Clarice Dall’Agnol

Literatura

De homens e bichos

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por Clarice Casado

Meu pai nasceu em 1947, e eu em 1974, e eu não acredito em numerologia. Mas exatamente neste instante, quando resolvi começar deste jeito esta crônica é que percebi isso. Separados que somos por estes 27 anos, nunca tinha me dado conta disso. Meu pai sempre achou meio cabalístico o número “7” em sua vida. Diz ele que é cercado de “7”. Apresentei-te aqui, pai, mais alguns, veja só… Mas, pergunto, afinal (a mim mesma): que diferença isto fez nas nossas vidas? Talvez nenhuma. Mas talvez seja por essa e por outras que acho que somos almas gêmeas. É, porque alma gêmea não é só o “amor da sua vida”, mas também pode ser aquela pessoa que tem uma ligação fantástica com você, e você não sabe explicar o porquê. Isso é alma gêmea.

Eu e ele mantemos uma correspondência eletrônica há mais de cinco anos, desde que percebemos que a Internet e a comunicação por escrito seriam a melhor maneira de aproximar dois caladões como nós. E então começamos a nos falar assim, e falamos em tudo e sobre tudo. Desde o tempo e outras amenidades, passando pelas novidades da vida do meu filho (neto querido dele), com suas travessuras e conquistas, até filosofia e literatura. Ótimas conversas. Íntimas cartas.

São cartas tão bonitas, que tenho até um arquivo de todas elas, recebidas e enviadas, guardo tudo. Dali tiro muita inspiração. Ele me surpreende toda vez. Sempre digo a ele que deveria escrever também, porque, sinceramente, acho que ele escreve muito melhor que eu. (Pai, vai escrever, vai!).

A última carta, que recebi hoje, uma resposta a uma outra que eu havia enviado antes, tinha como título a interrogação “Sumida?” (o engraçado é que carta eletrônica tem título, é como se você classificasse os assuntos, é uma espécie de biblioteconomia epistolar, se é que posso mesmo dizer tamanha loucura….). Bom, mas a tal carta, recheada de assuntos interessantíssimos e super bem escritos (como sempre), trazia um fato, um simples fato, que, narrado por ele, tornou-se fantástico.

Peço a ele agora licença para contar o fato aos meus leitores, ainda que não da maneira especial com que ele fez. Antes, porém, preciso fazer um breve histórico dos acontecimentos que antecederam tal fato.

Certa vez, há alguns anos, meu filho e eu demos a meu pai dois periquitos que eram nossos. Ele seria o guardião de nossos periquitos em Porto Alegre. Na época, meu filho, então com quase três anos, as havia “batizado”. Meu pai resolveu “rebatizá-las” de Cá e Bê, em homenagem à minha irmã e minha mãe, respectivamente, já que as pequenas “periquitas” eram um pouco briguentas, assim como as verdadeiras “donas” dos nomes (desculpem-me, Mana e Mãe, mas eu precisava dar ao leitor essa explicação, eu sei que vocês na verdade se amam…!!!). Por serem tão briguentas, meu pai separou-as em duas gaiolas. Ainda assim, contava ele, “trocavam farpas” as danadas!

Recentemente, então, em uma bela manhã de outubro, meu pai foi surpreendido pela gaiola da Bê sem o piso. Chegou mais perto, e constatou que ela havia fugido pelo fundo. Deveria ter se mexido muito a bichinha, fazendo com que caísse o piso da gaiola, e, portanto, ficasse completamente aberta. Não conseguia entender como aquilo havia acontecido, pois tinha sido sempre super cuidadoso. Mas o fato é que a Bê fugira, ou, como ele preferiu chamar, “libertou-se”. O título da carta eletrônica que ele me enviou contando o fato era “Bê Libertada”, sendo que ele iniciava a carta dizendo que eu não pensasse que ele estava a copiar Torquato Tasso, (de “Jerusalém Libertada”).

