Clarice Dall’Agnol

Literatura

A foto do autor

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imagem: Cassiano Rodka

por Cassiano Rodka

Abriu a caixa sem saber que ali dentro descansava um quebra-cabeças de sua vida.
Nunca havia tido muito interesse pela fotografia, mas as imagens que saltaram da caixa penduraram-se nos seus cílios. Não sabia que havia registro do famoso incidente na piscina. Que vergonha, não podia pensar naquele dia, mas agora já fazia tanto tempo que chegava a ser… A viagem ao Chile! Uma das melhores épocas de sua vida. Podia lembrar perfeitamente do cheiro dos Andes, bem como da noite em que embebedou-se com os amigos na cozinha do albergue… E lá estavam eles todos perto daquele monumento cujo nome agora lhe escapava à lembrança… Ela revirava as fotos e deparava-se com pequenas lascas de sua vida. Um brinde em 84, um festival de caretas em 87, um inusitado aniversário dentro do avião em 2001… Vendo tudo aquilo, sentia que sua vida era imensa, algumas lembranças eram tão distantes que pareciam ter ocorrido numa outra vida. Podia até ser um pensamento pretensioso, mas ela sentia que sua vida era… Parou os olhos em uma fotografia. Em meio a um mar de imagens, encontrou uma foto do autor. Nunca mais havia pensado nele, mas agora que o tinha estático em suas mãos, podia perfeitamente ouvir sua voz. Lembrou de sua risada alta e debochada. E de como tapava os olhos quando ria demais, para parar as lágrimas que lhe surgiam na face aos borbotões. Era uma pena que tinha acabado… Perdeu totalmente o contato com ele. Agora pensava ter sido uma bobagem, teria agido diferente, se ao menos… Por que havia sido tão boba? Sim, ele era egoísta às vezes, e ela realmente achava que ele estava errado, mas… Olhando a foto, sentia falta de encostar seu rosto no do autor. De ficar abraçada, quase pendurada nele no fim das festas, meio dormindo, meio flutuando… Estaria ele ainda escrevendo? Ela gostava do que ele escrevia, menos quando era sobre ela. Não gostava de se ver nas histórias dele, de saber como ele enxergava o seu jeito de ser. Preferia não ser transformada em palavras, preferia ser a moça debruçada nos ombros dele a adejar… Separou algumas fotos e fechou a caixa. Tentou focar seus pensamentos nos afazeres, mas os momentos evocados pelas fotos sobrepunham-se em sua mente. Em especial, o sorriso do autor. Talvez ele ainda lembrasse dela. Quem sabe a visse em fotografias? Era possível que ainda escrevesse sobre ela. Ela – secretamente – gostava da ideia de permanecer sua personagem. De estar nos olhos dele, nas lágrimas e na ponta da caneta. Quem sabe no sorriso?… Mas preferiu afastar o pensamento sacudindo sua cabeça. Se ele ainda escrevia sobre ela, era melhor que ela não soubesse. Então deixemos assim.

Literatura

A vida em monocromo

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por Clarice Casado

Acabo de aprender com o Fabilipo (o Fabiano Liporoni, da coluna de Cinema deste site, baita escritor) que, em cinema, monocromo é termo usado para designar filmes que sejam de uma cor só, aquela cor meio bege, “sépia”, acho que esse é o termo certo. Muitas vezes, nesses filmes há objetos em cenas específicas que aparecem coloridos, para que haja um certo destaque, para chamar a atenção, para simbolizar algo.

Lembrei-me, então, de A Lista de Schindler, um filme que gostei muito quando vi e que gosto até hoje, toda vez que passa na TV eu assisto de novo, e choro de novo, e me choco de novo, e fico pensativa durante dias, de novo. Nesse aclamado filme do Spielberg, há uma cena em que uma menininha aparece caminhando sozinha na rua, em meio a uma confusão qualquer de alemães perseguindo judeus, não me lembro bem, acho que era o esvaziamento de um gueto, tiros, correrias, um horror. Ela caminha sozinha na rua em meio àquela bagunça atroz, e seu casaquinho de inverno é vermelho, só o casaquinho. Algumas cenas adiante, o choque: vê-se, em uma carreta carregada de corpos de judeus mortos, um corpinho com um casaco vermelho… Aquela foi uma das cenas de cinema que mais me chocaram e me marcaram em toda a minha vida.

