Clarice Dall’Agnol

Literatura

O garoto da foto

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por Cassiano Rodka

Ninguém via aquilo como amor, além de Melissa.

Melissa havia se apaixonado. Mas não era uma paixão qualquer, não. Ela era devota e não passava um segundo sequer longe dele. Acordava pensando nele, passava o dia com ele e dormia com ele. Até sonhava com ele. O fato de os pais não aprovarem a relação só colaborava com o infindo desejo da menina. Aí sim, ela se sentia legitimamente apaixonada, pois batalhava pelo seu amor. Era como naqueles filmes com a Drew Barrymore em que ela se apaixona, passa por poucas e boas para conquistar o mocinho e, no fim, fica com ele. Felizes para sempre. Melissa gostava muito da Drew Barrymore e até tinha vários pôsteres dela pelo quarto. Mas isso foi antes. Antes dela conhecer o garoto da foto.

Melissa encontrou o garoto da foto em uma revista Capricho. Era o anúncio de uma bala que combatia o mau hálito. O menino estava sentado em uma poltrona branca com a boca e o nariz tapados enquanto uma garota falava com ele. Melissa riu alto. Leu e releu o slogan. Olhou e reolhou o garoto. E seguiu a folhear a revista. Mas o garoto da foto já havia se instalado em seus pensamentos. Sentado em uma poltrona branca alojada no cérebro da menina. E ela voltou à página. Sorriu para ele. E, apesar da mão na boca, ela sentiu que ele sorria de volta. Pronto. Estava apaixonada. Melissa não teve dúvidas. Recortou a foto do garoto (sem a menina do bafo, é claro!) e colou na parede. Depois correu para o super para comprar um saco de balas para o hálito.

Os pais começaram a estranhar que a menina dificilmente saía do quarto. E a ouviam constantemente falando sozinha. Perguntaram a ela se algo de ruim havia acontecido. Mas ela dizia estar mais feliz do que nunca. E, de fato, estava. Alguns dias depois, resolveu que era hora de apresentá-lo à família. Com a foto na mão, desceu as escadas e foi até os pais na poltrona. Declaração feita, silêncio instaurado. Não podia ser sério. Mas era. O pai não dizia nada. A mãe dizia tudo que lhe vinha à cabeça. E insistia: “Melissa, você está apaixonada por um pedaço de papel!”. Mas o que sabia ela? Tinha casado com o pai de Melissa e, esse sim, era só um pedaço de papel. Nunca estava em casa. A única indicação de que eram um casal eram assinaturas em um papel. Mas o amor de Melissa pelo garoto da foto era genuíno. E eles estavam sempre juntos.

Meses se seguiram e os pais, mais tranquilos, aguardavam que aquele absurdo chegasse ao fim. Havia de chegar, não era normal. Mas o apreço de Melissa pelo garoto da foto não parecia mudar. “Quando ela conhecer um menino de verdade que realmen…” – sim, era isso! A mãe de Melissa sorria. O pai assistia televisão.

“Melissaaaa!… Visita!”, anunciava a mãe. Melissa pediu desculpas ao garoto da foto e retirou-se do quarto em direção à porta. Ao pisar o último degrau, a menina avistou seu visitante parado sem graça na entrada da casa. Era o garoto da foto. Mas ele estava ali em carne e osso. Ele deu um “oi” meio sem jeito e Melissa não respondeu. Ficou cataléptica olhando para ele. Tinha algo errado, não podia ser ele. A maneira de se mexer, o sorriso que ela nunca havia visto, o nariz. O jeito desengonçado, o olhar de tonto. O cabelo estava diferente! Ao cair a primeira lágrima, Melissa deu as costas ao visitante e subiu correndo as escadas. Trancou o quarto e abraçou a foto com tanta força que até a amassou um pouquinho, coisa que nunca tinha acontecido antes. Depois olhou para o garoto da foto. E não era mais ele. Ela podia ver agora o sorriso por baixo do rosto, o formato do nariz, o jeito de se mexer. Melissa não teve opção. Cremou o garoto.

Passou seis dias de luto no quarto sem falar com ninguém, por mais que a mãe insistisse e o pai assistisse televisão. Chorou todos os dias, sem falhar um. Na sexta-feira em que ela choraria o sétimo, abriu o armário à procura de uma roupa preta especial para seguir sua consternação. Mas foi aí que encontrou ali no fundo, bem no fundo do armário, a sua coleção de revistas Capricho…

E Melissa sorriu.

