Fui ao show do Fuerza Bruta e ele me mobilizou. Se você não quer saber o porquê, pare de ler agora. JÁ! Se você não se importa com spoilers, vou contar um pouco sobre o que vi lá e que não me deixou dormir.
Quantas vezes a gente morre em um dia e segue correndo? Era isso que eu pensava ao ver o homem correndo em uma esteira, sendo atingido por obstáculos, desviando de pessoas, recebendo tiros que o faziam sangrar e ainda correr. A força da resiliência, da sobrevivência que nos faz seguir adiante. Aquela força que até nos emociona ao pensar “como consegui passar por isso?”, mas que também nos faz naturalizar cotidianos tão duros. Ainda bem que a força da alegria veio logo depois. A energia de uma dança, da extroversão. Dançar loucamente, gritar, interagir, se abrir para o mundo e entrar num estado de comunhão com completos estranhos. Amo/sou.
Então, a força da leveza. O movimento na água tão leve acompanhado de uma música quase infantil. As dançarinas sorrindo, como que brincando numa ciranda. Mas isso é força? Ô se é! Força não é somente sobre agressividade, poder. É força também a sensibilidade, tantas vezes interpretada como algo negativo em uma sociedade que falsamente se diz analítica, baseada em fatos e coerente. Mas essa força logo se transformou: os corpos que dançavam suavemente passaram a se chocar com a piscina, proporcionando sons e sensações completamente diferentes dos anteriores. Na verdade, o show todo trazia isso: o corpo como potência, como instrumento que nos permite explorar o ambiente, as sensações, a vida.
Não sei se era essa a intenção do show ou a interpretação de quem o concebeu. Sinceramente, não sei se quero saber – pelo menos por enquanto. Ainda estou processando como essa experiência me atingiu e me fez questionar se estamos realmente usando toda a nossa força ou se estamos nos contendo na nossa existência. Estou aqui, escrevendo quase desconexamente sem saber qual o objetivo desse texto, mas esse ímpeto da escrita também é força e me fez transbordar. Estou aqui, pensando que forças me conectam a esse mundo, quais me movem, quais me freiam. E nesse cálculo do somatório das forças, estou aqui questionando se estamos medindo esforços ou permitindo ser tudo o que podemos. Obrigada, Fuerza Bruta.
Fui ao show do Fuerza Bruta e ele me mobilizou. É um show interativo, completamente diferente de tudo que eu já tinha visto – atenção, pois os spoilers começam agora!
Coisas acontecem de forma não prevista e impressionante, como aparecer uma espécie de piscina sobre a sua cabeça com mulheres dançando na água. É indescritível. Como qualquer show, ele é diferente pra cada pessoa que ali está. Por exemplo, eu fico fora da casa num show do Arcade Fire por milhões de motivos, mas já vi pessoas achando bem MEH – juro que dá uma vontade de dizer: “VOCÊ ESTÁ SENTINDO ERRADO”, mas né? Sempre penso também que a reação de cada pessoa ao show fala muito sobre quem ela é e do seu momento; e, como gosto de suposições, vou fazer várias baseadas nos tipos que vi.
Começo por mim, já que consigo falar dessa pessoa com (alguma) propriedade. Eu estou num momento de vida de espera, escutando meus pensamentos e sentimentos sobre pra onde caminhar. Estou aberta a todas as possibilidades possíveis e ligeiramente perdida. Mas tudo bem, uma hora me acho. Essa Brunna, então, foi ao show evitando todos os spoilers – e foram quase seis anos nessa tarefa árdua. Eu queria a surpresa, queria sentir tudo. Fiquei o mais próxima possível dos palcos, dancei loucamente, me molhei com os chuveiros gigantes e fiquei no mais absoluto silêncio digerindo tudo aquilo. Saí borbulhando!
Perto de mim havia uma pessoa que já tinha ido ao show da outra vez em que ele esteve em Porto Alegre. Essa pessoa estava absurdamente empolgada e comentava tudo o que acontecia, apontando o lugar onde ocorreria a próxima performance e verbalizando suas interpretações e as conexões realizadas com as metáforas trazidas pelo show. Era lindo, mas era ela. Ela estava preocupada em dividir a experiência, em externalizar aquilo tudo, talvez por conhecer mais sobre o espetáculo do que xs demais. Ou, ainda, por querer que xs outrxs vivenciassem aquilo como ela fez e que foi tão incrível. Sabe aquela pessoa que diz: “tu vai visitar tal lugar? Então tu TEM QUE ir num bistrô incrível na ruazinha tal onde eu comi o melhor risoto da minha vida”? Essa pessoa.
