Acordes abafados de guitarra faziam a trilha do meu arrependimento.
A porta se abriu e a anfitriã nos recebeu simpática. Eu mal a conhecia e não ia com a cara dela, mas meus amigos me convenceram a vir. Não costumo frequentar festas com pessoas da minha idade, sempre preferi sair com gente mais velha. Mas lá estava eu cumprimentando a gurizada. Casa lotada, música animada, eu precisando de um drinque. Parei procurando o bar e meu olhar pousou em uma sacada. Eu olhei para ela e ele olhou para mim. Mas me fiz de louca e continuei conversando com o Mário como se não tivesse percebido ele chegando. De imediato, um nervosismo tomou conta de mim. Minha mente não se concentrava em mais nada do que o Mário dizia, meus pensamentos se dedicavam a montar uma cena onde eu via ele se aproximar de mim. Discretamente, meu olhar passou a cuidar os movimentos dele. Foi até o bar e peguei um Samba. Se vou ter que ficar a noite inteira nesta casa, é bom eu começar a beber. Voltei a olhar a moça na sacada. Via ela agora de perfil. E era um perfil hipnótico, nem sei quanto tempo fiquei delineando as curvas do rosto dela. As sílabas gritadas do meu nome interromperam o transe. Meus amigos me acenavam e fui com eles para perto da sacada. Reconheci o Mário e fui cumprimentá-lo, sem demonstrar muito interesse nela, como se eu não percebesse que ele estava louco para se apresentar a mim. Me olhou nos olhos – e que olhos ela tinha! – e pronunciou com orgulho o seu nome, como se aquele fosse o seu título. Ela disse-me o seu com uma delicadeza tímida que despiu suavemente o meu arrependimento. Aos poucos, nossos olhares foram se conhecendo, com aquela naturalidade que, de tão natural, estranha-se. Ela mencionou um curso onde vi ele pela primeira vez e o prendi na mente para só então libertá-lo. Torná-lo real. Vê-la comigo. Era tão certo. Era tão simples. Um breve silêncio na sacada foi logo cortado por uma música que nos convidou a dançar. Concedi a dança. Abracei ela. Ele me enlaçou nos braços. Ela me amarrou nos cílios. Eu era ele. Ela era eu. E, daquele momento em diante, éramos nós.
11 horas e 43 minutos: Felícia gira na cama tentando descobrir um meio de enrolar sua mente que teima em não entregar-se ao cansaço do corpo.
11 horas e 43 minutos: Emanuel sai de casa para o trabalho, para ele o dia está apenas começando.
11 horas e 43 minutos: Dr. Jesus é o primeiro a ver o rosto de Clara que nascera aos berros. Ela nem imagina que horas seriam.
11 horas e 43 minutos: Justo e Maria entrelaçam seus corpos num motel no centro da cidade e Luzia perde a virgindade, mais por modismo que por vontade. Aliás, ela já nem sabe diferenciar um do outro.
11 horas e 43 minutos: Na Suíça, Erick briga com as palavras, tenta uma, troca e recorre ao dicionário. Finalmente decide-se e envia a mensagem ao seu amigo no Brasil.
11 horas e 43 minutos: Cristina dorme há exatas 2 horas e 43 minutos, mas Fidel, seu marido, ainda não chegou e não autorizou a revelação de seu paradeiro.
11 horas e 43 minutos: Seul, Ji Young dirige-se ao refeitório da escola onde pretende almoçar. Kaio, seu aluno, cruza o refeitório chorando. Ji Young vai ao seu encontro e descobre que seu pai acabara de falecer.
Hora do óbito: 11 horas e 43 minutos.
11 horas e 44 minutos, 11 horas e 45, 11 horas e 46 minutos:
Felícia ainda rola na cama, inspira e expira tentando relaxar.
Uma rajada de vento leva o chapéu de Emanuel que espera o ônibus.
Dolores vive o momento inexplicável de esquecimento da dor que acabara de sofrer, ao ver e tocar Clara pela primeira vez.
Justo olha em seu relógio calculando quanto tempo ainda lhes resta.
Danilo encarna seu papel de condutor, Luzia sofre.