Fiquei pensando que há períodos em que nossas vidas ficam em monocromo. Sim, durante algum tempo, pelos mais diversos motivos, parece que tudo fica bege, sem graça, sem cor. Mas sempre há os vermelhos que se destacam, aquelas coisas que nos fazem ficar em contato com a felicidade e com a realidade, nem que seja um pouquinho só.

Até ontem, tive que tomar um remédio que me tirou do ar. Deixou minha vida em monocromo. Que sensação horrorosa. Isso nunca tinha me acontecido. Fiquei boba, desconectada, meio aérea. Fiquei não sendo eu, e eu odeio não reconhecer a mim mesma. Olhar no espelho, e ver uma outra, rosto tranquilo demais, meio sem expressão, nem triste, nem feliz. Gosto de ser eu, sentir-me eu. Reagir como eu mesma reagiria. Fiquei até com medo daquela mulher que me habitou por uns cinco ou seis dias. Por sorte, eu tinha meus vermelhos, minhas conexões com a “Eu” verdadeira. Me agarrei nos vermelhos, para não me perder. E me salvei mesmo, porque voltei. Fiquei vermelha também.

Nesse momento em que escrevo, tenho só a lembrança boba daquela boba que estava em mim. Reconheço-me, agora. Nos meus gestos, no meu olhar, nas palavras que digo e que escrevo. Abraço-me e digo, bem-vinda de volta, amiga.

Literatura

O dia em que pensei ter matado o Coelho da Páscoa

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imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

Ou, pelo menos, o dia em que supostamente matei a ideia de sua existência.

Todos os anos, na semana que antecede a Páscoa, tenho o costume de colocar pequenos ovinhos nos chinelos dos meus filhos todas as noites, quando estão dormindo. Transformo-me, portanto, no Coelho da Páscoa, ou, por que não, passo a ser, naqueles poucos dias, a sua longa manus.

Meu filho mais velho, sete anos, adora isso tudo. Ainda acredita piamente na existência do Coelho, bem como na do Papai Noel. Neste ano, porém, creio que fiz bobagem. Tenho a firme convicção de que comecei a acabar com a sua inocente crença no Coelho. Fiquei extremamente triste.

Passo a contar, então, o que aconteceu.

Comprei todos os chocolates de Páscoa para meus dois pequenos (a menor tem pouco mais de um ano, mas já começa a curtir a maravilha doce e marrom) umas duas semanas antes do domingo de Páscoa. Junto com todos os chocolates, comprei também os mini-ovos que costumo colocar nos chinelinhos deles. Cheguei em casa, escondi todos os chocolates, mas acabei deixando separados em cima de minha mesa de cabeceira o tubo com os mini-ovos, para não esquecer de colocá-los nos chinelos à noite. Foi o meu maior erro.

Um pouco antes de dormir, meu filho veio ao meu quarto e viu o tubinho de plástico transparente com os ovinhos, e perguntou, “Mamãe, quem te deu esses ovinhos?”, e eu, já pensando, “Ai, fiz besteira”, respondi, “Ah! Eu ganhei de um aluno meu”, e ele, “Hum, devem ser bons, quero comer depois…”. Bom, aparentemente, tudo bem, tudo tranquilo, sem mais perguntas cabeludas sobre o ocorrido. “Ufa”, pensei.

Quando ele dormiu, fui até seu quarto e coloquei dois ovinhos de cores diferentes nos chinelos. Fiz o mesmo no quarto da pequena. Fui deitar-me.