Teve, ainda, a pessoa que assistiu de longe. Não a vi, apenas escutei ela dizer, no momento em que a piscina baixava sobre nossas cabeças: “estoura! Estoura!”. É a pessoa da piadinha inconveniente, esse escudo para todos os males, pra quem o sensível é tão assustador que prefere ficar na concha. Essa vivência inusitada que sai fora do que eu conheço? Não, valeu. Prefiro ficar aqui fazendo comentários desnecessários para evitar que essa experiência me mobilize de alguma forma. E, bom, tem aquela que não tá na vibe. Que não tá acompanhando a cadência da música e pra quem o cara correndo na esteira não tem sentido algum. Ela já decidiu que dança contemporânea não é a praia dela, ela só foi por obrigação – tipo acompanhar mozão, ou algo assim. Ela está ali, apenas. Corpo presente, cabeça no que vai jantar depois.
Visto que esses perfis foram por mim inventados, existe uma chance absurdamente grande de eles não corresponderem à realidade – principalmente quanto às delimitações, pois acredito que tem pessoas que alternam entre um e outro num mesmo show ou que são um híbrido deles. Mas partindo do pressuposto de que eles são minimamente válidos, me surpreendi de conseguir transpor todos para o contexto escolar: aquele alune interessade pela descoberta, que quer ver o que vai acontecer ali; tem o que faz questão de explicar tudo a todes, na forma como elx entendeu; tem quem faça comentários desnecessários pelo medo de lidar com o que vem; e quem apenas tá ali porque é obrigatório, ou que acha que aquilo não é interessante mesmo. Obviamente que não só de alunes é feita a escola, mas há docentes nesses perfis também.
E o que podemos concluir dessa conexão maluca inventada que eu fiz? Que a sala de aula, como o show, é uma articulação muito complexa de coisas: alunes, docentes, ambiente, interesses, gostos, disposição, momentos de vida e tantas outras mais. E aí eu me pergunto: quem é que inventou que a mesma aula serve pra todo mundo em todos os contextos? O que é inegável é que a escola tem um potencial absurdo de mobilização, como um espetáculo. Talvez a gente só não esteja organizando o evento da melhor maneira. Ou talvez os artistas não sejam bons. Ou o ambiente não tá legal. Ou o tipo de show não seja o que mais te interesse. Mas já está na hora de parar de pensar que o problema é somente o espectador – ou melhor: pensar que alune é, somente, espectador.
Fui ao show do Fuerza Bruta e ele me mobilizou. Um dos motivos foi ter conhecido Juliana.
Juliana pedia sua champanhe ao mesmo tempo que tentava controlar sua ansiedade e empolgação, que eram visíveis do espaço sideral. Ela estava louca de vontade de dividir aquela experiência com alguém – e a escolhida foi minha irmã, que também estava no bar. Assim ela me foi apresentada: uma mulher recém divorciada, com uma filha pequena e que estava riscando o item “ir sozinha a um show” da sua lista de coisas pra fazer antes de morrer.
Nosso grupo, em que, coincidentemente, todas as mulheres eram divorciadas e 75% eram mães, prontamente acolheu Juliana. Perguntamos sobre os outros itens da lista, que consistia em fazer coisas sozinha, como jantar, ir ao cinema, viajar, etc. Juliana aproveitou o espetáculo perto de nós e sorriu muito. Ela e minha irmã trocaram telefones (quem faz isso, gente?) e provavelmente essa será a única vez em que a verei na vida, mas expressamos a vontade de dar uns rolês em São Paulo juntas. Nenhum sentido e todo sentido do mundo ao mesmo tempo.
Então, falando sobre seu momento de vida, Juliana disse: “a gente tem que aprender a ser feliz sozinha, não é?”. Talvez por isso eu tenha gostado tanto dela. Descobri recentemente que existe essa palavra chamada solitude, que remete à alegria de se estar sozinhe – o que a difere da palavra solidão. Eu sou uma fã de carteirinha da solitude, mas tenho descoberto que ela é incompreendida, tadinha. No último réveillon, por exemplo, senti que precisava dar um fechamento a 2018 num momento meu, de solitude. Decidi que ficaria sozinha na cidade e não viajaria com amigues ou família, e eu estava ótima com isso. Simultaneamente, minha família concluiu que havia algo seríssimo acontecendo e que eu ia ficar muito triste de passar a virada de ano sozinha. Haja saliva pra argumentar que eu REALMENTE queria ficar na minha.
