Piras

Dos melhores amigos instantâneos

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imagem: Cassiano Rodka

Esses dias eu superei minha velhice de alma e me prestei a ficar 1h30min numa fila para uma festa. Nem eu acredito que estou escrevendo isso. Bom, estávamos eu e minha amiga bebendo e conversando, até que nós expusemos em voz alta nossa tensão de “será que vamos conseguir entrar na festa?”. Isso foi o suficiente para o pessoal que estava na nossa frente puxar papo e pronto: novo melhor amigo. Falamos sobre música, trabalho, estudos, tretas amorosas, teve até avaliação de nudes. Cada vez que nos víamos na pista era o momento mais lindo do universo e nada poderia ser mais forte do que aquele encontro e o nosso rebolar conjunto ao som do pancadão. No dia seguinte, nos cruzamos pela universidade e não nos falamos, apenas um abano à distância. Nunca mais nos encontramos na noite e assim foi decretado o fim da amizade – talvez até o próximo encontro.

Quem nunca fez uma melhor amiga no banheiro? Nossa, cê divide até as maiores inseguranças com aquele ser humano desconhecido. E em viagem então? Horas e horas compartilhando vivências e sonhos até você se dar conta que não sabe o nome da pessoa. Me pego pensando: como surge esse laço tão fácil de construir quanto de romper? Talvez seja uma questão de receptividade, pois, em geral, numa festa você está disposto a conhecer pessoas, assim como em uma viagem. Ou talvez eu estivesse, sei lá. Na real, estou sempre disposta a conhecer pessoas e trocar vivências – e acho que tenho uma cara de ~convite~, porque atraio gente a fim de conversar na rua aleatoriamente. Sem sombra de dúvida, tem relação com o momento. A pessoa que você encontra na festa ou viagem está passando por uma vivência, no mínimo, parecida: a mesma angústia de talvez não entrar na festa lotada, ou o descobrimento de um lugar novo. É vibe, sabe? E se a vibe é uma onda, então é aquele momento de ressonância. Superposição de ondas, alteração da energia do sistema, aumento da amplitude.

Talvez na vida seja por aí também. Sabe aquela pessoa que você conhece há pouquíssimo tempo e já construiu um laço super forte? Aquela pessoa que, há alguns meses, nem estava na sua vida e que agora está presente todos os dias? Melhor amigo instantâneo da vida. Talvez, ano que vem, esse melhor amigo já não seja mais presente, mas sempre há a possibilidade de ele se tornar aquele que vai pra fila com você ou com quem você vai planejar a viagem. Aí o instantâneo se torna duradouro. O louco é perceber esse movimento de pessoas que ficam e de pessoas que saem, identificar a fragilidade ou força do sistema. É também se ver nessa abertura para o novo, tanto para receber alguém quanto para deixar ir.

Então é isso: receptividade e ressonância. O bom das amizades duradouras é que não se precisa estar receptivo, aquela pessoa está lá e você sabe que pode contar com ela; porém, às vezes, a frequência das vibes está bem diferente. Já nas amizades instantâneas, talvez o bonito e, ao mesmo tempo, o problema seja a ressonância: de tão intensa ela pode quebrar o sistema. Mas, se todas as amizades são compostas de um pouco desses dois quesitos, então todas são, de certa forma, instantâneas – a grande questão é o que é ser instantâneo dentro do panorama de um lifetime. E, então, já não é mais uma questão de mecânica ondulatória, mas da relatividade, algo bem mais complexo, assim como as amizades. Afinal, talvez seja a vida uma grande festa ou uma imensa viagem, cheia de laços a serem (des)feitos.

Piras

Do (re)conhecer

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imagem: Cassiano Rodka

Por mais que se estude psicologia da aprendizagem nas licenciaturas, ter feito mestrado em Educação serviu para me mostrar o quanto eu não sabia nada sobre esse tema, principalmente sobre a teoria piagetiana. Na tentativa de compreender a complexidade do pensamento desse tal de Piaget (hoje, meu best), uma das leituras que fiz se chama Estudos Sociológicos e ela me marcou pra caramba. Não que as outras obras não tenham sua importância na minha trajetória como professora, mas, veja bem, a minha formação era na Matemática e qualquer coisa que me levasse a tentar compreender seres humanos era surpreendente – e olha só eu, hoje, aqui no PáginaDois, falando sobre comportamento. Ousada.