Erick recebe a resposta de sua mensagem: saudade!
Fidel chega em casa. Silencioso, tenta… porém não consegue passar despercebido.
Kaio chora abraçado à sua professora.
11 horas e 47 minutos, 11 horas e 48 minutos, 11 horas e 49 minutos.
A caneta em contato com o caderno de anotações…
Ele rende-se.
Meia noite: adormeceu!
Um dia descobri que ele não era apenas o homem que ficava atrás da máquina de escrever por horas e horas a fio. Descobri que ele escrevia, sim, e muito. Coisas que só eu sabia. E entendia. Descobri que ele, acima de todos, era eu, de algum modo. Era eu de várias maneiras, e eu, um pouco ele. Descobri que os dias, meses e anos poderiam passar, mas ele nunca passaria, para mim. Descobri que as palavras, milhões de palavras, eram (e são) o nosso laço mais forte. Palavras escritas, marcadas. Descobri que não posso imaginar um mundo sem ele, e dele retiro várias coisas, muitas ideias e muitos comportamentos, retiro sutilmente, sem que ele perceba. Descobri que, faça chuva, faça sol, faça frio, vento, tempestade, façam-se brigas, faça-se amor, façam-se confusões ou choros ou lágrimas, faça-se qualquer coisa: ele vai estar sempre lá. Descobri que, todos os dias, ele está aqui, entre meus livros, em minhas atitudes, em meus filhos, em meus pensamentos. E em meus sonhos. Descobri que posso descobri-lo, que pude descobri-lo, mesmo depois de tanto tempo. Descobri que o mito encontra-se apenas em mim mesma, e não no ser mítico. Descobri que o destino escolheu que ele me escolhesse sem saber que eu viria. Descobri que há muito a plantar, muito a investigar, muito a desbravar, a olhar, a sentir. Ensinou-me ele. Descobri que hoje é algo único. Amanhã pode ser apenas uma palavra sem sentido. Disse-me ele. Descobri que posso romper com meu medo e abrir-me. Descobri que ele vai sempre ouvir. Descobri que vai sempre apoiar. Que vai sempre estar. Junto de mim. O mundo o tem há sessenta anos, sorte do mundo. Eu, há trinta e três. Sorte a minha sorte.
Um dia me disseram que bebês que morriam antes de serem batizados iam para o Limbo. Eu sempre tive medo do Limbo. Medo, Medão. Quando criança, não tinha medo do Inferno, tinha medo da porcaria do Limbo. Porque o Céu era o Céu, todo azulzinho e lindo. E o Inferno era o Inferno, todo cheio de fogo e chamas e todo vermelho que só, coisa mais horrorosa! Mas o Limbo não era muito definido, aparentemente era um lugar esquisito para o qual ninguém tinha uma explicação perfeita, só se imaginavam as almas lá sofrendo de alguma maneira, sofrendo, sofrendo. Aquela sensação de desconhecido, de coisa meio inesperada, é que me dava um medão. Medo que, de regra, eu não precisaria ter, pois era batizada e não planejava suicidar-me. Sim, tinha também uma história de que os coitados dos suicidas também iriam para lá. Quer dizer, além do pobre do sujeito sofrer em vida e resolver aniquilá-la com as próprias mãos, ainda não ganhava o Reino dos Céus ao morrer: era imediatamente enviado para o meio-termo, o Limbo. Era uma ideia muito louca que nunca aceitei, porque detesto meio-termo. Ou vai ou fica, caramba! Ou dá ou não dá, ou quer ou não quer, ou é ou não é, te decide! Meio-termo, não! Vai ver foi aí que começou a minha birra com a Igreja Católica e seus mandamentos.