Por gostar tanto da solitude, desenvolvi uma pira de constantemente sentir meu espaço sendo invadido e, basicamente, por qualquer coisa. Odeio que me perguntem onde eu estou, por exemplo (sim, já ouvi que eu deveria vir com manual de instruções, OK?). Mas será que é tão doido assim achar que a pessoa deveria explicitar o motivo da pergunta antes de fazer a pergunta em si? Digamos que a pessoa me ligue e pergunte o que eu estou fazendo. Ninguém nunca me perguntou isso porque estava interessade nas minhas atividades mundanas. Em geral, é porque pretende fazer um convite e quer saber se eu estou ocupada. Olha só, eu não querer sair com você não quer dizer necessariamente que eu tenha que estar ocupada com outras atividades ou pessoas, pode ser que eu não queira sair porque quero passar um tempo… comigo! Mas é só falar isso que escuto: “leoninaaa, ela se basta”; “minha companhia é tão ruim assim que você prefere ficar só?”; “assim vai acabar sozinha, hein?”. Tá bom, obrigada.
“Brunna, quer dizer que você nunca se sente sozinha?”. Óbvio que sinto. Tem momentos em que não queria estar apenas comigo, ou que queria estar com alguém específico. Tem aqueles em que quero compartilhar algo e sentir que ninguém entende exatamente o que eu estou dizendo é a maior solidão do mundo, algo que já me aconteceu em uma sala repleta de gente. O que me incomoda é transformar sentimento em análise quantitativa: seja N o número de pessoas que está com você; se N é maior ou igual a um, então você está feliz; se N é igual a zero, então você está triste, isolado, odeia o mundo, trevas.
Um divórcio foi o necessário para impulsionar Juliana a questionar essa equação. Para mim, um ano sabático (2015, mais precisamente). Admito, foi difícil conviver tanto assim comigo mesma – mas descobri coisas sobre essa pessoa que eu nem imaginava. Me encantei com alguns aspectos; tento, ainda, mudar o que não gosto tanto assim. E sigo nessas descobertas e reafirmações, num processo de entendimento de mim e de construção de outras equações que me satisfaçam mais, agora repletas de variáveis.
Se realizar uma mudança já nos faz pensar no que a gente tem, imagina quando vamos para outra cidade. Adicione a isso o fato de que você está indo para uma casa montada, ou seja, aquelas canecas todas que você tem (e até gosta) não terão utilidade alguma. Esse foi o meu dilema em 2018 ao me mudar de Santa Maria para a casa da minha irmã em Porto Alegre. Então eu tentei vender tudo, estilo garage sale mesmo, abrindo a casa e colocando preço nas coisas. Me dei o título de A DESAPEGADA e me enchi de orgulho.
Mais ou menos na mesma época, mozão estava se mudando também, mas para Europa. Pensa em tudo que cê levaria para começar a vida em outro país. Tudo que pode ser necessário e não pode deixar no Brasil, como documentos e aqueles livros essenciais. Roupas para todas as ocasiões, lembranças. Ele juntou tudo isso e foi com… uma mala, uma mochila e o computador. UMA mala. E eu, ~a desapegada~, precisei de três viagens de carro para trazer tudo de Santa Maria. Dá mais que tá pouco, amore.
Essa surra serviu para eu perceber que eu estava recém engatinhando. Foi uma super vitória pessoal, mas ainda tinha muito que aprender sobre desapego. Assisti, então, o documentário Minimalism (tem no Netflix!) para aprender com os outros. É óbvio que o doc é uma promoção do livro dos caras em vez de uma mega investigação sobre o tema, mas gente… Um dos autores viajou em uma turnê de oito meses com uma mala de mão. UMA. MALA. DE. MÃO. Só por esse momento chocante já vale a pena.
O problema dessas reflexões todas é que, nesse final de ano, as caixas de entrada e de spam totalmente lotadas com propagandas me irritaram mais que o normal. Profundamente, eu diria. Cara, é que a quantidade era absurda! Todos os dias, dezenas de e-mails anunciando coisas que eu não preciso, e é melhor eu nem olhar porque vou acreditar cegamente que não posso viver sem aquilo. E o shopping, então? Ódio mortal, antro do consumo, tudo impessoal. Só que isso evoluiu para “mãe, pra que tu vai me dar presente? Eu nem tenho onde colocar as coisas!” e aí acho que foi longe demais. Paciência, e não desistam de mim, eu estou aprendendo. Buscando o equilíbrio.