O Piaget, com sua perspectiva interacionista, afirma que a construção da personalidade só se dá na interação com outras pessoas. Duas coisas a pontuar: 1) isso não é algo inovador, outros autores já disseram isso; 2) isso é óbvio, hoje, consigo ver as marcas da socialização na personalidade em diversos contextos – e a sociedade patriarcal em que vivemos deixa bem evidentes alguns desses casos. Mas, na época em que comecei a ler sobre esse assunto, eu achei surpreendente. “Mas a personalidade não é sobre o individual? Como ela pode, então, se construir (também) no coletivo?” Depois de algumas leituras e, principalmente, trocas sobre isso – obrigada grupo de pesquisa – consegui concluir algumas coisas sobre e, dentro da minha ingenuidade, acreditava que compreendia essa construção do ser na interação.

Eis que, em um não tão belo momento recente na minha vida, eu percebi que ainda tinha muito a aprender sobre personalidade, pois comecei a questionar a minha. Eu não me reconhecia mais e não era algo sobre imagem, era sobre ser: eu não entendia mais a pessoa que eu era. Algumas certezas que eu tinha caíram por terra e eu não entendia algumas atitudes e pensamentos que me ocorriam. Algumas coisas que, antes, não me incomodavam, passaram a me enfurecer. Outras, que eu achava incabíveis, passaram a fazer sentido. Nesse furacão de loucuras da minha cabeça, eu duvidei de mim – do que eu sou e do que eu poderia ser.

Aí, durante esse período turbulento, teve um dia em que meus alunos não leram o texto para a aula. Minha primeira reação foi de fúria descomunal. COMO ASSIM, CARA? Era uma turma de uns 35 alunos e menos de 10 haviam lido o fucking texto. É claro que essa não foi a primeira e nem a última vez que isso aconteceu – e eu, no modo aluna, já fui pra aula sem o texto lido. Evidente que eu sei que meus alunos têm muitas outras coisas para ler e fazer e talvez REALMENTE não tenha dado. Mas, naquele momento de insegurança suprema do meu ser, eu só conseguia pensar que nem dar aula, que era uma das certezas da minha vida, eu estava conseguindo fazer direito. Aos trancos e barrancos a aula saiu e eu fui direto para o banheiro chorar de raiva e frustração.

E foi ali, naquela interação com xs alunxs e comigo mesma, que eu pude ver o quão nebulosos estavam os pensamentos que me habitavam. Foi uma experiência de parar o tempo, sair do meu corpitcho, olhar para mim – aquela pessoa ridícula chorando duvidando de si sentada no vaso sanitário – e dizer: você precisa rever a importância que dá para o seu trabalho. Esse foi o dia em que eu aprendi a importância de me ouvir. Nessa escuta, conheci uma nova pessoa que transpareceu sentimentos e pensamentos que eu não tinha ouvido ainda e ~ olha que louco ~ ela faz isso todos os dias.

Enfim, esse momento de insegurança, frustração e incertezas passou e veio um novo momento cheio de… insegurança, frustração e incertezas. Mas tudo bem, porque eu saí da doideira de tentar me reconhecer, de encontrar aquela pessoa que eu já conhecia, e entendi que o que eu precisava mesmo era me conhecer. Every single day. É como sair com uma pessoa nova todos os dias: “será que ela vai gostar disso?”; “será que ela prefere isso ou aquilo?”. Como em qualquer nova relação, a gente vai anotando algumas coisas à medida que passa pelas experiências. Por exemplo, eu gosto de kiwi. Eu não gostava de kiwi antes. Pode ser que eu não goste amanhã, mas, hoje, eu gosto de kiwi. Pisa menos, kiwi.

Se eu tivesse ficado numa vibe introspectiva eu teria chegado a essas conclusões sobre o meu perrengue ou sobre essa incrível frutinha de aspecto inusitado? Talvez. Dizem que a meditação e outros exercícios do silêncio característicos de culturas orientais são maravilhosos para nos entendermos. Eu arriscaria dizer que o são, justamente, por silenciar o que tem ao redor para conseguirmos ouvir a nós mesmos em alto e bom som. Mas, o que é impossível negar, é que isso não deixa de ser interação, só que conosco, com os monstrinhos da nossa cabeça, em um eterno “Oi, prazer em conhecer”. Manjava das coisas esse Piaget, né não?

