Piras

Usucapião

imagem: Brunna Stock

eu reivindico meu corpo

ele não é do Estado omisso

– ou controlador, quando convém

meu corpo não é do Homem, contradizendo a lógica vigente

ele não é da Igreja,
seja ela qual for

ele é meu
apenas meu

meu para ser cuidado
admirado
exaltado
para ser compartilhado
sob a minha lei
para ser tela da pintura
da minha mutabilidade

meu para ser instrumento de prazer
de potência
de luta

meu para dizer que é meu
e de ninguém mais.


O texto e a montagem acima foram inspirados na música “Espia Escuta” da Mulamba. Durante maio de 2021, nossa equipe produziu textos, fotos e ilustrações inspirados em canções selecionadas por Cassiano Rodka. Confira as faixas escolhidas na playlist “P2 #4 | Desafio Musical” no Spotify.

Piras

Promessa

“O céu é só uma promessa, eu tenho pressa, vamos nessa direção” já cantavam os Engenheiros do Hawaii. Promessa: afirmativa de que se dará ou fará alguma coisa; compromisso oral ou por escrito.

O problema da promessa é que ela é anacrônica. Estou eu, aqui, prometendo algo que será feito mais adiante por uma Brunna que talvez nem ache que esse troço ainda faça sentido. Nas palavras de Radiohead: “eu vou ser sua força, sua esperança, mantendo sua fé quando ela for embora”. Honey, e se você não quiser ser mais isso? Mas talvez esse não seja o melhor exemplo porque na mesma música diz que “eu prometo não fugir mais, até mesmo quando o navio estiver quebrado, me amarre ao deck podre”. Ãhn?

É aquela máxima: “quando eu passar no vestibular, eu vou cortar o cabelo” ou “se eu passar no vestibular, não vou cortar o cabelo por um ano”. Ou ainda: “esta semana eu não vou mais beber meu vinhozinho depois do expediente”. Aí o seu eu do futuro fica POR QUE VOCÊ FEZ ESSA PROMESSA? ELA NÃO TEM MAIS SENTIDO! FODA-SE! NÃO VOU CUMPRIR. Nessa hora bate aquela dúvida: será que o universo vai me punir por isso?

O problema da promessa é que ela é ignorante. Fazemos uma promessa acreditando que ela PODE ser cumprida, mas muitas vezes nem sabemos a real aplicabilidade dela. É o famigerado “eu prometo que vai ficar tudo bem”. Ah, claro, porque você, alecrim dourado, conhece e controla todas as ínfimas variáveis desse universo para garantir que “vai dar tudo certo”. Cê não tem como saber isso. A promessa envolve outras pessoas, sistemas, organizações e até mesmo a banda When in Rome, que eternizou uma música sobre promessa, esqueceu dessa parte quando dizia “eu prometo que você vai se apaixonar por mim”. kkkkk

Se a gente realmente tivesse certeza de algo, a gente chamava de plano/meta/objetivo e não promessa. Quer melhor exemplo que promessa de campanha que depois se percebe que não tem como cumprir? “Enquanto o sistema só tá prometendo, por lá as nota voa e faz elas correr atrás, então avisa pra mídia: a quebrada tá no ar. O que eles promete não é o que chega pra cá”, já diria o MC Leozinho.

O problema – e a delícia – da promessa é que ela é ilusória. Beeeem no fundinho, a gente sabe de tudo isso que eu falei, mas o gostinho que a ilusão traz às vezes fala mais alto. Não estaria o erro da promessa em condicionarmos nossas decisões ao fato de que ela realmente vai acontecer? Ou talvez o problema da promessa não esteja em quem faz – que, por alguns segundos, tem fé de que pode cumprir – mas em quem acredita.

Então, jovem, prometa. Prometa muito. E acredite também. Acredite por alguns segundos que vai ficar tudo bem, que o amor é eterno, que você é única, que aquela verba será destinada, que você vai deixar de controlar tudo, que você vai realizar os planos deste ano. Às vezes a gente só precisa de um pouquinho de ilusão – a realidade, cheia de frustrações, a gente deixa pra outra hora.

