Clarice Dall’Agnol

Literatura

Alinhado

alinhado
imagem: Cassiano Rodka

por Cassiano Rodka

À Camila e à Laura (porque promessa feita em almoço é coisa séria)

Parado em frente ao espelho, ele observava todos os defeitos que só uma imagem invertida pode nos fazer perceber.
Deu o nó da gravata em estilo francês com todo o cuidado e a atenção que esse nó exige. Arrumou a posição dos óculos em perfeita simetria com o rosto. Deu uma última conferida no seu visual, garantindo que estivesse tudo onde deveria estar. Deu uma rápida concordada com a cabeça, como se sua imagem no espelho lhe desse permissão para sair às ruas. Era seu primeiro dia à procura de trabalho depois de uma semana de autopiedade em casa. Passou exatos sete dias inconformado com a sua demissão. Repassou na cabeça inúmeras vezes a conversa com o chefe. Em algumas delas, ele recriava o final. Via-se levantando da cadeira e cobrindo o chefe de socos e pontapés sob os aplausos de todos que trabalhavam na empresa. Em outras, apontava-lhe o dedo dizendo todas aquelas verdades que todos nós sabemos, mas nunca falamos aos nossos chefes. (Vocês sabem bem do que estou falando, somos todos cúmplices) Lembrava com ódio da indiferença no rosto enrugado do velho. “Corte de gastos”. Ele era um gasto. Sempre achou que fosse um funcionário. Mas o que mais o preocupava era que teria de entrar em contato com várias pessoas de novo, conversar, convencer, fingir e vender-se, e ele não era bom nisso. E ele não aceitaria nada menos que o velho emprego, ou seja, ele teria que trabalhar novamente em casa. Era a única maneira que havia de ele ter controle sobre o ambiente de trabalho, e isso é algo que ele não abriria mão.

Na sala impecavelmente limpa, conseguiu achar defeito na posição dos quadros. Não estavam alinhados. Culpou mentalmente a faxineira, ele jamais teria permitido que isso acontecesse, mas a faxineira… Ela sempre abria a porta ao caos. Ele sempre a fitava com olhos reprovadores, de quem olha uma estante de sebo com grandes clássicos deteriorados. A grande verdade é que morava naqueles olhinhos uma vontade gigantesca de corrigir a faxineira. De remontá-la como um Lego de carne e osso, de torná-la uma pessoa melhor, como ele tinha se tornado desde que havia afastado o caos de seu mundo. Ele considerava a sua infância uma fase apocalíptica (não seriam todas as infâncias merecidamente assim?) e, aos seus olhos, ter se tornado um adulto o teria feito uma pessoa em perfeito equilíbrio. E ninguém o lembrava isso mais do que a faxineira. Aquela franzina senhorinha que mal conseguia manter os olhos em contato com o seu chefe, pois ele a fitava de modo tão estranho, que a fazia se sentir pequenininha. (Ao bem da verdade, ele sentia-se superior perto de qualquer ser humano à sua volta. Mas a história segue independente de minhas deliberações) Alinhou com perfeição os quadros. Girou a chave e saiu da casa. Saiu com aquela velocidade de quem hesita – uma falsa rapidez, lentidão enrustida. Calmamente fechou a porta sem produzir ruídos. A casa, em silêncio, estranhou a sua ausência.

