Clarice Dall’Agnol

Literatura

Assim somos

assimsomos.jpg

por Marcella Marx

Ao Alê

És como vinho

te reservas, enquanto solta corro
e a cada novo ano, sabor realçado.
Perceptível aos sábios degustadores da safra.
Espalho-me em riachos
enquanto tu, em frascos te encerras.
Broto pronta e inquieta,
tu te demoras, aguardas,
esperando hora de vingar.
Não aguento e transbordo,
incansável, montanhas subo e desço.
Tu permaneces inalterado – salvo o sabor,
o qual cultivas como sabedoria.
Em meu caminho riscos enfrento,
tu os teus: amargura.
Sou tua inquieta admiradora
do cultivo à amplitude.
Aquela que passa querendo ficar,
e foge buscando vencer.
Tu tens-me decifrada, abundante.
De ti quase nada compreendo,
reconheço, pois suas nuanças:
aspereza, austeridade
e, o pouco, pelo aroma que exalas.
N’algum lugar somos irmãos,
permeados pela mesma substancia,
fluída, navegando em direção ao mar.

Somos como água.

Literatura

Sombra

sombra

por Clarice Casado

Sempre achei sombra um negócio fascinante. Lembro-me com ternura dos bichos que costumávamos inventar, eu, meus irmãos e meus pais, apagando a luz principal da sala e deixando apenas um abajur ligado, para que nossas mãos se projetassem na parede, surgindo, assim, as mais variadas e fantásticas criaturas de sombra.

Não lembro, porém, da primeira vez em que descobri que eu tinha uma sombra. Hoje imagino que deva ter sido algo assustador: de um momento para o outro, percebe-se que sai de nosso próprio corpo, projetando-se no chão, um vulto preto que move-se exatamente como nós! E, o pior de tudo, nos persegue. Não desgruda. Não sai de jeito nenhum. Pensando bem sobre o assunto, é uma coisa horrível. É só parar e reparar a sua sombra. Mas quem tem tempo, nos dias de hoje, para observar os contornos de sua própria sombra?

Respondo, imediatamente: pequenos de um ano e alguns meses. É mais ou menos por volta desse período da vida que dão-se conta de que não estão sós… Tenho observado minha filha em seus primeiros “debates” com a própria sombra: na primeira vez que a viu projetada no chão, parou, como que em choque. Mexeu-se para um lado, depois para o outro, tentou pisar “nela”, nela mesma, na verdade… Tentava pegá-la com as mãozinhas. Entrou em parafuso e começou a chorar, e depois começou a correr, como se quisesse fugir daquele monstro que tinha se grudado nela pra ficar! Eu, espectadora, não sabia se ria ou se chorava, e então decidi explicar, “Filha, esta é a sua sombra. Ela fica conosco todo o tempo. Não tem como pegar nela, nem tirar ela daí. É ela que nos dá coragem e força”. Não sei o que me deu de dizer isso, o fato é que ela me olhou assustadinha, pensando, “A mulher enlouqueceu, como assim, não tem como tirar ela dali, como assim, me dá coragem, se estou louca de medo desse negócio esquisito???”.

Fiquei com aquela questão da sombra aqui guardadinha, até que, pronto, a danada veio me procurar, em forma de literatura: li um conto do Realismo Fantástico com esta temática, em minha aula semanal de espanhol. Chama-se “La sombra de las cosas” e foi escrita pelo espanhol Fernando León de Aranoa, publicado na Revista El País, em 30/7/2000.

Surge-nos de maneira rápida na breve narrativa a figura de um menino que nasce sem sombra. O menino passa sérias angústias por conta deste “defeito de nascença”, e tem na mãe sua maior aliada. A mãe lhe consola ao responder sua pergunta sobre o motivo de não ter sombra, dizendo “Porque teu coração é tão grande e a tua alma tão sincera, que se pode ver através de ti”. O menino cresce arredio, um pouco quieto, até que, já adolescente, conhece uma menina em um dia nublado (isso é importante no conto: em dias nublados, não se pode ver as sombras, ou, ao menos, as vemos muito mais fracas) por quem se apaixona e com quem marca um outro encontro. Porém, tem medo de que o dia marcado seja ensolarado, já que, dessa forma, ela descobriria sua grave deficiência. E veio o dia, muito ensolarado. Ele vai encontrá-la, mas desiste de ficar antes que a menina chegue. O narrador nos revela, no último parágrafo do conto, que, se tivesse ficado, teria o menino descoberto que sua amada era também uma menina sem sombra.