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Do moletom

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imagem: Cassiano Rodka

Faz uns dias li uma reportagem de um cara da comunicação relatando uma experiência no trabalho. Esse cara trabalha em uma agência de publicidade e tem uma colega que, supostamente, não é tão eficiente quanto ele, pois ela demora mais para fechar os contratos com os clientes. Porém, ao trocarem as assinaturas dos e-mails e ele passar a responder como se fosse ela, ele viveu um inferno de questionamentos (que antes não eram feitos) sobre as suas decisões para as campanhas. Ou seja, a moça não demorava mais para fechar os contratos por ser ruim no seu trabalho, mas porque ela era consideravelmente mais questionada e tinha que dar mais explicações do que o cara sobre cada coisa que ela fazia. O cara ficou chocado e revoltado com aquilo e a colega disse que isso era normal e já tinha acontecido várias vezes. E eu, leitora, não entendia como o cara não via isso acontecer com a sua colega.

Aí eu fui trabalhar de moletom semana passada. Mais especificamente, fui com uma calça jeans rasgada, um tênis tipo botinha super bacana, um moletom do David Bowie e uma touca (e eu sou professora numa universidade federal ~ui~). Nesse dia, eu tinha aula com uma turma que já foi minha semestre passado e ouvi várias coisas sobre o look: que eu parecia um “rapazinho”, ou que eu tenho uma capacidade grande de mudar de estilo, ou, ainda, que essa roupa tinha muito a ver com a minha personalidade – nem eu consigo dizer isso, não sei como os alunos conseguem. Enfim, segui minha aula normalmente. Exercícios feitos, materiais manipulados, alunos com várias dúvidas: nada de novo no fronte. Mais um dia de trabalho, mesmo eu estando de moletom.

Aí um colega – ressalto: um colega homem – passou pela minha sala, comentou que eu estava *estilosa* e eu brinquei que hoje tinha “chutado o balde e vindo de moletom”. Ele não entendeu o que eu queria dizer e falou que usava moletom o tempo inteiro. Naquele momento eu entendi o cara da agência. Eu tive que explicar pro meu colega que um homem usar tênis no trabalho é algo normal; já uma mulher, não – mulher usa sapatilha, bota, sandália. Um homem usar camiseta de banda é normal; uma mulher, não. Camisa, algo com um corte mais ~feminino~ ou um vestido, a moça não tem? Tive que verbalizar que ele vir de moletom não é nada de mais, mas uma mulher não usar jaqueta, blazer ou casaquinho é.

Aqui se mesclam os (pré)conceitos do que é ser mulher e do que é ser mulher e professora universitária. Eu sou confundida com aluna o tempo todo. Eu recebo olhares desconfiados sobre a roupa o tempo todo. Colegas já vieram abaixar a minha saia porque acharam curta demais e um batom vermelho ainda causa muitos comentários do tipo “hoje tá pela maldade” em um ambiente universitário em pleno 2017. Socorro!

Quando eu comecei a dar aula, talvez pela insegurança do início da profissão ou por ser uma novinha de 18 anos, sentia a necessidade de provar algo. Precisava mostrar pra todxs que eu era a professora e que eu sabia (pelo menos em parte) o que eu estava fazendo. Mas, hoje, eu não tenho mais saco: hoje eu vou com a minha camiseta do Star Wars, uso meus batons intensos, vou de tênis, bota, sapatilha ou o que eu quiser. Estou bem com isso, vlw flw? Mas a questão não é essa. A questão é até quando as mulheres ainda terão que provar alguma coisa, seja numa agência, seja numa sala de aula pelo simples fato de serem mulheres?

É revoltante nas reuniões de departamento ainda se ver (e muito!) bropriating e mansplaining, ainda mais em contextos como o meu em que se tem quase 40 pessoas na reunião, sendo quatro homens no máximo. Por que ninguém questiona a seriedade do meu colega que vem de moletom? Por que ninguém questiona a seriedade do meu colega at all, independente do que ele veste, enquanto as mulheres têm que provar que são sérias e competentes mesmo estando de terninho? Por que ninguém questiona o conhecimento de Matemática dos meus colegas homens? Porque eles, simplesmente, são homens.

É, galera… é institucionalizado. É geral. É todo dia. E é por isso que a luta é constante e a revolução é necessária, que seja começando por um moletom.

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Do cheesecake

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imagem: Cassiano Rodka

A minha família tem um lance com comida. Primeiro, a gente gosta de comer; segundo, a gente gosta de experimentar. Isso quer dizer que a gente acha igualmente maravilhoso comer a modesta uva da parreira dos meus pais ou os esquisitos e complexos caracóis espanhóis apresentados pelo meu cunhado. Vale tudo.

