Clarice Dall’Agnol

Literatura

Ciranda

ciranda

por Clarice Casado

Há em nós guardada
uma dor
despercebida desenganada desesperada.
Que nos toma nos enche nos preenche
Nos pertence
Permanente
Em nós guardada
Não deixa
Não desaparece
Guarda-se
Em nós
Mantém-se
Por todos os lados
Em todas as frestas
Nas noites suadas
Em cada botão caído
Nas janelas escuras
Nos cadernos espalhados
Na noite crua
No instante
Tentamos fugir
Por toda a vida
Ainda assim
Ali fica
Ali mora
Em nós
Guardada
Despercebida
Desenganada
Desesperada
Dor.

Música

As poções mágicas de Sioen

Sioen.jpg

por Cassiano Rodka

Pelo final do ano passado, um passeio pelo YouTube me fez parar em uma apresentação ao vivo dum pianista belga chamado Frederik Sioen. O jovem músico apresentava seu mais novo single, intitulado “No Conspiracy at All”. A canção se instalou confortavelmente na minha cabeça e eu tive que ir atrás de mais material do cara para satisfazer minha mais nova obsessão. Em pouco tempo, eu já estava na lista de maiores ouvintes de Sioen segundo o Last.fm.

Sioen surgiu na cena musical em 2001 através de uma demo intitulada ‘S’. Nela, o compositor apresentava o seu estilo de tocar piano e cantar. Uma voz rouca e suave, às vezes gritada, acompanhava as melodias pop-rock com pitadas de jazz que ele deslizava no piano. Não demorou a chamar atenção das gravadoras e, em pouco tempo, ele entrava em estúdio com uma banda para gravar seu primeiro disco, “See You Naked”. Muitas das músicas da demo reapareceram em melhores arranjos, com mais instrumentos, incluindo guitarras e violinos. Os singles “Too Good to Be True”, “Cruisin'”, “Another Ballad” e “Boom” garantiram lugares nas rádios e Sioen começou a se popularizar – na Bélgica, ao menos.

O segundo álbum, “Ease Your Mind”, foi lançado em 2005 com um show em um velho cinema, que gerou o belíssimo DVD “Ceci N’Est Pas Un Film”. O disco expande o som da banda, em número jazzísticos, como a bela “In No One’s Interest”, canções pesadinhas, como a nirvanesca “Who Are You Driving Mad?” e uma visita belga à Espanha em “Mi Corazón (De Vogels Fluiten Niet)”. Sem falar na minha música favorita do cara que, ironicamente, chama-se “Favourite”.

Em 2007, ele lançou o seu terceiro e mais recente álbum, intitulado “A Potion”. Um CD um pouco mais cabisbaixo que os outros, com letras carentes e melodias tristonhas. Os singles se deram bem nas paradas belgas, incluindo “No Conspiracy at All” – a música que me levou até ele – “Ready for Your Love (High)” e “I Need a Drug”, que tem um clipe vídeo game muito bacana! Atualmente, o cara está em turnê e, não, infelizmente não tem datas para o Brasil. Então o negócio é pôr o som na vitrolinha e curtir macio!

Literatura

Abraço

abraco

por Marcella Marx

Ao Vasco

O pelotão brasileiro cruzou o campo e descobriu um pequeno vilarejo italiano. Mulheres e crianças observavam receosas e caladas. Os soldados, de arma em punho, abrigaram-se sob ruínas e entre as barricadas. Uma velha senhora italiana saiu de sua casa e percorreu o descampado com uma panela nos braços, e, com os olhos cheios d’água, disse ao padioleiro:

“Meu filho, trouxe pão e queijo”.
Ele agradeceu e fez um pedido.
Com um sutil aceno de cabeça ela concordou.
Por alguns minutos o padioleiro e a velha senhora italiana não foram alcançados pela guerra.

Literatura

O escritor sem a musa

escritorsemamusa

por Cassiano Rodka

O escritor sem a musa entra em desuso. Fica confuso. E sua escrita, um tanto obtusa. Com a musa, ele é profuso. Usa e abusa do sentido. Mas quando ela se recusa, ele entra em parafuso. E cai da cama, perde o fuso. Mas quando ela tira a blusa, ele ama e ele acusa. Escritor efuso. Faz da musa seu texto concluso. Um intruso da alma, um poeta recluso.

Ó, escuso criador deste mundo, ouça essa prece difusa e traga ao escritor uma musa que cale uma ópera de Caruso.

Literatura

Noite

noite

por Clarice Casado

O menino que leu as páginas de Noite recém saídas da máquina de escrever do pai entrou quieto na sala lotada. Quieto e discreto. Discretíssimo. Sentou-se com calma, olhou rapidamente para a plateia de jovens aspirantes a escritores aflita por ouvi-lo falar.

Foi umas das horas mais literariamente proveitosas da minha vida, desde o verão de 1990, quando li três livros por semana, um atrás do outro, como se minha adolescência não tivesse nada mais interessante a oferecer.