Quando a chave voltou a girar na fechadura, não parecia mais hesitante, nem importava-se em fazer barulho. Ele entrou e bateu a porta com força em uma tentativa de trancar para sempre tudo o que existia do lado de fora. Cenas da batalha para encontrar um emprego misturavam-se em sua cabeça. Vozes, rostos, sensações, tentativas de homicídio imaginárias. Largou seu peso sobre a poltrona. Pôs a cabeça entre as mãos. Desespero. Raiva e frustração. Impedia-se de chorar. Chorar era abrir uma porta ao caos. Não cederia à pressão. Levantou a cabeça decidido a retomar o seu equilíbrio constante… Mas o que era aquilo? Os quadros não estavam alinhados! Veio-lhe a imagem da faxineira novamente, maldita mulher, certamente havia arranjado um jeito de entrar na casa e mexer nos quadros! Foi até a parede e começou a alinhá-los. A tarefa parecia mais difícil do que deveria, ele não conseguia manter todos em perfeita geometria. O que ela havia feito? Ele mexia em um, depois em outro e não adiantava, havia sempre um fora do lugar. Imaginava a faxineira às gargalhadas. Ela sabia muito bem o que tinha feito, havia arranjado uma maneira de romper com a harmonia, estava tudo errado, o abajur não combinava mais com a mesa que não estava mais alinhada ao parapeito da janela… Alguém batia na porta. Ele ignorou as batidas, não podia ceder à pressão, tinha que desvendar o segredo da faxineira, a fórmula que a fazia poder interromper a ordem. Mexia nos quadros, olhava em volta, mudava os objetos de lugar, coçava a cabeça. As batidas na porta tornavam-se mais fortes e insistentes, e ele podia enxergar a faxineira rindo ao lado do seu chefe, os dois abraçados às gargalhadas, como se observassem secretamente o seu desespero quase desequilibrado. Mas ele não cederia, seguiu movendo os objetos da sala como se fosse um grande quebra-cabeças, era necessário reencontrar a harmonia, mas cada gesto parecia apenas colaborar em torná-lo um desastrado ludíbrio da faxineira. As batidas na porta cessaram repentinamente. Um breve silêncio antecedeu o discreto barulho de uma chave girando na fechadura. O ruído era lento, a chave movimentava-se com calma, como se alguém se deleitasse ao fazê-lo. Ele parou de frente aos quadros desalinhados e acompanhou o som da porta se abrindo. Não ouvia passos, mas sentiu uma presença se aproximando. Recusou-se a olhar para trás. Seguia observando a discordância dos quadros. Sentiu seu visitante se aproximando com tranquilidade. Suspirou com o alívio de quem reconhece a derrota após uma longa batalha. E rendeu-se.

Literatura

Capturado

capturado.jpg
imagem: Cassiano Rodka

por Marcella Marx

Guardo na memória quem foste,
só comigo
e por aquele tempo

Guardo na memória teu gesto,
teu instinto tão sincero.
Retratos em movimento;
mais personagem, menos pessoa.

Guardo na memória tua expressão,
sorriso acanhado, eufórico.
Teu abraço,
e quando o preciso, sonho.

Guardo aquela imagem,
por entre mãos adormecidas
e a lembrança de teu presente,
menos material, mais simbólico.

Recuso conhecer-te como é
hoje.
Busco em vão reencontrar-te
e nessa dança me perco
e descubro a mim na lembrança tua
que desperta-me outra.

Não mais te vejo
Deixaste somente a lembrança.

Literatura

Feitiço

Foto: Vanilson Coimbra

Ao Vito, início, meio e fim

Imagino o olhar dele pontiagudo.
Pontiagudo, me cortando.
Ele é o senhor da casa.
Tem aquela presença constante
aquela presença
mesmo na ausência.
Vaga todo dia
faz barulho.
Silencia.
Cria, conta histórias.
E sonhos.
Sempre sonhos…
Inventa.
Experimenta.
E o olhar
cortante que penetra.
Assim o é há sete anos
e assim será
pelo resto de minha vida.
Ele
que em mim habitou.
Ele
que me observa
na noite fria, quente, fria
Ele
que lê meus pensamentos
que me desafia.
Ele
que em mim cresceu.
Tenho medo
de não ser um dia para ele
o que ele hoje é para mim.
Sei que ele sabe de tudo
tudo de mim
E engole todo dia
um pouco do tudo
que eu lhe dou
Minha seiva
Meu amor
Minhas palavras
Meus gestos
Minha alegria
Minha dor
Minha vida toda
E continua iluminando
A cada dia
cada dia
cada hora
minuto.
Vai sempre
iluminar
sempre.