Aprendi, ao interpretar os sentidos do conto na aula, que em psicanálise a sombra pode ter duas significações. Pode surgir como o lado obscuro de nossa personalidade, nossos instintos, o lado que conhecemos pouco, aquilo que está em nós, aquilo que surge em nós, mas sem muita explicação, ou, ainda, a sombra pode representar a coragem que existe em todos nós, mesmo que adormecida.

Talvez por instinto emanado da minha própria sombra, eu havia explicado à minha filha a mesma coisa, exata, sobre a coragem que nos dá a sombra e coisa e tal, mesmo sem saber. Só Freud explica(ria)…

Quero manter tudo isso bem guardado, para um dia contar à minha filha sobre o dia em que tentou espantar, a todo custo, sua coragem e seus instintos, e eu não deixei.

Literatura

Dados

dados
imagem: Cassiano Rodka

por Cassiano Rodka

Correu tanto o menino, que não viu o tempo passando.
E numa fração de segundo, encontrou-se parado frente a um copo cheio de dados.
Chacoalhou, chacoalhou o recipiente de couro enquanto os possíveis resultados lhe inundavam a mente.
Qual seria o número da vez e que sorte de momentos o traria?

Enquanto lhe vinham as doces lembranças de 7,
desencaixotavam-se as descobertas de 13
e brilhavam as noites de 23,
os dados cochichavam
baixinho.

Na mente,
os números cuspiam memórias.
Nas manchas, histórias.

Os dados estão no ar. Que número vai dar?

Dado no pires, reflexo na íris.

Numerologia ou matemática,
O importante é pôr em prática.
Com firmeza no pé direito,
ascendeu.

Literatura

Ande na linha

andenalinha

por Clarice Casado

Em tempos de guerras, violência, desastres, falatórios inúteis, ignorância, incompetência e corrupção, resolvi hoje falar de amor. Sim, do mais puro, simples e revigorante amor. Resolvi falar de amor, simplesmente porque ouvir passivamente as notícias horrorosas do mundo sem nada poder fazer além de sofrer não me leva a lugar nenhum. Ou melhor, leva sim, leva a um péssimo e deprimente lugar, lugar no qual não quero estar e nem ficar.

Então lembrei-me de um filme simples, mas bonito, de um filme que conta uma singela história de amor, uma história de verdadeiro amor. Não desses amores rapidinhos de hoje em dia, mas de um amor daqueles que se pensa, “Poxa vida, isso sim é que é amor”.

O filme chama-se “Walk the Line” no original em inglês, e, no Brasil, foi traduzido como “Johnny e June”. Retrata as vidas, as carreiras e o relacionamento de dois músicos country da década de 50, Johnny Cash e June Carter. Cash e Carter conheceram-se no show business. Quando ele começou a cantar, vindo de infância e adolescência problemáticas e de uma passagem pela prisão, June já cantava há alguns anos, junto com suas irmãs. Johnny era fã de June e ficou encantado com ela quando a viu pela primeira vez ao vivo. A partir daí, passou a nutrir por ela uma arrebatadora e cativante paixão, que não foi imediatamente correspondida. Ou melhor, em minha modesta opinião de espectadora, acho que foi. Ela apenas resistiu bravamente por muito tempo ao assédio dele, já que era casado e tinha duas filhas, e ela era separada e com uma filha.

As canções do filme são fantásticas. Eu, que não sou fã de música country, apesar de achar que a dos Estados Unidos tem seu valor (Willie Nelson, por exemplo, é fantástico!), fiquei fãzona das músicas da dupla, brilhantemente interpretadas, no filme, por Joaquin Phoenix e Reese Witherspoon.

Umas das principais músicas (e um dos maiores sucessos de Cash), “Walk the Line”, que dá nome ao filme, baseia-se em uma passagem da vida dos músicos que é mostrada no filme. June fica furiosa com Johnny e mais um bando de músicos famosos (Jerry Lee Lewis e outros) pois estão todos bêbados algumas horas antes de um show que iriam fazer. Os rapazes estão fazendo uma jam session e falando bobagens, enquanto ela, garota certinha e cumpridora de regras, está se preparando para o show. Ela briga com Johnny e acaba dizendo que ele precisa “andar na linha” (“to walk the line”) para dar certo na vida. Essa foi a inspiração para a bela canção que tem como refrão o verso, “Because you’re mine/I walk the line”, em clara referência à June.