Piras

Germinar

Ando um pouco obcecada pela minha tradescantia. Convivemos há quase um ano, desde que ela chegou aqui pequenininha, apenas um galhinho que quebrou da grande pendente da casa da minha irmã. Não posso mentir: ela sofreu nas minhas mãos, coitadinha. Comecei com o basicão de deixar na água pra criar raízes e, até aí, tudo certo. Mas então decidi que ela ficaria linda num lugar que mal pega luz e plantada em uma lata fucking hipster. Sua vida ficou por um fio. Mas sou insistente e decidi colocá-la de volta na água. Ela, resiliente, criou novas raízes e foi plantada em outro vaso num lugar mais iluminado. O novo vaso era ótimo, mas a drenagem, não. A coitada já não me aguentava mais, e eu podia ouvir suas súplicas para deixá-la morrer em paz, mas lá fui eu replantar no mesmo vaso, regado a muitos pedidos de perdão e promessas de que eu estava fazendo o meu melhor. Então, ela pegou. E ali está, pendendo da prateleira, com não apenas um, mas dois (isso mesmo, DOIS) galhos já maiores que o original.

Só que me bateu um incômodo esse galho novo, por mais que ele seja um sinal de vida.  Por algum motivo quântico inexplicável, a gravidade ainda não atuou nele plenamente. Tá estranho, sabe? Não está estético – e nessa hora eu entendi o problema. Eu quero mandar nas plantas. Controladora euzinha? Capaz! Em minha defesa, eu sou iludida pelas milhões de referências de urban jungle do Instagram e do Pinterest em que as plantas já estão enormes e lindas e harmonizadas e… vivas. Posso dizer que minha tradescantia está me ensinando que foda-se o que eu quero: ela é viva e decide seus próprios caminhos, eu que lute.

Estou sabendo que eu não sou a única influenciada pela ideia de urban jungle e, se você sabe o que é uma begônia maculata, então bem-vinde ao clube. De minha parte, com certeza o isolamento teve um peso grande nessa aventura, um pouco por estar mais em casa, outro tanto pela necessidade de sentir vida. É isso, né? Vida. Se é vida, então tem que vir responsabilidade junto – e eu julgo mesmo quem sai comprando trezentas plantinhas só pra deixar o apartamento bonito, mas que não dá conta de cuidar de nenhuma delas. Se você é tipo eu, que não manja do paranauê, vai com calma, talvez uma por vez. Afinal, você tem que compreender um vasto vocabulário do mundo plantae, por exemplo “meia-sombra”. Sei lá o que é isso, sabe? É um conceito muito abstrato. É pegar sombra metade do dia? É um lugar “nubladinho”? Minha maranta triostar tem me mostrado que meia-sombra não precisar SOMBRA em si, mas não dá pra ser sol direto. Justamente por causa da incidência do sol, ela tem que ser trocada de lugar durante o ano e azar do meu projeto de decoração.

Mas mais difícil ainda é tentar entender os sinais. Você sabia que folhas com as bordas queimadas podem estar relacionadas a maresia, substrato muito rico, substrato muito pobre, substrato compactado, umidade do ar, muito frio, muito quente, ventos, deficiência de potássio, excesso de flúor, regas demais, regas de menos… e eu não citei todos! Então, basicamente, a meu ver, folhas secas podem ser qualquer coisa. Lembro uma vez que eu tive uma alergia e meu médico sugeriu que eu parasse de comer uns 30 alimentos e fosse voltando um por vez a cada mês pra descobrir o que tinha sido. Em termos de pesquisa, faz todo o sentido; mas acredito que eu ou a planta demoraríamos um bom tempo pra descobrir a origem do problema – e talvez fosse tarde demais. No meu caso, até hoje acho que foi o carré de porco do RU.