Mas, qual não foi a minha surpresa quando, há algumas semanas, leio na capa de um dos jornais de maior circulação e mais respeitados de São Paulo algo dizendo que a Igreja Católica havia “chegado à conclusão” ou “decidido” que o Limbo não existia mais (Ebaaaaaaa!!!!!)! Fiquei entre feliz e perplexa: feliz, porque não preciso mais ter medo (na verdade, o medo de infância ainda me habitava…), o Limbo não existe mais!! E perplexa, pensando, mas, como é possível que os caras simplesmente “decidam” que o Limbo não mais existe, de uma hora para outra? Que prova concreta teriam? É claro, não há provas de que não exista, porque também nunca houve provas de que existia!!! Assim, fica muito fácil: alguém um dia chega lá, e fala, “Olha, pessoal, não há mais Limbo, ok? Ou é Céu ou é Inferno, portanto, vamos tratar de se comportar bem, as chances de salvação diminuíram terrivelmente…”. Para mim, essa notícia da extinção do Limbo foi mais maluca do que todas as maluquices da Igreja Católica juntas, bem conhecidas: proibição da anticoncepção, da camisinha, do homossexualismo, do divórcio, blá, blá, blá… Ninguém aguenta mais ouvir falar nisso, poxa vida.
Bueno, mas, fui batizada, portanto, “oficialmente” sou católica. Como boa parte dos brasileiros, aliás. Mas não sou daquelas que dizem, “Ah, sou católica, vou à igreja todos os domingos, mas sempre usei camisinha e pílula, e agora me divorciei porque descobri que sou lésbica e vou casar com a minha namorada, mas acho que não tem problema, né?”.
Não, escolhi ser coerente: eu sou católica porque fui batizada na Igreja Católica, meus pais assim escolheram, como o escolhem a maioria dos pais brasileiros. Porém, hoje não mais pratico a religião, e “briguei” com a Igreja Católica definitivamente no dia em que quis batizar meu filho escolhendo um padrinho de quatorze anos que foi autorizado para tanto (fazendo curso de batismo e toda a papagaiada exigida), para no dia da cerimônia ser desautorizado pelo padre, em público, por não ter ainda os exigidos quinze anos. Ou seja, escolho o padrinho para meu filho como um ato de amor, escolho alguém de quem muito gosto e em quem muito confio, para substituir-me em caso de morte, certo? Essa é a ideia do padrinho, de acordo com a religião católica. Mas, não, teria que ter escolhido qualquer outra pessoa (mesmo que nela não muito confiasse!) apenas em razão de sua idade? Meu inocente compadre acabou tendo der ser “assistido” por uma pessoa mais velha, para que pudesse batizar meu filho, e batizou. Essa foi uma loucura que não engoli. E assim decidi não batizar minha filha, que, agora, graças à extinção do Limbo, não é mais um “pobre bebê excluído, indigno do Reino dos Céus”! Por essas e por outras da Igreja Católica, sou favorável a que os pais deixem que seus filhos escolham, por vontade própria, quando já maduros forem, suas próprias religiões, ou não escolham religião alguma.
Os brasileiros, segundo a brilhante mente inquieta do meu marido, têm essa “flacidez moral”, ou seja, querem se assegurar por todos os lados: vão à Igreja, para garantir seu lugarzinho no Céu, mas também usam camisinha (no que estão certíssimos, vamos deixar isso muito claro desde já), para não correr o risco de doenças ou até de engravidar.
Minha opinião: a Igreja Católica não vai mudar suas regras retrógradas e imbecis, sem que haja uma mobilização mais radical do povo. Mas nada de passeatas, discursos, queima de fotos do Papa, discussões inúteis na TV (como a que assisti na MTV na semana passada, “É possível ser gay e católico?”), nada disso adiantará. Assim, a melhor solução: seja coerente e abandone a Igreja. Se não concorda com as regras, deixe de ser católico. Use camisinha, claro, mas pare de ir à missa. Boicote! Reze em casa, não comungue com essa loucura toda! Isso, esse boicote (que, diga-se de passagem, já vêm acontecendo há muito tempo) creio eu, poderia fazer com que “Eles”, os homens com as batinas mais poderosas, acordassem e, aí, sim, tentassem começar a mudar as regras e mandamentos da religião católica.