Mas o importante é que repensei as minhas compras, os presentes e o próprio espírito de Natal. Foquei muito mais na mensagem e no significado, no ato de presentear em si, do que na coisa. Por exemplo, presenteei um vídeo, uma arte e um livro que eu fiz. Ganhei postais, uma carta linda e coisas que eu realmente vou usar. Entendi que o desapego não era um ato, e, sim, um modo de ser no mundo; ele não quer dizer ter absolutamente nada, mas, sim, ter coisas que realmente tenham valor. Que 2019 seja de mais desapegos para nós, inclusive nas relações.
Um daqueles momentos de perceber o quanto se é privilegiada é pensar em quantos museus já se foi na vida. Tive a oportunidade de ir naqueles super incríveis, como o Louvre, o Metropolitan, o British Museum, o Prado. Lembro de entrar no Louvre, com meus amados 18 anos, e um Pedro do meu lado pirar pela Vitória de Samotrácia. E eu disse: “Bah, massa né?”. Não fazia a menor ideia do que era, mas tudo bem porque ele adorou explicar. Acho que posso resumir bem essa experiência dizendo que ele ficou no museu até fechar e eu saí antes pra ir no McDonalds – 18 anos e com fome, gente, me perdoem.
Então, pode-se dizer que eu não era uma pessoa muito ligada nas artes. Mas, como tudo, isso também foi um processo: comecei a me interessar, estudei sobre e, principalmente, liguei o foda-se. O foda-se, esse movimento contemporâneo que tem até livros sobre, foi essencial para a minha (ainda em construção) concepção do que é arte e de como ela me toca. Justamente porque o foda-se me deu a autorização para, respeitando o aspecto histórico e inovador daquela obra no contexto em que foi criada, ainda assim, dizer “meh”.
Esse mesmo foda-se fez com que eu não ignorasse, mas me permitisse dar menos importância ao que as pessoas diziam que eu TINHA QUE visitar, aos museus que eu TINHA QUE ir e aceitar ir naqueles em que eu realmente queria ir – e se preferir, em vez disso, ir no bar, tá tudo ótimo. O que eu não tinha percebido ainda, e que agora vejo (obrigada maturidade e processo reflexivo) é que o foda-se não é somente uma quebra de relação de poder do que se legitima como importante na arte, mas também uma forma de se ouvir. De pensar o que me toca, o que me move, o que me sensibiliza.
Nesses museus ~importantes~ todos, vi obras incríveis, algumas de tirar o fôlego. Um dia vi uma ilustração¹ que me mexeu de uma forma que as lágrimas brotaram na hora. E foi na… Comic Con Experience. Informe: Comic Con Experience é um evento de quadrinhos em São Paulo, nem museu é. Coincidentemente (ou não, vai entender esses caminhos da vida) o Pedro estava comigo e disse: se tu não comprar, eu te dou. Com certeza, aquele abalo foi do momento: aquele dia, aquela fase da minha vida, aquela Brunna, naquela viagem, com aquelas pessoas. Talvez batesse de outra forma se fosse meses depois. Não importa. O que sei é que a aquela ilustração vale mais, pra mim, do que um Picasso.
E não, o foda-se não me fez ir menos a museus. Ele me fez ficar 8h em um ônibus para ir ate o Museu do Escher, porque, pra mim, fazia sentido; me fez ir ver a Moça do Brinco de Pérola porque eu realmente estava instigada a analisar a luz do quadro; me fez achar que valia a pena ir no Museu da Diversidade Sexual, mesmo que ele seja uma única sala na estação de metrô República – e valeu. Me ensinou também a não dizer para as pessoas que elas TÊM QUE ver tal obra porque é incrível, mas, sim, a dizer que seria bem massa ver o que essa obra pode despertar nela. O foda-se, afinal, me tornou mais crítica, mais forte e mais decidida – e, quem diria, ele justamente é se permitir ser sensível. Talvez o que me faltava mesmo era esse caráter libertário e revolucionário da arte, inclusive sobre mim.
¹ A ilustração é esta, chamada Thinking (Mika Takahashi, 2017). Linda, né?
Uma das máximas do universo é: entrarás em qualquer sala de profes e encontrarás uma revista da Avon. OK, pode ser Natura, MaryKay ou qualquer uma dessas que mostra os cosméticos e até produtos de casa ou livros – nenhum sentido. Você já deve ter visto alguma dessas e a história é sempre a mesma, que ilustrarei em quatro momentos. Primeiro, a ilusão: “Uau, deve ter um monte de coisa interessante! Que perdição!”; segundo, a decepção: “Não gostei… não gostei… é, legal…”; terceiro, o interesse: “Humm esse batom parece bom, vou ler a descrição”; por fim, o quarto momento – resignação: “Tá, até que vale pelo preço. Vamos comprar pra ver qual é”. Bem-vindxs ao Tinder.