Pra facilitar essa leitura dos sinais, entendi que meu trabalho tem que ser contínuo: observar todos os dias pra buscar de antemão o que pode ser ao primeiro sinal de alteração. As plantinhas me ensinam a estar atenta. E como nem sempre consigo, volta e meia eu tiro umas fotos só pra poder comparar – tipo anotar a altura da criança no marco da porta, sabe? Eu real fico orgulhosa de acompanhar essa evolução. Plantas me ensinam a cuidar, mas também a deixar morrer. Elas têm seus ciclos e faz parte.

Cuidado é algo relativo. Também ingressei nesse universo mágico da compostagem, que demandou muito estudo (e tentativa e erro, vamos ser honestas). Uma das coisas incríveis é que, toda vez em que vou mexer no conteúdo da composteira, encontro uma semente germinada. Me sinto responsável por ela, de certa forma, e até que ponto não seria se dei todas as condições para que ela crescesse? É muito fácil eu simplesmente dizer: “nã nã nã, eu não pedi pra você germinar, não fiz esse cuidado todo, não”. Mas eu que coloquei ela ali, num ambiente cheio de nutrição, com uma temperatura delicinha, sem interferência de animais ou qualquer coisa assim. Então, sempre que possível, eu pego o brotinho e planto pra ver o que vai dar. Acho que isso diz muito sobre mim. A conclusão da menina de apartamento é que, além de decorar e propiciar um hobby quarentener, as plantas educam.

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Significado

Eu nunca fui grande fã de praia. Tenho aflição do mar com seus moradores inusitados, melequentos e possivelmente incomodativos. Tenho medo da maré, do repuxo e de mãe d’água. Não gosto da sensação da areia no corpo, de parecer estar numa esfoliação sem fim e encontrar grãozinhos em tudo que eu tocar. O vento do litoral sul não é agradável e nunca tive tesão em ficar torrando no sol. Eu gosto é de ver o sol nascer e caminhar até a plataforma de Atlântida, ponto. Tem início, meio e fim.

Recebi um convite para passar uma semana na praia esse mês e qual não foi a minha surpresa em me deparar com uma Brunna se deleitando no mar, ficando com marca do bronzeado e reclamando bem pouco da areia. Me questionei se essa era uma daquelas coisas que a gente muda de gosto com a idade, tipo lichia ou whisky. E como, mesmo nas férias, meu cérebro gosta de ficar pirando sobre as coisas, fui buscar o que tinha de tão gostoso nesse passeio.

E era isso: o gosto. Essa praia não era praia, era recesso. Era pausa. Respiro. Fôlego. Me lembrei de como eu também não gosto de viajar em feriados porque eles, pra mim, significam trânsito, tumulto, dedo no cu e gritaria. De outra forma, é tipo comida de mãe, que tem gosto de colo. Ou pisco, que tem gosto de dor de cabeça. É claro que esse significado é completamente individual. Por exemplo, pisco pode ter gosto de Viña del Mar ou reggaeton pra outra pessoa, pra mim ele tem gosto de dor de cabeça por causa de um porre vergonhoso – e aí percebemos que o significado muda com a vivência. Estaria a definição num limbo entre o que esperamos que seja, o que já foi e o que pode ser? E com certeza uma grande fonte de conflitos é a suposição de que as coisas têm o mesmo significado pra todo mundo. Aquele “como cê tá?” pode ser só por educação mesmo ou pode ser “estou interessado em saber de você” ou pode ser “coisa mais linda da minha vida, queria perguntar isso beijando a sua cara” – iludida talvez. Como saber?

Em 2017 eu estava terminando uma pós em Santa Maria e estava com muita dificuldade na escrita, algo bem incomum. Depois de milhões de sessões de terapia (gostoso demais!), percebi que aquela pós era a única coisa que ainda me mantinha na cidade. Finalizá-la era dar um ponto final, e aí eu tinha que decidir o que fazer depois – que saco. Após a banca, eu desabei. Era um trabalho que significava encerramento. Tem trabalhos que significam superação, outros gritam IMPOSTORA na sua cara. Trabalhos acadêmicos podem ser bem maldosos, dependendo do eco em quem escreve.

