Clarice Dall’Agnol

Literatura

Viagem literária

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por Clarice Casado

Outro dia um antigo leitor veio me cobrar, “Clarice, onde está a velha Clarice?”. Eu fiquei meio assim, na dúvida, ué, o que esse cara quer dizer, hein? Respondi perguntando, “Como assim, meu amigo?”. Ele disse que estava sentindo falta das minhas velhas e boas crônicas, aquelas onde eu me abria e contava de um jeito muito especialmente meu como uma formiga nadando na sarjeta passava a ser a coisa mais importante do meu dia.

Então eu parei para pensar: andava mesmo deixando de lado a velha e boa crônica, estilo com o qual tanto me identifico, tanto gosto de trabalhar, e no qual tenho imensa aceitação entre os meus leitores. Era aquilo mesmo que ele estava dizendo, eu gosto de fazer as pequenas coisas se tornarem grandes, fazer com que as pequenas coisas tenham grande significado, tudo isso pelo meu olhar, meu jeito de olhar, ao menos.

Hoje, então, caro leitor, faço aqui uma crônica, só pra variar…

Ando aí toda metida, tentando agora fazer coisas diferentes, o que é ótimo. Estou gostando muito desta minha nova fase, estou experimentando outras formas de literatura, em grande parte graças à minha participação, há um mês, já, de uma Oficina de Criação Literária, conduzida de forma inteligente, agradável e divertida pelo escritor pernambucano vencedor do Prêmio Jabuti 2006 na categoria Melhor Livro de Contos, Marcelino Freire.

Sempre quis participar de algo assim, como esta oficina. Tinha uma baita curiosidade para saber como isso funcionava na prática. Na minha cabeça, sempre vinham aquelas cenas de filmes e séries americanas, onde (de regra) as minorias brancas e ricas discutem seus escritos em cursos de Creative Writing nas universidades membros da Ivy League, Harvard, Princeton, Yale, Columbia… Imaginava aquele pessoal discutindo e criticando e jogando mil “cascas” nos colegas, isso sem falar no professor, com seu papel de guia-crítico-que-ora-é-bom-ora-é-mau. Me dava arrepios só de pensar…!

Levei um bom tempo até decidir, “Tá, poxa vida, eu vou”, e lá fui, misto de medo e imensa curiosidade. Logo pude perceber que não era assim tão diferente da imagem que eu tinha dos filmes. De fato, discutimos e criticamos sem cessar os textos uns dos outros, de todos os gêneros; alguns são mais apreciados, outros menos, alguns estilos são mais respeitados, outros menos. O condutor Marcelino Freire nos diverte e nos seduz a cada palavra, a cada desafio, a cada crítica (boa ou ruim, vale tudo, quem está lá sabe que vai dar a cara a bater uma vez ou outra). Os desafios literários que nos tem lançado são tão interessantes, que passo a semana toda pensando neles, em como vou resolvê-los, o que escreverei, o que levarei para dividir com os colegas, “tripulantes” de nossa surreal e peculiar viagem literária. Aliás, assim se intitula a oficina, Viagem Literária: Narrativas Breves – e outras nem tanto. É um nome muito bom. Principalmente porque estamos aprendendo justamente isto: a simplificar, enxugar, cortar, dizer logo o que precisa ser dito. “E vai se embora, eta danado!”, parafraseando Marcelino…!

Além de tudo isso, ainda teremos a oportunidade de conhecer, conversar e trocar ideias com mais escritores de nome no país e no mundo, como Jorge Mautner, Lívia Garcia-Roza e Luis Fernando Verissimo.

Mas o que me deixou mais entusiasmada com a oficina foi uma coincidência literariamente fantástica. O autor Marcelino Freire, no primeiro encontro, nos apresentou algumas citações de autores famosos que considerava como mantras. Uma delas, de Kafka, eu também carrego comigo desde que iniciei minha vida como escritora, e a considero fundamental: Se o livro que lemos não nos acorda como uma pancada na cabeça, por que o estamos lendo? Quando li, pensei que realmente eu tinha que estar lá. Podia ser apenas uma coincidência. Mas era uma coincidência a tratada com muito carinho…