No dia seguinte, fui acordá-lo para ir para a escola, e ele logo viu os brilhantes ovinhos em seus chinelos, “Olha, Mamãe, o Coelho já me deixou uns ovinhos, que legal!”. E eu disse que era ótimo, que provavelmente ele iria deixar ovinhos todos os dias até a Páscoa, no domingo. Ele foi escovar os dentes, e, quando voltou, disse, categórico, “Mamãe, eu acho que o Coelhinho da Páscoa roubou alguns daqueles ovinhos que você ganhou para me dar, eles são iguaizinhos!”, e eu, apavorada, disse, “É mesmo, filho! Será que esse Coelho é meio ladrão?”.

Para tudo! Ladrão, Clarice? Ficou louca? Chamar o Coelho da Páscoa de ladrão???? Ora, mas eu estava numa situação de emergência, foi a primeira coisa que me veio à cabeça! Depois, mais calma, pensei que eu poderia ter dito, “Não, filho, vai ver que o Coelho comprou no mesmo lugar que o meu aluno”, mas não, a mãe de família aqui resolveu confirmar a hipótese do filho de sete anos de que o Coelho da Páscoa, uma respeitada entidade fantasiosa, era ladrão, ou cleptomaníaco (sim, já que, pensando friamente, porque roubaria, se “ele” é o Coelho da Páscoa e pode ter acesso gratuito a todos os ovos de chocolate do mundo???)!!!

Seguindo na farsa, fazendo de tudo para “salvar” a crença do meu filho no dentuço chocolateiro, disse, “Filho, vou lá ver se ele pegou mesmo os meus ovos, se o tubo estiver meio vazio, é porque ele pegou!”. Óbvio que o tubo estava vazio, e sabemos a razão, o Coelho da Páscoa sou eu! Levei e mostrei o tubo vazio a ele, que ria, satisfeito: não sei se porque em algum momento realmente pensou que eu poderia ter colocado os ovos, ou se porque achou muito engraçado o Coelho da Páscoa ter roubado meus ovinhos para dar a ele! Completei, dizendo, “Poxa, filho, espero que amanhã ele não pegue os meus, né?”.

No mesmo dia, fui a uma loja de chocolates comprar outro tipo de ovinhos para colocar nas próximas noites, sempre firme no meu objetivo de manutenção da fantasia de criança do meu filho. À noite, os coloquei novamente nos chinelos.

Na manhã seguinte, meu filho veio me mostrar satisfeito os ovos diferentes, provavelmente aliviado: o Coelho não era tão ladrão assim… Porém, neste mesmo dia, começou a formular estranhas hipóteses: primeiro, contou-me que um dos amiguinhos da escola teria lhe dito que não acreditava no Coelho, que o Coelho era uma pessoa fantasiada. Eu disse, “Ah, mas que bobagem, o Coelho é um coelho mesmo!”, e ele disse, “Como assim, que tamanho tem o Coelho? Ele é pequeno como um coelhinho, ou grandão?”. Fiquei uns segundos sem responder. Cheguei à conclusão de que nunca havia pensando nisso. Realmente, era muito estranha a ideia de um pequeno coelho carregando tantos chocolates! Respondi que não sabia ao certo (vacilei, vacilei…). Então, ele me pergunta outra coisa: “Mamãe, mas por onde o Coelho entra para deixar os ovos, pela janela?”, e eu disse, “Sim, como o Papai Noel, ué”, nada convicta. “Mas, Mamãe, o Coelho voa, por acaso?”, Ai, ai, ai, agora a coisa tinha ficado feia. Eu respondi “Não, não voa, mas ele deve ter algo parecido com um trenó, né?”. Ele me olhou meio desconfiado, mas parece ter acreditado, “Ah, é…”.