Ora, mas isso nem importava naquela hipnótica carta. O que importou, isso sim, foi a maneira com a qual ele lidou com o assunto. Libertou-se a Bê, não fugiu. Ali, em meio à selva de pedra, talvez tenha sido, segundo ele, antes de morrer, por alguns instantes feliz (ela, que nunca tivera antes liberdade), voando livre pelo céu azul sem igual da cidade. A periquita deve ter mesmo morrido logo, já que ela era um passarinho criado em casa, que não saberia sobreviver nos céus da cidade grande. Sequer sei se periquitos criados em casa tem tanta capacidade de voar. Bom, nem nós, humanos, sabemos viver seguros em meio à selva de pedra, o que dizer de uma pequena periquitinha indefesa? Voou. Deve ter sido mesmo feliz por alguns instantes, ou algumas horas, porque imagine-se que maravilhoso para um pássaro deve ser voar no azul… Pássaros em realidade nasceram para voar. E, sabemos bem, que coisa bem horrível é passar-se uma vida fazendo-se algo de que não se gosta, ou estar em algum lugar onde não se quer estar. Mas Bê libertou-se, e, creio, meu pai até ficou feliz com isso.

Mas a libertação da Bê não foi o conteúdo da mais recente cara dele. Não. A mais recente fala da periquita que ficou, a Cá. A Cá, coitadinha, após a libertação da Bê, continuou sua vida de periquita, mas não muito feliz. Apesar das constantes brigas, sentia falta da Bê. Na época da libertação da Bê, meu pai comentou que não sabia o que aconteceria com a Cá. Na carta mais recente, porém, ele disse que já imaginava que isso iria acontecer: a Cá morreu. Ele entrou em seu escritório caseiro, olhou a gaiola, e encontrou a Cá agonizando. Meu pai acha que ela morreu de tristeza, pela falta que sentia da Bê. Disse ele que depois que a “Bê saiu pelo mundo”, a Cá não mais “cacagritava” (segundo meu pai, o som que os periquitos fazem, mistura de cacarejo com gritos), não mais bicava o jornal do fundo da gaiola, o que adorava fazer, e, ainda por cima, deixou de comer o bastãozinho de cereais que meu pai colocava pra ela, e que geralmente os pássaros amam. E então ele me pergunta e conclui: “Tristeza? Acho que sim. Morreu de tristeza a Cá. E, depois, querem fazer tanta diferença entre homens e bichos…”.

É, Pai. Não acho que haja diferença entre homens e bichos quando se fala em tristeza, não. Aí está. Somos iguaizinhos. Eles podem sofrer com a perda e com a morte tanto quanto nós. Mas o estranho é a “não consciência” da tristeza. Claro, porque os bichos não possuem a consciência do sentimento, mas o têm. Esquisito, não? Algo parecido ocorre com as crianças pequenas. A consciência dos sentimentos mostra a maturidade da criança. Mas como é horrível começar a ter consciência dos sentimentos… Vivemos tão felizinhos até o momento em que, sem nem sabermos por que, somos colocados, pela primeira vez, face a face com a tristeza, a saudade, a paixão arrebatadora, a perda, a morte. É nesse exato momento que a gente começa a amadurecer. E algumas experiências de amadurecimentos são duras, com perdas inestimáveis. Foi talvez o que tenha ocorrido com a pobre Cá, que, de tão triste, faleceu. Sem sua companheira (nem que fosse para brigar!), que sentido haveria para que ela permanecesse ali?

Senti agora uma saudade estranha, saudade de coisas que não voltam mais. Essa foi a dor de saudade da Cá. Dor sem tamanho.

Literatura

Linguagem virtual

linguagemvirtual

por Clarice Casado

Se você tem um filho adolescente em casa, ou convive intensamente com um (ou alguns!), já deve ter percebido o fenômeno: eles não só falam um dialeto que lembra vagamente o português, como o escrevem de maneira tão estranha, mas tão estranha, que às vezes não é possível entender quase nada!

Em uma interessante e recente propaganda veiculada em uma das maiores rádios do país, vozes adolescentes soam: “Aí, tipo assim, vamu lá?” e “Meu, tá ligado, é suça…” ou ainda “Cara, tipo assim, é foda…!”. Logo em seguida, uma voz de locutor diz mais ou menos isto: “Leve seu filho à exposição de Antonio Gaudí no MASP, de tal dia a tal dia, antes que seja tarde demais”. Depois de ouvir a propaganda, ri-me sozinha. Perfeita. Muito bem bolada.

