Clarice Dall’Agnol

Música

Saber morrer

por Cassiano Rodka

Esses dias estava assistindo a uns vídeos de shows atuais do Violent Femmes e me veio novamente à cabeça um velho dilema: por quanto tempo uma banda deve existir?

A resposta fácil é que as bandas boas deveriam continuar para sempre e as ruins, sumir do mapa. Mas a verdade é que muitas vezes mesmo as boas (e por “boas” entenda “as que você gosta”) acabam caindo na mesmice e insistem em falar algo que já foi dito e ninguém mais precisa ouvir. O Violent Femmes, por exemplo, é uma das minhas bandas preferidas, mas os últimos dois álbuns de estúdio que eles lançaram – o “Rock!!!!!” em 1995 e o “Freak Magnet” em 2000 – são decepcionantes, é o som de uma banda tentando ser algo que já não é mais. Desde então, lançaram uma coletânea de singles e dois álbuns ao vivo, ou seja, praticamente desistiram do presente e resolveram apostar no passado. Lançaram ainda dois DVDs de shows antigos, que são maravilhosos. Mas ver eles ao vivo atualmente é um tanto constrangedor. As letras dos clássicos da banda foram escritas quando o vocalista Gordon Gano tinha 18 anos e versam sobre as mais diversas angústias adolescentes, como revolta e frustração sexual. Atualmente, Gordon tem quarenta e poucos, e vê-lo cantando a letra de “Gimme the Car” – onde implora para o seu pai emprestar-lhe o carro para ele sair com uma gatinha – é, no mínimo, embaraçoso. É como assistir ao Red Hot Chili Peppers ao vivo e ver o Antony Kiedis pulando pra lá e pra cá sem conseguir segurar o fôlego. Ou ouvir a nova balada do Aerosmith e ver que ela é igualzinha a “Crying” e “Crazy”. Algumas bandas simplesmente desistem da criatividade e optam pelo caminho fácil, como é o caso do U2. Depois de se arriscarem a explorar novas sonoridades com os três álbuns que lançaram nos anos 90 – sem falar no belo álbum que gravaram sob a alcunha de The Passengers, uma espécie de filho bastardo não assumido do U2 -, os caras parecem ter desistido de surpreender os fãs e apostaram em uma volta ao passado, fazendo um som que remete aos seus clássicos, mas com roupagem mais atual. Mas qual é o futuro de uma banda que vive do passado?

É nesses momentos que eu admiro a atitude de bandas como o Faith No More. Os caras, em seu sexto e último álbum, assumiram suas carecas e apareceram em seus shows de terno fazendo cover de Burt Bacharach. E, vendo que não tinham mais o que adicionar, souberam fazer suas malas e seguir adiante. Souberam morrer. E esse acaba sendo o grande trunfo de bandas que terminaram “cedo”, como o Doors, o Velvet Underground e os Stooges. Em seus poucos anos de existência, essas bandas não tiveram tempo de ver o poço de criatividade secando. Sendo assim, têm uma excelente discografia. Muitas bandas têm medo de mudar e preferem permanecer na segurança de ficar fazendo a mesma coisa durante anos. Mas a mudança é um processo natural do crescimento. Impedir-se de mudar é impedir-se de crescer. Sendo assim, só resta morrer. Alguém avisa o Bon Jovi?…

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Literatura

A pressa do tempo

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por Clarice Casado

“Life is what happens to you when
You’re busy making other plans.”

John Lennon

Ok, aí está. Terminou-se mais um ano. E começamos a ouvir todas aquelas coisas idiotas de início de ano, com esperanças e paz e alegrias e outras bobagens. Renovação. Felicidades. Gente se abraçando. Comemoração de Ano Novo só vale pela festa mesmo, porque a comemoração da passagem, em si, sempre achei muito boba, piegas, aquelas promessas todas de todo mundo de que tudo vai mudar, etc, etc.

Sempre amei o Natal e nunca dei a menor bola para o Ano Novo. Mas sempre fiquei muito intrigada com aquela expressão, que se ouve quando o ano vai chegando ao fim, “Nossa, como passou rápido”. Certo, chegou o momento da história. Os leitores já leram o parágrafo de introdução, e agora estão a ler este, e pensando, “Será que vai valer a pena eu ler até o fim?”. Não sei, leitor. Desafio-o a ler. Se gostar, ótimo. Se não, por favor, me diga que não. Não sou muito afeita a críticas negativas (e quem o é?), mas vá lá, sei que aprende-se mais a cada dia, aprende-se botando “a cara pra bater” (odeio essa expressão, talvez alguns leitores também, quantos será que acabo de perder?).