Pronto! Essa derradeira conversa bastou pra que eu entrasse numa crise: será que matei o Coelho da Páscoa para o meu filho? Acabei com essa fantasia de infância? Prezo muito as crenças e fantasias de infância. Acho que deve ser maravilhosa a sensação de crescer num mundo de castelos no ar. Isso é inocência em seu mais puro estado. A criança tem esse negócio loucamente puro de acreditar no improvável. Acreditar sem questionar, acredito porque acredito, e ponto. Nós, adultos inteligentes e extremamente racionais, só acreditamos no que pode ser provado. A criança só deixa de acreditar quando a razão começa a sobrepor-se à emoção. Deixa de crer quando começa a dar-se conta da fragilidade da fantasia. Quando começa a exigir de si mesma e dos adultos provas para a existência dos seres fantásticos e das fantasias. Creio que deva ser assim.

Contei essa história ao meu pai, avô nato (segundo sua própria definição), comentando sobre minha preocupação por ter aniquilado com a crença do Coelho para o meu filho, e ele disse-me algo que achei precioso: “Enquanto interessar, a criança acredita. Ela é muito mais inteligente do que nós pensamos”.

Meu filho ainda se interessa pela fantasia, e por isso, acredita nela. Ou, pelo menos, faz força para acreditar nela. Talvez esteja travando uma luta com ele mesmo sobre a crença. Mas seu interesse faz com que a crença na fantasia ainda vença a dúvida. Ele quer ser criança. Quer esperar o Coelho. Quer sentir aquela curiosidade. Quer ganhar e comer os ovinhos de chocolate. O interesse pela fantasia alimenta a crença e faz com que ela permaneça. O interesse faz com que meu filho permaneça inocente: permaneça criança.

Literatura

Coração na mão

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por Cassiano Rodka

Ceifaram-me o coração. Sem dó ou piedade, arrancaram-no do meu peito. Não houve dor ou lágrima. E eu não morri. Ao contrário, senti-me estranhamente mais vivo. E quis vingança. Montei em meu cavalo, determinado em tê-lo de volta. Cavalguei várias terras e, por quase oito meses, enfrentei vários cavaleiros que nada tinham a ver com o tal furto cardíaco. E segui caminho, destruindo vilarejos, derrubando reinados, matando dragões. Até te encontrar. Ali num canto, sem se mover. Coração na mão, pingando no chão. Um rosto sereno, um sorriso leve e uma certeza, então. Não era inimigo o suposto vilão. Mas sim, o único a me estender a mão.

Música

Chico volta a cantar

por Cassiano Rodka

“Voltei a cantar
Porque senti saudade
Do tempo em que eu andava na cidade
Com sustenidos e bemóis
Desenhados na minha voz
E a saudade rola, rola
Como um disco de vitrola
Começo a recordar
Cantando em tom maior
E acabo no tom menor

Ó, meu samba, velho amigo
Novamente estou contigo
Tua vida me transtorna
Bom filho à casa torna
De ti nunca me esqueci
Voltei a cantar”

Com esses versos, escritos em 1939 por Lamartine Babo, Chico Buarque iniciou seu show no dia 30 de março em Porto Alegre, deixando claro que nem a literatura, nem o futebol conseguem mantê-lo por muito tempo afastado da paixão pela música. Com cinco apresentações lotadas no Teatro do Sesi, ficou provado que o lugar de Chico é mesmo no palco.