No filme, há uma incrível sintonia entre os atores. É contagiante a evolução do relacionamento deles. Nunca li nada sobre como ocorreu na realidade a relação, mas acredito que o filme tenha feito um retrato fiel. Pelo menos é a impressão que dá.

Pois bem, a história deles não é a uma história de amor comum. Johnny declarou seu amor por June muitas vezes, sem sucesso. Um dia, ela cede, quando Johnny ainda era casado. Mas logo se arrepende, e acaba por dar um fora nele, já que ele é casado, ela tem duas filhas de dois casamentos anteriores terminados, etc, etc. Ele fica transtornado, transtornadíssimo, pois tem realmente uma imensa obsessão por ela, totalmente compreensível, porque ela parece mesmo ser uma criatura adorável no filme, e Whiterspoon está perfeita no papel, tendo inclusive levado o Oscar no ano de 2006 por essa interpretação. Assim, após levar o tal fora de June, ele mergulha em uma depressão profunda, indo imediatamente buscar “aconchego” nas drogas. Compra uma casa em um lugar isolado, e ali fica recluso, apenas se drogando e sofrendo.

Um certo dia, depois de muito tempo separados, resolve ligar para June convidando-a para um almoço de Ação de Graças, onde também estão presentes a família dela e a dele, os pais e as filhas dos dois. Há uma terrível briga entre Johnny e seu pai, onde vários “podres” vêm à tona. Cash acaba tendo um acidente com um trator, e novamente entra em depressão. E é justamente aí que começa, para mim, a parte mais emocionante do filme. Vendo o estado em que se encontra o amigo, June e sua família instalam-se em sua casa decididos a ajudá-lo a sair da depressão e largar a cocaína. Dão início, sozinhos, sem a ajuda de médicos ou clínicas de reabilitação, à desintoxicação de Cash. June fica a seu lado em todos os momentos, até que ele se livre definitivamente do vício. Há uma cena em que o pai de June expulsa o traficante da casa de Cash com uma espingarda. É impressionante. Eu fiquei impressionada com a capacidade de doação e com a bondade daquela família. E, principalmente com a força de um amor como esse. Um amor que enfrenta sem medo a adversidade. Cash se recupera depois de algum tempo, e finalmente ele e June vão construir uma família juntos.

Eu adorei, e achei que seria bom falar desse meu sentimento hoje. Tenho ouvido as músicas da dupla no meu carro nos últimos dias incessantemente, e é fantástico, porque, para mim, não são apenas músicas. É como se desse para sentir o amor nelas. A incrível força daquele amor.

Literatura

Vida virtual

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imagem: Cassiano Rodka

por Cassiano Rodka

Conheceu a moça pelo Orkut. Percorreu os traços dela com cuidado em cada uma das 5 fotos do álbum. Os testimonials descreviam uma amiga sincera e companheira, e as comunidades mostravam que ela tinha o mesmo gosto musical que ele. Adicionou a garota no MSN e não demorou muito para trocarem emoticons de amor. Ela o adicionou no Flickr, onde ele passou a ter acesso às fotos privadas dela. Sempre tão bela, a menina estava sempre impecável em cada retrato – mal sabia ele que essa perfeição era fabricada num tal de Photoshop. Ele gravou alguns vídeos apaixonados e publicou para todos verem no YouTube. Como resposta, ela postou um poema cheio de duplos sentidos no seu blog. Em uma semana, já dividiam um apartamento no Second Life. Tudo estava tão bom que ele estava quase cometendo o absurdo de convidá-la para sair na vida real. Mas antes que ele fizesse tamanha besteira, um amigo lhe avisou: havia visto ela agarrando outro no Fotolog de um colega. Era o fim. O amor, como tudo na internet, foi breve e acabou abruptamente.

Música

O Carnaval começa agora!

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por Cassiano Rodka

O Carnaval começa agora! Pelo menos se depender da Orquestra Imperial.

O grupo lançou recentemente seu primeiro álbum, “Carnaval só ano que vem”, com um arsenal de músicas próprias na medida certa para garantir a festa de qualquer folião.

A Orquestra Imperial formou-se em 2002 com o objetivo de tirar pó de alguns clássicos da música brasileira. Os músicos e produtores Berna Ceppas e Kassin decidiram montar uma banda com vários nomes da cena carioca para interpretar as canções de forma despretensiosa, tudo em nome da mais pura diversão. Com uma seleção marota de sambinhas de gafieira, a banda subiu aos palcos cariocas e trouxe a dança de salão de volta aos holofotes. Dançar juntinho, cantar com animação, se divertir sem pensar no dia seguinte, esses são os ingredientes essenciais de um show da Orquestra. Ao vivo, a formação da banda varia, contando com nomes como Moreno Veloso, Domenico Lancelotti, Thalma de Freitas, Rodrigo Amarante, Nina Becker, além de abrir espaço para grandes convidados, que já incluíram Caetano Veloso, Erasmo Carlos, Marcelo Camelo e DJ Marlboro.