Música

O novo jazz

Foi-se o tempo em que o bom jazz só encontrava espaço nos guetos de New Orleans. O novo jazz está surgindo em lugares inesperados, como a Noruega, a Polônia e o Brasil. Ele surge abraçando as novas tecnologias. As bandas usam sintetizadores, samplers e efeitos digitais. Velhas canções transformam-se me matéria-prima para DJs reinventarem o estilo. O jazz sempre foi aberto à experimentações e atualmente ele está sendo moldado pelas mãos de talentosos jovens artistas. A gravadora Ninja Tune têm apadrinhado alguns dos melhores nomes do gênero e eis os dois que merecem atenção imediata:

Jaga Jazzist
O grupo norueguês Jaga Jazzist é formado por 10 músicos, o que certamente deve ser um grande problema na hora de marcar ensaio. Por outro lado, a diversidade de influências é enorme e isso se reflete na música. O resultado é um jazz experimental com elementos da música eletrônica e do indie rock. Os instrumentos usados pela banda incluem um trompete, um trombone, uma guitarra, um baixo, uma tuba, dois clarinetes, um piano Fender Rhodes, um vibrafone e diversos aparatos eletrônicos.

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A banda se formou em 1994 na cidade de Tonsberg na Noruega com o nome de Jævla Jazzist. Alguns integrantes tinham apenas 14 anos, incluindo o principal compositor da banda, Lars Horntveth. Lançaram seu primeiro álbum em 1996 com o nome de Grete Stitz – um possível trocadilho com “Greatest Hits”. Após mudarem o nome para Jaga Jazzist, gravaram alguns EPs e lançaram em 2001 “A Livingroom Hush”. O álbum foi bem recebido pela crítica e vendeu 15000 cópias só na Noruega. Foi o suficiente para chamar a atenção da gravadora Ninja Tune, com quem assinaram contrato e passaram a lançar discos com distribuição internacional. A banda entrou em turnê e, pelo que se sabe, nunca mais parou. O Jaga Jazzist é conhecido por suas turnês extensas que chegam a incluir semanas inteiras de shows, de segunda a domingo, sem tempo para descanso.

Em 2002, a fama se alargou pela Europa graças à turnê e ao novo álbum, “The Stix”, nomeado pela BBC como o melhor disco de jazz daquele ano. “The Stix” apresentava o som da banda mergulhado mais profundamente no mundo da eletrônica, com batidas quebradas e sintetizadores entrando em perfeita harmonia com os metais da banda. Em 2005, eles voltaram com um novo álbum: “What We Must”. Dessa vez, o som característico da banda veio imerso em influências roqueiras. Várias camadas de instrumentos formando uma grandiosa massa sonora, como se o Miles Davis fizesse uma jam com o My Bloody Valentine. Recentemente, o trompetista Mathias Eick ganhou o prêmio de Novo Talento no IJFO International Jazz Award, premiação organizada pela International Jazz Festivals Organization que intenciona impulsionar a carreira de novos músicos dando aos vencedores uma turnê internacional por conta da casa. Nada mal, hein? Quem sabe eles não aparecem por aqui?

Para conhecer mais dos caras, visitem a página deles: http://www.jagajazzist.com

Amon Tobin
Nascido no Rio de Janeiro, Amon Adonai Santos de Araujo Tobin mudou-se para Londres ainda jovem. Interessou-se pelo mundo da música e, depois de aprender a tocar alguns instrumentos, resolveu assumir as picapes e tornar-se um DJ. Para sua primeira gravação, escolheu o pseudônimo Cujo, tirado de um livro de Stephen King. O álbum “Adventures in Foam” veio carregado de samples de jazz, mas ainda estava longe do que seria o som característico do DJ. Optando por assinar como Amon Tobin, lançou em 1997 pela Ninja Tune o álbum “Bricolage”, que trazia um som mais sombrio e com batidas quebradas. Misturando o jazz com batidas de drum n’ bass e samba, Amon Tobin criou canções nervosas como “Chomp Samba” e “Yasawas”. No ano seguinte, lança “Permutation”, um álbum que dá sequência às criações musicais de “Bricolage”. Mais experimental e com fortes influências de músicas de trilha sonora, o álbum afirma o som único de Amon Tobin.

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Com a chegada do novo milênio, o DJ trancou-se em estúdio para gravar um álbum que refletisse o clima de tensão que havia na época. Com o título de “Supermodified”, o disco leva o som do DJ mais adiante, criando uma verdadeira trilha sonora para um período conturbado. Música ambiente para acompanhar o caos. Em 2002, foi morar em Montreal, cidade da sua gravadora Ninja Tune e trancou-se em estúdio para gravar as músicas de “Out From Out Where”. O álbum é mais acessível que os anteriores, o que não significa que ele seja menos estranho ou mais colorido. O destaque fica para “Verbal”, uma música com ritmo mais dançável do que usualmente se espera do DJ. Além de samples de outras músicas, o Amon Tobin constrói as músicas com sons que ele mesmo grava, desde motos até barulhos de construção. O som é processado no computador e, muitas vezes, fica irreconhecível.