Quando a silhueta do cantor apareceu em uma tela branca onde se lia uma poesia-partitura de Villa-Lobos, a plateia aplaudiu e vibrou em alto volume. A tela se levanta, revelando o compositor, que se põe ao microfone no centro do palco desabafando “Voltei a cantar”. Durante o show, Chico apresenta todas as canções do seu mais recente lançamento, o disco “Carioca”, intercaladas por canções das mais diversas épocas de sua vida. O compositor não abre muito espaço para os grandes hits de sua carreira, mas não se enganem, há vários clássicos no repertório, incluindo “Mil perdões”, “Eu te amo” e “Morena de Angola”, em que o músico toca calimba, um instrumento africano composto de uma caixa de madeira com linguetas de metal que produzem som ao serem dedilhadas com os polegares. Considerando que uma canção como “A banda” tem 40 anos de idade, dá para entender perfeitamente a sua exclusão. Chico montou um setlist impecável que mantém o espetáculo interessante durante todo o tempo. Em quase duas horas de apresentação, 33 músicas são tocadas pelo cantor e sua banda. Os músicos que acompanham Chico são excelentes e muitas vezes trocam de instrumento para atender às necessidades de cada canção. A tecladista Bia Paes Leme faz um dueto com o compositor na música “Imagina”, composta em parceria com Tom Jobim em 1983 para o filme “Para viver um grande amor”, de Miguel Faria Jr. Outro que toma o centro do palco ao lado de Chico Buarque é o baterista Wilson das Neves, que divide os vocais de “Grande Hotel”, gravada no disco “O som sagrado”. Sua animação ao microfone levanta a galera, que aplaude com entusiasmo o músico. O show conta com felizes surpresas para os fãs do cantor. Uma delas é “Bye Bye Brasil”, que estreia nessa turnê com um novo arranjo feito pelo violonista Luiz Cláudio Ramos. “Cantando no Toró” também aparece inesperadamente no repertório e conquista a plateia facilmente com seus contagiantes versos: “Sambando na lama de sapato branco, glorioso / Um grande artista tem que estar feliz / Sambando na lama e salvando o verniz”. Fiquei especialmente surpreso com a inclusão de três músicas do álbum “O grande circo místico”, composto em 1982 em parceria com Edu Lobo. As músicas infantis de Chico não costumam encontrar espaço nas apresentações do cantor, mas no show “Carioca”, temos o prazer de ouvir “A história de Lily Braun”, “A bela e a fera” e “Na carreira”, tocada apropriadamente no encerramento do show com Chico entoando ” Hora de ir embora / Quando o corpo quer ficar / Toda alma de artista quer partir / Arte de deixar algum lugar / Quando não se tem pra onde ir”.

Chico presenteia a plateia com dois bis. Em seu primeiro retorno ao palco, ele canta “Sem Compromisso” e “Deixe a Menina”, ambas cantadas em coro pela multidão que levanta das cadeiras para dançar. Como se não fosse o bastante, ele retorna com os acordes de “Quem te viu, quem te vê”, que fazem surgir as lágrimas no rosto de todo grande chicólatra. Quem não chorou nessa, chorou na última canção do show, “João e Maria”, cantada em coro. Fim de show, satisfação geral. Chico deixa o palco e uma plateia sorridente. Pela lei do Chico, a gente era obrigado a ser feliz.

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imagem: Cassiano Rodka
Literatura

Gabriel e Mario

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por Clarice Casado

Gabriel e Mario eram amigos.
Latino-americanos.
Dois grandes amigos que gostavam de escrever.
Conheceram-se por conta do ofício.
Escreveram muitas coisas lindas, diferentes, fantásticas, chocantes, sensíveis, exóticas, comentadas, recomendadas.
Marcaram épocas.
E ainda marcam.
Leituras obrigatórias.
Na América Latina e no Mundo.
Eram melhores amigos.
(Entre Amigos).
(Dicionário Amoroso da América Latina).
Um dia, há trinta e um anos, em um acesso de fúria, Mario feriu Gabriel. Socou-lhe o olho, que ficou roxo, roxo, marcado.
Foi abatido em público, em meio à uma première de um filme no México.
Marca deixada por um homem que sentia-se traído pelo melhor amigo.
(O Amor nos Tempos do Cólera).
Causa: uma mulher.
A mulher de Mario.
(A Linguagem da Paixão).
Consequência: final de uma amizade forte de anos e anos e anos.
Diz-se que nunca mais se falaram.
Gabriel quis documentar o fato (ou pós-fato).
Pediu a outro amigo que tirasse uma foto dele com o olho ferido.
E tirou duas, uma sorrindo, outra sério: largo bigode e olho esquerdo muito roxo.
(Viver para Contar).
(A Verdade entre as Mentiras).
Alguns anos depois, Gabriel ganhou o Prêmio Nobel de Literatura por seu Cem Anos de Solidão e Mario concorreu à presidência da República no Peru.
Permanecem escrevendo.
Desentendimentos à parte, podemos ter o imenso prazer de ainda ler suas grandes obras.
(Memória de minhas Putas Tristes).
(Travessuras da Menina Má).