Literatura

Eu e o outro

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imagem: Cassiano Rodka

por Cassiano Rodka

Acordei. Dou início à vida com o movimento do pé direito. No lavabo, justifico a compra da escova de dentes elétrica. Lavo o rosto e enxugo todo resto de sonho mal vivido. Cada peça do surrado terno cumpre o seu papel. O tilintar das chaves na porta. Dentro do carro, a caminho de uma busca para justificar a minha vida. No estacionamento do serviço, hesitante. E cá estou de volta. O irritante som das teclas de 20 computadores sendo massacradas por ideias requentadas. Não consigo ficar muito tempo sob a chuva sonora de letras, números, símbolos e erros de digitação. No banheiro, com as mãos besuntadas de sabonete líquido, me olho no espelho.

Pela primeira vez, me vejo. Me sinto sugado pelas pupilas daquele rosto levemente desconhecido. E mergulho dentro daqueles olhos cansados. Percorro a mente do cara que reflete à minha frente e sei agora quem ele é. Cedo à sua vontade e deixo ele tomar o meu lugar.

No banheiro, com as mãos besuntadas de sabonete líquido, me olho no espelho. Não consigo ficar muito tempo sob a chuva sonora de letras, números, símbolos e erros de digitação. O irritante som das teclas de 20 computadores sendo massacradas por ideias requentadas. E cá estou de volta. No estacionamento do serviço, hesitante. Dentro do carro, a caminho de uma busca para justificar a minha vida. O tilintar das chaves na porta. Cada peça do surrado terno cumpre o seu papel. Lavo o rosto e enxugo todo resto de sonho mal vivido. No lavabo, justifico a compra da escova de dentes elétrica. Dou início à vida com o movimento do pé direito. Acordei.

Literatura

Croniquinha estanque

croniquinhaestanque

por Clarice Casado

Estanque?
Estanque eu me sinto quando acordo às seis e meia da manhã correndo, visto meu filho correndo, entro no banho correndo, me arrumo correndo, tomo café correndo, levo meu filho pra escola correndo, faço ginástica correndo, vou dar aula correndo, falo correndo, almoço correndo, passo o resto do dia correndo, cumprimento todo mundo correndo, pego o carro duas mil vezes correndo, busco o guri na escola correndo, levo pra natação correndo, volto de novo pra casa correndo, levo pra aula de inglês correndo, sento pra preparar aulas correndo, beijo o meu marido correndo, janto correndo, leio correndo, vou dormir correndo porque no outro dia tenho que acordar de novo correndo. E ainda me dizem que não devo (não posso?) repetir palavras. Pois aí é mesmo que eu digo: correndo, correndo e COR-REN-DO!

Literatura

Escaladas

Uma escalada sempre começa com os olhos apontados para as alturas.
Eu sempre tropeço e invariavelmente ralo o joelho. Tenho uma coleção de cicatrizes que funcionam como um mapa de momentos tatuados na pele. Algumas mais profundas, outras mais superficiais, mas todas parte de alguma dessas minhas escaladas. Não vivo sem elas. Vou morrer subindo uma montanha. É a única maneira que me vejo deixando esse mundo. Sabe-se lá qual pico deixarei de conhecer, mas não é isso que importa, é a necessidade de sair do solo. Eu preciso ter lama nos sapatos, sangue por entre os dedos. Não sei de onde tiro essa força que me faz continuar, mas ela está sempre presente na sola dos meus pés, na palma das minhas mãos. Uma aparente caturrice que acaba se revelando como pedra fundamental. Eu preciso disso. De cada montanha, de cada pedra e de cada cicatriz. E o que parece irracional para muitos, me soa tão natural. A mudança de direções, os caminhos arriscados. Desafiar o vento, ignorar a gravidade. Tudo isso me preenche e me empurra. E quando chego ao cume, sinto o melhor e mais paradoxal dos sentimentos. Alegria e frustração de mãos dadas. Chegar ao topo é alcançar a vitória e, ao mesmo tempo, chegar ao fim. A satisfação é inigualável. Observo tudo ao redor, respiro o aroma que paira no ar e me conecto àquele espaço enquanto ele é só meu. Mas e aí, e depois? Faz parte de todo final dar sentido a um novo começo. E é para lá que eu sigo. Com lama nos pés e sangue nas mãos. E uma vontade incessante de aumentar minha coleção.

