de artistas como Jack Kirby, Steve Ditko, John Romita (sênior), Bill Everett e Carmine Infantino para um desenho mais fluido e cujos movimentos remetem mais ao cinema. Não por acaso alguns dos artistas mais importantes dos anos 1980, como John Byrne, Frank Miller e Bill Sinkievich vão sempre se referir a Neal Adams como sua referência número um. A homenagem de Jim Lee, um dos mais importantes artistas dos anos 90/00, a Neal Adams nos ajuda a entender a dimensão da importância do seu trabalho. Adams trabalhava com toda a página, usando a quebra da diagramação para auxiliar na noção de movimento. Além disso, Adams dominava a anatomia humana como poucos, tendo ficado conhecido por desenhar em primeiro plano mãos e dedos, o que em geral deixa os desenhistas em pânico.
Neal Adams gostava de brincar com as capas, colocando os personagens interagindo/tocando o título da revista.O estilo dinâmico e movimentado de Neal Adams influenciou toda uma geração de desenhistas.Já em X-Men as páginas de Adams traziam a noção de movimento que o consagraria (e as mãos e dedos em primeiro plano)
Neal Adams faleceu na quinta-feira, dia 28 de abril de 2022. Deixou a esposa Marilyn, com quem foi casado por mais de 45 anos, e os filhos Jason, Joel e Josh, além da filha Zeea, de um casamento anterior. O mundo dos quadrinhos está de luto, mas ao mesmo tempo celebra a fantástica carreira e o legado de um dos grandes. A declaração emocionada de Jim Lee descreve o que todos nós estamos sentindo. Ao contrário do que estão dizendo, Neal Adams não faleceu: estará para sempre vivo nas páginas brilhantes dos herois que ele ajudou a eternizar.
Esfria a pele, enquanto aquece aquela pequena alma. Molha o rosto. Flui o arco. Apega à peça. Cria. Inventa. Vira e revive fantasia. Ele vive. E vibra. Naquela pequena alma, que brota a mil.
O segundo álbum do Faith No More foi também o último com o vocalista Chuck Mosley. O cara era complicadinho, mestre da autossabotagem, chegava sempre atrasado nos shows, e chegou a dormir no palco durante o lançamento do disco e foi a gota d’água. Chutaram o Chuck e eventualmente encontraram o Mike Patton para substituir o cara.
Mas Chuck imprimiu o seu estilo no Faith No More. A mistura dos vocais falados com outros cantados virou marca registrada da banda, mesmo na era Patton. O disco já mostrava uma veia mais pop, antecedendo os caminhos que viriam com The Real Thing. Alguns clássicos do Faith No More tão nesse disco, como The Crab Song, Chinese Arithmetic, Death March, Anne’s Song e, é claro, We Care a Lot.
O álbum está completando 35 anos e esperamos que a gravadora se mexa para relançar ele com algumas raridades, como foi feito com todos os outros discos da banda. Se você não conhece essa fase do Faith No More, Introduce Yourself é o ponto de partida ideal para você… introduzir-se!
Era janeiro e, pela frente, o ano inteiro Em fevereiro, meu coração cabreiro Já é abril, e meu pé nem viu O samba atrasou, mas quando chegou… presidente c a i u .
Em meio aos sovacos fedorentos do rock, surgiu uma banda só de mulheres. Elas trouxeram perfume e delicadeza ao gênero… Não! Elas lançaram um absorvente menstruado na cara da sociedade.
Bricks Are Heavy era o terceiro álbum do L7, mas foi o primeiro a estourar mundialmente. As letras falavam de empoderamento feminino antes do termo sequer existir. O primeiro single, Pretend We’re Dead, já mandava o recado: eles não vão escutar o que a gente diz se a gente ficar fingindo de morta. Essa convocação às mulheres não passou batido e muitas outras bandas femininas surgiram na época.
Para o jovem Cassiano, foi um banho de realidade: fui entender o que era esse tal de feminismo e me surpreendi com a desigualdade de gênero que existia no mundo. Nesse sentido, o L7 foi imprescindível para mim.
O disco é uma pedrada do início ao fim, deixando muito claro que mulheres podiam fazer rock pesado e, inclusive, deixar os carinha no chinelo. Um pouco de hard rock, um pouco de punk e muita atitude!
Neste ano o álbum está completando 30 aninhos e a banda já anunciou que vai sair uma edição especial. Então se preparem que esses tijolos ainda tão pesados para caramba e prontinhos para quebrar mais umas janelas!