Volta, guria, volta pra cá pra contar a história!

História: tive um problema com a televisão da sala, faz poucos meses. Quem veio prestar a assistência técnica era um simpático senhor português, de uns setenta anos. Explicou-me com detalhes o que provavelmente estava a ocorrer, ele que, segundo contou, tinha experiência de quarenta anos em eletrônica. Ouvi com atenção, coisa que nunca faço quando não me interessa muito o assunto. Pareceu-me que o que ele dizia era bem certo e com fundamento. Uma pessoa que sabia o que estava falando, coisa rara nesses tempos de informação rápida e sem muita base científica. E além de tudo, falava um português impecável de além-mar, sem erros, com todos os esses, perfeita colocação pronominal, frases sintática e semanticamente bem construídas. Outra coisa raríssima hoje em dia. Dava gosto de ouvir.

Terminada sua explicação e acertados os detalhes sobre a retirada do aparelho para conserto, orçamento, apresentação da ordem de serviço, pediu-me que assinasse e datasse. No momento da data, eu me saí com a frase clichê, “Nossa, já é setembro, esse ano voou mesmo”. Ele me olhou com um olhar sério, e disse, com a mesma serenidade e segurança com as quais havia me explicado o problema da TV, aquela segurança de quem trabalha há muito naquele ramo e sabe o que está falando, “Senhora, não são os anos que passam mais rápido ou mais devagar. Os anos têm o mesmo número de dias, todos os anos. O que variam são as nossas atividades, as nossas vidas em cada ano”. Levantei a cabeça (que estava de olho no papel da ordem de serviço) e pensei que aquela aparente obviedade era de uma profundidade e verdade tamanhas. E seguiu, “Quanto mais coisas fazemos e quanto mais coisas diferentes vivemos, mais rápido passarão os dias, os meses, os anos, a nossa vida”. Concordei com ele, totalmente.

Quando ele saiu, é claro que fiquei pensando naquilo um bom tempo, e depois aquilo me seguiu sempre, e estava me seguindo até hoje, quando resolvi dividir o fato com meus leitores. O senhorzinho tinha mesmo muita razão. Pensei em mim e em minha vida: no ano anterior eu estivera grávida, e o tempo parecia que não passava, o ano não chegava ao fim, a ansiedade era muita. Neste ano, com o bebê já nascido, minha vida tinha sido tão corrida, que, quando vi, dei-me conta naquele momento que minha filha já tinha quase um ano. Tantas coisas maravilhosas e também estressantes aconteceram, que esqueci de lembrar que estava vivendo. Sim, estava vivendo, e nem percebi. Quanto mais ansiedade e angústias temos, mais a vida parece que demora a passar. Já quando há milhões de coisas diferentes acontecendo, e quando estamos pensando em muitas coisas ao mesmo tempo, acabamos vivendo a vida bem depressa, sem que percebamos. A vida acontece enquanto estamos ocupados fazendo outros planos, como já disse John Lennon em uma linda canção chamada Beautiful Boy, escrita para seu filho Sean.

A questão portanto hoje é: quão rápido passará para mim o ano que se inicia? O que acontecerá? Não sei. Nada sei. Não tenho como saber. Vou continuar ocupada fazendo vários planos, isso é certo. E provavelmente não vou mesmo perceber que estou vivendo, mas estarei.

O tempo (e consequentemente sua passagem) depende do olhar, da vivência e da experiência de cada pessoa. Vivemos o mesmo ano, mas não o mesmo tempo. E temos diversos tempos diferentes ao longo dos anos de nossas vidas. O tempo em que esperaremos, e tempo em que trabalharemos ou estudaremos de montão, o tempo em que ficaremos muito tristes ou preocupados ou com raiva, o tempo de alegria da melhor qualidade. Só não saberemos, nunca, quando virão os diferentes tempos. Talvez dê para perceber que estamos passando por um tempo diferente, talvez não. Mas seguiremos vivendo.

Espero não ter decepcionado os leitores. Afinal, é ínício de um novo ano. Nada pior que começar um ano lendo uma bobagem.

Literatura

A rosa

rosa

por Marcella Marx

Se alguém o visse ali parado, estranharia. Ele era daquele tipo de pessoa sempre ocupada, muito organizada, com horário contado, seu dia não tinha lugar para desperdício de tempo. Aquela manhã, porém, estaria para sempre registrada em seu livro imaginário de exceções.