Música

A verdadeira Tuesday Weld

por Cassiano Rodka

“A personalidade quer desenvolver-se a partir de suas condições inconscientes, e sentir-se viver enquanto totalidade, mas há, profundamente enraizada no homem, uma resistência a tudo o que lhe permitiria saber mais sobre si próprio…”

O inglês Stephen Coates interessou-se desde cedo pelas teorias do psiquiatra suíço Carl Jung que estudavam a relação do homem com seu inconsciente. Desde que descobriu Jung, passou a analisar seus sonhos e interpretar os seus significados. Em um de seus sonhos, Stephen encontrou-se cara a cara com o cantor dos anos 30 Al Bowlly no Piccadilly Circus em Londres. Ele sentiu que aquele sonho tinha algo de importante e o manteve em mente. Uma semana depois, teve um outro parecido, mas dessa vez, encontrava a atriz Tuesday Weld. Stephen chegou à conclusão que seus sonhos estavam lhe dizendo para formar uma banda. Do Al Bowlly, pegou a influência musical; da atriz Tuesday Weld, pegou o nome para o seu grupo. Começava aí a carreira de uma das bandas mais bacanas a surgirem nos últimos tempos.

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Stephen ouviu falar sobre Tracy Lee Jackson, fundadora da Dreamy Records, em uma notícia de jornal. Ela vendera seu carro para montar sua própria gravadora e ele simpatizou com a determinação da moça. Stephen telefonou para Tracy e entregou a ela um single contendo a música “I Love the Rain”. A música não demorou para alojar-se confortavelmente na cabeça de Tracy, que convidou o compositor a gravar seus primeiros EPs por sua gravadora. Depois desses lançamentos, surgiram algumas ameaças de processo devido ao nome da banda. Stephen teve que trocá-lo e, do topo de sua peculiar ironia, optou pelo nome The Real Tuesday Weld (“A verdadeira Tuesday Weld”).

O primeiro álbum saiu em 11 de setembro de 2001 (mesmo dia de um famoso atentado terrorista…) com o título de “When Psyche Meets Cupid”. O álbum apresentava o som que o próprio cantor passaria a chamar de “antique beat”, uma mistura de jazz clássico com música eletrônica, instrumentos barrocos com samples e sintetizadores. O resultado soa ao mesmo tempo moderno e antiquado – por mais absurdo que isso pareça. Através de músicas como “Anything But Love”, “L’Amour Et La Morte” e “Terminally Ambivalent Over You”, o álbum apresenta todo o charme e o sarcasmo do compositor em temas que tornariam-se recorrentes em seus trabalhos, como o amor e a morte. Os primeiros shows contaram com uma formação simples, apenas três integrantes: Stephen Coates, o guitarrista David Guez e o clarinetista e backing vocal Jacques Van Rhijn.

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Para seu segundo álbum, Stephen Coates resolveu envolver-se em um projeto ambicioso: faria a trilha sonora para o recém lançado livro de seu amigo, o escritor Glen Duncan. “I, Lucifer” era a autobiografia do Diabo e o compositor aproveitou o tema para escrever canções que falavam sobre o término de relacionamento mais antigo do universo, o de Deus com Lúcifer. O disco homônimo ao livro teve como destaque a divertidíssima “Bathtime in Clerkenwell” e a bela “The Ugly and the Beautiful”, que chamou atenção de alguns críticos de música graças à sua delicada melodia e seu clipe lynchiano. Nessa época, o The Real Tuesday Weld aumentou sua formação ao vivo, contando com Clive Painter, guitarrista e técnico da banda, Brian Lee, violinista e pianista, Jed Woodhouse na bateria e percussão, e Don Brosnan no baixo e backing vocals.

Em seu terceiro álbum, Stephen Coates decidiu regravar alguns de seus singles antigos e adicionar novas canções em um disco que chamou de “The Return of the Clerkenwell Kid”. O título se refere a seu apelido, que ganhou desde que se mudou para a região de Clerkenwell em Londres, onde diz brotar toda a sua inspiração, como fica claro em “At The House Of The Clerkenwell Kid”. O disco termina com “Goodbye, Stephen”, uma espécie de homenagem póstuma a si mesmo, onde o cantor narra o dia de seu enterro.