Em 2004, grava um CD ao vivo chamado “Solid Steel presents Amon Tobin: Recorded Live” onde o DJ mostra suas diversas influências em um set que inclui Dizzie Rascal, AFX e Velvet Undergorund. No mesmo ano, é convidado para fazer a trilha sonora de um jogo para PC chamado Splinter Cell 3: Chaos Theory. Amon Tobin surpreende com uma trilha que inclui arranjos de cordas e solos de um tecladão Hammond misturados aos climas tensos que ele sabe fazer como poucos. Vendo que aquelas canções são muito mais do que uma simples trilha de fundo, a gravadora lança um álbum que inclui músicas como “The Lighthouse” e “El Cargo”. Um novo álbum está prometido para março de 2007, e uma música nova, “Bloodstone” já pode ser escutada no site da gravadora. Vai lá que vale a pena: http://www.ninjatune.net

Literatura

Cerro catedral

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por Clarice Casado

Em julho de 2005, grávida de minha segunda filha, estive na Patagônia Argentina com minha família. Meu marido e meu filho de cinco anos. Estivemos lá por apenas alguns dias, mas foi uma experiência de uma vida. Motivo? Havia um magnetismo indescritível naquelas montanhas, naquele branco intenso, naquele lago escuro-brilhante, naquele sol que parecia nunca se pôr. Havia magia. Uma magia que de vez em quando me invade novamente. Há flashes daquele lugar em minha existência, constantemente.

Era inverno. Mas não foi um inverno frio para os habitantes locais. Um rapaz que deu uma aula de esqui aos meus “guris” comentou com meu marido que estava “Quente nesses dias”. Fiquei imaginando como seria o frio, se aquilo era quente… Fiquei imaginando como é estranho pensar que algumas pessoas podem sentir calor em um lugar onde outras morrem de frio. Nós, brasileiros, que estamos acostumados a árvores floridas e até a tempo quente em pleno inverno, obviamente achamos gelada a realmente gelada Bariloche. E isso que sou gaúcha, acostumada a frios mais intensos.

Nos pés dos montes com neve, em realidade era mais quente do que na pequena cidade. Explicação, rudemente falando: o sol reflete na neve e realmente quando se chega ao pé da montanha dá vontade de tirar um dos três casacos que se está vestindo. E é um sol, mas um sol como nunca vi igual em minha vida. É o nosso velho e bom sol, estrela luminosa do Sistema Solar (estrela mesmo? Acho que é isso…!), mas um sol intenso, grande, com mais raios que o normal, um Sol, que, poder-se-ia dizer que parecia mais perto de mim. Eu sentia aquele Sol me tocando. Uma sensação realmente peculiar. E demora muito, mas muito para pôr-se, em pleno inverno. Deitava-se aí pelas sete, sete e meia da noite. Uma coisa fantástica. Era de uma beleza solitária, beleza iluminada de astro-rei. Parecia abraçar a cidade, os habitantes, os visitantes, o lago de um azul-escuro intenso, as montanhas, a neve, tudo. Parecia dizer, “Venham, meus amigos, há lugar e calor para todos!”.

E havia um monte em especial, o mais famoso da cidade de San Carlos de Bariloche (diz-se Barilôtche, por favor, não vamos assassinar a língua espanhola só por uma raiva infundada que alguns brasileiros nutrem pelos argentinos!), esse monte, chamado Cerro Catedral, era o mais visitado, o mais “esquiado”, o mais bonito, enfim. Cerro significa justamente “monte” e Catedral, sinceramente, não saberia dizer se realmente significa “catedral” com o mesmo sentido do português. Prefiro pensar que sim. Catedral, um lugar sagrado, uma igreja. De religiosa nada tenho, mas me agrada pensar naquele lugar como uma igreja, um santuário, um lugar simplesmente sagrado. Sagrado no sentido de intocado, belo, puro. Porque era essa exatamente a sensação que me transmitia aquele monte, aquela neve, aquele Sol, aquela cidade, aquela região da Argentina. Sagrada. E ao mesmo tempo profana, terrivelmente profana, com aquelas pessoas esquiando e marcando duramente com seus esquis a neve branca, pura, límpida. Sagrada.