Há diferentes tipos de cozinheiros nessa família, mas todo mundo faz alguma coisa – italianada, né non? Seja a minha dinda com seus pratos de alta gastronomia, seja a minha avó com sua simplicidade. Minha mãe faz aquelas refeições do dia a dia que tem um gosto especial, a ponto de, quando eu morava com ela, preferir sempre levar marmita de casa a comer em qualquer restaurante. Até minha sobrinha já tem o seus quitutes pra entrar no jogo (nossa, que brownie, senhoras e senhores!). Tem também aqueles pratos tradicionais que levam o nome do autor, tipo o churrasco do Carlos ou o churrasco da Isa (disputa ferrenha, não sei se alguém sairá vivo disso); a salada de batata do tio Ekke; o bolo da Mema.

Enfim, tem o cheesecake da Brunna. O meu cheesecake, fruto de uma fusão de receitas que aprendi e adaptei durante alguns anos, tem base de bolacha de água e sal (juro que fica ótimo!), recheio de ricota e cobertura de goiabada. Mesmo sendo incrível na versão “original”, ele aceita adaptações: uma vez fiz uma base com avelã e cobertura de amora que gzuz – meu coração para só de lembrar daquele sabor. Mas, ainda, prefiro o tradicional de goiabada. Simples. Caseiro. Perfeito.

Esses tempos dois amigos meus casaram e fizeram uma cerimônia íntima, para qual eu presenteei um cheesecake de morango. Sim, eu dei comida. Pra mim foi um presente lindo, que eu amei fazer e me coloquei nele. Para outras pessoas talvez fosse um presente pobre, sem graça. Mas, aí, podemos trazer o Piaget na obra Estudos Sociológicos discutindo o valor que cada um dá para um ato. Pra mim, cozinhar pra alguém é algo muito intenso. Não é apenas o “comprar as coisas e seguir a receita”, começa por escolher o que se quer fazer e isso não é nem um pouco óbvio! Além de pensar nas restrições alimentares, tem a alma, o contexto, a vontade. Passa por pensar nos ingredientes e escolher onde é o melhor lugar pra comprar cada um deles. Então, o momento divino: colocar as mãos, a energia naquelas coisas que, sozinhas, talvez não tenham muita graça, mas que, juntas, constituem algo novo e surpreendente!

Aquele cheesecake que dei para meus amigos teve meu tempo – algo bem importante e escasso pra mim. Teve geleia de morango feita em casa, com frutas especialmente compradas de produtores locais porque eu sabia que o gosto era diferente. Teve sorriso enquanto eu fazia e a expectativa da alegria do recebimento. Teve cuidado. Cozinha tem muito disso: cuidado do outro e do próprio ser – não é à toa que minha pasta do Pinterest sobre comida se chama “Corpo e alma”. Esses dias um amigo me proporcionou o prazer de comer o seu cheesecake com sabor de tudo isso: do cuidado, da celebração, da amizade, do carinho. Tinha também gosto de chocolate, baunilha e cereja, realmente uma orgia na minha boca.

É, às vezes só o que a gente precisa pra alimentar o corpo todo, se sentir em casa e saber que está tudo bem é um pedaço de cheesecake.

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Do elevador

 

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imagem: Cassiano Rodka

Na minha cidade tem um shopping que só tem estacionamento no subsolo e toda vez que vou lá há um momento de tensão: o elevador. Em meu caminho usual do Subsolo 2 (gosto de estacionar no S2 porque é um coração, me julguem) para o 1° andar, encontro toda vez – TODA VEZ, every fucking time – os três “tipos” do elevador.

Tipo 1 – O ansioso: fica na passagem da porta, esperando que as leis da física mudem e o seu corpinho e o do cidadão que quer sair possam ocupar o mesmo espaço.

Tipo 2 – O aproveitador: está no S2 e quer ir para o 1° andar, mas ignora que o elevador esteja descendo e entra nele para dar uma volta até o S4, garantindo seu lugar na desejada subida.

Tipo 3 – O caótico: desconhece este organizador social chamado fila e cria uma aglomeração ao redor da porta como se ela fosse a entrada do local de prova do ENEM.