O problema não são as gírias, já que elas existem há muito tempo, e existirão por muito tempo, renovando-se a cada mês, a cada dia. Gírias são interessantes, são um tipo de marca cultural de um povo em uma determinada época. Gírias são a língua viva, a a língua falada, a língua em estado bruto. As pessoas costumam identificar-se com os pares da mesma idade através das gírias. É muito comum ouvirmos, “Ih, Fulano, não diz ‘que bárbaro’, porque mostra a sua idade!”.

O problema, hoje em dia, é a ausência de palavras, a repetição de termos sem sentido, a mesmice. Os adolescentes têm muito a dizer, quem convive com eles sabe disso. O problema não é este. O problema, e é disso que tenho medo, é que não sabem, muitas vezes, como dizer. Não é uma regra. Não estou dizendo, de maneira nenhuma, que absolutamente todos sofrem do “problema”, porque conheço alguns que não (por um acaso, esses “alguns” são os raros que gostam de ler…). Mas uma boa parte, infelizmente, está contaminada!

Dia desses, li um bilhete de um adolescente a outro, e encontrei as seguintes “palavras”: “vc”, “tb”, “eh”, “naum”, “toh”, “soh” e “bjs”. Sim, essas “palavras” estavam em um bilhete escrito a mão! Na mesma hora, entendi: quando eles conversam pela Internet, pelo conhecido MSN-Messenger, utilizam-se dessas “palavras”, já que as mensagens devem ser rápidas. Usam abreviaturas (vc = você; tb = também; bjs = beijos) e também outras palavras acentuadas, que, na Internet, aparecem, em alguns casos, como “eh”, que é equivalente a “é” e “toh”, que é “tô”, por exemplo. Isso sem falar no “naum”, que é, em realidade, “não”. O til não existe mais. Ou, pelo menos está com os dias contados…!

E então, o que me veio à cabeça imediatamente foi isto: talvez a língua portuguesa escrita esteja iniciando um novo processo de mutação, ao qual estamos assistindo, mas não temos ainda a total percepção do fenômeno. Um processo de mutação como os diversos que vêm ocorrendo com as línguas do mundo inteiro ao longo dos séculos, desde que o ser humano soltou o primeiro grunhido pré-histórico e rabiscou o primeiro traço em uma caverna qualquer.

Se os adolescentes escrevem assim em bilhetes, ou seja, da mesma maneira como comunicam-se pela Internet, em breve estarão escrevendo assim em provas e trabalhos escolares e até no próprio exame Vestibular. Se só se acostumam a escrever assim, não conseguirão, em breve, escrever mais a língua portuguesa “normal”. Os adolescentes de hoje são os jornalistas, os executivos, os professores, os advogados, os publicitários, os escritores (!) de amanhã e de depois de amanhã, que estão criando uma nova “norma culta”, será? Bem, não se pode negar que é assim que ocorre a evolução linguística. Se todo mundo resolver começar a escrever “eh” em vez de “é”, em algum tempo o novo vocábulo acabará sendo incorporado à língua escrita! Minha nossa, que loucura…

E só o que podemos fazer é que ficar assistindo a evolução, quietinhos. Continuamos escrevendo “certinho”, falando “certinho”, e, muitas vezes acabamos por não compreendê-los. Será a “nova língua” a causadora de um gap de gerações da virada do milênio? Vamos esperar para ver. E enquanto isto, vc naum prefere tb ir treinando? Eh uma boa ideia…! Bjs!

Literatura

As lágrimas de Nietzsche

nietzsche

por Clarice Casado

Comprei um livro hoje. Um livro como qualquer outro. Mas não é um outro qualquer. Foi um livro que me chamou. Costumo comprar livros por indicação de pessoas. Pessoas nas quais confio. Pessoas que são intelectualmente interessantes, estimulantes. Ou é assim, ou é porque a obra é um grande clássico, ou ainda, porque achei o título fantasticamente atraente. Amo títulos. Títulos representam o início e o fim. E o meio, também. Mesmo em se tratando de livros onde o autor não esteja nem ligando para início, meio e fim. Os bons escritores sabem que um bom título é a alma da obra.