E aí que ano passado redefini Carnaval após passar o feriado num festival de música que era quase um universo paralelo com pessoas bacanas acampando e se divertindo em shows, oficinas e cachoeiras. Carnaval deixou de ser um feriado de trânsito, tumulto e obrigação de ter que sair para significar encontro, onde quer que o encontro aconteça e do que quer que seja – pessoas, música, vibes, energias. Este ano vou ter que ressignificar Carnaval ou, então, ressignificar encontros. Bora?

Cuidem-se!

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Querido 2021

Olha que engraçado: há um tempo saí com uma pessoa e ela ficou surpresa que eu tenho 1,59m. Diz ela que minhas fotos no Insta e o fato de eu jogar handebol dão a impressão de que sou mais alta, sei lá. Mas quem nunca caiu nessa, não é mesmo? Pode ser a altura ou então achar que a pessoa vai ter uma voz e tem outra, ou então imaginar aquela pessoa com um cheiro e ter outro totalmente diferente. A questão é: expectativas foram criadas.

E quando a gente está na expectativa de um sexo incrível maravilhoso com aquela pessoa que está trovando há mil anos e, quando termina, pensa “era isso?” E isso não vale só pra dates, né? Ano passado eu pensei: “Nossa, tem muitas pessoas fazendo aquarela, vou fazer também”. E aí saiu algo tipo uma folha que foi molhada acidentalmente. Também vale para aquela festa que a amiga convenceu que seria A MELHOR FESTA DA VIDA, mas na real cê ficou 90% do tempo encostada no bar se esquivando de gente chata, irritada por não conseguir sentar e pensando que só queria estar em casa vendo sua série favorita e comendo pizza. Sabe o que eu tô falando?

Pois é, isso também serve para você, 2021. Eu penso em você e dou aquele suspiro de esperança de pensar que você será incrível e a nossa relação, maravilhosa! Só que, assim, pelo menos por enquanto, estou apenas vivendo o semestre 2020/3. E eu sei que recém é metade de janeiro mas ALTAS expectativas foram criadas para você! Sei lá, a galera entrou num delírio coletivo de que ia dar meia-noite, o corona ia sumir, o governo ia mudar e todo mundo ia tirar a máscara e começar a se lamber, sabe? Algo assim.

E aí vem a pergunta: tem como evitar a expectativa? Não. Ponto, é isso. Não tem como evitar porque ela não é controlável. E eu já digo pras pintas que vêm com o papinho de que não criam expectativa nenhuma: não seria o “não ter expectativa” JÁ uma expectativa porque a pessoa tá achando que nada de relevante vai acontecer. BAM. Ou ela está morta por dentro, também é uma possibilidade. E aí vou citar uma célebre frase de minha irmã: “A decepção é inevitável”. É isso. Se a expectativa sempre vem e é a gente que cria, a decepção é realmente inevitável. BUT o complemento da frase é o principal: “A decepção é inevitável, então aproveita”.

Acho que é quando a gente abraça esse aproveitar que aparece aquela coisa maravilhosa que é capaz de fazer a gente pensar “bah, isso aí superou minhas expectativas, hein?” chamada inesperado. Mas o louco do inesperado é que é justamente ele que pode fazer a expectativa virar uma frustração. Quantos acontecimentos inesperados em 2020 simplesmente jogaram pela janela vários planos e a expectativa de um ano incrível, não é mesmo?

Então talvez o foco aqui deva sair da pira de criar ou não expectativa e pensar: como é que eu lido com o inesperado? Qual é a nossa disposição para aceitar o que não estava previsto, seja bom ou ruim ou apenas diferente? O que fazemos com as frustrações? Como vivemos nossos lutos pelos planos que não vão sair como a gente imaginou?