Havia feito seu caminho corriqueiro e, até então, tudo andava como o planejado: café da manhã às 6h e 30min, saída às 7h, cruzar a cidade em seu carro e estacionar, dirigir-se à entrada do prédio. Às 8h, entrava no trabalho e lá passava 8h de seu dia. Nesse dia, algo inesperado ocorreu no curto percurso do carro até a porta do prédio. Nesse dia, o sol ainda não havia conseguido espaço entre as nuvens, e o vento tentava soprando fortes rajadas.

Atravessando o pátio, ele sentiu um odor que chamou sua atenção. Virou-se e olhou o jardim repleto de flores, uma em especial e de imediato desviou seu olhar. Uma rosa vermelha. O perfume que sentia vinha dela; apesar do jardim estar repleto de variedades, ele soube distinguir. Completamente aberta estava. Suas pétalas geometricamente organizadas apresentavam a perfeição – momento que, pensou ele, duraria poucas horas até que, esturricada pelo sol forte do verão, perdesse um pouco seu frescor. Aquele súbito pensamento, tão racional e insensível, o perturbou como nunca. Tentou então refazê-lo: “Que privilégio poder estar presente no ápice da beleza revelada”, e sentiu-se ainda mais lisonjeado em pensar que talvez fosse um dos únicos a contemplá-la assim, em seu estado mais sublime e passageiro. Por uns instantes esqueceu-se de tudo e parou ali perplexo, com os olhos e todos os outros órgãos de seu corpo embriagados por aquela imagem que refletia seu passado. Imerso naquele vermelho aveludado, transportou-se no tempo, para anos quase esquecidos.

“À sua volta ouviu de repente o burburinho de uma grande plateia, ouviu algumas pessoas pedindo silêncio. Sentia aquele frio imenso em sua barriga que ia subindo da espinha até a garganta, como se uma serpente caminhasse por ele, deixando-o arrepiado. Respirou fundo, mas a sensação de emoção misturada ao medo não cedia. Repassava mentalmente suas falas, pensamentos negativos o interrompiam insistentemente, teimando em afirmar que ele não conseguiria. Estava absorto por aquele pessimismo que o puxava para baixo, cada vez mais fundo… quando sentiu o leve toque em seu ombro, não a via, já sentia sim, sua confiança e cumplicidade. Aos poucos, recobrava sua coragem. Virou-se e correspondeu à mão que o procurava. Mantendo aquele enlace ergueu os olhos e deparou-se: cabelos soltos, olhos negros realçados pela pele morena e contrastando com o vermelho de seu vestido. Ao primeiro olhar as mãos se uniram mais fortemente e, através delas, sem que fosse necessária qualquer palavra ou gesto, tudo era revelado. Era um diálogo franco e aberto que não necessitava de qualquer linguagem outra que seus próprios corpos. Era uma sensação tão extrema que as pessoas à volta tornavam-se figurantes, desfocadas, ausentes e aquela energia soltava um grito mudo só escutado por eles. Caminhando entraram no grande salão, percorreram de mãos dadas o espaço até o palco.

A hora era chegada. As mãos continuavam unidas apesar disso. Apesar de não se sentir preparado, ele agia como se estivesse, e, mais que isso, inventava seu próprio universo, no qual, completamente seguro, mergulhava em seus afazeres rotineiros e acabava esquecendo quem era ou o que buscava. Indagava se aquilo era um sonho ou simplesmente vida. Seu futuro parecia tão certo que a própria perfeição tornava-se ambígua: pharmacon. Seu desejo era tão intenso que o levaria até seu objetivo, sem maiores empecilhos. Ao alcançá-lo, porém, não recordava mais o caminho. Não lembrava de seus passos, encontros, desencontros. Só o que via era a chegada, enquadrada em moldura de ouro cravado com diamantes: estático e milimetricamente organizado, exato. Afinal chegara e agora o que mais?