Gosto de títulos, e ponto. Já comprei muitos livros em razão de seu título. Mas este foi especial. Entrei em uma livraria hoje à tarde, sem nenhuma pretensão literário-consumista específica, e “ele” atropelou-me, sem a menor cerimônia, falando, não melhor, gritando alto como criança em dia de festa de aniversário: “Leia-me!”. Não era apenas um pedido. Era uma exigência. Sim, “ele” ordenou-me que o lesse: Quando Nietzsche Chorou. Quem não cederia a tal título?

Não vou mentir. Pouco sei sobre Nietzche, sua vida e sua obra. Sei o que alguns professores mencionaram a seu respeito na faculdade de Letras, e lembro-me de algumas coisas comentadas pelo meu marido quando estudou as obras de Nietzsche em seu mestrado em Direito. Cheguei a começar a ler O Anticristo, umas de suas mais célebres obras, mas não terminei.

É, há alguns livros que não termino. Simplesmente decido que não vou terminá-lo, e pronto. Nenhuma culpa, nenhum remorso, nada. Leio diversos livros ao mesmo tempo, romances, poesias, crônicas, contos, teoria literária, linguística. Termino apenas aqueles que conseguem capturar-me. E muitos me capturam. Muitos capturam minha alma, minha essência, meu corpo, até: sigo lendo livros que me dominam, que não me permitem deixá-los. Que me fazem querer permanecer para sempre com eles, e eles comigo, mesmo quando terminam.

Nietzsche não me capturou, ao menos há alguns anos, quando tentei lê-lo pela primeira vez. Isso não quer dizer que nunca será capaz de capturar-me. Pelo contrário, tentarei de novo, obviamente. Por enquanto, mergulharei na ficção do psiquiatra norte-americano Irvin D. Yalom, autor da obra. Nela, os personagens principais são, nada mais nada menos que o jovem médico Sigmund Freud, o próprio Nietzsche à beira do suicídio, e ainda o fictício médico Josef Breuer, que será encarregado das sessões de psicanálise do grande filósofo alemão.

Disse Vargas Llosa que os temas escolhem os escritores, e eu penso que os livros escolhem os leitores. Quando Nietzsche Chorou escolheu-me hoje. Disse “Leia-me”, com todas as letras, e eu ainda posso ouvir a sua voz penetrante me chamando. Quando Nietzsche Chorou deseja-me. Deseja cada pedaço de mim. O que temo, agora, é de não corresponder à altura de tanto desejo.

Literatura

Mistérios das mil e uma noites

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imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

O elevador para no sexto andar. Olho impaciente o relógio. Quase oito horas, estou atrasadíssima (como sempre), e a praga do elevador resolve parar no sexto andar, ele poderia saber que estou atrasada, mas convenhamos, é claro que não sabe, é um elevador, afinal. Pensamentos idiotas como este costumam invadir-me antes das dez horas da manhã, o horário em que minha mente realmente acorda. Meu corpo acorda às seis e meia ou sete, e a mente demora mais umas duas ou três horas para começar a funcionar. Sempre fui assim, e não tenho nenhuma intenção de tentar mudar aos trinta anos. Mesmo porque não sei se conseguiria mudar algo que faz parte da minha natureza.

Mas estava no elevador que havia parado no sexto andar, e a porta se abre e entram um homem e uma mulher, exatamente nesta ordem, sim, ele entra antes dela. Não me surpreendo, a princípio, porque, nos dias de hoje, a ausência de cavalheirismo no mundo todo é gritante. Ele traja um terno, sapatos, gravata, roupas de trabalho, roupas de executivo. Ela é quem chama a minha atenção: roupas típicas do Oriente Médio, mas não sei de onde. Vem-me automaticamente Sherazade ao pensamento, Sherazade contando histórias para seu marido durante mil e uma noites para não morrer. Uma longa túnica, cabelos escuros e longos, cobertos por um discreto véu azul turquesa, maquiagem muito carregada nos olhos, pulseiras, colares e anéis aos montes. Anéis. Meu olhar pousa mais um tempo nas mãos dela. Não há só anéis, há também uma pasta. Uma pasta dessas de executivo, parecendo ser masculina. Imagino se será dele. “Ah”, penso, são os vizinhos muçulmanos. Sim, a pasta deve ser dele, ela a está carregando. Em minha mente, vêm todas as ideias pré-concebidas que nós, ocidentais, temos sobre as mulheres muçulmanas: submissas, sofridas, inertes, sem voz ativa. Isso é o que sempre ouvimos. Mas volta na mente Sherazade, tão cheia de magia, tão cheia de coragem, tão cheia de imaginação e criatividade, tão sutilmente dominadora…