Não pude esquiar. Não pude provar o gosto do profano. Estava grávida de cinco meses, o que me impedia automaticamente de profanar qualquer coisa. Havia um bebê em mim, afinal. Lembro-me do dia em que meu marido e meu filho subiram pela primeira vez o monte Catedral para terem sua aula de esqui. Fiquei triste por não poder acompanhá-los. Foi a primeira vez que nos encontramos impedidos de nos divertir juntos. Lembro-me deles vestidos, bonitinhos com gorros e luvas e esquis. Foram se afastando rumo ao ski-lift (cadeirinha que anda suspensa em cabos do pé ao topo da montanha ou monte), enquanto eu fiquei no pé, sentada olhando para o monte. As cadeirinhas iam e vinham, numa dança bem bonita. Fiquei com o coração apertado, pensando: será que estarão bem? Chegarão lá em cima ilesos? Cairão dos esquis? Pânico. Eu não podia controlar aquela atividade deles. Não podia nem ver. Mas pude sentir pela primeira vez que tudo seria diferente a partir daquele momento. Tive consciência plena de que nossa família crescia e, que talvez tivéssemos nossas atividades restritas por algum tempo, até o bebê ter uns dois ou três anos, quando então poderia participar mais ativamente dos passeios em família. E resolvi aceitar tudo aquilo. Fiquei até muito feliz.

Deixei a cidade alguns dias depois, com a estranha sensação de que deveria voltar, e de que voltaria. Talvez com minha família toda, certamente com a família toda, com minha filha já maiorzinha, e todos nós poderíamos subir o monte e esquiar, juntos. Mas tive ainda outra sensação: uma sensação que me percorreu o corpo e tomou-me a alma. Tive a certeza de que, quando morresse, iria para lá. Se tivermos mesmo uma alma, e se essa alma voa para algum lugar quando morremos, é para lá que quero voar. Eu, minha alma, é para lá que quero ir. Quero ficar em Bariloche por toda a eternidade, sentindo aquele sol e vendo aquele branco infinito, e lembrando para sempre, com ternura, dos dias em que estivemos lá.

Literatura

Sincronia

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imagem: Cassiano Rodka

por Cassiano Rodka

O segurança do Banco Intercostal assobiava a melodia de uma música cujo nome não lembrava enquanto um grupo de assaltantes sincronizava seus relógios para assaltar o banco onde Dona Eulália mantinha uma poupança com o dinheiro ganho na venda de cosméticos da marca que estava sendo usada por sua vizinha que passava o creme para pele oleosa no mesmo ritmo de uma música que tocava no rádio do carro de seu marido que voltava do trabalho no Banco Intercostal onde um segurança procurava lembrar o nome de uma música que assobiava enquanto dois assaltantes arrastavam-se sorrateiramente pelos dutos de ventilação que eram fabricados pela indústria onde o neto de Dona Eulália trabalhava junto com o filho da vizinha que agora penteava seu cabelo no contratempo da música que tocava no rádio de seu marido que estacionava o carro em frente a sua casa e abanava para a vizinha Dona Eulália que olhava pela janela e tentava identificar a música que tocava no carro que era a mesma que era assobiada pelo segurança que ignorava um barulho estranho próximo aos cofres pois concentrava-se em lembrar o nome da música que agora era desligada do rádio do marido da moça que era vizinha de Dona Eulália que reconhecera a canção como sendo uma das preferidas de seu neto que a cantava nos churrascos da família ao violão num ritmo mais lento que a original e que coincidia com o exato movimento lento do caminhar da vizinha que ouvia a porta abrindo e seu marido entrando na mesma hora em que os assaltantes saíam do banco e corriam em direção a um carro que os esperava sintonizado na mesma estação que o do marido da vizinha que agora o recebia com um beijo enquanto Dona Eulália beijava a foto do neto e os assaltantes beijavam o dinheiro e o segurança assobiava a melodia de uma música que – sim, agora ele lembrava – chamava-se “Sincronia”.

Literatura

O homem que calculava

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por Clarice Casado

Muitos de nossos melhores professores não foram realmente professores. Explico. Não foram professores formados, aqueles da escola, aqueles da faculdade. Certamente, todos tivemos professores “de verdade” que foram memoráveis, verdadeiros educadores. Mas hoje quero falar das pessoas comuns, de profissionais de diversas outras áreas que também contribuíram – e muito – para nossa educação, sem que sequer tenhamos percebido. Mas sabemos, hoje. Você agora já deve até estar lembrando de algumas dessas pessoas, aquela babá do coração, aquele tio querido que fazia mil pipas para você, a prima que fazia o melhor castelo de areia da praia e fez questão de te ensinar, o porteiro do prédio que te ajudou a dar as primeiras pedaladas na bicicleta sem rodinhas, a vó que te ensinou a fazer pão de queijo. Seu pai. Sua mãe. Todos educadores não formais, que, na sua completa informalidade, fizeram uma diferença enorme para nós, de maneira tão sutil, que só hoje, lendo essa crônica, você está percebendo.