E é pensando nisso tudo e tendo a certeza de que a decepção, pelo menos em alguns momentos, é certa que estou olhando pra você agora, 2021, e dizendo: querido, desculpa aí as minhas expectativas; o problema não é com você, é comigo. Você tem que entender que o meu ex, 2020, deixou muitas feridas abertas. E eu sei que você não é culpado pelas minhas antigas relações, mas peço um pouquinho de paciência e gentileza com esse coração e corpinho cansados. Mas, 2021, eu ainda tô botando fé que meu fechamento é você, mozão.

Um beijo! ❤

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Amigo secreto

Quem nunca tirou o sorteio do amigo secreto e pensou “PUTA MERDA”? Sabe quando cê tira aquela pessoa com intimidade nenhuma? Tipo quando você recém entrou no amigo secreto da família do mozão e tira aquela tia que você confunde com uma outra nada a ver e que só encontra no Natal. Ou então amigo secreto da empresa. Sabe aquele colega que faz piadinhas escrotas e que você tá feliz de o ano estar acabando e não precisar mais ver a cara dele por alguns meses? Foi esse que você tirou. Aí cê acaba dando um presente genérico que é pra não dar um livro bem problematizador como indireta no estilo passivo-agressivo.

Talvez pior que comprar o presente é ter que fazer o joguinho das características. A tia, cê sequer sabe o nome, como é que vai dizer algo? “A minha amiga secreta sempre me recebeu bem, é uma pessoa bem legal e… tá de vermelho!” Do colega, você puxa qualquer história estranha do fundo da sua mente, tipo:

– O meu amigo secreto uma vez roubou todos os post-its da empresa, hahaha.

Ou fala algo genérico:

– O meu amigo secreto ama tomar café. 😀

Ou vai pra estratégia passiva-agressiva de novo porque (né?) sempre é válida:

– O meu amigo secreto é super focado no trabalho quando não tá mandando piada gordofóbica, machista ou racista, kkkk.

Isso quando não vem aquela sugestão cretina de dar características ao contrário ou “se meu amigo fosse um animal…” Pare, apenas pare.

E o drama de qualquer pessoa que trabalha muitas horas e faz 300 mil coisas, em especial profes em final de ano tipo eu, quando alguém diz “vamos dar presentes feitos com as próprias mãos?” MANO. Eu amo fazer presentes, mas assim, pra fazer um presente real oficial, com intenção e ser algo realmente massa, a gente tem que estar MUITO inspirada. E inspiração tem um pouco dessa coisa de simplesmente vir a ideia, mas tem muito de sentar a bunda na cadeira e pensar sobre a pessoa, o presente, a mensagem, aaaaaaah!

Mas também tem aquele momento em que você tira o amigo secreto e fica AINNNN *-* Em que você quer fazer um presente e quer comprar um presente e quer dar sua vida inteirinha pra aquela pessoa perfeita pela qual você tem tanto carinho e que merece o mundo todinho. ❤ Tem também aquele gostinho de parar pra pensar na pessoa, na importância dela na sua vida, tipo o que a gente faz nos aniversários, sabe? E quando cê ganha um presente massa, que foi pensado com todo o cuidado do mundo, dá vontade de esmagar a pessoa pra sempre. Só que, pra essa troca entre pessoas que se querem bem, será que precisa mesmo do amigo secreto? Fica aí o questionamento.

Podem me julgar e chamar de Grinch por ter um pouco de ranço desse role de amigo secreto de Natal. Me incomoda essa quase que OBRIGATORIEDADE de termos que fazer um amigo secreto, parece que o ano não acaba se isso não acontecer. Hoje me dou o direito de participar de sorteios apenas se estou muito a fim e se tenho condições de exercer reciprocidade. Quando não dá, falo bem a real e não garanto que eu vá conseguir fazer um presente, não. E como qualquer ser humano cheio de contradições, eu AMO participar de alguns sorteios. Mas sigo defendendo com unhas e dentes a ideia de que tradição tá aí pra ser questionada e que presente pra gente querida podemos dar o ano inteiro.