Mas, sim, a pasta deve ser dele. Cheiram a curry, ervas, lá sei, eles têm um cheiro diferente, de temperos. Imagino se têm também uma personalidade tão temperada quanto o cheiro que exalam. Cumprimentam-me com um cordial “bom dia”, mas bastante discreto. Ela mantém a cabeça baixa durante toda a viagem até o segundo subsolo, onde ambos guardamos os carros.

Segundo subsolo. Agora observo (sem ser vista), como irão sair do elevador. Ele na frente, ela seguindo atrás, ainda com a pasta na mão. Dirigem-me um rápido “até logo”, seguem até seu carro, e eu ainda discretamente observando-os. Enquanto entro no meu carro e dou a partida, vejo que ela entrega-lhe a pasta, mas não entra no carro. Choque. Ela não estava indo com ele. Ela apenas tinha descido para carregar-lhe a pasta, e desejar-lhe um “bom dia de trabalho” ou algo que o valha na cultura deles. Fico imaginando o que ela lhe sussurra ao ouvido, com um belo sorriso. Sorriso. Parecia bem feliz.

Chocou-me aquela oriental felicidade dela, aquela felicidade toda àquela hora da manhã, depois de ter acompanhado seu marido até o carro, carregando sua pasta de trabalho. Chocou-me o fato dela parecer tão orientalmente feliz por estar ali, carregando a pasta do marido e depois sorrindo, feliz. Um choque ocidentalmente previsto. Ocidentalmente preconceituoso. Um choque ocidentalmente sem motivos, como se eu fosse superior a ela, ou melhor do que ela, ou mais independente que ela, ou mais livre que ela, por estar ali sozinha, indo para o trabalho carregando a minha própria bolsa e a minha própria pasta, dirigindo o meu próprio carro, em um mundo ocidental, como já disse antes, onde atualmente é raro ver um homem dar a prioridade de passagem a uma mulher em uma porta de elevador ou em qualquer outra porta.

Vejo-a afastando-se lentamente, como se dançasse. Vejo a túnica leve e livre, e muito solta, dançando com ela, no ritmo dela, ao som de uma música inaudível e invisível, a música das palavras dela – suas palavras de Sherazade – e penso que ela também é muito livre, em realidade. Ser livre é poder carregar a pasta de quem se ama sem ter a menor vergonha disso, para provavelmente depois receber muito em troca.

“Carregamos pastas” das pessoas que amamos diariamente. De nossos filhos, de nossos maridos e esposas, namorados ou companheiros; de familiares, de amigos queridos, de colegas de trabalho, e todas essas pessoas carregam também as nossas. E vale a pena, quando faz-se com carinho. As recompensas sempre são boas, principalmente quando a ajuda é reconhecida. E precisamos saber como fazer com que os outros reconheçam nossos feitos, nossas doações de alma, nossas renúncias, bem como temos de aprender a reconhecer o apoio e dedicação que recebemos dos que nos rodeiam. Creio que essa troca constante seja essa uma das principais fontes para um perfeito entendimento mútuo.

Não sei exatamente qual seria a recompensa da minha Sherazade do elevador, mas pelo sorriso satisfeito dela, certamente seria muito boa. Deve agora estar lá, contando-lhe histórias, enfeitiçando-lhe o pensamento, penetrando-lhe a alma, fazendo-o perfeitamente feliz.

Literatura

Esquecendo…

esquecendo

por Clarice Casado

Apavoram-me, às vezes, os mecanismos de funcionamento da minha mente. Não entendo absolutamente nada, nadinha desse assunto. Só entendo uma coisa, e entendo-a muito, mas muito bem: sou naturalmente esquecida. Sou daquelas esquecidas contumazes, sabem? Daquelas que parecem que têm sempre a cabeça na lua (aliás, que ótimo lugar para se estar com a cabeça, em muitas situações da vida…).