Em fevereiro deste ano, a Orquestra lançou um EP homônimo com quatro músicas de seu repertório. O disco era vendido apenas nos seus shows e trazia quatro versões para hits costumeiros das apresentações da banda: iniciando com a excelente interpretação de Thalma de Freitas para “Me deixa em paz”, seguindo com um medley contagiante que iniciava ao passo de “Sem compromisso” na voz de Moreno Veloso e chegava aos finalmentes com a excelente interpretação de Amarante para “Obsessão”. A última música era a divertida instrumental “Popcorn”, dando um gostinho do que viria no disco de estreia.

Com “Carnaval só ano que vem”, a banda apresenta seu repertório de músicas próprias, deixando claro que tem uma voz só sua. O disco inicia com “O mar e o ar” trazendo Rodrigo Amarante nos vocais e uma inegável sonoridade Los Hermanos. O belo arranjo conta com guitarras havaianas e um lindo backing feminino no maior estilo Ennio Morricone. O climinha praiano e despreocupado dá o tom do álbum. A partir da segunda faixa, Thalma de Freitas se destaca com seu vocal forte e doce. Em “Não foi em vão” e “Rue de mes souvenirs”, a voz de Thalma brilha. Os músicas da velha guarda do samba dão o ar da graça em faixas que deixam clara a iniciativa de misturar as raízes do samba com a música eletrônica. Em “Era bom”, o baterista Wilson das Neves (que toca há anos com Chico Buarque) faz um dueto com Max Sette cantando com aquela boa dose de malandragem dos grandes sambas. As influências caribenhas surgem na marotice de “Yarusha Djaruba” e “Ela rebola” que animam qualquer carnaval. A surpresa fica por conta da canção “De um amor em paz”, um sambinha tranquilo e com um pezinho no experimental, composto por Domenico e Délcio Carvalho e cantado belamente por Nina Becker. E é ela quem comanda a folia na última faixa do disco, um samba roqueiro que soa como o encontro dos Mutantes com Gal Costa. A música ainda conta com um divertido discurso sobre o amor dado por ninguém menos que Jorge Mautner. Se você chegar até aqui sem se divertir, cuidado: ou você é ruim da cabeça, ou doente do pé.

Só espera pelo Carnaval quem quer.

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p.s.: Aos fãs do filme “Um convidado muito trapalhão” (The party), uma curiosidade: um instrumento chamado “Birdy Numnum” é usado nas músicas “De um amor em paz” e “Supermercado do amor”. 😉

Literatura

Gaulista

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por Clarice Casado

Sampa, te apresento minha essência: sou gaulista. Aqui, nesta terra tão querida, há dez anos, tive a acolhida mais acolhedora que um “estrangeiro” poderia sonhar em ter.

Sinto-me, hoje, impregnada de São Paulo até a minha alma. Minha alma gaúcha de nascimento e de coração, que se abriu totalmente à força avassaladora da metrópole dos bandeirantes. Que se abre de maneira tão absolutamente contundente, que nem eu mesma compreendo bem ainda. Mas sei que meu corpo respira os dias e noites intensos da cidade cinza, da cidade que – sim, esta sim – nunca dorme. Circulo por estas ruas e avenidas como se minhas fossem. Sou tua dona, soberana, rainha. Te comando. Te controlo. Te arrebato. São Paulo abre-se para mim, toda bela, revela seus segredos: só para mim. Transforma-me em confidente: só eu sei o que sei sobre ela. Só ela sabe o que se passa em mim. Mergulha em minha alma e retira a menina do pampa. Retira a menina do pampa e diz, “vem comigo, este agora é o teu lugar”. E me coloca no colo, me aconchega e me canta uma canção de ninar: “Alguma coisa acontece no meu coração/Sempre que cruzo a Ipiranga e a avenida São João…”.

Sampa, me deixa ser tua. Me deixa ser tua no outono, com tuas árvores jogando folhas… Me deixa ser tua no inverno, com tua garoa miúda… Me deixa ser tua na primavera, com teus ventos ventantes… Me deixa ser tua no verão, com tua brisa noturna suave… Me deixa ser tua. Faz de mim tua amada. Para sempre.