Literatura

Tudo

Tudo_2021

Tem vezes em que a gente olha em volta e crê que tudo é um saco! É tudo chato, repetitivo, batido, datado. E a gente se pergunta quando isso tudo vai acabar de uma vez por todas, e mais: afinal para que tudo isso, por que estamos aqui? E a resposta não vem. Não nesses dias, ao menos. Ela chega naquelas outras vezes. Nos dias em que a gente acorda com vontade de fazer tudo, de ler todos os livros, ouvir todos os discos e assistir todos os filmes. Mergulhar nas mais diversas culturas e inventar uma nova. Ou três. Conhecer todas as partes da Terra, explorar cada canto, compreender cada credo, cada ritual, ter todas as religiões. Não ter nenhuma. Ir a todos os shows e todas as festas, divertir-se por completo das mais variadas maneiras que há para se divertir. Conhecer todas as pessoas bacanas de todas as partes da Terra. Fazer sexo com aquelas especiais. De todas as formas possíveis. E das impossíveis também. Ler cada palavra escrita, escutar o som de cada instrumento, ver tudo que o olho puder tocar. Aprender tudo, compreender tudo e ensinar. E aí o tempo parece curto. E a vontade é de torcer os ponteiros dos relógios, entupir as ampulhetas, impedir o tempo de correr tão rápido e a gente sempre atrás. Estamos sempre atrasados. Para tudo. Mas nesses dias, tenho a impressão de que alcanço o tempo, que engano o passar das horas por alguns preciosos instantes. E compreendo tudo. E me vem uma vontade gigantesca de estender o braço e segurar o mundo inteiro com uma mão. Depois dar-lhe uma mordida na parte mais carnuda. Engoli-lo por inteiro. Não ser apenas parte dele, mas fazer ele parte de mim.

E isso é tudo.

Literatura

Feche os olhos…

fecheosolhos

por Clarice Casado

Este não vai ser um texto comum. Prepare-se.

É um jogo. Um desafio. Você pode confiar em alguém com seus olhos bem fechados? Tente. Não vai lhe custar- nada, além de alguns minutinhos de sua atenção.

Chame um amigo, ou sua mãe, seu pai, um irmão. Quem estiver por perto no momento em que você começar a ler este texto.

Chamou?

Peça que ele leia para você o que segue, em letras maiúsculas. A partir do próximo parágrafo, sou apenas a narradora silenciosa. O locutor de minha narração é a pessoa que você acaba de eleger, e que está aí, ao seu lado, ou à sua frente. Obedeça fielmente ao seu locutor, e liberte-se. Locutor, pode começar a ler:

FECHE OS OLHOS. SIM, BEM FECHADOS. NÃO OS ABRA ATÉ QUE EU MANDE ABRI-LOS.
ERA UMA VEZ UMA PRAIA. LINDA, AREIAS BRANQUINHAS. MAR AZUL, OU VERDE, VOCÊ É QUEM MANDA. A PRAIA ESTÁ DESERTA. NÃO HÁ ABSOLUTAMENTE NINGUÉM, MAS HÁ O SOL, E ELE ESTÁ BRILHANDO MUITO, MAS MUITO FORTE. VOCÊ ESTÁ LÁ.
AGORA JÁ NÃO ESTÁ MAIS SOZINHO. A PRAIA COMEÇA A ENCHER-SE DE PESSOAS E GUARDA-SÓIS COLORIDOS, UMA MISTURA LINDA DE CORES COMO VOCÊ NUNCA HAVIA VISTO EM SUA VIDA.
VOCÊ DECIDE ENTRAR NO MAR. SÓ VOCÊ ENTRA NO MAR. A SENSAÇÃO É MARAVILHOSA, AQUELA SENSAÇÃO DE MAR BATENDO NO CORPO, LAVANDO A ALMA. ESTÁ SENTINDO?
DE REPENTE, ALGO ESTRANHO ACONTECE: UMA GIGANTE CRIATURA APARECE.
A CRIATURA GIGANTE É UM POLVO, QUE PARECE TER MAIS QUE OITO TENTÁCULOS. PARECE TER VINTE. VOCÊ ENTÃO SENTE MEDO. SEU CORAÇÃO ACELERA. NINGUÉM NA PRAIA PARECE VER NADA. A CRIATURA CHEGA MAIS PERTO, E MAIS PERTO. SEU CORPO ESTÁ IMÓVEL. SUA VOZ DESAPARECEU. A CRIATURA SE TRANSFORMA ENTÃO EM UMA MULHER. UMA LINDA E IMENSA MULHER. AINDA ASSIM, ELA QUER LHE ENGOLIR. E ENGOLE.
ELA É A LOUCA DA CASA. A SUA IMAGINAÇÃO.
PODE ABRIR OS OLHOS AGORA.