Reflexão feita nesta semana pós-vinda-do-Papa, não me resta mais nada a não ser terminar, não sem antes pensar, em voz alta, em alta escrita: como pode alguém ser feliz vindo a São Paulo sem poder: ir ao Gero, ao Fasano e ao Figueira, se hospedar no Maksoud, no Unique ou no Hyatt, passear na Oscar Freire e no Iguatemi, flanar pela Cultura e pela Fnac, comer pastel de feira, ir dançar na Disco, jogar conversa fora no Pirajá, dar um pulinho no Tomie Ohtake e no MASP, ouvir boa música no Bourbon Street, comer um docinho da Cristallo, andar de bicicleta pelo Ibirapuera, sentindo aquela brisinha no rosto, liberdade… Como alguém pode viver uma vida… no Limbo? Ah, isso, eu não consigo entender…
Este texto foi escrito originalmente para a revista Flâneur, veículo impresso dedicado a explorar a cidade de Porto Alegre sob uma nova ótica.
Ensolarado de ideias, o guri correu até o rio. Num rompante pelas areias do Guaíba, ele seguiu até a beirada com os braços abertos, tão esticados que poderiam abraçar o mundo. Seu sorriso não tinha horizontes. Com os pés enterrados na areia, o guri respirou fundo. No aroma que lhe invadiu o corpo, sentiu sua mente ser percorrida por pequenas ondas. Podia sentir seus pensamentos sendo tragados para o fundo escuro das águas. Seu sorriso se encolheu. Esvaziado de possibilidades, o guri deitou-se no chão. Sob um céu encoberto de nuvens escuras, era ele um cemitério de ideias.
À Beatriz (minha Mãe, quem começou tudo isto),
à Mimi (minha mãe em Sampa, que um dia resolveu inventar a Nicole),
à Cris (responsável pelos nascimentos deste texto e do Giovanni) e
à Ju (que está prestes a dar a este mundo o Bento)
A verdade é a seguinte: nunca pensei sobre a ideia de ser Mãe até o dia em que me tornei uma. E, acredite se quiser, você se torna Mãe no exato dia em que descobre estar grávida. Mesmo que você não perceba. Eu não percebi, mas eu já era Mãe quando fui à clínica médica para um exame de ultrassom de rotina e o cara de jaleco branco disse, “No geral está tudo bem, mas você está grávida, menina!”.
Sou Mãe há sete anos já e ainda enlouqueço com isso! Eu nunca passo um dia sem pensar, “Será que estou fazendo tudo certinho?”. E então eu percebo que esse é o tipo de preocupação que eu não deveria ter, ora, é claro que estou fazendo a coisa certinha, ou meus filhos não seriam tão felizes.
A Mãe perfeita não existe. O ser humano perfeito não existe. Às vezes sinto-me tão “não perfeita” como Mãe, e, ao mesmo tempo, fico muito contente quando meu filho me diz, “Mamãe, você é muito mais legal que as mães dos meus amigos!”, e isso basta para que eu fique toda felizinha, sorrindo à toa e pensando, “Nossa, sou o máximo!”.
Sou uma grande amiga dos meus filhos. Sou a amiga que está lá quando eles precisam. Mas, ao mesmo tempo, sou a amiga que estabelece as regras. Regras são essenciais para crianças, todos sabemos disso. Mas, acima de tudo, a maneira pela qual se estabelecem as regras é a coisa mais importante sobre ser Mãe e educar.
A melhor coisa sobre escrever este texto foi que eu realmente parei para pensar sobre o que é ser Mãe, não apenas para mim, mas para todas as mulheres que conheço e que não conheço. Para todas as mulheres. Desse modo, decidi chamar essa fantástica e criativa e maravilhosa Arte (sim, por que não?) de MOMMYING: A ARTE DE SER MÃE. Não encontrei tradução satisfatória para essa expressão, portanto, preferi manter a expressão original em inglês, acrescentando um “explicativo”. Escrevi este texto originalmente em inglês, a pedido de uma amiga que participa de um grupo de debates que envolve mulheres de diferentes idades, na sua maioria estrangeiras, todas mães ou prestes a tornarem-se mães. O texto foi apresentado ao grupo por minha amiga, e fez um imenso sucesso entre as “Mommies”!
Então, lá vai!