  • PS: a foto mostra uma coletânea de poemas que fiz para a querida Clarice no Natal do amigo secreto do PáginaDois em 2018, uma prova de que eu não sou tão azeda assim, não, tá?
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Momentos de te(n)são

“Será que deixo a mão sobre a mesa? Seguro a taça? Coloco no colo? Não, segurar os dedos fica melhor, daí não fico sem fazer nada pelo menos… Como a gente chegou nesse assunto mesmo? Ah, foi porque falei do trabalho. Tá, mantem o foco – mas como manter o foco com uma boca dessas, me dizzzz?”

AFIRMO CATEGORICAMENTE: existe uma coisa que une todos os seres desse planeta (talvez até de outros) e ela se chama tesão. É esse sentimento enlouquecedor que deixa a flor da pele até as vontades mais escondidas, que vem acompanhado de uma sensação de que você vai explodir e ao mesmo tempo coloca uma tensão no ar. Elixir de sinceridade e potência, eu diria. Pelo menos em algum momento da vida a gente sente isso, e falando como uma pessoa que tem útero, ovários e todo esse paranauê, garanto que isso pode acontecer com uma frequência quase mensal.

E aí já começa a ficar interessante esse lance de tesão. Diferente de apenas uma vontade tipo ~vontade de comer bolo~ tem vezes em que ele simplesmente existe. Tô com tesão, é isso. Não exige complemento, fonte ou direção: apenas se sente com a alma e com o corpo todo. É um troço que deixa meio atordoada e cê nem sabe o que fazer com isso tudo aí dentro, mas PRECISA colocar pra fora (e tem várias formas bem interessantes, seguras e respeitosas de fazer isso).

Mas tem vezes que o tesão tem nome e endereço, e aí a vida complica porque né, nem sempre tá disponível. E aí é tipo você desejar um bolo molhadinho com calda de brigadeiro, mas acaba comendo… um bolo de banana integral. Nada contra o bolo de banana, mas assim, não era o que cê queria, né? Aí a vontade não passa, você fica full pistola de querer tanto aquele bolo desgraçado difícil de conseguir e fica experimentando vários bolos por aí pra ver se passa essa vontade louca. Ou encontra outro bolo com um sabor interessante. Ou dá um jeito de passar naquela fatídica padaria que você gosta, mas não deveria.

E tesão não precisa ser feito de gente, pode ser de planos, de ideias. Sabe quando você está começando um projeto novo e tá super hiper mega empolgada? No inglês se usa a palavra excited pra esse sentimento, algo entre empolgada, eufórica – algo que faz parte desse sentimento tesão. Assim como tem vezes que você se decepciona AFU com uma proposta e aí diz assim: bah, acabou o tesão. É isso. E sem tesão, as coisas ficam meio cinzas, sem graça. MEH.

É nesse meh que me encontro diversas vezes, talvez pelo isolamento, por questões pessoais, por decepções da vida, e por tudo isso junto e misturado. Cadê o tesão pela vida, meu pai? E recorro ao espanhol dessa vez, parece que me faltam ganas de vivir, essa coisa que vem das entranhas. Sinto falta dessa tensão do primeiro encontro, da empolgação com um projeto, euforia que vem sei lá de onde. Mas como tudo na vida, isso também tem bônus: a racionalidade desceu pro play pra olhar com cuidado o que antes poderia ser confundido pelo tesão. Sabe essa ideia aqui? Não é tão massa assim quanto o tesão fez parecer. Sabe essa pessoa? Embuste.

A magia de muita coisa está se desmoronando, e tá tudo bem. Porque tesão é assim: pra algumas pessoas vêm todo mês num BOOOM hormonal, pra outras é super direcionado a alguém ou alguma coisa, pra outras tem fases em que ele tá mais presente ou não. Mas ele existe pra todo mundo e sempre vai existir, ainda bem.

