Clarice Dall’Agnol

Literatura

Auf wiedersehen

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imagem: Ana Nitzan

por Marcella Marx

“If you treat an individual as he is, he will remain how he is. But if you
treat him as if he were what he ought to be and could be, he will become
what he ought to be and could be.” 

Johann Wolfgang von Goethe

Não me olhes como se eu já não soubesse o que trazes dentro de ti
eu mais do que sei
eu acredito
junto contigo no devir
em tudo aquilo para o qual não há qualquer explicação
agora
eu compartilho de tuas vontades
e de tuas não-vontades
sabendo de tua grande potência latente
eu olho contigo na mesma direção
caminho ao teu lado
mergulho na imensa onda azul se preciso for
eu vou
mas não no seu lugar
porque a sua pegada só tu podes deixar
fundas num chão de lama
passageiras na areia da praia
inexistentes sob a água ou sobre o chão concreto
quebradiças no plano de folhas da floresta
respeito teus erros ainda hoje
deles dependem teus feitos futuros
dessa mesma forma e substância
os meus
e por hora te digo:
até breve

Literatura

Esteja presente

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imagem: Cassiano Rodka

por Cassiano Rodka

Esteja onde estiver, esteja presente.
Não fique para trás, nem mais adiante.
Esteja ali precisamente.

Desligue o celular, abra sua mente.
Escute minha voz e saboreie nosso instante.
Não permita que nada exista além da gente.

Não perca de vista o que lhe faz contente.
A grama é mais verde onde quer que você cante.
Se lhe apetece, experimente.

Apague a luz e termine o expediente.
Deixe o chefe e as ferramentas na estante.
Ninguém regula o que você sente.

Lembre que a vida acaba e a morte é iminente.
Saiba que o agora passa em um rompante.
Não deixe seu desejo carente.

Esteja ali precisamente.
Não fique para trás, nem mais adiante.
Esteja onde estiver, esteja presente.

Literatura

Agonia

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imagem: Cassiano Rodka

por Isabel Dall’Agnol

Corroo-me por dentro.
Deixo uma sinfonia pesada e
assustadora prender meu cérebro.
Não me movo.
Fantasio com o teu descuido.
Fantasio com todas as coisas que quero,
destruindo tua alma de borboleta.
A mágoa dorme em mim.
E se não for ilusão?
E se tu tiveres abandonado…?
Já nem sei mais se posso.
Já não posso.
Não consigo.
Ou não devo.
Mas eu quero.

Literatura

Agendinha comercial diária

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imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

Me achava toda importante, tão importante,
até o dia em que tive que inventar rapidinho um poema,
tirar alguma coisa do nada,
pegar um tema e cuspir uma história,
ninguém mandou achar que podia tudo,
depois é lidar com a ressaca literária,
culpas de quem resolveu não se importar com regra nenhuma,
e sair escrevendo como uma louca,
usar a linguagem pra falar da linguagem,
não dar a mínima pra gênero literário,
alguém ainda lê poesia (interrogação)
assim me abalas, me feres,
eu não quero usar ponto, e ponto,
quero apenas muitas vírgulas,
(preciso de pausas),
(muitas pausas),
preciso voltar a ler Saramago
(que não gostava de parágrafos,
e nem de pontos,
e foi por isso que me apaixonei por ele).
Agora, acabou,
até que gostei.

Literatura

Crônicas de viagem – Nova Zelândia: Ilha Norte

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imagem: Ana Nitzan

por Marcella Marx

“The things we have done in the past become our future.”
Te Ao Pehi Kara

Próxima parada, e última da Ilha Norte: Wellington, a menor capital de um país do mundo e “Coolest Little Capital in the World”, eleita pela Lonely Planet. Um dia muito frio e cheio de vento, véspera de Natal. Visitamos o museu Te Papa, onde está a maior lula já encontrada no mundo, com 10 metros de comprimento. O que mais impressiona são os olhos, do tamanho de bolas de futebol, os maiores já estudados no mundo. Te devolvem uma sensação de pequenez imediata.

Mais uma vez a Nova Zelândia nos mostra seu acolhimento; o museu ficou aberto normalmente e sem cobrar nada. Passamos lá nosso dia, contemplando a história desse país e, como sempre, procuramos nossas próprias respostas.

Continua.

Literatura

Evaporar

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imagem: Cassiano Rodka

por Isabel Dall’Agnol

O silêncio me perturba
tanto quanto a solidão.

Não tenho medo da marcha,
mas a tristeza me arrepia.

Tudo me pesa.
Sofre tudo em mim.
Até a tormenta
que não é minha.

Estou emoldurada.
Sempre que me dou
por conta, tenho
os olhos pregados.

A melancolia infecciona
minha volta.
A sombra agita
minha harmonia.
O pranto ocupa
meu riso.
Prefiro seguir isolada.

Ando tão farta,
que tenho sonhado
com a morte.
Que sempre vem.
Lenta e fria.
Provocando minha
alma abandonada.

Minha identidade
desabrigada
está disfarçada.

Minha natureza
obcecada
é um vexame.

Suspiro pelo vento.
Preciso evaporar.

Literatura

Kaspia Blanche

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imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

Para John Lennon e Ana Cristina César,
‏poetas convictos de que, às vezes,
‏um poema é apenas um poema.

Fácil entender o que se passa.
Principalmente estando ali, no microcosmos,
assistindo a tudo de camarote.
Belo espetáculo.
De que nem toda vida é exatamente o que parece,
ou o que quer ser.
Roteiro de cinema.
Enredo de romance.
Metáfora poética.
Resuminho de tragédia semi-urbana.
Chamem do que quiserem.
Todos os pingos nos “is”.
Ninguém é perfeito,
afinal.
Mas há quem seja insubstituível.

Literatura

Crônicas de viagem – Nova Zelândia: ilha sul, recomeço

Crônicas de viagem - Nova Zelândia ilha sul, recomeço_os manifestantes_P2.jpg
imagem: Ana Nitzan

por Marcella Marx

Atravessamos o “Cook Strait” e desembarcamos em Picton, uma pequena cidade, onde nos perguntamos: Será que moraríamos aqui? A resposta foi se tornando mais e mais clara conforme subíamos a pequena serra margeando a costa, com praias belíssimas e bem escondidas. Com uma vontade imensa de parar a cada 10 minutos, continuamos até Kaiteriteri. De lá visitaríamos de barco o Parque Nacional Abel Tasman. Em cada um dos campings que ficamos, e lá não foi diferente, encontramos muitas famílias, de lugares diferentes do mundo. Mas algumas nacionalidades eram sempre frequentes. israelenses, franceses e alemães, pareciam estar em casa. Preparavam jantares dignos de respeito e também um pouquinho de inveja. Muitos casais carregando seus bebês nas costas e crianças pequenas que se divertiam com muita simplicidade, como há muito tempo não via. Que alegria lembrar que na barraca não tem tomada! As horas claras do dia eram para brincar e ajudar nas tarefas e as horas escuras para dormir. Simples assim.

De barco, no dia seguinte, fizemos o trajeto inteiro do Parque Nacional Abel Tasman e decidimos fazer uma única parada, muito especial: Te Pukatea. Uma pequena praia aonde se chega por uma trilha curta e cheia de “ferns”, as samambaias, símbolo da Nova Zelândia e dos recomeços.

Continua.