Literatura

O carteiro

carteiro

por Cassiano Rodka

Na ponta da caneta, pende uma dúvida.
Paro a cada frase, leio com teus lábios. Temo que o texto paire no ar diante dos teus olhos. Que não atravesse a peneira azul-clara e não atinja as partes certas do cerebelo. Quero dobrar teu equilíbrio. Te deixar na corda bamba por uns instantes e te dar a mão logo ao fim da frase. Quero que as palavras te provoquem coceiras no queixo, seguidas de um esclarecimento reconfortante. Mas temo a peneira azul-claro. E a entonação errada de cada linha. Teus lábios, quando leem, nem sempre correspondem ao movimento da minha escrita.

Carta no cesto.
Me foge a coragem e eu ignoro a vida. Saio pra rua e deixo o saco de lixo na entrada do prédio. A cada passo, me afasto do meu pensamento amassado, esquecido dentro de um saco plástico. E pende a dúvida. E surge a esperança. A possibilidade insana – porém real – de um lixeiro que desamassa o texto, limpa as palavras e, romântico e sujo, assume o papel de carteiro.

Literatura

Magra

magra
imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

O Liporoni e o Moisés (e agora também o Jairo!) que me perdoem, mas hoje quem vai falar de cinema sou eu! Não querendo invadir o espaço de meus estimados colegas de site, quero, como mera apreciadora dessa arte que sou, comentar, com olhos de cronista/contista/meio-poeta, um sensível documentário que assisti recentemente.

Chama-se “Thin”, “Magro/Magra”, em português, e trata da real e dura batalha de algumas meninas e mulheres contra uma das doenças mais comentadas e estudadas da atualidade, o preocupante e arrasador distúrbio alimentar, que pode manifestar-se sob diversas formas, como a bulimia, a anorexia e a compulsão alimentar. Tais distúrbios, penso, ainda não são vistos pela sociedade como reais doenças, ou seja, as pessoas que não convivem ou tenham ouvido falar de alguém que sofre ou sofreu da doença não tem verdadeira ideia dos horrores que podem causar à vida de muitas pessoas, em especial mulheres, que são suas maiores vítimas.

“Thin” é um tocante e pungente relato da dor e do sofrimento de algumas meninas e mulheres que estão tentando tratar-se de seus distúrbios alimentares em uma clínica especializada nos Estados Unidos, se me recordo bem, na Flórida.

A cada cena, a cada depoimento, a cada palavra, o que se vê são moças desesperadas por serem magras, cada vez mais magras. Mesmo estando internadas, parece que há uma força que as empurra constantemente para a vontade de emagrecer sem limites, a qualquer custo, vontade essa muito superior aos seus próprios anseios.

Peguei-me chorando em diversas partes do filme, pensando que aquelas meninas e mulheres pareciam todas comuns, mulheres como eu, com sua vida social, seus estudos, filhos, trabalho, afazeres domésticos. Mas “comuns” não eram, tudo em nome de uma magreza que, em muitos dos casos apresentados no filme (e também, na vida real), era (é) quase impossível de se alcançar, porque cada corpo é um corpo, é impossível que todas as mulheres do mundo sejam como a linda Gisele. E seus rostos eram todos tristes, e todos contavam histórias tristes, histórias de como sempre sofreram a vida toda sendo gordinhas (ou, sendo magras que enxergavam-se gordas), e, quando decidiram fazer um imenso esforço para serem magras ou ainda mais magras, começaram igualmente a sofrer, porque sua vontade de emagrecer poderia um dia matá-las.

