Os olhos miram onde quer que eu vá se me esgueiro no canto e agacho ou atrás da mesa me ponho os olhos estão a mirar apago as luzes fecho as cortinas e embaixo da cama me escondo inútil continuam a mirar abandono o quarto a casa e pela rua me encolho mas a lembrança dos olhos fita persegue e de volta ao quarto estou deitada escondo meus olhos em minhas mãos e o negro me engole. E descubro os olhos dentro de mim.
Desde que escutei os dois primeiros singles do novo álbum do dEUS, “The Architect” e “Slow”, fiquei curiosíssimo para ouvir o que viria por aí. Depois de semanas espreitando os meus softwares de música preferidos, enfim consegui pôr as mãos nas 10 faixas do belo “Vantage Point”.
Se tem uma palavra que define o novo álbum é groove. Desde os primeiros riffs de “When She Comes Down” até os baixos a la Joy Division de “Is a Robot”, as músicas vêm bastante carregadas de suingue. A sonoridade lembra um pouco o álbum anterior, “Pocket Revolution”, mas em “Vantage Point”, a banda abre um pouco mais seu leque, explorando alguns novos territórios musicais.
“When She Comes Down” inicia o disco com um sabor diferenciado, dando o tom de que as novas músicas trazem outros caminhos para a banda. “Oh Your God” segue com uma sonoridade mais característica do dEUS, um rock puto da cara com Tom Barman declamando furiosamente a letra. A terceira faixa, “Eternal Woman”, é um possível próximo single. Prima de “Little Arithmetics” e “7 Days, 7 Weeks”, a típica balada dEUS com violões e belas melodias vocais, desta vez com um backing vocal feminino no refrão soletrando suavemente “E-T-E-R-N-A-L”.
Os dois singles do disco, “The Architect” e “Slow”, aparecem em sequência. “Slow” com seu refrão grandioso e direito a backings femininos da vocalista do The Knife, Karin Dreijer; e “The Architect”, rockinho feito para as pistas de dança, com ecos de The Clash e Zoot Woman.
Um dos destaques é a canção “The Vanishing of Maria Schneider”, uma balada indie-pop com toques de Velvet Underground e R.E.M., cuja letra homenageia a atriz francesa Maria Schneider, mais conhecida pelo seu papel no filme “O Último Tango em Paris”. Mas a maior surpresa mesmo se revela na última faixa, “Popular Culture”, provavelmente a música mais pop já composta pela banda, com direito a criançada cantando junto o refrão. A letra é muito bacana, uma crítica à adoração da cultura americana e inglesa em detrimento da cultura local.
Confesso que acho que a banda já não tem mais o poder que teve nos anos 90, mas continua sendo uma das mais criativas da atualidade e “Vantage Point” certamente merece ser escutado.
Naquele dia Olhou as letras De seu último poema: viu que elas Queriam pular Queriam sair Queriam Voar Pior – atacar Não teve tempo de Fechar os olhos. A pontinha do A Cegou-o.
É como o espaço vazio entre o ponto final e a maiúscula da frase seguinte.
Não tem nada ali, mas ele tem a sua função. Há alguma coisa naquele vazio. E nós todos, secretamente, sabemos.
É ali que agora me vejo. Entre uma coisa e outra. Naquele exato momento em que uma porta se abre, mas ainda não enxergamos quem ou o que está por vir. E nosso olho, fixo na fresta, se enche de fascínio e medo.
Nos segundos em que a porta fica entreaberta, as coisas não estão acontecendo ou deixando de acontecer. Elas estão escondidas no antes e no depois. E, esmagados entre o passado e o futuro, nós permanecemos até o vazio tomar forma.
Um pequeno espaço de tempo onde as coisas respiram e tomam coragem para derramarem-se sobre nós. E nós – curiosos, aflitos, cheios de ansiedade – aguardamos. Mas, entre um roer de unhas e outro, há uma reconfortante compreensão: se a maiúscula vier na letra esperada, teremos muito mais que uma nova frase.
A coisa mais certa na vida de Joana era a consciência de ter um Homem-Aranha em miniatura morando em sua bolsa. Dia sim, dia não, contava-lhe coisas, segredos. Heroicamente ali habitava. Entre papeizinhos inúteis, celular, maquiagem, absorvente, carteira e óculos de sol.
E ela quieta, fingindo que não via. Não ouvia. Não sentia. Vivia com medo de tudo. Mas aceitava-o ali. Ficava esperando pelo dia em que ia ter coragem de falar com ele. Tratá-lo como amigo.
Nos últimos tempos, passava despercebida. Vivia calada. Mal dormida. Ele aparecia como única certeza. Não sabia se ia deixá-lo sair. Se ele quisesse. Curtia quietinha o seu veneno. Doce-azedo. Complicado. Tecia teias incompreensíveis. Só pra prendê-la. E ficava presa. Porque gostava.
Não a deixava dormir. Era ele, era ele, era ele. No pensamento. Não ligava. Ia levando. A vida ficava bem mais divertida assim?
O medo dela (dentre os vários que tinha) era de que um dia ele resolvesse ir embora. Pra sempre. Que jogasse uma mini-teia e fugisse dali, dela, de tudo. Era o medo dela. Era enorme. Se ele fosse mesmo, ela já estava decidida: atirava-se de um prédio. Simples assim. E bem alto, porque o friozinho na barriga ia ser maior. Só porque sabia que havia a possibilidade dele salvá-la. Ele era o Homem-Aranha, afinal.
Só que ele nunca foi embora.
E Joana hoje anda toda feliz pelas ruas, fantasiada. De Mulher-Aranha.
Pobre do cavaleiro que, com espada e confiança em riste,
depara-se com uma princesa dessas.
Do alto da torre, ela observa pela janela. Não pede ajuda ou salvação. Está onde quer e onde merece, longe de qualquer confusão. Não tem medo de bruxa e, o dragão, já domesticou. Quem é bela não precisa de espada, tem a seu serviço a sedução. E o cavaleiro, meio sem graça, se sente um tanto sem função.
“Maçã envenenada?”
Que nada! Só come alimentos orgânicos.
“Roca de fiar?”
Nem pensar! Só compra roupas de grife.
“Tranças longas?”
Chongas! Passou máquina zero.
Lamento, jovem cavaleiro, mas a donzela não é mais aquela.
O conto de fadas está fadado e o príncipe…
fodido.