* O Página Dois está realizando uma série de desafios de escrita a partir de imagens selecionadas por integrantes da equipe! Massa, né? Esse texto foi inspirado na foto obra da Bianca Rosolem ❤

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Do fim

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Tive um companheiro que sempre dizia o quanto “O brilho eterno de uma mente sem lembranças” era um filme incrível. Eu não gostava. Mas, naquele movimento de ~me aproximar das coisas que meu amor gosta~, revi. Não bateu. Desisti e esse sempre foi um ponto de desacordo – e tudo bem.

Dez anos depois, o filme já esquecido, fui morar dois meses em outro país. Eram férias, estava bem instalada, vivia numa vibe absolutamente tranquila em que meu maior problema era decidir o que eu iria conhecer no dia: eu só não queria que aquele tempo acabasse. No ano seguinte, quando minha sobrinha compartilhou o mesmo desejo em relação ao seu intercâmbio, eu, já mais calejada, disse que era bom justamente porque tinha fim.

Na minha viagem, era porque eu não precisava me sustentar que eu estava tranquila, afinal eram férias – e o dinheiro para isso já estava reservado. Pelo mesmo motivo eu tinha tempo, e não precisava me preocupar em descobrir os lugares correndo como normalmente se faz em uma viagem. Eu sabia ser provisório, então não me incomodava com a casa ser longe do centro ou com o roupeiro pequeno – inclusive, tudo bem em quase sempre usar as mesmas roupas que somavam os 10kg de bagagem que levei. No calor do momento tudo parecia incrível e, por isso, eu queria que fosse infinito.

O fim trazia realidade praquela idealização – aff, realidade, quem te convidou pra brincar? Aí que, este ano, me deparei novamente com essa dura realidade de aceitar que as coisas têm um fim, pois sabia que o meu perfeito mês de janeiro terminaria e deixaria um coração despedaçado. A crônica da morte anunciada começou em dezembro: coloquei todos os escudos possíveis, afiei as pontas das espadas, criei um abismo de distância do mundo e decidi que não iria me jogar naquele mês perfeito para não sofrer depois. Eu sou ridícula né, mas quem nunca?

Aí, sei lá de onde (inconsciente, corre aqui), decidi rever o incompreensível filme. Continuei não gostando. Só que dessa vez eu ouvi um diálogo, um único diálogo, que fez valer a pena:

– Então é isso Joel. Vai acabar em breve. 

– Eu sei.

– E o que fazemos?

– Desfrutamos*.

Guardei os escudos e as espadas (não consegui jogar fora, um dia ainda terei essa coragem). Encurtei as distâncias, me entreguei e tive um mês realmente incrível. Doeu quando acabou, com certeza. Mas vivi. Então percebi que o fim não precisa ser algo ruim, desastroso, uma conclusão. Ele pode ser convite. Convite pra entrega, pra reflexão, pra mudança.

Em tempos de pandemia, teletrabalho, ansiedade e isolamento estamos lidando com frequência com o “é o que dá pra fazer no momento”. Há muitas coisas provisórias e isso é angustiante. Mas, definitivamente, estamos vivendo o fim do mundo como o conhecemos. Só que dessa vez ninguém avisou, não deu tempo de desfrutar antes de se trancafiar em casa. Não rolou fazer um estoque de abraços, dar um beijo na vó ou ir ao cinema – e sei lá quando vamos poder fazer isso de novo. E é absolutamente frustrante perder isso tudo assim, sem aviso. Ou melhor, ignorando os avisos da ciência.

Nós não sabemos como sair do contexto atual. Não sabemos como vamos voltar e nem pra onde voltar depois de tanto tempo em casa. Porém, como todo fim, ele é convite. Pra quê? Talvez pra questionar as formas de nos relacionarmos. Aprendemos que uma ligação de vídeo pode ser algo absurdamente próximo, mas que abraços são realmente insubstituíveis. Percebemos que algumas organizações sociais não funcionam (ou funcionam para instituições ou pessoas específicas), e talvez seja o momento de fazer essa crítica e mudar as coisas. A necropolítica está escancarada e a minha questão é: como vamos viver depois disso?

* – This is it, Joel. It will be over soon.

– I know. 

– And what do we do?

– Enjoy it.