Mas o estranho é que não esqueço de coisas importantes. Não. Sei bem todos os meus compromissos, sejam de trabalho ou domésticos. Esqueço das pequenas coisas, uma chave, uma bolsa, um papel sem muita importância. Mas pequenos esquecimentos que podem alterar o curso do seu dia. Está bem, vocês, caros leitores, devem estar pensando, ih, mas todo mundo se esquece dessas pequenas coisas, uma vez ou outra. Mas eu esqueço sempre!

“Você só não esquece a cabeça, porque está grudada no corpo”. Você já ouviu isso milhões de vezes, é um ditado popular, e, se for bem analisado, é bastante irritante. Eu considero-o muito irritante. Mesmo porque, sinceramente, eu me esqueço da minha cabeça diversas vezes, em diversas situações. Eu contrario o ditado! Canso de esquecê-la em casa, descansando, quando tenho de ir a um lugar que não estava com vontade de ir, por exemplo. Esqueço-a também sempre que meu dentista (coitado, ele se esforça) resolve explicar-me métodos ultra super modernos de escovação, etc, etc…

Acabo de chegar à conclusão que esquecemos as coisas de propósito. É! É isto Esquecemos quando queremos, mesmo que inconscientemente. Nossa mente arquiteta um plano infalível para que esqueçamos coisas que, em realidade, não estávamos com a menor vontade de fazer. Por exemplo, se você chegou na garagem do seu prédio e esqueceu a chave do carro, era porque, em realidade, não queria sair naquele dia… Se esqueceu a carteira, era porque, no fundinho da alma, não estava nem um pouco a fim de pagar contas…! Ora, vai me dizer que minha teoria não é excelente? Eu achei fantástica. Bem, ao menos, agora posso sentir-me um pouco menos culpada pelos meus esquecimentos, afinal, foi minha mente quem quis, e não eu…

Literatura

Na cama, na areia

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por Cassiano Rodka

És tu na cama dormindo. E sonhas com magos, castelos e bichos. Sou eu ao teu lado sorrindo. Contando teus cílios, sentindo teus cheiros. És tu ao meu lado sonhando comigo, me vendo acordado num sonho antigo. No sonho, me deito e durmo na areia depois de uma longa batalha vencida. Deitado ao teu lado, sou eu sorrindo. Teus olhos tremendo, cerrados, em transe. Na areia, sou eu deitado e teu o sorriso. Na cama, o sono e sou eu o vencido. E sou rei de um castelo de areia que se desmancha a cada passo de um gigante. E caem as torres e esfarelam-se os soldados. E o gigante lento se aproxima. Um passo, uma torre, um passo, um soldado. Em quantos passos serei eu o esfarelado? Sou eu o rei e és tu o gigante deitado ao meu lado. Que sonha comigo deitado na areia. Que já foi parte do castelo de um rei. Que agora é farofa no prato de um gigante. Que és tu no meu sonho e ao meu lado dormindo. Sonhando comigo num sonho onde não sou rei, mas soldado vencido. Pelo sono. E talvez por um gigante. E sou eu vencido sorrindo. E és tu a princesa dormindo. Deitada ao meu lado, em sonho, ao meu lado, na cama. Um rei vencido: o sono. Um castelo esquecido: um sonho. E não sei mais se me sonho acordado ou se durmo contigo. Pois se na cama acordo e te vejo sorrindo. De olhos cerrados e cabelos rebeldes. E sujos de areia, castelo e farofa. Ou sou um rei que sonha ao lado de um gigante ou uma torre onde, adormecida, dorme uma princesa. Mas eu sei: sonhas comigo. Na cama, na areia ou na torre. Sei que lá ou aqui nos encontramos. E eu sou teu e tu és minha. Em sonhos de areia.

Literatura

Letra de médico

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por Clarice Casado

Levei até um susto quando ele entrou na sala de espera do consultório esbaforido, terno cinza, gravata, mais de cinquenta anos, perguntando pela Doutora A. A secretária também deu um pulo na cadeira, porque o cara quase gritou.