MOMMYING é tentar ter uma vida “normal” enquanto seu corpo está com a forma de um boneco do Garfield, você sente vontade de vomitar e arrotar o tempo inteiro e não consegue colocar os sapatos sem ajuda de outros…
MOMMYING é passar nove meses com pouquíssimas xícaras de café, sem nenhuma bebida alcoólica e nadinha de sushi, e ainda assim sentir-se maravilhosa e abençoada!
MOMMYING é ir de um tamanho 36 para um 40 durante a gravidez sem sentir muita culpa por isso…
MOMMYING é amamentar, trocar fraldas, dar chupeta, dar banho, passear de carrinho, preparar mamadeiras e sopinhas, tirar a febre, dar remédio, brincar de esconde-esconde, cantar canções de ninar, levar ao parquinho, contra histórias pra dormir, carregar muito peso e mais milhões de outras coisas terminadas em “ar” que você possa imaginar…! E fazer tudo de um jeito muito feliz: acredite se quiser!
MOMMYING é ter o direito de reclamar, de gritar, de berrar, de chorar, mesmo quando não se está passando pela T.P.M.!
MOMMYING é sentir-se encurralada porque você passa a maior parte do tempo presa às crianças e, ao mesmo tempo, sentir-se livre por poder voltar a ser criança, junto com seus filhos.
MOMMYING é não dormir bem pelo resto da sua vida, e, quando finalmente pegar no sono, ainda sonhar com as crianças…!
MOMMYING é dividir uma maçã com dois filhos famintos e ainda pensar, “Ah, eu estou sempre de dieta mesmo…”.
MOMMYING é ser capaz de repetir muitas e muitas e muitas vezes as mais variadas ordens até ficar cansada da própria voz!
MOMMYING é jamais conseguir fazer uma refeição completa até que seu filho tenha, ao menos, três anos de idade! E mais uma vez pensar, “Ah, mas que coisa boa pra minha dieta…”.
MOMMYING é jantar em uma cozinha na penumbra apenas porque o seu mais velho resolveu brincar de esconde-esconde no escuro às nove horas da noite!
MOMMYING é ter uma terrível dor de estômago e ainda assim tomar conta do seu bebê doente no meio da madrugada, sabendo que tem que acordar às seis e meia da manhã seguinte para levar o filho mais velho para a escola…
MOMMYING é ser capaz de falar, andar, ouvir, cantar, dançar, sorrir, colocar maquiagem, fazer exercícios, escrever, dirigir, usar a Internet, gritar, ler, cozinhar, estudar, comer, beber, trabalhar, chorar e tomar banho ao mesmo tempo, e ainda ter um tempinho livre para ver um pouco de TV!
MOMMYING é saber todos os nomes de todos os filmes e desenhos e series de TV para crianças, e também todos os seus personagens e características pessoais!
MOMMYING é puxar o rabinho de um Coelho da Páscoa gigante somente por ter apostado com seu filho que você o faria!!!
MOMMYING é ser a melhor contadora de histórias de todos os tempos e, ao mesmo tempo, a mais perfeita “ouvinte de histórias”…
MOMMYING é permitir que seu filho vá ao acampamento da escola, mesmo estando morta de medo de ficar longe dele…
MOMMYING é tentar responder cada pergunta embaraçosa dos pequenos, e ainda assim ser capaz de dar um monte de risadas da situação!
MOMMYING é esconder alguns sentimentos e ao mesmo tempo demonstrar profunda e completamente outros.
MOMMYING é a mais bela Arte de todos os tempos. Têm muita sorte aquelas que são capazes de fazê-la excepcionalmente bem. Com amor. Carinho. Paciência. Dedicação. Amizade.
Foi-se o tempo em que cartas com endereço errado voltavam para o remetente ou eram entregues em mãos pela pessoa que havia recebido por engano para o seu real destinatário.