O que para mim pareceu é que elas não tinham efetivamente saída: sofriam quando consideravam-se acima do peso, e acabavam por sofrer também quando emagreciam demais, já que a família e a sociedade pressionavam-nas novamente para engordarem, fugindo da doença. Ou, pior, sofriam julgando-se gordas, mas em realidade só viam-se gordas, sem o serem (um dos distúrbios, denominado “distorção de imagem”, faz com que a pessoa enxergue-se e mesmo sinta-se gorda, ainda que magra ou magérrima). Em ambos os casos, o que choca é que quem tem distúrbio alimentar sofre sozinho, sofre escondido. Muitas vezes, o distúrbio está ali, em sua própria casa, e você nem sabe.

Outro problema é que, de regra, quem tem o distúrbio não consegue “comer só um pouco” para ficar dentro de um peso considerado “normal” para aquela determinada pessoa. O indivíduo com distúrbio come muito, e acaba novamente por engordar. Ou come muito e vomita constantemente, o que também é terrível. Ou simplesmente param de comer, recusam-se a comer, podendo até morrer. É um círculo vicioso, que realmente parece não ter fim. Muitas das meninas do filme saíram da clínica e voltaram a ter problemas novamente logo depois.

Não quero aqui falar de clichês, não vou falar da “ditadura da magreza” e nem condenar as revistas femininas e as agências de modelos. Não creio que discursos desse tipo resolvam o problema.

Quero falar aos familiares e aos amigos de meninas e mulheres (e eventualmente homens) que sofrem de distúrbios dessa natureza, quero dizer-lhes que assistam “Thin”. Quero dizer a todos que puderem que assistam “Thin”, para tentarem ser menos fúteis e superficiais na hora de escolher um parceiro, um funcionário ou um amigo, por exemplo. Isso pode ser muito difícil de entender para homens e mulheres, mas o que importa em relacionamentos humanos, sejam eles de que natureza forem, de trabalho, familiares, de amizade, amorosos, são os laços de confiança e respeito que se criam. Digo isso porque pessoas acima do peso são muitas vezes discriminadas, e eu simplesmente abomino qualquer tipo de discriminação.

Compreensão, apoio, conversa e atenção aos sinais de distúrbio: isolamento dentro de casa e recusa à vida social, tristeza excessiva, uso de roupas em excesso, mesmo em tempo quente; comer compulsivamente ou recusar-se ao alimento. Penso que isso seja o melhor a fazer. Ajuda a quem sofre da doença, principalmente. Tentar mostrar que o carinho existe, e deve partir da família e dos amigos, em qualquer situação de desespero.

“Thin” fez-me pensar sobre muitas coisas. Valores, ideias, atitudes. E filmes que fazem pensar devem ser sempre comentados e divulgados. Nem que seja por uma mera apreciadora, como eu.

Literatura

As mães do tempo

maesdotempo

por Cassiano Rodka

Os acordes de um velho órgão ressoavam na velha mansão da montanha. No centro da sala, havia uma enorme mesa retangular com quase todos os seus lugares ocupados por mulheres das mais diversas idades. Sorrisos despertaram em alguns rostos quando reconheceram a melodia que fugia dos tubos do órgão. Aos poucos, alguns assobios timidamente deram as mãos às notas de “Raindrops Keep Fallin’ on My Head” e seguiram com elas até o fim da canção. Aplausos e risinhos. “Esplêndido, esplêndido!”, deleitava-se Edwiges. Depois levantou-se na ponta da mesa. Esse simples movimento teceu uma instantânea rede de silêncio

– Queridas amigas, está aberta mais uma sessão. É importante decidirmos hoje a duração dessa chuva, que já toma conta da cidade por quase duas semanas. Creio já ter sido tempo o suficiente para conscientizarmos alguns dos nossos mais teimosos a não esquecer o guarda-chuva, em especial o Jorginho e o Bernardo, que eram nossos principais objetivos. Além do mais, a umidade está acabando com o meu cabelo!

Risos.

– Semana que vem, temos a viagem à Gramado do colégio São Vasconcelos e sabemos que isso significa muito para essas crianças. E, já que todos foram obedientes no quesito “não esquecer o casaco”, eles merecem essa. Então, Elizabeth, lamento, mas não poderemos deixar a chuva seguir só para estragar o passeio de fim de semana do Albertinho com o seu ex-marido.

– Sabia! Aquele maldito sempre consegue!