Eu estava ali como estavam vários outros pacientes, lendo meu livro bem tranquila, e nem esperava aquela cena. Às vezes tenho a impressão que todas as coisas engraçadas ou inesperadas ou malucas só acontecem comigo, só para que eu tenha que escrevê-las depois, coisa de escritora maluca e metida a besta (!). Mas o homem já está a atazanar a vida da coitada da secretária enquanto eu ainda estou pensando nisso, e eu ouço, “Minha filha, eu sou o pai da fulaninha, paciente da Doutora Fulana, e estive em uma farmácia tentando comprar este remédio”. Mostra a receita à secretária e continua, “E o homem da farmácia me falou que o nome do remédio estava errado aqui na receita e que ele não podia me vender o remédio; então, resolvi ir embora e eu mesmo consertar o erro, e levar a receita a outra farmácia. Lá chegando, o funcionário me fala que não pode me vender também, porque há uma rasura na receita!”.

A essas alturas, a voz dele já estava exaltadíssima, o rosto meio vermelho, desafogou discretamente a gravata, e a coitadinha da secretária, muito delicada e magrinha, que trazia no olhar um misto de muita educação com perplexidade, disse, prontamente, “A doutora Fulana está em férias, senhor, mas vou pedir a outro médico da clínica que faça outra receita para o senhor, só que o senhor tem que esperar só um minutinho, porque ele está em consulta”, e o homem, “Está bem, minha filha, mas que seja muito rápido, porque eu não quero levar uma multa, estou parado em fila dupla! Ah! Mais uma coisinha, me faça o favor de mandar essa doutora melhorar a letra, viu? Isso é um absurdo!”. A secretária nem responde, só sobe as escadas voando para falar com o outro médico, enquanto eu, sentadinha no sofá, tento segurar o riso, procurando desesperadamente meu caderninho de anotações dentro da bolsa! “Melhorar a letra!”, essa foi de lascar, meu senhor!

Enquanto o homem bufa de raiva sentado no sofá à minha frente, começo a rabiscar o que agora vem a ser essa crônica, com um sorriso nos lábios e um olho de vez em quando no homem.

A secretária dá uma descidinha sem a receita, e o homem diz, “Ainda não? Pelo amor de Deus, eu vou levar uma multa, vamos logo com isso!”, e ela, “Senhor, ele estava em consulta e eu o interrompi para pedir sua receita, ele já a está escrevendo, já, já fica pronta”, e ele, “Bem, eu só espero que seja legível, tenha a santa paciência…!”. A simpática e magrinha secretária corre de novo escada acima, e desce em dois segundos já com a receita nova e com letra legível e impecável na mão. Entrega-a ao homem, que antes de sair, repete todo o sermão novamente, agora com requintes de crueldade, dizendo como haviam sido antipáticos os caras das farmácias, e do tempo que ele havia perdido, etc, etc. A secretária o informa que, se acontecer novamente, ele não precisa ir até o consultório, é só pedir que a farmácia telefone para a médica, que ela autoriza a venda do medicamento. “Ah, mas não vai acontecer novamente, de jeito nenhum, minha filha”, e completa, em tom “professoral”, “Melhorar a letra, melhorar a letra!!!”. E vai embora, esbaforido como entrou.

No momento em que saiu, explodimos, eu e ela, em riso convulsivo! “Melhorar a letra, que coisa engraçada, imagina, como se a médica fosse uma aluna de primeiro ano primário!”, era o que eu dizia à secretária, que também ria, agora aliviada. Sugeri a ela que comprasse caderninhos de caligrafia para todos os médicos, e os obrigasse a praticar diariamente, para evitar que reclamações como essa voltassem a acontecer…!

Fiquei pensando que até era de se entender o homem, já que tinha mesmo perdido grande tempo indo, voltando, mas o problema todo foi o tom absolutamente arrogante que utilizou, sentindo-se superior a todos. Foi uma cena ridícula, a verdade é esta, e impressiono-me a cada dia mais com a incapacidade das pessoas de serem gentis.

Mas o melhor da história foi quando, ao contar ao meu médico o acontecido da sala de espera, ouvi dele, “Puxa, logo a letra da Fulana, que é a melhor de todos os médicos da clínica…!”.