O meu educador informal do coração (tive diversos, claro, mas este foi especial), era um homem que calculava. Estudou engenharia em uma família onde nenhum dos membros tinha sequer sonhado em ter um diploma universitário, deu duro. Formou-se engenheiro, casou-se com minha avó materna, que era filha de um português e de uma alemã, fez com que ela, protestante, se convertesse ao catolicismo (ele era descendente de italianos, seu pai cantava Santa Lucia em todos os almoços de domingo), casaram, tiveram três filhos, sendo que a do meio foi minha mãe, uma menina linda de olhos azuis que um dia encontrou meu pai em uma festa, apaixonaram-se, casaram-se um tempo depois, e então eu nasci, uma menina também linda, sem olhos azuis, que (veja só!) nunca entendeu nada de matemática.

Foi aí que nos encontramos, de verdade, pela primeira vez, meu avô materno e eu. Eu não entendia nada de matemática, porque os professores do colégio não conseguiam atingir-me com suas explicações. O meu avô engenheiro conseguia. Explicava aquelas coisas doidas (para mim, incompreensíveis) de uma maneira tão fantasticamente interessante e simples, que tudo ficava claro como céu de setembro. Dizia, “Não sei por que esses teus professores complicam tanto, guria! Aí, os alunos começam a detestar uma coisa tão bonita como a matemática!” Ou seja, eu não era incapaz para a matemática, eles é que eram incapazes de ensinar-me. Provavelmente, porque não eram educadores. Eram pessoas que tinham estudado matemática na faculdade, e não conseguiam, de maneira nenhuma, mostrar-nos o quão interessante e importante era aquilo, de um modo agradável.

E o vô, com seu jeito estabanado de ser (que eu herdei dele, dizem!), ria e divertia-se, falava alto e gesticulava, naquelas nossas descontraídas aulas particulares de matemática, ria e fazia-me rir, fazia-me feliz, educava-me, sem que eu percebesse. Foi um tempo tão curto e tão bom. Nunca agradeci a ele pelas aulas. Estou agradecendo hoje, e espero que ele leia esta, lá do Céu, onde ele deve estar agora calculando pra São Pedro…! Vô, obrigada!

Literatura

A mancha

mancha

por Cassiano Rodka

“The world is always ending,
for someone.”

Neil Gaiman

Eu no sofá, a TV na mesinha.
Abri o envelope e olhei as lâminas. Ossos e sombras em tons de cinza azulado. E a manchinha mais escura. “Está vendo ali?”, disse a médica. “Não”, respondi. “Tira qualquer mancha”, disse a dona de casa felicíssima. “Qualquer mesmo?”, me pergunto, quase me convencendo a comprar o milagroso sabão em pó. E olho a mancha. E a lâmina me olha. Sim, aquela caveira me fita e enxerga a si mesma. Um tenebroso espelho de fumaça. “É muito melhor que manteiga”, tenta me convencer a mãe de uma família perfeita cuja felicidade depende apenas de uma margarina. Largo meus ossos e vou até a cozinha. Não tenho margarina. Volto para sala e olho novamente a caveira em cima do sofá. Sorrindo com sua manchinha na cabeça. “É maligno”, disse ela. E olho para a família sorridente com sua margarina. E consigo ver suas caveiras por baixo de suas peles perfeitas e roupas impecavelmente limpas. Por dentro, todos já são o resultado de suas próprias mortes. Sem as vestimentas, sem a pele, sem a carne e sem qualquer órgão que nos faz vivos, somos um simples caroço. Vai-se a fruta e ele permanece. Rijo e inútil. “Sua vida nunca mais será a mesma”, diz a outra mãe de família, caveira sorridente, dentes branquíssimos. Ela não tem manchas na sua cozinha – diferente das que usaram os produtos da concorrência -, mas tem uma em seu seio esquerdo que tanto o seu produto, quanto o da concorrência não podem apagar. Mas ela sorri. “Seu sorriso mais branco”, “A vida em suas mãos”, “Preço baixo e qualidade”, as caveiras seguem desfilando seu contentamento. Em seus mundos, não há a morte, mas a margarina perfeita. Não há problema sem solução. E não há manchas. Outra vez, a margarina. Volto à cozinha, abro a geladeira. Não, não há. Há um pêssego mordido. Sem casca, a polpa meio seca, o miolo marrom me espiando. Pego a fruta e sinto a dor. Caio de joelhos, a fruta rola para a sala. “Tração nas quatro rodas”. Me arrasto em direção ao telefone. “Tudo ao seu alcance”. Preciso de ajuda. “Tudo o que você precisa, encontra aqui”. Preciso discar um número. “As melhores tarifas”. Mas, mais do que tudo, preciso pegar o controle remoto.