Observe que há intersecções possíveis, que estão ilustradas no diagrama abaixo:

Do elevador diagrama.png

Note que há alguns comportamentos que se sobressaem, como nas interseções 1 e 2 relativas ao Tipo 3: O caótico. O primeiro movimento dos que se encontram nessas interseções é o caos, é ocupar algum lugar próximo ao elevador desconsiderando todxs xs demais que ali já estão – também se poderia chamar esse tipo de O colonizador, fica a reflexão. Após, o seu comportamento muda segundo uma nova condição, seja a abertura da porta e seu ímpeto de se posicionar na passagem; seja a sinalização descendente do equipamento e seu pensamento de “hummm vou ser esperto e aproveitar”, que consiste numa exemplificação da expressão ~dar uma de João sem braço~. Não sei qual é a do braço do João, mas meu pai usa isso o tempo todo para os motoristas que estão na pista errada e querem se atravancar na frente de todo mundo. Sim, pesquisadores replicaram esse estudo e observaram a existência desses “tipos” no trânsito e no transporte coletivo. No ônibus, porém, excluí-se o Tipo 2: O aproveitador e incluí-se o Tipo 4: O egoísta, que não se oferece pra segurar a mochila do coleguinha que está em pé no melhor estilo lata de sardinha. Este também não cede seu lugar para idosos e coloca o guarda-chuva molhado no banco do lado. Desprezível.

Voltando ao diagrama, a Interseção 3: O ansioso² é alguém que precisa desesperadamente sair do S2, levando à predominância do comportamento ansioso. Em geral, essas pessoas não conversam enquanto esperam o seu deslocamento e olham ansiosamente para o visor do elevador, comemorando em seu âmago cada andar atravessado que o deixa mais próximo de seu destino. Comportamento visto comumente naqueles que estão atrasados para o cinema.

Enfim, temos a Interseção 4: Alguém que não é digno de confiança. Você está lá, bonitinha, esperando seu elevador, quando chega alguém que se coloca na sua frente para entrar primeiro (amo o caos e vou defendê-lo). Ele observa o visor, vê que o elevador está descendo e, mesmo assim, decide por entrar na máquina, mostrando seu pior lado aproveitador. Por fim, no auge de sua ansiedade e egocentrismo, ele é incapaz de esperar os demais saírem e se coloca no caminho, quase fazendo força contra a corrente para garantir sua posição – e ainda reclama da demora dos que saem. Eu não confiaria neste psicopata, inclusive cogito que ele deveria ser privado de convívio com outros seres humanos. Definitivamente, não dá pra confiar.

Talvez seja necessário replicar essa análise para outros locais, como o banco, o RU e o supermercado. Deveríamos fazer um estudo etnográfico, talvez uma parceria entre grandes universidades, até mesmos internacionais (há evidências que suportam a existência desses tipos em outros continentes). Não, não – obviamente isso é um trabalho para o Globo Repórter. “Interseção 4: onde vivem? Do que se alimentam? Ele pode morar logo ao lado.” (leia isso com a voz do Sérgio Chapelin). GENIAL.

Enquanto isso tudo não acontece, eu sigo utilizando as escadas.

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Dos contratos

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imagem: Cassiano Rodka

Ao discutir ensino e aprendizagem com xs alunxs da graduação, sempre aparece a teoria do contrato didático. A concepção de contrato didático trazida por Brousseau é relativamente simples: existe um acordo estabelecido entre professorx e alunx que é composto por várias cláusulas construídas no fazer diário e na trajetória da turma (ou do aluno, enfim). Interessante é que nem sempre essas cláusulas necessitam estar explícitas. Exemplo óbvio: não se pode tacar fogo na sala de aula; exemplo não tão óbvio: todo problema de matemática terá no enunciado as informações necessárias para ser resolvido.

Ninguém precisa te dizer que você não pode dar uma de Nero, isso está subentendido nas regras de convívio social e foi construído social e historicamente na interação com outras pessoas que passaram por esse ambiente chamado escola. Sobre o problema de matemática, a problematização (sim, sempre – eu sou um saco, sei disso) consiste em justamente tentar romper essa cláusula e questionar se isso é realmente necessário, provocando que se utilize diversas formas de problemas (com uma solução, com várias soluções, sem solução) para serem discutidos com os estudantes.

“Mas Brunna, ele é um contrato didático por que se refere à sala de aula?” Não exatamente. Ele é mais do que ~sobre a sala de aula~, ele é sobre uma relação específica desse ambiente. Há tantos outros contratos quanto relações possíveis (ou mais ainda, se pensarmos que, em grupo, se cria uma nova dinâmica e, assim, um novo acordo). Logo, esse tal de contrato didático tem uma relação direta com esse incansável ser chamado “professor” e com esse eternamente insatisfeito ser chamado “aluno”.