As cartas modernas, os nossos queridos e-mails, não têm envelope e nem selo. Voam por um espaço chamado de cibernético. Voam, não, só um instante: trafegam. É, trafegam creio ser a melhor denominação, o melhor verbo a ser usado. Já pensaram nisso, leitores? Errando um endereço, outra pessoa pode receber seu e-mail e abri-lo sem o menor pudor. A menos que tenha medo de abrir e-mails de remetentes desconhecidos. Não há mais privacidade em correspondência. Ah, certo, há as senhas, os códigos, coisa e tal, o que pode proteger os sujeitos de enxeridos em geral (família, amigos, colegas de trabalho, chefe). Porém, nada nos protege contra pessoas desconhecidas, que estão por aí, pelo mundo cibernético, pelo espaço cibernético e que podem, por acaso, receber um e-mail por engano, e, sim, abri-lo! Porque nada o impede de fazê-lo! Não há regras que disponham sobre violação de correspondência na Internet. E não acho que isso seja muito fácil de se fazer, não. Desconheço regras de privacidade na Internet. Mas tenho certeza de que não há como impedir que cartas eletrônicas enviadas por engano sejam abertas – também por engano.
Minha certeza tem fundamento. Há algumas semanas, recebi um e-mail de um sujeito com o meu sobrenome. Ok, pensei, o sobrenome eu conheço, meu velho e bom patronímico italiano, de difícil pronúncia e grafia para os falantes de português, que tantos “problemas” e risos me causou ao longo desses meus trinta e três anos de vida. Abri o e-mail do cara, quase que automaticamente, já que vi meu sobrenome e nem percebi que era de alguém que eu não conhecia o nome, pensei ser de alguém da família. Quando comecei a ler, percebi ser de um desconhecido. Ele tinha um tom leve e amigo, muito educado e polido. E surpreendeu-me:
“Prezada Clarice, olá!
Há algum tempo que venho recebendo e-mails seus. Temos o mesmo sobrenome, mas creio que você esteja me mandando essas mensagens por engano, deve haver alguma coisa errada no endereço que você está digitando. Possivelmente, a pessoa que deveria estar recebendo as mensagens e as fotos não as esteja recebendo, verifique para ver o que há de errado.
De qualquer maneira, gostaria de aproveitar para dizer que este que recebi hoje deixou-me especialmente emocionado. Como estão grandes as suas crianças! E que lindos! Você e seu marido são pessoas de sorte! Faz algum tempo que acompanho esses e-mails, e parece que conheço todos vocês, apesar de não conhecê-los, que coisa estranha… Fiquei sem saber o que fazer, com vergonha de responder a você. Fico feliz em saber que estão bem, trabalhando, estudando, divertindo-se, com crianças lindas e saudáveis. Você fala de tantas pessoas e conta tantas coisas, me desculpe, não pude resistir e tive que ler as mensagens algumas vezes. Parecem ser uma família tão feliz… Parabéns por serem assim tão unidos e amigos, em um mundo cada vez mais desunido e violento. Desculpe-me mesmo. Me despeço por aqui, sabendo que provavelmente nunca mais terei notícias de vocês.
Abraço,
X
(obviamente preservarei a identidade e o e-mail do parente desconhecido).
Meu parente desconhecido surpreendeu-me porque acabou lendo por acaso a primeira mensagem que lhe enviei por engano, e seguiu lendo mais algumas por pura curiosidade, que é mais do que natural na raça humana, ainda mais se o remetente tem o seu sobrenome. E a natureza do e-mail é esta mesma, uma carta que chega em sua caixa postal, que você abre, e a lê com muita facilidade, sem ter de abrir envelopes e preocupar-se com regras de privacidade. Ele vem, e você o lê. É simples. Foi o que aconteceu com esse sujeito. Acabou por interessar-se pela vida da suposta parente desconhecida. Um dia, então, resolveu avisar-me do engano. Correto foi ele. Eu respondi de maneira breve, agradecendo pelo aviso. Não comentei mais nada. Porque temos, hoje em dia, esse medo, essa desconfiança, essa coisa que nos impede de querer saber mais sobre a vida alheia.
Logo fui verificar qual era o erro de digitação no e-mail, e realmente, eu mantinha em minha agenda eletrônica o endereço errado de meu tio. Uma letra alterou o endereço e fez com que “X” passasse a receber os e-mails que eram destinados ao meu tio e, por consequência, passou a saber notícias de nossa família, que, de um modo ou de outro, também era dele (?)! Consertei o erro, e meu tio passou a receber direitinho as mensagens.