Clic.

Literatura

Os sinos das seis da tarde

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por Clarice Casado

O taxista que chamei pelo telefone dirige-me um muito cortês “Boa tarde, dona Clarice, nós vamos para onde?”, e eu observo rapidamente o senhor careca, uns setenta e poucos anos, e penso, “Ele já levou-me para algum lugar recentemente”, mas não consigo lembrar nem quando nem para onde. Digo o meu destino, com a ligeira impressão de que aquilo tudo pudesse mudar completamente o meu dia e a minha vida (aparentemente não iria, porque eu estava indo para o lugar de sempre, no horário de sempre, para dar as minhas aulas de sempre). “Eu levei a senhora no último domingo, não sei se está lembrada, para um restaurante”, e eu, “Claro, claro, agora me lembro, e o senhor me disse que estava indo para a sua casa comer um nhoque, que eu era a sua última cliente do dia. E então, o nhoque estava bom?”. E ele discorre sorridente sobre o nhoque da esposa, todo orgulhoso, como se aquele nhoque fosse um símbolo de uma vida feliz. Invejei, por um segundo, o nhoque da esposa dele, porque eu não sei cozinhar, e creio que nunca, durante a minha breve existência na Terra, alguém vá poder elogiar um nhoque feito por mim com aquele sorriso e com aquela satisfação.

Passando pela frente da delegacia de polícia do meu bairro, ele começa a contar uma história. Sim, pelo tom que utiliza, percebo que ele vai começar a contar uma história, e eu vou ouvir atentamente, porque sempre gosto de ouvir os taxistas contando histórias. São extraordinários, os taxistas. Sempre têm fantásticas experiências para contar. “Sabe, Clarice (ele passa a chamar-me apenas Clarice, porque, creio eu, percebeu logo que quase poderia ser meu avô, e foi assim que me senti, no momento em que ele pronunciou docemente o meu nome: eu seria a neta dele, naqueles breves instantes), dia desses, eu peguei um passageiro em frente a esta delegacia, e ele era um ladrão”. Disse isso com maior tranquilidade do mundo, como se estivesse comentando o resultado do jogo de futebol de ontem.

E iniciou a narrativa, uma das melhores que já ouvi em toda a minha vida, seja em táxis ou fora deles. Ele tinha o dom de contar. E sentia prazer com isso, como todo prosador. Calmamente descreveu o momento em que o rapaz mostrou-lhe a arma e pediu-lhe uma carona até um bairro da zona leste de São Paulo, era só o que queria. O taxista pediu que o jovem (bem vestido e bem apessoado) guardasse a arma, pois, do contrário, não teria condições de dirigir, era um senhor de idade, ficaria muito nervoso. O jovem concordou.

O senhor contava tudo com muita calma, e eu até perguntei-lhe se tinha ficado calmo assim durante todo o tempo, e ele respondeu afirmativamente, “Nessas horas, Clarice, reagimos de maneiras absolutamente inesperadas, até para nós mesmos”, e eu concordei, plenamente.

O ladrão ficou cinco horas com ele, desde as oito da manhã até uma da tarde, e o taxista simplesmente foi levado até a casa do ladrão, tomou cafezinho feito pela mãe do ladrão (talvez não tão bom quanto o de sua esposa, que, como toda boa cozinheira, deveria ser mestra nisso também), deu carona para o ladrão até uma casa onde encontrava-se um grupo de amigos dele, que cheiravam cocaína e bebiam sem parar; levaram-no até um bar, ofereceram-lhe uma “pinga”, que ele aceitou (disse-me, “A essas alturas, o nervosismo começou a tomar conta de mim, e achei que a bebida me acalmaria”). O ladrão e seus amigos descreveram-lhe suas rotinas, contaram-lhe que “trabalhavam” à noite na Paulista, certamente assaltando nos faróis e vendendo drogas.

Após contar toda a história, o senhor fez uma pausa, meditou alguns instantes, e contou-me que tinha perguntado ao ladrão se alguma vez ele já havia pensando em largar aquilo tudo, “aquela vida”. Disse-me que a resposta do ladrão foi curta e rápida: “Se eu largar, me matam.” O senhor foi então liberado pelo ladrão e ainda recebeu dele vinte e cinco reais “para a gasolina”. Mais uma pausa, interrompida pela passageira que pergunta, “O senhor percebeu que foi sequestrado, certo?”, e ele, “Você sabe, Clarice, que eu só fui dar-me conta disso no dia seguinte. Conversei tanto com o moço, que, por vários momentos durante o tempo em que fiquei com ele, até esqueci que estava, em realidade, com a vida sob ameaça”. Impressionante.