Literatura

O jogador invisível

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por Cassiano Rodka

Nunca me dão bola, só porque eu nunca faço o gol. Mas eu gosto de jogar. Quando eu visto a camisa do time, sinto ela tatuada no corpo. Meu orgulho é visível. Eu, não. Se estou no time, é porque não tiveram opção. Os bons já haviam sido escolhidos e… cá estou. Mas não estou reclamando, eu gosto de jogar. Eu gosto de toda a função, desde o apito inicial até as gritarias ininteligíveis entre os jogadores. Raramente pego a bola, mas às vezes ela acaba sendo passada para mim. E não há nada como ter ela nos pés. Ficar no controle total da situação por alguns segundos, driblar os adversários, se aproximar do gol e… Ops! Na trave, mas foi perto. O capitão do time fica puto, mas eu não. Eu gosto de jogar. Me concentro no movimento da bola, nos gritos da torcida, nos apitos autoritários do juiz, nos empurrões dos adversários. Falta. Me rio com as reclamações. O jogo segue por muito tempo no zero a zero e o capitão está a mil. Ele quer gol. Quando eu menos espero, vejo a bola chegar – sem querer, é verdade, o centroavante chutou mal – aos meus pés. Levo ela, meio atrapalhado, em direção à goleira, com cuidado, sem vacilar. Sinto a adrenalina do possível gol e chuto com vontade… Ops! Direto nas mãos do goleiro. Eu blasfemo e rio. O capitão, não. O jogo segue com o time fazendo o possível para marcar um gol e me impedir de chegar perto da bola. Para desespero do capitão, eles só têm sucesso na segunda missão. Escanteio, cartão amarelo, reclamações, um gol do adversário, uma chuteira voando longe – é impressão minha ou ninguém mais achou isso engraçado? -, tiro de meta, apito final. Comemoração de uns, angústia de outros. No vestiário, o capitão dá uma bronca na gurizada e deixa o time, esbravejando que teve uma péssima tarde. Mas eu não. Eu gosto de jogar.

Literatura

Prova de fogo

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por Clarice Casado

“Filhos… Filhos?
Melhor não tê-los!
Mas se não os temos
Como sabê-lo?
Se não os temos
Que de consulta
Quanto silêncio
Como os queremos!
Banho de mar
Diz que é um porrete…
Cônjuge voa
Transpõe o espaço
Engole água
Fica salgada
Se iodifica
Depois, que boa
Que morenaço
Que a esposa fica!
Resultado: filho.
E então começa
A aporrinhação:
Cocô está branco
Cocô está preto
Bebe amoníaco
Comeu botão.
Filhos? Filhos
Melhor não tê-los
Noites de insônia
Cãs prematuras
Prantos convulsos
Meu Deus, salvai-o!
Filhos são o demo
Melhor não tê-los…
Mas se não os temos
Como sabê-los?
Como saber
Que macieza
Nos seus cabelos
Que cheiro morno
Na sua carne
Que gosto doce
Na sua boca!
Chupam gilete
Bebem shampoo
Ateiam fogo
No quarteirão
Porém, que coisa
Que coisa louca
Que coisa linda
Que os filhos são!”

“Poema Enjoadinho”, Carlos Drummond de Andrade

Oi, leitores!

Hoje eu estava naqueles terríveis dias nos quais a inspiração não chega, não vem, não está querendo se manifestar de jeito maneira (como dizia meu pai, há muitos anos atrás). Escritores sabem bem do que estou falando, aliás, artistas em geral o sabem. Mas, como dizem, não é só suficiente a inspiração, tem que ter “transpiração”, ou o que seja, blá, blá, blá, o exercício “forçado da arte faz a arte melhor e coisa e tal. Nem sei se concordo com isso de verdade, pois, de nada adianta sentar-se pra escrever e escrever um monte de bobagens desconexas, se é por isso, vamos fazer uma lista de supermercado e pronto. Ok, ok, colegas que querem me censurar, está bem, admito que um pouco de exercício forçado não faz mal a ninguém… Mas depois que se lê o que se escreveu em um dia não inspirado, dá vontade de nunca mais chegar perto de uma tela de computador, tamanhas as porcarias que podem sair.