Seu sonho transformava-se em um doloroso pesadelo, no qual a perfeição o levaria à loucura. A contemplação excessiva, a adoração àquele quadro exato o conduzia à autocrítica destrutiva e à descoberta de que a perfeição não poderia ser real fora daquela moldura. Seus erros e pecados realçados e suas conquistas aniquiladas, tornando-o cada vez mais imperfeito, mais comum, mais… humano. Fechou os olhos um instante e só o que via era aquele vermelho que o cegava, e que contraditoriamente o impulsionava, vermelho…

Quando deu por si, já estava novamente fora do salão e o barulho retornava, outro. Todos riam e festejavam. Alguns bebiam, outros se abraçavam, outros ainda tiravam fotos. Apesar daquela inquietação externa, com todos procurando falar, ver e serem vistos, ele mantinha internamente uma ordem inversa: lento e calmo. Revivia, no meio daquelas pessoas, suas decepções, sofrimentos, angústias… e dentre tanta mistura vislumbrou o amor, num breve e intenso relance. Exatamente como imaginava, efêmero e intocável. Sagrado. A chama ia cessando quando, em meio àquele mar de gente, avistou-a e partiu em sua direção. Sem pensar no que fazia: agiu. Sem entender o que dizia: falou, e, sem querer confessou-se. Baixinho ao pé do ouvido proferiu: ‘Obrigado!’.”

Inspirou e ao expirar levou a mão ao encontro da rosa que exalava tal odor. Sentiu o espinho perfurar seu dedo. Não estranhou, de alguma forma já esperava. Trouxe o dedo até a boca e sugou o sangue enquanto admirava o contraste da rosa e o verde da grama.

Literatura

A experiência do feijão (um ensaio sobre os sonhos)

experienciadofeijao

por Clarice Casado

“Os poetas sentem e sabem. A psicanálise explica. Somos viajantes mesmo quando não viajamos. Viajamos sonhando, sem sair do lugar. O sonho é a viagem daquele que quer ir, mas não pode. Não pode ou por não ter barcos, ou por não saber para onde ir. Nos seus lugares mais profundos, o corpo é um navegante. Mora ali um fogo que não se apaga – Freud deu a ele o nome de “princípio do prazer”. Queremos navegar até o lugar (ou o tempo) onde encontraremos o prazer”.

“Um Mundo num Grão de Areia”, Rubem Alves

Quem nunca plantou um pé de feijão na infância que atire a primeira pedra!

A “experiência do feijão”, um desafio às jovens e ansiosas e pequenas mentes em formação (péssima palavra adorada por muitos, formação sugere colocar em uma fôrma, criar mentes exatamente iguais, fazer pequenos “bolos” de mentes infantis, coisa bem horrível!) consiste no seguinte: pegue um chumaço de algodão molhado, coloque-o em um recipiente qualquer, jogue ali alguns grãos de feijão, espere alguns dias, e, você terá um belo pezinho de feijão, em sua casa! Nunca poderá colhê-los, cresce apenas uma pequena plantinha com folhas verdes e uns brotinhos nas pontas, mas tais plantinhas deixam as crianças em uma felicidade tão contagiante, que a gente dá risada à toa, só de ver as carinhas triunfantes deles, “olha, mamãe, como o meu ‘feijão’ está grande!”.

O milagre do crescimento do feijão deve efetivamente perturbar e maravilhar as pequenas cabecinhas dos pequenos. “Como é que só jogando uns feijões ali, naquele algodão, pode fazer nascer uma plantinha?!”; “Serão mágicas as minhas mãozinhas?”; “Sou um bruxo!”; “Será que meu irmãozinho nasceu assim também?”, “Coisa esquisita…”; “Será que se eu cortar uma folha, nasce outra no lugar?”; “Não estou entendendo nada, como um feijão pretão pode ficar verde e com folhas…?!”; e as perguntinhas fantasticamente elaboradas devem brotar e ficar dançando ali no pensamento deles, nas suas mais diversas formas. E é por isso que digo que não poderemos jamais formá-los. Eles nunca serão iguais, seus pensamentos serão sempre diferentes, seus feijões crescerão sempre de maneira única. E, daqui a pouco eles vão brincar e esquecem de tudo, pra voltar à noite, olhar pro pote de novo e dizer, “nossa, papai, o meu feijão tá muito maior ainda, acho que vai quebrar”!

Quando tinha quatro anos, meu filho plantou seu primeiro “feijão”, na escola, seguindo a tradição infantil. Plantou o feijão na terra, ao invés de no algodão, dentro de uma lata de qualquer coisa, pintada de vermelho. E o tal pé de feijão, que foi colocado no quartinho dele, não parava de crescer como um desesperado, pra cima (sim, era altíssimo) e para os lados também. Tomei um grande susto quando o vi: depois de uns dois dias de plantado, ele estava enorme! Pensei que nunca havia visto um pé de feijão “caseiro” ser grande daquele jeito. Já estava começando a meter-me medo, até.