No exato instante em que terminou a história, por volta de seis horas da tarde, ele comentou, mudando abruptamente de assunto, “Olha, está ouvindo? São os sinos de alguma igreja batendo, não é bonito? Preste atenção, sempre dá para ouvir o som de sinos batendo a esta hora, todos os dias”. Ao longe, abafado pelo ruído dos carros, das pessoas correndo e da metrópole respirando, podia-se mesmo ouvir o som de sinos dobrando. Percebi que há muito eu não escutava o som de sinos. Ou escutava, mas não percebia. Ouvidos acostumados. A tarde caía mansa, o céu estava bem colorido, lindo, anunciando o fim do verão. A história do taxista soava forte na minha cabeça, tal qual um sino. Ele deixou-me no meu destino e comentou, “Você é a minha derradeira cliente hoje de novo, sabia?”. Sorri, dei boa noite, agradeci, saí do carro, e ele seguiu satisfeito rumo ao resto de sua vida.

Literatura

Eu, russa?

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por Clarice Casado

Não sei se meu rosto é um rosto comum. Não sei se sou daquele tipo de pessoa que você poderia chamar de comum. E não estou aqui sendo, de maneira nenhuma, arrogante. De maneira nenhuma, podem acreditar. Mas sempre tem alguém achando que eu sou parecida com alguma conhecida sua. Ou com alguém da televisão, como já aconteceu-me mais de uma vez: estou na fila de votação da penúltima eleição presidencial, e uma senhora para, maravilhada, com aquela felicidade de quem se depara com uma celebridade, olhando-me com êxtase, segura-me pelo braço, “Você! Você… é da televisão, não é?” , eu olho-a sem saber o que dizer, “Não, não senhora, não sou…”, e ela decepcionadíssima, “Ah, jurava que era…”.

Para completar a minha certeza acerca do fato de possuir um rosto extremamente comum, uma moça absolutamente desconhecida interpela-me em um elevador, há algumas semanas atrás, “Ai, eu preciso lhe dizer isso, você é super parecida com uma menina que conheci na Europa quando estava fazendo intercâmbio, você por acaso não se chama Kátia?”, e eu, sorrindo (já pensando, “Ah, não, lá vêm mais uma…), “Não, não me chamo”, e a moça continua, “Incrível, você é igualzinha, impressionante, o rosto, os cabelos, tudo!”, e eu “É que pena, eu nunca estive fazendo intercâmbio na Europa”, e ela, “Sabe, ela era russa!”. Como? Russa? Então eu não entendo mais nada, a maluca me faz a pergunta em português, eu respondo em português, será que ela realmente achava que eu era a russa que ela tinha conhecido na Europa há anos atrás??? Das duas uma, pensei, “Ou esta menina está me passando uma cantada, e eu preciso explicar para ela que, apesar de não ter nenhumíssima espécie de preconceito contra homossexuais, prefiro pessoas do sexo oposto, sou inclusive casada e tal; ou, definitivamente, é uma doida, e espero que esse elevador chegue logo no térreo!”.

O elevador chegou mesmo logo, e nós saímos, ela disse um tchau simpático (acho que a segunda opção estava certa, mesmo, era meio louquinha), e fui-me embora. Mas fiquei com aquela coisa na cabeça, aquele pensamento maluco de saber que existia uma russa com a minha cara circulando por Moscou, ou por algum outro país do mundo (poderia estar fazendo outro programa de intercâmbio, poderia ser uma cientista social poliglota, sei lá). Só sei que a russa igualzinha a mim perambula, neste momento, por algum lugar do planeta, sem saber que existe uma sósia dela morando na cidade mais multicultural do Brasil.

Achei impressionante imaginar que, em meio aos bilhões de habitantes do planeta Terra, havia uma moça russa igual a mim. Igual a mim, que não tenho um pingo de sangue russo correndo nas veias. Tenho ancestrais italianos, alemães, portugueses e até franceses, mas nada de russos. Como diabos posso ser parecida com uma russa?

Em época de Olimpíadas, diversas russinhas estiveram a exibir seus rostinhos ultra brancos e saudáveis com olhos claros e serenos na telinha da TV, e eu então comecei a olhar para todas elas meio curiosa, de um modo diferente, rindo mentalmente, pensando se realmente tenho alguma semelhança com as seríssimas meninas eslavas. Quisera eu poder dar saltos e jogar como elas! De repente, grande susto: uma ginasta de catorze anos surge aos mil pulos na tela, meu Deus, e ela é realmente parecidíssima comigo! A moça do elevador poderia ter razão, tenho algo de russa e não sabia, que coisa estranha! Nunca soube disso. Senti-me na mesma situação do protagonista de um dos mais recentes romances de José Saramago, O Homem Duplicado, que descobre existir um sujeito igualzinho a ele no mundo, exatamente pela tela de uma TV. Meu “duplo” estava ali, frente a frente comigo, dando saltos nas Olimpíadas de Atenas. Tragédia Grega???