O Tinder é exatamente isso, só que com seres humanos. Você baixa um aplicativo que é, basicamente, um catálogo de gente: algumas fotos, breve descrição (quase sempre lotada de emojis e informações sobre signos ou uma frase “de impacto”) e eras isso. Algumas pessoas conectam com o Instagram ou com o Spotify para impressionar com aquelas fotos de viagem do #tbt ou pra ter uma musiquinha bacana para começar assunto. Se a pessoinha te interessa, você dá um like. Se ela não der like quando você aparecer no catálogo dela, nada acontece e ela nunca fica sabendo do seu interesse (ufa!); se ela também dá like em você, AE AE AE vocês têm um match.
Eu entrei nesse aplicativo para beijar pessoas – aham, lida com isso. Aqui as coisas começam a complicar porque, mesmo ele sendo um catálogo pra todo mundo, a forma que cada um usa é diferente. Eu, por exemplo, nem leio o que as pinta colocam lá: vejo a primeira fotinho e, se achei interessante, vou pra próxima; se aparentemente me atraiu, vou pra descrição ver se tem algo horrível tipo #bolsonaro2018 que eliminaria x candidatx. Não tendo, blz: like. Meu modus operandi só muda quando encontro alguém conhecido, quando ou dou o like direto sem nem olhar nada ou já passo adiante saio correndo deus me livre nem vi. Pra complicar mais, é claro que, como em um bar ou em uma festa, têm pessoas com objetivos diferentes. Tem quem só queira dar um UP na autoestima recebendo likes e se sentindo desejadx, e tem quem queira trolar a galera com perfil falso. Tem altos perfis de casal procurando ménage e perfil de grupos que buscam amigues. Tem tudo. Microcosmos da sociedade.
Um tipo que sempre me intrigou é o do “Procura-se mozão”. Alguns até escrevem no perfil: “Se não quer relacionamento sério, nem dá like”. Gente. O aplicativo tem mais fotos do que caracteres, como tu espera concluir que aquela criatura é um potencial mozão com uma descrição minúscula pra saber se dá o like ou não? E tem mais: até agora, do que pude entender bem pouquinho sobre o amor, é que mesmo sabendo até o tipo sanguíneo da pessoa você não tem como saber se ela vai ser o seu mozão. Então o lance todo é só saber se a pessoa tá disposta a se apaixonar? E se ela está disposta, mas não com você? E se não rolar aquela química doida? Acho complexo isso.
Mas entre as pessoas que se dizem na mesma vibe que eu, de “só pegação”, a coisa não é tão mais simples não. Tem muita gente que quer uma meeeeega conversa antes de um encontro real, acredita? Aham. A criatura diz que só quer me dar uns beijos, mas, antes disso, precisa saber toda a minha vida, meus planos pro futuro e a até a relação com meus pais. Isso não faz o menor sentido pra mim. O questionário básico “nome, idade, emprego/estudos, foi golpe ou não” já não tá mais que bom? Quem nunca ficou com gente em balada sem antes perguntar essas coisa tudo?
E é quase um protocolo. Quando você responde um monte de coisas uma vez, até pensa que a pessoa tá super interessada e junta forças pra fazer isso; agora, fazer isso 31793 vezes é um porre. Digo mais: dá pra ver que a pessoa não tá interessada real oficial, sabe? Aquelas respostas “bah, legal”. Parece que ela tá preenchendo um daqueles questionários que a gente fazia na 5ª série que, a bem dizer, é um monte de informações – e todas elas bem selecionadas para se manter fiel a imagem que se quer criar, assim como as fotos, as músicas e tudo o mais. Isso tudo, junto com os vários bolos que tomei em encontros reais, me faz questionar até que ponto a galera tá disposta a sair do perfil, a ter uma troca real mesmo. Abraçar o imprevisível, ver a expressão que a pinta vai fazer quando vocês se virem a primeira vez ou se ela realmente está rindo da sua história em vez de fazer uma aglutinação de letras k.