Esta semana me peguei refletindo sobre os tantos outros contratos existentes nas relações sociais que não a professorx – alunx. Por exemplo, o contrato existente entre “namoradxs”. Pra começar, isso sempre foi confuso pra mim: o que define ser “amigx”, “ficante”, “rolo”, “namoradx” ou “noivx”? Já ouvi que:

Amigx cê não beija – fale por você, meu bem.

Ficante você não quer ficar para o resto da vida – você quis ficar para o resto da vida com todas as pessoas com quem namorou? Gzuz!

Rolo é coisa indefinida que você usa pra quando não consegue colocar a situação em uma definição melhor – tá, essa faz sentido.

E por aí vai… O fato é que todas essas relações se estabelecem a partir de uma palavra imbuída de um significado em um contexto social e, consequentemente, de um contrato – só que a gente não fala muito dele não. Pior ainda é que se assume que esse acordo é igual para todas as relações. Quando uma pessoa te pede em namoro, dificilmente tu vai olhar pra ela e perguntar “mas o que isso significa?”: em geral, ou você está de acordo ou não está em função do que VOCÊ acredita que é um namoro e todas suas implicações, e não no que você e a outra pessoa pensam que deveria ser um namoro. Maluco isso, né? Mas mais louco ainda é você definir e julgar a relação dx outrx, pois você faz isso baseado no que você, que nem está nessa relação, acredita que deveria ser essa relação. Mas, como vimos pela repercussão do vídeo da Jout Jout sobre o fim do relacionamento dela, gente pra apontar dedinhos pra relação dos outros é o que não falta.

Gente, tive uma ideia agora: imagina que louco se a gente não assumisse como a relação dos outros deveria ser? Será que dá? Acho que dá, hein? Eu digo prxs alunxs que devemos questionar as cláusulas desse contrato didático, discuti-las e reconstruí-las com a turma. Acho que tá faltando a gente desconstruir as cláusulas desses outros contratos interpessoais: não com um fim burocrático (não precisa reconhecer em cartório não, tá?), mas para sermos autores desse acordo. Os tempos mudam, as pessoas mudam e esse contrato nunca vai ficar lá, pronto, estático: novos acordos serão necessários e novas relações estão se configurando. Ainda bem, né?

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Do final do ano

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imagem: Cassiano Rodka

Já diria a Simone: “Então é Natal e o que você fez?”. Sim, sou dessas que fica reflexiva com o final do ano. É doido isso porque, na real, esse “final de ano” é arbitrário: final pra quem? Estamos aqui, de boas, seguindo o calendário cristão e fingindo que ele é válido para todxs – sendo que nem pra nós mesmxs ele é válido, pois o final do ano é de cada um no seu aniversário. Mais louca ainda é essa necessidade do ser humano de ter um controle: precisamos saber quando as coisas começam e terminam – no caso, o ano – para que todo mundo siga a mesma batida, pra que todxs comemorem as mesmas coisas (por nós criadas) e todxs gastem em presentes como manda a tradição (também por nós criada). Lindo.

* Ok, voltando da minha breve viagem reflexiva problematizadora*

Não lembro o exato momento em que percebi que cada família tinha uma comemoração de final de ano particular, mas não faz muito tempo. Vou contar pra você a minha, que é centrada no Natal e na figura da minha avó, dona Colorinda (sim, esse é nome dela; true story). A vó Colô se dedica em manter a tradição do Natal como uma festa de união, trocas e celebração. Talvez pela decepção de sua mãe ao encontrar o padre bêbado num bar, a religião deixou de ser o mote e acabou se tornando um pretexto para uma reunião que se define em bagunça, choradeira e comilança e que hoje reúne católicos, espíritas, umbandistas, ateus, judeus e indefinidos.

Pra não receber o selo 100% religion free, há sempre uma reflexão, a maioria das vezes realizada pelo meu pai, seguida de uma oração e por um coro de “noite feliz” – isso eu nunca entendi o porquê. Todo ano se discute se primeiro comemos ou se fazemos o amigo secreto e, todo ano, decidimos trocar presentes antes de comer. Aí começa a choradeira na sequencia de declarações, abraços, lembranças e afeto. Logo após, vem o momento de caos generalizado, em que todos os subversivos que querem dar presentes fora do amigo secreto se encontram. Enfim, é chegado o momento de ataque ao peru de Natal feito pela vó (e com minha assistência, apesar de ser vegetariana) e a depressão após inúmeras sobremesas e Bowle (tipo um clericot) do tio. Como eu disse, bagunça, choradeira e comilança – que eu não trocaria por nada.