Senti uma espécie de aflição ao ver a menina na TV. Realmente, como havia pensado desde que encontrei a moça no elevador, há uma russa que perambula pelo planeta com as minhas feições. Só que ela tem catorze anos e é ginasta. Contorce e domina o corpo com uma agilidade, leveza e graça raramente vistas. E parece-se comigo. Mal sabe ela que há uma fulana morando na principal cidade brasileira que perambula pelas ruas com o rosto igual ao dela, e é professora de inglês e escritora. Não tem tanto domínio do corpo, e nem tanta graça e leveza. Um certo domínio das palavras, vá lá. Mas, é uma “menina” muito feliz. Voa de vez em quando, voa fundo no pensamento e traz um pouco desses voos aos seus leitores. Faz com que as palavras saltem de sua mente e da tela de seu computador para as mentes e telas dos leitores. Leitores que, espera ela, sintam-se sempre muito leves, voando também muito alto, por meio e dentro de suas histórias.

Literatura

O aniversariante do farol

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por Clarice Casado

O que impressiona é que as ruas da cidade parecem cada vez mais um lugar onde tudo, absolutamente tudo pode acontecer.

Poderia ser mais um farol demorado, mas não foi. Foi um momento estranho, diferente, um momento para refletir. O rádio ligado (música ou notícias, não estou conseguindo lembrar-me bem), eu ali com milhares de coisas dançando no pensamento, nas coisas que teria que fazer amanhã e pelo resto da semana e também pelo resto da minha vida, e, de repente, a batida no vidro. Susto! Não seria possível que eu fosse ser assaltada de novo, há dois anos atrás um engraçadinho já havia levado o meu relógio no meio do trânsito.

Não era um pedinte. Era um vendedor de panos de prato. Era um homem comum, um homem que poderia ser meu pai, ou meu tio, um amigo: era um homem. Mas era um homem desesperado, podia-se ver o seu desespero, apesar da fisionomia tranquila e dos olhos escuros profundos que inspiravam paz. Fiquei pensando, naquela fração de segundo, quem seria o homem, por que estava ali, se teria uma família, uma mãezinha doente esperando-o em casa, uma esposa em pânico com uma criança de três meses chorando em seu colo por causa de uma dor de ouvido – paro. Chega. “De que adianta tudo isso?”, pensei.

Eu continuo olhando para ele, agora vejo que ele tem na mão direita algo que parece uma carteira plastificada, um documento, eu mal consigo enxergar, porque já é quase noite, aquele horário no qual o sol não é mais sol e parece que estamos em um sonho ou dentro de um quadro de Monet, aquele horário no qual temos vontade de estar vendo o pôr do sol ao lado do filho ou da pessoa amada, mas, não, eu estava no meio de trânsito carregado da capital, com um vendedor de panos de prato na minha janela, mostrando-me uma carteira de identidade, sim, agora podia ver bem, era seu documento de “RG”. Pude reconhecer seu rosto magro, barba por fazer, cabelos escuros, em uma foto provavelmente tirada há uns bons quinze anos atrás. Mas era ele. Sim, definitivamente era o mesmo homem, cujo nome eu não li. Ou li, e já não me lembro. E eu já me perguntando, “Por que raios esta pobre criatura está a mostrar-me a carteira de identidade?”, e, neste exato momento, ele aponta uma data: “10/OUT/1964”. Penso, “É a data de hoje, o cara está de aniversário”. Foi como se eu tivesse tomado um soco no peito. “O homem está fazendo aniversário hoje”.

Não sei por que ele mostrava a carteira. E sei, ao mesmo tempo. Ele estava fazendo anos, e estava vendendo panos de prato no farol. Ele estava fazendo anos, e não podia estar feliz. Não podia sentir-se feliz. Não podia comemorar. Não iria, no final do dia, tomar um chope com os amigos para comemorar. Não, ele não iria. Ele iria certamente ficar ali até altas horas da noite esperando que as pessoas oferecessem-lhe presentes de aniversário. Afinal, era o seu aniversário. O seu dia. Bandos de estranhos dentro de carros seriam os seus amigos, naquela noite; a sua família, naquela noite.

Eu não abri minha janela. Não abri porque o medo, a desconfiança e a loucura geradas por esta vida insana da grande capital nunca deixariam que eu apagasse as velinhas com ele. Mas, juro, o que eu queria mesmo era ter-lhe desejado os parabéns.