Então, pode dizer que só quer transar mesmo ou que não tá tão a fim assim; tá autorizado dizer que sonha em encontrar THE ONE, casar e procriar loucamente; vale também procurar gente só pra dividir lanches. O Tinder, enfim, se verificou mais uma experiência antropológica do que qualquer outra coisa. É um não-lugar bem interessante para ver diferentes tipos de postura e relações (e, claro, pra dar umas risadas também). Aí questiono: superficiais mesmo são as relações só de pegação ou essas que ficam só no blábláblá virtual? Sei não. O que vejo é que, pra mim, falta olho no olho, toque, aquela leitura da linguagem corporal pra ver qual é que é mesmo. Talvez seja por eu pensar assim que só saí com duas pessoas do Tinder até hoje: uma virou amiga; outra, mozão (veja só). Mas as duas foram as que primeiro toparam o café e, depois, a conversa de horas. Quer saber? Acho que já deu. Perfil deletado.
Inverno tá chegando, galera, e eu estou aqui num dilema terrível de como me alimentar de coisas vegetarianas, quentes e não tão absurdamente calóricas como todas as que eu penso (quer mais #whitegirlproblem que isso, bb?). No verão, a combinação vegetariano + não tão calórico é fácil porque tenho um amor eterno por frutas; mas no inverno não dá, sabe? Quando eu volto de alguma atividade física, até vem a vontade de algo geladinho, mas fora isso eu só penso em frutas no modo banana assada ou maçã quente com canela ou fondue com chocolate e aí já meti o açúcar – socorro! Por mais que eu odeie o verão, esse é um ponto positivo: as coisas geladas são bem reconfortantes.
Lanches quentes e vegetarianos é de boa, mas a parte do não tão calórico a gente come. Por exemplo, no Chile tive o prazer de provar uma coisa maravilhosa chamada scone quatro queijos. BAH. Apenas. Mas acho que a minha percepção gustativa foi alterada pelo prazer da conversa com uma ex-aluna com quem tive essa experiência gastronômica. Cê vê como são as coisas: a gente não encontra as pessoas em Porto Alegre, mas encontra em Santiago. Conversamos demais sobre diversas coisas da graduação, dos planos, do que estava acontecendo nas nossas vidas. E ela, naquele momento minha professora, me falou de como tinha vindo para essa cidade com o coração aberto, sozinha, repentinamente, para trabalhar diretamente com pessoas e pesquisar em uma língua estrangeira. Ela veio disposta a viver intensamente aqueles meses, e não seria qualquer coisa que faria ela deixar de aproveitar aquele momento da melhor forma possível.
Fiquei pensando sobre essa resolução dela que foi tão consciente e me perguntei quantas vezes fiz isso na vida. Quantas vezes pensei: “quer saber? Vou aproveitar o máximo desse momento porque ele é realmente único!”. E a resposta imediata veio na forma das paixões. Sabe quando tu para e percebe o quanto tu tá mega apaixonada por alguém? Também conhecido como aquele momento do “É, fodeu”. Sempre que esse pensamento me ocorreu, parei para refletir e decidir (ou achar que estava decidindo) se eu viveria aquilo com todo o meu ser ou esconderia aquele sentimento e sofreria quietinha no meu cantinho – dramática? Capaz. Mas quem nunca escondeu um amor, né non?
Por mais bonita que essa associação com paixão/amor seja, é ainda pouco. Tudo o que a gente vive é único e não escolher vivenciar tudo o que aquele momento pode propiciar é o mesmo que escolher viver só uma parte dele. E eu, que sempre clamei pela prudência (Dear prudence, won’t you come out to play?), hoje me pego pensando que parece absurdo dizer que alguém gostaria de viver algo pela metade. Lembro que, quando entrei na faculdade, a minha irmã mais velha me disse para aproveitar tudo que a UFRGS poderia me dar: todos os cursos, todas as palestras, recursos, trocas e o que mais tivesse. Eu não fiz isso. Poderia dizer que sou bem hipócrita, porque digo para os meus alunos e minhas alunas aproveitarem; mas acho que, na real, agora que sou mais velha, eu consigo ver quantas oportunidades perdi por fazer coisas pela metade (ou 75%, 60%, 3,14% e por aí vai).
Penso que talvez essa prudência estivesse presente sempre na tentativa de viver só a parte boa das coisas. É ridículo pensar que a gente quer vivenciar alguma parte ruim, mas elas, em certa medida, também compõem o todo da experiência – e o viver intensamente é um aprendizado sobre força e resiliência também. Estou ainda trabalhando em admitir que não tenho total controle de tudo e bancar a Frozen (let it gooo) pra ver o que acontece; me abrir para o acaso e para o que pode surgir. Mas é difícil, é processo, é aprendizado. Às vezes, é só consciência e escolha mesmo. Enquanto isso, continuo procurando uma comida vegetariana quente e não tão calórica pro inverno. Aceito dicas, inclusive! Mas, por favor, não me venha com nada morno.