– Querida, nós já castigamos tanto o Roberto… Creio que já esteja na hora de irmos em frente nesse assunto.

– Como eu gostaria que lhe caísse um trovão na cabeça!…

– Liza…

– É contra as regras, eu sei… E estamos aqui pelas crianças, não por esse… cretino!

– Exato!

Um rangido agudo e lento tomou conta do salão. A mesa ficou tomada por cabecinhas curiosas que miravam a silhueta na porta. Uma moça encapuzada entrou lentamente. Quando tirei o capuz, percebi uma gigantesca mesa em minha frente, repleta de rostos desconhecidos. Fiquei um pouco assustada com a quantidade de pessoas que me olhavam em silêncio. Não reconhecia os rostos, mas procurava apenas um… Percorreu vários deles com seus olhos azuis e o abanar de uma mão chamou sua atenção. Era Clara.

– Aqui, querida!

Estava sentada lá no fundo, quase ao fim da mesa. Fui até ela.

– Sente-se aqui ao meu lado, a sessão recém começou!

Sentei sem entender o que se passava. Uma matrona na ponta da mesa me olhava, sorrindo. Era a única que estava em pé e, depois de me fazer um sinal positivo com a cabeça, deu procedimento a uma espécie de discurso. Falava do tempo. E dos filhos de algumas das pessoas que estavam na mesa. Logo percebi que só haviam mulheres ao meu redor. O assunto foi tomando um rumo absurdo, a matrona fazia votações e propostas quanto a previsões meteorológicas. Todas pareciam muito animadas com os resultados, mas…

– Clara… O que está acontecendo aqui?

– Estamos tomando decisões.

– Clara… o que ela está falando… essas votações… Isso tudo não faz sentido!

– Somos todas mães. Temos que educar nossos filhos. Se o Felipe não levar guarda-chuva, vai chover. Se a Renata não pegar o casaco, vai fazer frio. É assim que tem que ser.

– Nós não podemos tomar essas decisões!

– Querida… nós tomamos essas decisões o tempo todo. Chuva, frio, neblina… a velocidade do vento, a posição das nuvens no céu… até a temperatura do Sol nós controlamos.

– Isso é uma loucura! Vocês são todas loucas!! Loucas!!!

– Querida, calma. Eu posso lhe mostrar como tudo funciona…

A matrona havia se calado diante dos meus gritos, os rostos sorridentes me olhavam, eu me sentia tonta, o barulho da chuva lá fora, os olhares penosos, a cadeira caindo para trás, Clara chamando meu nome, a mesa infinita, o longo caminho até a saída, o rangido agudo, as lágrimas nos olhos, a enorme porta de madeira escura se fechando atrás de mim.

– Eu realmente achei que ela estivesse pronta, ela…

– Clara, Clara, querida, não se culpe. Todas nós já passamos por isso. É difícil aceitar o que nos pertence. E, além do mais, nós sabemos…

Um silêncio cúmplice se pôs entre elas.

– … Ela voltará quando ele fizer 7 anos.

Entreolharam-se com seus sorrisinhos sábios e o olhar confiante de quem tem o futuro do mundo em suas mãos.

Música

Muito além do CD

por Cassiano Rodka

Antigamente, comprar um disco novo era um acontecimento. Abrir a embalagem de plástico, sentir o cheiro do vinil, olhar o encarte com fotos e letras, escutar as músicas do começo ao fim, mergulhando naquele mundo durante toda a duração do álbum. Com o CD, a sensação era a mesma e aquela coleção de músicas era ouvida por semanas ou até meses. Mas numa época em que o acesso à música através da internet é tão simples, os artistas precisam ir muito além de suas canções para chamar a atenção do público ouvinte.

Baixar um disco pela internet atualmente leva de 15 a 30 minutos, dependendo da conexão, é claro. O acesso à informação pela internet é gigantesco e pode-se conhecer bandas do mundo inteiro com grande facilidade. Esses fatores aliados fizeram com que os fãs de música adquirissem o hábito de baixar novidades diariamente. Ou seja, ouve-se muito mais música em muito menos tempo. É muita informação nova por dia, o que faz com que nos tornemos muito mais exigentes: um disco bom não é suficiente para chamar nossa atenção, ele precisa ser genial. Muito mais que isso, ele precisa ser único.

