Clarice Dall’Agnol

Literatura

Última carta

ultimacarta

por Clarice Casado

Prezada,

O problema é que muita gente já morreu aqui. E eu pensando que isso era bobagem. Pouca gente entra e muita sai, e isso não é bom para casa nenhuma. Casa é personagem. E principal, ainda por cima. Não tem cristo que me faça mudar de ideia. Nunca me disseram que eu não podia sair. O meu corpo foi quem quis. E o corpo escolhe. Só quem sente sabe.
Fica todo mundo vindo me olhar, ver meus restos, o que de mim ainda há. Acompanhar meu lento desfecho. Ouvir meu lúcido delírio. Eu nem quero ficar, mas ninguém parece entender nada. No meu pensamento, imagens embaralhadas, enevoadas, desfocadas, acho que em preto e branco até. Vindo e indo. E voltando, muitas vezes. E quem perdeu o foco fui eu. Eu?
A espera me cansa. Me rouba todos os restinhos daquilo que um dia fui.
Falo coisas que não penso. E nas quais não acredito mais. Na maior parte das vezes, acredito, porque a minha mente diz que é verdade. Vomito idéias desconexas. E ainda acham que vale a pena me cuidar. Que voz eu tenho? A minha não é, é uma voz doida que fala por mim. Da minha, não tenho lembrança.
Quem chega não deixa nada de útil. Apesar de acharem que sim. Só as memórias alimentam essa minha fome de ir embora. E me fazem ficar falando a noite inteira. Memórias têm voz mais forte.
O hoje não existe. E amanhã não tem mais. Quem me dera.
É só uma questão de tempo. Pode vir. Estou pronta.

Literatura

Órfão de uma certa Manaus

orfaodeumacertamanaus

por Clarice Casado

Literatura só é literatura quando alguém a lê.

A epígrafe deste texto é dele. E ele mora na minha rua. Uma cidade do tamanho de São Paulo, e o cara mora na minha rua. Tendo há apenas dois meses passado a figurar como um de meus escritores preferidos, Milton Hatoum, ganhador de três prêmios Jabuti, arquiteta mundos praticamente aqui do meu lado e eu, é claro, nem podia imaginar.

Quando soube que ele iria falar na 25ª Feira do Livro do Colégio Miguel de Cervantes, aqui em Sampa, prometi para mim mesma que faria de tudo para ir. E fui.

Entrei no anfiteatro e a plateia de uns duzentos alunos do Ensino Médio da escola estava animada, esperando Hatoum. Tinham lido dois de seus livros, Dois Irmãos e Órfãos do Eldorado, este último recém-lançado pela Cia. das Letras. Achei ótimo, ele ia falar justamente das suas duas obras que eu já conhecia, e tinha adorado. Em realidade, ainda estou lendo Dois Irmãos, mas é tão bom que poderia terminar ali onde estou, página cento e tantos, sendo um livro must read na minha modesta opinião.

Um dos alunos o apresenta brevemente em espanhol e em português, seguido por uma professora de literatura da escola, que fala sobre a honra de tê-lo ali mais uma vez. Os adolescentes logo silenciam, respeitosos. Aplausos, aqui, para o colégio Miguel de Cervantes e para os alunos. Nestes tempos de agitada vida virtual, difícil calar adolescentes frente a um cara de cabelos grisalhos que diz com a maior naturalidade (e coragem!) que não entende nada de Internet.

Hatoum é formado em arquitetura. Interessante pensar que um arquiteto possa ser um excelente romancista. Faz todo o sentido. Pensa nas tramas, as constrói com cuidado. Enfeita um pouco aqui e outro tanto ali. Preocupa-se com os detalhes. Espera pacientemente que os personagens comecem a desenhar-se em sua mente.

Inicia dizendo que só publica os livros dos quais realmente gosta, aqueles que ficaram mais perfeitos, mais acabadinhos, sob seu ponto de vista.

Dá em seguida pequena aula sobre foco narrativo, dizendo o quão difícil foi a tarefa de construir o narrador de Dois irmãos, que é de fato notável. Narrador onipresente e muito bem desenhado, vale a pena conferir. Um menino que carrega a dúvida de sua paternidade: um dos irmãos do título do romance é o seu genitor, disso o leitor sabe desde o início, mas nunca chega a saber qual deles. A plateia adolescente protesta, entre risadas, quando Hatoum confessa, irônico, “Nem eu sei quem é o pai do narrador!”. Não faltam ao autor bom humor e carisma.

Declara sua admiração por Machado de Assis e fala abertamente da influência de sua leitura de Esaú e Jacó na ideia central de Dois Irmãos, uma narrativa sobre irmãos rivais.

Uma outra “microaula” sobre o gênero novela, para começar a falar de Órfãos do Eldorado, seu último livro, feito por encomenda da editora Cia. Das Letras para uma coleção com tema específico, Mitos. Confessa que nunca mais fará livros por encomenda em sua vida, apesar de ter gostado muito do resultado final de Órfãos.