Está bem, chega de enrolação. Pois esta que vos fala estava justamente a pensar em sua falta de inspiração nesta semana enquanto aguardava que seu filho tomasse um banho e se vestisse após sua aula de natação.

Pergunto-lhes, estimados leitores: já tiveram a oportunidade ímpar de frequentar um vestiário infantil? Vocês dirão, “Claro, quando éramos crianças”, e eu direi, “Ah, mas aí não vale!”. Pergunto-lhes se já estiveram em um vestiário infantil depois de adultos, com filhos, sobrinhos, netos, primos. Já? Quem já esteve, já deve até estar rindo sozinho e imaginando o que a cronista vai contar.

Pois bem, enquanto era espremida entre mães, babás, avós e crianças (muitas, que, em conjunto, tem a capacidade plena de colocar abaixo um estádio de futebol, se quiserem), formulei uma hipótese: se alguma pessoa estiver em dúvidas sobre ter ou não um filho, vá a um vestiário infantil bem lotado. Se conseguir sair ilesa, achando que a experiência foi interessante, vá em frente, garoto, você nasceu para ser pai! Se, no entanto, tiver vontade de sair correndo, desista, você deve continuar cuidando só de si mesmo para sempre, e olhe lá…

A experiência é mais ou menos a seguinte: imagine um espaço exíguo, com mais ou menos trinta crianças entre dois e dez anos, gritando, correndo, pulando, cuspindo, chorando, dando chutes, comendo, bebendo suco, tudo isso, em meio a banhos longos ou curtos, dependendo da criança, com direito a gritos e intervenções (em sua maior parte furiosas) de mães, babás, avós, e raros pais, tias e agregados. Adicione a esse verdadeiro caos um calor do cão, infernal, você querendo ficar só de calcinha ou cueca por causa do bafo terrível, enquanto os anjos não querem colocar xampu, demoram um século para se ensaboar, se secar, colocar a roupa, pentear-se, isso, sem falar nos pobres azarados que acompanham meninas, pois essas têm que secar os cabelos e penteá-los ao som de uivos e choros e gritinhos, e ainda completar com perfumes, tiaras, micropregadores da Hello Kitty que insistem em pular de suas mãos para o chão enlameado de água, sabão, suco de uva, bisnaguinha com requeijão, xampu e (talvez) um pouco de xixi!!!

Observo vestiários infantis há anos: não há uma só criatura acompanhante de crianças que pareça divertir-se, nem que por um segundo. Eu confesso que já tentei, inclusive fazendo com meu filho piadinhas sobre as bagunças das crianças e bravezas e xingamentos dos acompanhantes ao redor, mas, olhem, é difícil…! Você pensa em tudo que tem a fazer quando chegar em casa, e, é duro achar toda aquela função linda e maravilhosa. As pessoas que saem do vestiário têm feições tão esgotadas quanto a de lutadores e boxe após uma árdua luta: rostos suados e enfurecidos, braços e pernas cansados, muita fome (o exercício é grande).

Assim, caros leitores, façam a experiência: é batata! Se conseguir se divertir, realmente, parabéns!!! Você é um herói e merece ter muitos filhos. Mas, como eu já disse, se achar que aquilo tudo é uma loucura, esteja certo que realmente o é. E é apenas uma parte pequenininha dessa inacreditável aventura que é a paternidade. Devo admitir que, mesmo com toda a chatice plena da saga semanal do vestiário infantil, a tal da aventura vale a pena. E muito a pena. Afinal, toda a aventura inclui riscos. E este, meus estimados leitores, é um deles: o de nunca ter a plena certeza de ser capaz ou não. Mas, como sabê-lo, sem tentar?