Esse breve relato é para compreender o que é o meu final do ano. Na minha história, o réveillon é uma festa que pode ser com a família, com os amigos ou até sozinho em lugar a determinar. O Natal não. Já tentamos fazer o Natal fora de Porto Alegre e foi estranho – não falamos muito sobre isso. Mas, mais que isso, ele é a festa que tem como objetivo unir a maior quantidade possível de pessoas (incluindo agregadxs, família dxs agregadxs, amigxs da família dxs agregadxs, amigxs, desgarradxs, entre outrxs), sendo comemorado na data que convém a maioria – e não me lembro de ter comemorado algum no dia 24 – e com transmissão ao vivo para os viajantes. Esse sentimento de encontro e de celebração define o meu final de ano e faz eu nem me importar com a montoeira de trabalho e estudos que ainda tenho que realizar.

Evitei, mas não vou deixar de ser piegas: gostaria que todo mundo tivesse um dia assim. Não digo com a família (que é um conceito bem relativo), com a bagunça, com os presentes, com a oração; isso cada grupo define como acha melhor. Mas, sim, um dia em que pudesse encontrar uma galera que você passou menos tempo do que gostaria durante o ano, trocasse umas energias boas e sentisse que tá tudo bem. Vamos combinar que, no nível que foi 2016, um dia com esse sentimento de *não tem ruim pra nós* deveria ser programa de saúde pública.

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Da romantização da parede da sala

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imagem: Cassiano Rodka

“Agora a casa é minha e eu vou decorar como eu quiser” – Esta era a ideia pungente naquela decisão de pintar a parede da sala de laranja. Eu tinha certeza que eu e meu companheiro iríamos nos divertir horrores, que esse momento ficaria na memória como uma lembrança linda e feliz, que ele traria o sentimento de cumplicidade que vemos nestas cenas em filmes.

Foi um saco. Pra começar, decidir o tom de laranja foi um parto (e olha que só eu opinei nisso). A fatídica parede deve ter uns seis metros de comprimento e precisou ser pintada três – TRÊS – vezes, porque eu consegui escolher uma fucking tinta translúcida. Além disso, tive uma ideia genial de testar a cor fazendo desenhos engraçadinhos que só sairiam com uma quarta demão de tinta (e por isso, atrás da minha porta, dependendo da incidência de luz, você ainda pode ver uma caveira, um pi e um coração). Eu só conseguia pensar: o que aconteceu de errado que isso não foi tão legal quanto eu imaginava?

O que aconteceu, baby, se chama vida real. Os filmes nos fazem acreditar que pintar a parede da sua casa nova será lindo, que você e seu(sua) companheiro(a) irão rir e passar por esse momento com calma e alegria; que vocês vão brincar pintando o nariz um(a) do(a) outro(a) e começarão uma guerra na tinta que terminará com um sexo bem sujo e maravilhoso. A realidade (pelo menos a minha) é que essa tarefa não termina nunca, você se arrepende trezentas vezes de ter começado e deseja ter dinheiro para pagar alguém pra fazer isso. Cara, por que os filmes nos fazem acreditar nisso?

Porque eles romantizam toda e qualquer situação em que você está com ~o amor da sua vida~. Cria-se uma ideia de que todos os dias serão lindos com aquela pessoa, que tudo que vocês farão juntos será incrível e terá mais graça do que se você estivesse sozinho, que você verá um mundo de cores onde tudo, antes, era cinza e triste. Não quer compartilhar tudo com essa pessoa? Ah não, tem algo errado. Então ela não é ~o amor da sua vida~.

Na verdade, a ideia em si de ~o amor da sua vida~ já me incomoda pacas. Pra começar, por que “o”? Quem disse que esse amor tem que ser único? Segundo, o que é o amor (baby don’t hurt me… no more)? Como saber se aquilo que você sente pela pessoa é paixão, amor, tesão, desejo, projeção Freudiana ou sei lá o quê? Terceiro, por que “da sua vida”? Tem que ser pra vida inteira? Ai, que saco! Eu não sou a mesma pessoa a vida inteira, como posso esperar que alguém ame as diversas versões minhas que estão por vir? Nem eu sei se vou amar todas elas! Aí a Disney nos ensina que temos que encontrar essa pessoa – pior, temos que esperar ela chegar em seu cavalo branco para nos livrar da bruxa má. Taca-lhe mais romantização que ainda tá pouco.