Em 27 de maio de 2006, a banda apresenta-se na Tate Modern, em Londres, ao lado de uma cantora brasileira chamada Cibelle em uma performance musical feita para acompanhar o filme “Dreams That Money Can Buy” do diretor surrealista alemão Hans Richter, que passou em um telão enquanto a banda tocava. O filme foi lançado posteriormente em DVD com a trilha alternativa do The Real Tuesday Weld.

Neste ano, o quarto álbum de estúdio acaba de sair do forno e, para os amantes da “antique beat” de Stephen Coates, é um prato cheio. Amor, morte, bebedeira e a irremediável paixão por Londres, em especial pela região de Clerkenwell em solos de clarinete e batidas espertas. “The London Book of the Dead” começa com a delicada “Blood sugar love”, onde uma voz sussura “Life is good when you feel in love” para logo depois trocar por “Life is good when you’re filled with blood”. Os destaques vão para a divertida “I Believe”, a insana “Cloud Cuckooland”, a fofa “Kix” e a irônica “I Loved London”. Para os amantes do jazz contemporâneo e da boa música criativa, The Real Tuesday Weld é uma excelente pedida.

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Literatura

Tecnofagia

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por Clarice Casado

Tinha plena certeza de que aquela máquina tinha alma. Tinha humores. Trabalhava quando queria. E reclamava se não gostava de algo que nela se fazia. Era isto. Era um ser. E ele sabia muito bem. Sentia até um pouco de medo. Não sabia como o bicho acordaria na manhã seguinte. Mas seguiu assim, vivendo com ela, porque às vezes era mais fácil acomodar-se do que trocar tudo, assim, de uma hora pra outra. Só que aos poucos foi reparando nela coisas novas. Notou que tinha olhos. Nele cravados, noite e dia. Passou a reparar que tinha ouvidos. Aguçados. Foi só quando chegou bem mais perto, que percebeu que ela tinha boca. Tarde demais: foi engolido.

Literatura

Na selva

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por Clarice Casado

Não viu quando ele chegou, e não viu quando ele partiu. Só sentiu o medo que lhe invadiu o corpo por completo. Distração. Tremedeira. Nunca passava por ali. Repetia para si, “Nunca passo por aqui, nunca passei por aqui”, terra desconhecida, terra de coisa nenhuma.

Só viu o rosto dele, percebeu a altura dele e sua corpulência. Percebeu sua própria fraqueza, sua impotência. Diante dele, nada era. Era alguém que ia alimentar sua família por algumas semanas, talvez só dias. Mas a família nem sabia.

Nos segundos que se passaram, só pode obedecer, levantou os dois braços, porque é isso que se manda fazer, pra que ele visse que não ia fazer movimentos bruscos.

Pelo vidro do carro, o via fazendo o gesto para que tirasse logo o relógio do pulso. No vidro do carro, via sua imagem refletida, via sua incapacidade e impossibilidade de reagir. Via-se, sem ver-se. Não mais reconhecia-se. Rendeu-se.

Quando se viu de novo sozinha, sabia que não tinha perdido apenas um relógio.

Literatura

O homem e a natureza

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imagem: Cassiano Rodka

por Cassiano Rodka

1º ATO – Alimentando patos no parque

Primeira regra: Nunca confie num pato. Tudo o que ele quer é comer às suas custas e nada será dado em troca. Qualquer tipo de nogociação será ignorada com um debochado “quá”. É bom ter muito cuidado na hora de oferecer o pão, alguns patos são agressivos, a gente dá a mão e eles já vão querendo o braço inteiro.

Segunda regra: Depois que der pão para um pato, ele espalhará o fato para todos os outros e, logo logo, vários virão para cima de você. Então, esteja preparado: tenha sempre à mão um pacote inteiro de pão. Ou um bastão de beisebol.

Terceira regra: Se um ganso aparecer para se alimentar também, não o ignore. Pare um instante e explique para ele que aquela comida é só destinada aos patos e que ele é um ganso, então não vai ganhar nada.

Quarta regra: Terminado o pão, não há mais papo. Muitos patos ficam insistindo em receber mais e não aceitam a idéia de que acabou. Não dê as costas a eles, pois podem ficar brabos e atacar. Use logo o taco de beisebol.

Boa sorte!