O parente desconhecido, educado, nunca mais se comunicou comigo. Percebeu que dei fim àquele “relacionamento”, de maneira não menos educada. Sem ressentimentos.
Tudo explicado e resolvido, fico pensando: será ele que sente saudades de nós?
… ele piscou, pensando se naqueles breves instantes de cegueira teria perdido algum novo fato daquela cena tão intrigante. Olhava a todos a sua volta e percebia cada súplica, cada lamento e dor. Ao mesmo tempo, sentia de alguns descaso e certo ar de superioridade, sentimentos com os quais satisfazia sua fascinação pela alma humana.
Havia caminhado um dia inteiro em busca daquela cena, anunciada aos quatro cantos pelos viajantes apressados e mensageiros, que cortavam as longas distâncias levando a notícia da vinda do milagroso. Ele observava atento aos detalhes e gestos e à formação da grande fila aos pés daquele, com olhar de ancião e corpo de jovem. Num caderninho escondido sob as vestes, ele fazia rabiscos de seu esboço. E quando indagado por uma criança sobre o que fazia, brincou, dizendo que previa o futuro com papel e carvão. A criança riu-se e correu satisfeita.
O jovem homem, incansável, ali permaneceu até que a fila terminasse e a multidão fosse dispersa. Sentado em uma pedra finalizava seus últimos inscritos e preparava-se para partir, quando o jovem velho veio com ele a ter. “No que te debruças com tanto empenho?”. “Preparo um retrato”, respondeu o jovem. “Sim, isso eu já sabia”, retrucou o jovem velho. “Mas o que viste que com tanta vontade deseja retratar?” O jovem, então, olhou-o nos olhos e disse: “Retrato o futuro dos homens”.
Fazia já um tempo que não entrava ali, naquela casa que antes parecia enorme, cujos sofás eram como camas elásticas, onde ele e seus irmãos passavam horas imaginando histórias de acampamentos, de florestas e perigos e coisas de criança que são tão boas por um tempo e depois se desfazem pelo próprio tempo e ficam em algum lugar da memória e do próprio tempo, como uma imagem embaçada e em câmera lenta. Como um sonho, talvez.
E então aquele cheiro de coisas conhecidas e idas tão presentes na mente, no coração, nas narinas.
A vó velhinha que na verdade foi sempre velhinha, agora o recebe mais velhinha ainda (porque agora é duas vezes avó: é bisavó) de braços abertos e com muita comida, sempre muita comida. Sempre houve comida, e a comida enche os olhos e aquece, é amor em estado bruto: o estômago conquistado.
E na casa mora também a tia, a tia tão fechada em seu próprio mundo, mas também tão aberta a tudo, por ser criança ainda, uma criança em um corpo adulto (vai ser sempre criança, vai pensar sempre como criança, vai morrer criança, porque uma doença genética assim o quis), e por ser para sempre criança, vai ser para sempre feliz, porque não vai preocupar-se, nunca, nunca, com nada, nada. Ou outros à volta preocupam-se, vão para sempre preocupar-se com seu destino, principalmente a velhinha, sua mãe, sua eterna guardiã.
Mas então ele está ali, novamente, após tanto tempo, levando os filhos para visitarem a velhinha e a tia, para que elas desfrutem da juventude plena e absoluta das crianças, para que preencham, nem que por algumas horas, suas vidas solitárias e ao mesmo tempo tão cheias de amor. Para que se animem, para que sintam, para que sorriam, para que tirem a dor de seus corações sofridos, marcados pelo tempo passado e pelos olhares julgadores e falsamente solidários das pessoas.
E ele então resolve ir ao banheiro, ao banheiro onde muitas vezes entrou quando criança, muitas vezes brincou, tomou banho, fez bagunça. E então vai até a pia, de mármore, tão baixinha agora, e vê dois copinhos de plástico, um de cada lado da pia, e dentro de cada um dos copinhos, de cores diferentes, vê duas escovas de dentes, também de cores diferentes, ali, tão sozinhas, tão limpas e bem arrumadas, tão íntimas, tão indescritivelmente tristes e sozinhas, sozinhas, sozinhas… E então ele chora.