Essa romantização só complica as coisas. Criamos expectativas em pessoas esperando que elas também criem em nós essas mesmas expectativas, confluindo na reprodução de um momento e de uma relação estipulada por alguém que nem, ao menos, nos conhece. Menos projeção, mais realidade. Olha só: se pintar a parede com seu amor foi legal, ótimo! Mas não tem nada de errado se foi chato. O seu relacionamento não é pior que os outros se vocês não trazem café na cama aos domingos; o seu pedido de casamento não é menos válido se ele não foi feito com uma banda e uma flor para cada dia em que vocês estão juntxs. Você não é uma pessoa ruim se não faz tudo com seu amor – inclusive, acho essa individualidade extremamente saudável.

“Nossa, cê odeia romance mesmo”. Nã nã nã. Eu adoro um romance – ô se goxto! Mas o meu romance, de um jeito só meu com a outra pessoa. Sem diretor, sem produtor, sem arte finalista, sem música de fundo (essa só na minha cabeça). Nesse romance, eu e a pessoa rimos juntas, nos divertimos, amamos muito. Mas a gente também se enche o saco uma da outra, se desentende, se entende de novo, se modifica. A diferença é que essa relação não tá num script, ela se constrói – e nisso está o belo, o frio na barriga e a delícia de se sentir em uma cena de um filme só nosso.

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Apresentação ou Das trocas interpessoais no transporte coletivo

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imagem: Cassiano Rodka

Sempre me intrigaram as relações criadas no espaço-tempo de uma viagem de ônibus. Tem algumas pessoas que a gente vê mais do que a família, mas com quem nunca conversamos. “Puxa, a menina do cabelo vermelho não veio hoje, será que ela está bem?”. “O carinha com a bolsa da Engenharia está estudando, hoje deve ter prova de Cálculo”. Aí cê não sabe se cumprimenta aquela pessoa, correndo o risco de parece psicopata; ou não fala nada e passa por grossa. Mas vai dizer o quê? “Oi, moça do casaco bonito!”. Complexo.

Tem, também, aqueles amigos de infância de uma viagem, que compartilham suas mais variadas histórias e, de repente – não mais que de repente – se vão na próxima parada. Esses eu já conheci muitos, acho que tenho cara de simpática, sei lá. Desde o cobrador que queria me convencer que sou parente da Fernanda Lima (oi?), até a moça que me contou toda a história do relacionamento dela com um fulaninho da high society porto-alegrense. Passei maus bocados com um homem que ofereceu dinheiro pra ver meu corpo (é, essa não foi legal) e me diverti horrores com uma velhinha moralista.

O ônibus também é o lugar em que mais encontro ex-alunxs (e que coisa bem boa ver xs nenês do ensino fundamental ou médio indo para a universidade!). Fico sabendo das novidades e descubro os rumos que tomaram (ou não). Uma vez encontrei uma ex-aluna numa vibe mega hippie completamente descompassada com a escola em que fui sua professora no Ensino Médio. Ela me falou sobre energia, encontros, sua música e sua arte. Não era boa em Matemática, mas tem uma voz sensacional. Ela está muito bem, obrigada. Naquele momento repensei vários aspectos do ser professora, dos saberes necessários para uma vida digna, da escola como formação de um cidadão crítico… mas isso fica pra outra história.

Peraí, por que mesmo estou falando sobre isso? Ah sim, as relações. Afinal, talvez eu não tenha cara de simpática, mas, sim, cara de quem quer fazer trocas. Trocar saberes, histórias, risadas e – por que não? – energia. Talvez seja isso, no fim de tudo, o que me move: esses compartilhamentos, essas trocas, essas relações. Essas que ocorrem no ônibus, mas também as da sala de aula, da mesa do bar, da cama (ui!). Sejam as de fala mansa, as de tom mais alto ou as em silêncio. O que importa é que troca implica mais que um. Precisa de outro para meter o raio problematizador ou falar sem parar até você dizer chega. Precisa de pessoas.

Então, tá. Acho que esse é o ponto. Muito prazer, eu sou a Brunna e estou aqui para falar sobre gente.