Minha teoria (e tenho várias sobre vários assuntos…) é a seguinte: a contagiante e intensa energia infantil do quarto do meu filho alimentou o pé de feijão, deixando-o forte, alto e lindo. O pé de feijão absorveu as energias positivas da menino e de seu ambiente.

Só lembro-me de ter visto um pé de feijão assim em um lugar: na história do João. Sim, aquela do menino que troca uma vaca por uns feijões, na crença de serem esses mágicos. O homem que propõe a troca garante a João que os feijões são enfeitiçados. João vai feliz para casa, mas, lá chegando, é muito castigado pela mãe, que julga ter sido aquele um péssimo negócio – no que, em princípio, tem razão, já que ninguém, em sã consciência, trocaria uma vaca por uns grãos de feijão, especialmente se e época é de “vacas magras” – ninguém, com exceção de uma criança. Uma criança, aquele serzinho fabuloso e inteligente que pode ser mais criativo que dez adultos com diploma de Harvard juntos!

Pois então nosso querido Joãozinho leva os feijões para casa, toma em seguida um dos pitos mais famosos da literatura infantil ocidental, e assiste, perplexo, sua mãe (que não tinha um diploma de Harvard, mas, se tivesse, não teria feito a menor diferença) jogando os feijões pela janela da casa, furioso. João vai dormir tristíssimo com a atitude da mãe. No dia seguinte, quando acorda, João vê que os feijões brotaram e cresceram de maneira fantástica! Transformaram-se em um enorme pé de feijão, que se alonga até o céu, a perder de vista. João vai até o topo, onde descobre viver um gigante que possui uma galinha que põe ovos de ouro (que, descobre João, o gigante roubara de seu falecido pai). João pega a galinha, aproveitando-se de uma distração do gigante, desce do pé de feijão, com o gigante vindo atrás dele; chega no solo e corta o pé de feijão, com a ajuda da mãe. Volta para sua casa, e é recebido com saudades e culpa por sua mãe.

Fiquei pensando que, assim como João, todos temos nossos grãos de feijão, ao longo de nossas vidas. São os nossos sonhos. Guardamo-los com carinho, queremos mantê-los e cultivá-los, na esperança de um dia tornarem-se realidade, mas, de vez em quando, algumas pessoas fazem questão de jogá-los fora. Algumas pessoas não dão força aos nossos sonhos, não acreditam neles. Mas os verdadeiros sonhos, aqueles que sonhamos com muita fé, realizam-se, independentemente de mãos e pensamentos invejosos. Os verdadeiros sonhos nutrem-se e crescem sozinhos, crescem até o céu, transformam-se em realidade. Alimentam-se de nossa energia, de nossa vitalidade, de nossa vontade de fazer uma diferença no mundo. E acabam por realizar-se, fazendo com que encontremos o tão desejado prazer.

Literatura

Natal é um saco!

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por Cassiano Rodka

É cliché, mas é verdade. Natal é um saco! Várias pessoas implicam com essa data comemorativa pelas mais diversas razões. E eu tenho as minhas.

Natal é tempo de reunião com a família, de trocar presentes, de encher o bucho. “E isso é ruim?”, pergunta a senhora do fundo. Não, isso é ótimo! Ninguém está lá para comemorar o aniversário de Jesus – quem é esse mesmo? – , mas para encher a cara com os primos, rechear o estômago com presunto e ovos moles e ganhar as mais variadas tentativas de agrado material. “Você não gosta de ganhar presente?”, pergunta o menininho da primeira fila. “Ele não gosta de ter que trocar os presentes que não gostou”, diz a mãe baixinho – mas não o suficiente que eu não ouça – para o filho. Não, não, errado, moça. Eu não sou difícil de dar presentes, acho qualquer lembrança válida. Mesmo. “Então qual é o teu problema??”, pergunta irritado um velhinho da terceira fila. (Talvez a essa altura seja válido explicar que estou falando para uma plateia de 26 pessoas, uma caravana de curiosos que veio ouvir os meus porquês e aguarda um possível – não vai rolar – brinde natalino na saída.) Meu senhor, sem maiores delongas, explico-me.