O engraçado é que eu o imaginava mesmo como uma noite. Algo meio sombrio, absurdo. Misterioso, inexplicável, e todos aqueles outros clichês definidores do substantivo noite. Toda uma aura escura pairava sobre a minha ideia do Verissimo filho. Nada há de escuridão nele, enganei-me. Mais claro e objetivo, impossível. E refinadamente bem humorado, em toda a sua quietude.

Grande leitora e admiradora das obras de seu pai, Erico, fiquei eufórica com a possibilidade de ouvir o filho, a quem igualmente leio e admiro. Segundo ele próprio, porém, escrever não é o que mais gosta de fazer. Indagado sobre sua preferência em escrever contos, romances ou crônicas, respondeu curto (mas nada “grosso”, como talvez se pudesse esperar de um gaúcho), que o que gostava mesmo era de fazer música. De tocar. Produzir melodias. Senti um certo mal-estar na plateia quando essa resposta foi ouvida: um escritor que prefere fazer música a fazer literatura? Sorri por dentro. Aspirantes a escritores chocam-se quando alguém lhes arranha o sonho. Eu, não. Sei dar a cada coisa o seu devido valor.

Não tocou nas garrafinhas de água que estavam a seu lado em uma mesinha. E o calor era terrível. Mal se mexeu na cadeira durante o tempo todo. Mas confessou, sorrindo, que nunca falara tanto em sua vida.

Falou de seu processo criativo, sem fazer mistério. Comentou que lê pouca ficção atualmente. Dos jovens autores, quase nada conhece. Dedica-se a leituras de revistas e periódicos, pois precisa manter-se sempre informado para fazer suas crônicas semanais nos jornais Zero Hora e O Globo.

Seguiu com um pouco sobre futebol, preferências literárias, de como começou a escrever. Erico nunca o “empurrou” diretamente para o ofício. Sua existência como escritor, apenas, levou o filho a traduzir-se no papel. Foi extremamente sincero ao dizer que era óbvio que o fato de ser filho de Erico Verissimo o ajudara muito na carreira. Pouco falava sobre literatura com o pai, por serem os dois homens calados e ensimesmados. Só acompanhava de perto a produção de Erico; leu alguns de seus livros enquanto estavam sendo feitos, saídos frescos da máquina de escrever.

Contou que todos os romances que escreveu foram encomendados para coleções de editoras. No momento, está trabalhando em seu primeiro romance “espontâneo”, que deve chamar-se Espiões.

Um ouvinte fez então a última pergunta: “Verissimo, qual a pergunta que nunca lhe foi feita, mas você gostaria de responder?”. Pensou por alguns instantes, e disse que seria “Quando chegar no Céu, o que gostaria de ouvir de Deus?”. Com um sorriso de guri, a resposta: “Por que demoraste tanto?”.

Literatura

Cacos

cacos

por Cassiano Rodka

Por entre os cacos de vidro, a tua frustração.
Agachado em um canto, cansado; a cabeça balança de leve, negando: o feito e o não feito. Daqui de cima, observo o esmaecido brilho do sol que reflete em alguns pedaços de pratos e copos e lâmpadas. Estilhaços de um lar que construí pra te abrigar. Onde moram nossas lembranças e momentos e parênteses. Mas esse altar, nunca pedi, nunca gostei. Desço dele mais uma vez, agora com consentimento. E a cabeça pende, pesada.

Por entre os cacos de vidro, não resta lugar pro arrependimento.
Quando te levantas, tua sombra vence o meu tamanho. Teu turbilhão de palavras vem em branco. Uma enorme lacuna preenchida com letras transparentes. E a cabeça balança insistente, velando: o dito e o não dito. E sais com aquela vontade de que eu te segure pelo braço e peça pra que fiques e prometa que tudo vai ser diferente. Mas eu não me movo. E não peço e não prometo.

A porta bate outra vez, com força.
E o coração, também.

Literatura

Pre-Teen Blues

pre-teenblues

por Clarice Casado

Estou cansado
Estou com fome
Estou brincando
Tenho saudades
Não estou nem aí
Queria fugir
Queria sair
Queria ficar
Vamos agora
Não quero estudar
Não quero ir pro banho
Escovar os dentes nem pensar
Me deixa me pentear
Meu penteado é assim mesmo
Começa a se acostumar
Estou brincando
Estou jogando
Me deixa jogar mais
Não quero fazer lição
Quero cantar
Quero correr
Quero ficar
Não quero sair
Me leva
Compra
Desliga
Te amo
Te odeio
Chata
Linda
Fica comigo
Sai daqui
Me dói a barriga
Me dói o ouvido
Estou cansado
Estou com fome
Estou com sede
Conserta o meu jogo
Sonhei que ela morria
Estou triste
Estou confuso
Confuso
Mamãe
Confuso.