Alguns músicos, atentos a essas transformações, iniciaram uma revolução que faz seus álbuns irem muito além de suas canções. O CD mais recente do Beck, “The Information”, procura uma maior interação com fãs, aliando o poder do videoclipe à possibilidade de customização da arte contida no encarte. O cantor declarou que esperava que isso aprofundasse a experiência do fã em relação ao seu trabalho. Em vez de ter uma capa definitiva para a obra, Beck resolveu deixar a sua criação nas mãos dos fãs. Sendo assim, o CD vem com vários adesivos que podem ser colados de diversas maneiras, formando uma capa exclusiva para cada encarte, ao gosto do seu dono. Além disso, algumas cópias do álbum vêm acompanhadas de um DVD com um videoclipe para CADA canção. São vídeos caseiros que foram depois espalhados propositalmente no YouTube. Uma forma de lançar não só uma música de trabalho, mas dar espaço a todas.

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Os venezuelanos do Todosantos (minha banda preferida no momento) também reconheceram a força do imagem em movimento, lançando um EP audiovisual. Muito além de agradar apenas os DJs, o disco é um prato cheio para os VJs (os que projetam clipes e imagens nos telões das festas, não os modelos da TV). O EP “Acid Girlzzz” conta com 3 faixas audiovisuais (também conhecidas como “pods”) em formato mp4, que podem ser reproduzidas em iPods, iTunes, DVD players ou DVD mixers de VJs. Na era da internet, é comum ouvirmos bandas que não conhecemos o visual, mas o Todosantos faz questão de já entregar o pacote completo. Perfeito para quem tem o iPod Vídeo. Não é o meu caso. 😦

Mas Trent Reznor, que é o mestre dos avanços tecnológicos musicais, não poderia ver isso tudo e deixar por menos. O Nine Inch Nails adentrou 2007 indo muito além do imaginável, criando um verdadeiro universo para divulgar o novo álbum da banda, “Year Zero”. Tudo começou quando um fã percebeu que uma camiseta vendida na nova turnê da banda continha algumas letras em destaque que formavam a frase “I am trying to believe” (“eu estou tentando acreditar”). Descobriu-se que existe um site na internet no enderço www.iamtryingtobelieve.com que descreve a situação de um mundo afetado por uma droga usada comumente na água que tomamos e que altera os estados da mente. Outros sites foram surgindo questionando os verdadeiros efeitos da droga chamada “parepin”, acusando-a de causar alucinações e ser bioterrorismo. Há também teorias de que o Ano Zero (“Year Zero”, o título do álbum) é daqui a 15 anos, onde um novo mundo ressurge das cinzas desse em que vivemos. Perguntado a respeito, Trent Reznor disse que não queria dar muitos detalhes, mas que “Year Zero” é um álbum conceitual, parte de algo maior. “É como a trilha sonora de um filme que não existe.” Eu diria que é a trilha sonora de uma realidade que não existe. Ainda.

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E não para por aí, algumas músicas novas vazaram, mas não na internet (isso é muito ordinário para Trent Reznor), elas foram encontradas em drives USB em lugares inesperados, como o banheiro de uma casa de shows onde a banda se apresentava. Além das músicas, alguns possuíam imagens que incluem um alienígena e uma espécie de cartão postal apocalíptico com as famosas letras garrafais de Hollywood destruídas e os dizeres “In Memoriam”. Mais uma vez, uma pista que leva a um site: http://www.hollywoodinmemoriam.org, onde há a notícia de um suposto atentado à Los Angeles e fotos de pessoas que teriam desaparecido após o ataque. Há muito mais pistas aparecendo e Trent Reznor certamente criou a maior campanha de marketing já vista na história, incluindo o ouvinte em um verdadeiro universo paralelo. O novo CD do Nine Inch Nails não vem com um DVD bônus, clipes ou adesivos. Ele vem com um mundo inteiro de brinde.

Os outros artistas que se cuidem, pois, atualmente, só faz música quem é Deus.

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