Caros amigos, irrita-me a neve falsa e a maldita roupa do Papai Noel. Quem já se disfarçou de bom velhinho deve me entender melhor nesse quesito. Natal nos Estados Unidos, bem como na Europa é sinônimo de inverno. Isso justifica a relação da data com bonecos de neve e crianças encasacadas. Mas no Brasil o Natal acontece no verão, num calor invariavelmente infernal. Por que diabos importamos a ideia de um Natal frio? É quente! E é MUITO quente! E isso é razão suficiente para não fantasiarmos um pobre familiar – normalmente o mais gordinho – numa roupa vermelha vergonhosamente calorenta. A ideia de um Papai Noel tropical que usa calção de banho e curte uma praia já permeia a publicidade há um tempo e eu realmente gostaria que fosse adotada por completo. “Um Papai Noel de calção é absolutamente ridículo!”, diz uma moça ao lado do marido que concorda. Mais ridículo que um vestido com roupa de lã num calor abrasador de quase quarenta graus? Ela pensa e franze o beiço como quem talvez concorde – mas não. Por que não adaptar esse feriado às nossas condições climáticas? Sorvete, mar, praia, calor, bermuda, esse é o nosso Natal. Para os americanos seria tão fácil – e natural – fazer isso, eles certamente tomariam todas as providências necessárias para transformar o feriado e atender às condições do país deles. Mas a gente importa tudo. E engole como vier. Natal é um saco no Brasil porque é falso. É um faz de conta importado que não reflete o que somos. E é isso o que me incomoda.

É isso, amigos. Obrigado por terem vindo!

(A caravana aplaude. Não que concordem comigo, aplaudem porque aprenderam que é isso que se faz nessas horas. Levantam e saem apressados do salão. Alguns insatisfeitos com a falta de brindes, outros pensando em comprar algodão pra pôr na árvore.)

Literatura

Pessoas-urso

pessoasurso

por Clarice Casado

Nada sei sobre ursos. Ou melhor, sei, sim. Atacam. E não há nenhum deles vivendo em florestas no Brasil. Engraçado, pois sabemos, por meio de filmes (em geral, norte-americanos), que os ursos podem ser animais muito ferozes. Mas a imagem infantil que temos de urso também é a de ursinho de pelúcia, uma coisa fofa e absolutamente acariciável. Parece uma fofura, à primeira vista. Mas em realidade, não é. É da sua natureza ser agressivo.

Conheci uma pessoa-urso. Sim, tive contato com uma. Quando a conheci, parecia doce, amável, perfeita para acariciar os outros. Estava sempre ali, esperando para atacar. E dando-me a impressão de ser perfeita. Mas ninguém é perfeito. Todo mundo sabe, mas eu demorei a aprender isso. A tal pessoa-urso acabou me ensinando, na marra. Pelos piores meios, aprendi que não se deve confiar em ninguém plenamente. Tenha sempre um pé atrás.

O sofrimento, dizem, leva ao engrandecimento. Não creio. Discordo. Sofrer é ruim. Aprendemos com os erros? Detesto essa expressão. Os erros (dos outros) nos ensinam a odiar. E odiar é muito bom, dizem os psicólogos, psiquiatras, pessoas que trabalham com a mente humana. Penso que é bom, também. O ódio é que nos faz fortes. Não as experiências ruins. As experiências ruins devem ser esquecidas. Mas o ódio sempre acaba ficando, de uma maneira ou de outra. E isso é péssimo. Precisamos aprender a conviver com o ódio, não deixando que nos domine.

As pessoas-urso estão por toda a parte. Em realidade, hoje sei que uma boa parte das pessoas são pessoas-urso. O problema é saber identificá-las. Mas hoje estou mais perita no assunto: carinho em excesso não é normal, vindo de alguém estranho. Desconfie de quem bajula muito, de quem beija muito, de quem abraça muito, de quem quer parecer a pessoa mais perfeita do mundo. Não deixe que o urso sufoque-o. Tente sufocá-lo.

Analisem-me, por favor. Não estou nem ligando.

Literatura

Colorado

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imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

Segue o vermelho.
A massa se desloca lentamente.
Confiante.
Mais do que nunca
Como um animal em busca da caça
Agarra-se ao corpo
O manto
Como uma marca
Das que se fazem com ardor
(Amor)
Suor nervosismo
E grita grita
Agita (-se)
Nada o detém
E a massa canta
Entoa o grito de guerra
O coração que bate bate bate
Acelerado
Confunde-se com a batida da massa
A massa vermelha em festa
A massa que cresce junto com o pulsar
O espírito que parece deslocar-se dali
A crescente batida que se traduz
Num grito
Num urro
Animal
A massa unida na celebração
Pranto.
Riso.
Lágrimas.
Cansaço.
Exaustão.
Satisfação.
Vermelha.