Eu vivi nos últimos 11 anos apenas relacionamentos abertos. Ufa, que alívio! É gostoso poder dizer isso e não ouvir de volta o tradicional “Como assim?” ou “O que isso quer dizer?”. Toda vez que alguém me pergunta isso me dá vontade de questionar como funciona o relacionamento monogâmico dela, como isso foi decidido entre o casal e se o parceiro ou a parceira aceitou de boa – que são as coisas que mais escuto. É quase como quando alguém te pergunta quando que você percebeu que era gay e dá vontade de perguntar quando que a pessoa descobriu que era hétero, como foi contar pros pais dela, essas coisas. Mas, num mundo em que relacionamentos abertos são tidos como “incomuns” (e isso é altamente questionável, pois, vivendo um, você descobre que tem muuuuuito mais gente em relacionamento aberto do que parece), eu prefiro dar explicações para não deixar a imaginação das pessoas ir muito além.
Um relacionamento aberto é um relacionamento que não é necessariamente monogâmico. Fim. Essa é a única cláusula básica. O resto da brincadeira vocês inventam, vão ser felizes, bjs de luz. Tem gente que tem relacionamento aberto e fica aaaaanos sem ficar com outra pessoa, tem os que ficam sempre, tem os que ficam só quando o parceiro ou a parceira está junto, tem poliamor, tem um monte de coisa – e não há uma regra do que é certo ou errado aqui, mas do que serve ou não a quem está vivendo isso. O que acho interessante desse pensar os termos de um relacionamento aberto é que você faz algo que não se costuma fazer em nenhum relacionamento, e que, a meu ver, é super necessário. Não que você vai chegar pra pessoinha com um contrato com cláusulas e malditas letras miúdas, mas isso pode ser discutido e construído à medida que se vai vivendo. O ponto é bem este: processo, nada está dado a priori (o que, em geral, é a base de um relacionamento monogâmico).
Note que eu tenho problemas com a premissa da definição do relacionamento monogâmico, mas não com ele em si. Gente, cada um vai viver sua vida como quiser! Não acho que relacionamentos abertos são para pessoas evoluídas como já ouvi por aí, algo tipo “calma queridinha, um dia você vai ser desconstruidona e vai chegar lá”. Apenas pare. Inclusive tem uma cambada de gente usando esse discurso de evolução para se colocar em uma posição de “ditador(a) de regras do relacionamento”, não fazendo nenhuma discussão com o(a) parceiro(a). Palha. Ahhh , sim… não vamos esquecer o esquerdomacho desconstruidão que diz que amor livre é lindo, mas só se ele pega todas as minas e a namorada dele não. Se ele beija todo mundo e a namorada dele só fica com meninas, mas, com outro homem, não. Isso não tem nada a ver com relacionamento aberto, a pessoa que é idiota mesmo. Então, mores, relacionamento aberto não é sinônimo de algo incrível e não é pra todo mundo, você que tem que decidir se, com essa(s) pessoa(s) específica(s) você quer viver uma relação nos termos tal e tal. Conversem, essa é a dica.
Maaaas, toda essa introdução foi pra relatar uma história que eu ouvi esses dias de um cara que falava que estava namorando uma menina super bacana, linda, querida, massa. Relacionamento monogâmico, ela é o amor da vida dele. THE ONE. Aí ele contou que ficou com outra esses tempos e eu fiz uma expressão de “q?”. Nisso vem aquele sorrisinho que dá vontade de esfregar a cara da pessoa no asfalto acompanhado de um “Ahhh, sabe como é, né?… a carne é fraca… sabe como homem é”. Sinceramente, se eu fosse homem, sentiria vergonha desse exemplar da minha espécie. E pausa para observar o machismo básico da afirmação: homem é que faz essas coisas; mulher, não. Se a mulher fizer, é vagabunda, não merece respeito. Se o homem faz, é pegador, é da natureza. Tenho certeza que a fala desse cara não contempla todos os homens do mundo e não é a questão do machismo que me interessa neste exato momento.
Justamente por essa história não ser a primeira que eu escuto de pessoas que têm um relacionamento monogâmico e ficam com outras pessoas que o que eu realmente – REALMENTE – não consigo entender é: como que um relacionamento aberto pode ser tratado como a coisa mais absurda da face da Terra e um relacionamento monogâmico onde alguém trai é tão naturalizado? É explicado biologicamente até, pois “a carne é fraca”. ATA.