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Dos fracassos

Dos_Fracassos
imagem: Cassiano Rodka

Esses tempos tive a oportunidade de participar de um evento bem bacana chamado FuckUp Nights. Ele faz parte de um movimento mundial de encontros para compartilhar fracassos, na ideia de que fracassos são uma merda, mas ensinam muito. Aí, conversando com algumas pessoas sobre o evento, ouvi mais de uma vez: “Mas tu vai falar sobre o quê? Tu não tem fracassos”. q? Fui até olhar no dicionário: “falta de êxito; malogro, derrota”. Se fosse só por isso, eu poderia falar de tantos jogos de handebol que perdi e como eles me ensinaram AFU para poder ganhar tantos outros. Mas eu não tô aqui pra ficar me justificando e, sim, pra pensar o que é o fracasso, de onde vem, do que se alimenta.

Então vamos pensar nesse sentido da derrota. Em que momentos veio aquele sentimento de derrota? Não passar numa seleção, perder emprego, investir tudo num projeto e ele não deslanchar, receber um fora da pessoa amada… Poxa, a vida é cheia de fracassos, em diferentes níveis e com inúmeras possibilidades de aprendizagem. Mas, sem dúvida, sem fracassos não tem como. Estou num momento mais de boas e tem várias coisas massa acontecendo, mas já passei por outros mais foda também. Inclusive, teve alguns em que eu me senti fracassada real: sem rumo, perdida, como se tudo que eu tivesse feito não servisse pra nada e eu estava aqui, na merda, sem saber como sair dela e desesperada, só me afundando mais. Aí vem a novidade, mores: se você não passou por isso, vai passar. BRACE YOURSELF. Sabe o que é louco? Aquela blogueira que você acompanha que tá sempre pleníssima também vai. E o milionário daquela empresa incrível que você tanto admira também. E tá tudo bem. Faz parte.

Talvez o que justifique essa impressão de que o fracasso não acontece seja o nocivo discurso do sucesso. Do “seja bem sucedidx”. “VENÇA”. Esse discurso fala de final, e não de processo. De meta. E, por mais que seja uma obviedade, é importante lembrar que essa meta implica em fracassar muitas e muitas e muitas vezes. Quem vê só o sucesso não vê o corre todo; aí fica bem fácil se pegar pensando que tem uma cambada de gente que parece bem-sucedida, super sabendo o que está fazendo e só ahazando no rolê; enquanto nós, reles mortais, estamos aqui tentando fazer o básico do básico pra manter a sanidade mental e conseguir pagar os boletos. Só que não é bem assim. E eu escrevo sobre isso também porque me obrigo a ler o meu próprio discurso – sim, eu também acredito na falácia da existência sem fracassos de vez em quando. Aí me forço a lembrar da imprevisibilidade da vida, da nossa mutabilidade e da resiliência.

Talvez seja esse tal de retorno de Saturno que esteja me fazendo pensar tanto sobre fracasso, sucesso, rumos da vida, existência e sei lá mais o quê; afinal, fazer 30 anos tem se mostrado um questionamento absurdo de tudo que se fez e de pra onde se quer seguir. A gente até pode reclamar muito, buscar justificativa na merda ou até bancar a invejosa autocentrada questionando o universo de “por que essa coisa incrivelmente maravilhosa que aconteceu com a vizinha não pode acontecer comigo?” – quem nunca? Mas, até agora, isso não tem se mostrado muito útil não; afinal, trajetórias não são comparáveis, fracassos não são evitáveis e não existe sucesso, artigo definido.

O que tem se mostrado realmente interessante e proveitoso é analisar a trajetória, pensar nos aprendizados que tive e como cheguei até aqui. É exercitar a escuta, tanto de mim quanto de outrxs que topam compartilhar suas experiências também – inclusive as que não saíram como previsto. É aceitar a inevitabilidade dos fracassos e, afinal, exercitar uma concepção epistemológica de aprendizagem: ela acontece na interação e ela é constante. Ufa, ainda bem.