“Tem-se que trazer o romanesco para a realidade”, afirma, após falar de famosa frase de Machado, “Fuja do romanesco, porque o romanesco é sórdido”. E essa é mesmo a sensação que se tem na leitura de seus romances: há algo de perturbadoramente real em suas histórias. Senti-me em Manaus, sinto-me parte das narrativas de Hatoum. Isso é literatura.

Comenta sobre a presença de Manaus em seus romances, dizendo que a cidade é um dos personagens. Fala com tristeza de uma Manaus perdida, a Manaus de sua infância e de sua adolescência, hoje totalmente devastada pela especulação imobiliária. Seu olhar de arquiteto revela-se nas opiniões muito severas com relação às construções modernas em Manaus e São Paulo.

Faz crítica dura aos livros de autoajuda, dizendo que “isso não pode ser chamado de literatura; tudo que é feito por magos não é literatura”. Ele, mais do que qualquer outro, três vezes vencedor do prêmio Jabuti, amplamente lido no Brasil e traduzido em vários países, pode de modo sereno fazer tal afirmação. Aliás, vive de literatura, algo louvável (e quase inacreditável) em um país onde pouquíssimo se lê.

Perguntas dos adolescentes, muito bem articuladas, são respondidas informalmente, com bastante sarcasmo, provocando risos nas jovens mentes inquietas. Diz a um deles que “o leitor é uma abstração, o escritor não escreve para um público específico”. Por isso afirma que a autoajuda não é literatura. Quando se sabe quem é o leitor, faz-se somente o que aquele leitor específico quer ouvir, faz-se sempre a mesma coisa, não se cria nunca. O leitor precisa ser surpreendido.

Uma menina quer explicação para o final enigmático de Órfãos do Eldorado. Está curiosa para saber o que aconteceu. Mais uma vez Hatoum ouve protestos bem-humorados dos alunos quando afirma que o romance não deve ser explicado, as lacunas que existem são importantes para a narrativa. “O final fica para a imaginação de vocês”.

Não acredita em romance autobiográfico, mas admite que sempre há elementos da vida do autor ao longo da trama. Diz que o personagem mais rico não é aquele baseado em um indivíduo, mas aquele que é uma mescla de várias pessoas conhecidas e imaginárias, aquele que é, em sua totalidade, criação do autor.

Desconfia quando escreve mais de duas páginas por dias. Detalhista, levou dez anos para escrever Dois Irmãos e dois para terminar Órfãos do Eldorado.

Fala ainda de jazz, políticas brasileira e mundial, arquitetura.

Surpreende. Enfeitiça. Faz o abstrato parecer real. E o real, duvidoso: “Nunca acredite nos escritores. Eles mentem muito…”.

Literatura

Intruso

intruso

por Marcella Marx

Debruçou-se sobre as cores
como quem avança em noite escura
e segurando um amarelo sol
traçou pegadas no chão incólume
embrulhou-se com vestes da cor dos rios
para que seu destino fosse o mar
riscou em vermelho a voz trancada no peito
as ideias, que viessem em prata e ouro
como pequenas joias
suas mãos abertas
denunciavam o trabalho num verde escuro

mergulhou
do fundo retirou cor púrpura
misturou à do céu
tingiu o chão em barro espesso
e marcou no passo o caminho
nas costas
teve tempo de esboçar o que trazia
– Pedaços de carvão e folhas desbotadas
com a sinceridade do medo foi
e sob seus pés
as cores borrando
em largo rastro.

No alcance dos olhos a vontade em breu e nuvens.

Só ao chão pertencia.

Música

Acústico Dona de Casa

jaybrannan

por Cassiano Rodka

Voz, violão e muita simpatia.
Foi com esses três instrumentos que Jay Brannan tomou conta do palco da sala PF Gastal no dia 17 de abril. O músico e ator foi convidado para participar do evento BIG – A Metrópole do Século XXI para promover o novo filme de John Cameron Mitchell em que ele atua, “Shortbus”, um retrato dos relacionamentos humanos amorosos e sexuais na atualidade.

Jay Brannan subiu no palco timidamente, mas já avisou logo de início que falava bastante. De fato, o cantor conversou um bocado com o público entre as suas músicas, que definiu como “lesbian music”. “São músicas tristes escritas para ex-namorados”, resumiu. Logo na primeira canção, ficou claro que a grande arma do compositor é a sua voz. Aguda, macia, massagem pro ouvido. No violão, ele é um pouco atrapalhado, mas nada que prejudique a apresentação, ao contrário, tem lá o seu charme, aquela cara descompromissada de quem está tocando pros amigos.

“Soda Shop”, que faz parte da trilha de “Shortbus” agradou logo de cara, mas o grande destaque ficou para a inusitada cover de “Se Essa Rua Fosse Minha”, que ele aprendeu a tocar e cantar (em um português impecável) especialmente para o show.

Outra que foi muito bem recebida graças a sua letra engraçadíssima foi a bem humorada “Housewife”, onde o compositor canta todo o seu desejo por ser a dona de casa que cuida do seu bem amado.

O primeiro álbum de Jay Brannan está previsto para sair em maio. Enquanto isso, algumas canções podem ser conferidas no MySpace do cara: http://www.myspace.com/jaybrannan. Vai lá que vale a pena!