O status de uma relação é algo construído socialmente, não existe uma tábua dos dez mandamentos dizendo como cada um tem que viver o seu e tudo mais. Então quem sabe a gente para de aceitar as definições (de tudo, eu diria) como se elas não tivessem sido por nós construídas e nos tornamos autores e autoras dessa história? Ouso dizer que talvez as definições nem tenham mais espaço em alguns contextos, mas isso é papo para outra hora. Mas, dentro da conjuntura atual de atribuir nomes para nossa identidade, relações, etc., temos que analisar o que essa definição quer dizer: monogâmico tem “mono” no nome, veja só. Se essa configuração não te serve, blz. Crie outra! Só não pode duas coisas: 1) vomitar regra do que é um relacionamento ideal; reflita e crie a sua forma de viver isso com quem quer que seja. E 2) seja monogâmico, aberto, livre, poliamor ou whatever: permaneça fiel à definição. Pelo menos a ela, já que às pessoas muitos não estão sendo, né nom?
Ao discutir a História da Matemática como metodologia de ensino, acabo por ter que falar de história – ah, essa arte de falar sobre coisas das quais sei muito pouco. Certa vez, um professor de história sensacional elaborou e ministrou comigo essa aula e decidimos discutir a relação de poder presente no discurso histórico a partir do vídeo “O perigo da história única”, aproveitando para dar visibilidade a essa palestrante e incrível escritora Chimamanda Adichie.
O vídeo fala de diversas situações vivenciadas por Adichie em que as pessoas (ela, inclusive) se basearam em uma única história sobre alguém para definir quem esse alguém é. É algo como estereótipos, mas o enfoque é na construção deles a partir da história desse alguém – e poderia ser estendido para lugares, experiências, etc. Sempre que vejo esse vídeo me lembro do episódio do Simpsons no Brasil, o seriado mais baseado em pré-conceitos que existe, onde a TV brasileira apresenta um programa educativo estrelado por uma mulher com adorno de rainha de bateria e outras figurantes que se esfregam no alfabeto. Interessante para refletirmos sobre o estereótipo da mulher brasileira (em especial, a mulher negra) hipersexualizada, mas isso é papo para outra hora.
Com certeza vi esse vídeo da Adichie mais de dez vezes e, em todas, eu me pego refletindo sobre os momentos em que acreditei em apenas uma versão da história, nos julgamentos realizados e ideias pré-concebidas. Me envergonho de todas. Mas sabe quando algo acaba ficando tão presente nas reflexões que começa a se tornar meio óbvio e você começa a ficar meio bolado com quem não pensa sobre isso? Pois é. Eu estou nesse ponto. E aí as pessoas acreditarem numa história única sobre qualquer coisa começa a me irritar real oficial.
Penso que isso é, em parte, reflexo das relações desta modernidade e o que chamamos de era da informação. Pode parecer contraditório, porque a ideia de muita informação justamente iria contra o princípio de uma única fonte e uma única história. Porém, o que aprendi até agora sobre as relações atuais, é que todxs falam; mas poucxs escutam. Maior exemplo disso, a meu ver, é o Twitter, onde as pessoas falam sem parar sobre as coisas mais banais do mundo para esse ouvinte tão especial que é todos e ninguém ao mesmo tempo – e várias verdades são tiradas daí.
Mas não é somente nessa rede social que isso acontece. Esses dias eu postei uma foto com uma amiga no Instagram escrito “crush” porque ela é meu mozão mesmo, hihi. Noooossa, altos comentários e perguntas se ela era minha namorada. Mas não para por aí: poucos dias depois postei no Facebook uma foto com um amigo que foi meu companheiro, e novos comentários surgiram perguntando se estávamos juntos novamente. No dia SEGUINTE, postei foto de uma amiga comigo, e mais comentários foram feitos. Não sei se me sinto lisonjeada por acharem que eu tenho tantos namorados e namoradas ou se deveria me preocupar de me acharem promíscua (nem vou dormir hoje de tanta preocupação). Mas fiquei viajando sobre isso e a ideia de fala e escuta. Foi criada uma narrativa para aquele contexto baseada na vivência dxs leitorxs e no que elxs sabem de mim. Menos de 10% de quem viu a foto veio perguntar sobre ela, apenas espalharam o que achavam que ela representava.
Há pano pra manga para discutir sobre exposição na internet, sobre se importar com opinião dxs outrxs… sobre mil coisas. Mas, sem sombra de dúvida, também tem para questionarmos o nosso lugar de fala na contação de histórias – as nossas e as dxs outrxs. E no lugar de ouvintes também. E se tem alguma coisa que a Adichie me ensinou é que uma história sobre alguém é sempre incompleta e repleta de estereótipos.