Clarice Dall’Agnol

Cinema

Praia do Futuro, Ideias do Passado

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por Pedro Cunha

Eu gostaria de poder usar esse espaço para falar do excelente “Praia do Futuro” (Karim Ainouz, 2014), mas infelizmente o filme tem sido menos notícia em função das excelentes críticas que tem recebido do que pelo incidente envolvendo uma das temáticas do filme. Em João Pessoa (PB) um professor denunciou que, ao comprar o ingresso, foi advertido pelo vendedor: “Esse filme tem cenas homossexuais. O senhor tem certeza que quer assistir?” Ao responder afirmativamente o professor teve o seu ingresso carimbado com a palavra “AVISADO”. A foto do ingresso foi parar na internet e diversos outros casos foram relatados. Muita gente contando de pessoas saindo “revoltadas” durante a sessão, como se fossem “violentadas” pelos beijos de Wagner Moura e Clemens Schick. Gerentes de cinema dizendo terem sido procurados após as sessões por clientes indignados “por não terem sido avisados que havia ‘viadagem explícita’(sic)”. Toda essa repercussão e alguns outros episódios recentes nos levam a uma inevitável conclusão: a luta contra a homofobia no Brasil tem um caminho ainda muito longo a percorrer.

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O pior é ver algumas reações pretensamente ponderadas dizendo que “realmente, não custava avisar”. Não podemos e não devemos naturalizar nenhuma forma de preconceito. Para um paralelo rápido, não me lembro de ninguém ter dito que “O Lobo de Wall Street” (The Wolf of Wall Street, Martin Scorsese, 2013) deveria ter algum aviso. O filme tem cenas fortíssimas de sexo (de diferentes maneiras), consumo de quantidades absurdas de drogas diferentes e até masturbação em público. Não são insinuações, são cenas pesadas mesmo. O vencedor do Oscar desse ano, “12 Anos de Escravidão” (12 Years a Slave, Steve McQueen, 2013), tem cenas fortíssimas de violência e estupro, mas ninguém foi avisado disso pelo bilheteiro do cinema. Aliás, fico pensando numa cena hipotética que poderia ter acontecido com “12 Anos de Escravidão” ou com vários outros filmes. O sujeito vai comprar o ingresso e é avisado: “Olha, esse filme tem cenas de sexo inter-racial. O senhor tem certeza de que quer assistir?”. Se isso ocorresse, seria (justificadamente) um escândalo de racismo. Por que condenamos (corretamente) com tanta veemência o racismo e somos tão tolerantes com a homofobia? Por que é tão fácil estar “#fechado_com_o_Tinga” na questão do racismo e tão complicado estar “#fechado_com_o_Richarlyson”? Até uma campanha besta como “somos todos macacos” ganha ampla divulgação, mas quem entraria de peito aberto em “somos todos viados”?

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Eu não consigo concordar com muita gente que acha que vivemos um tempo de retrocesso reacionário. O que eu acho é justamente o contrário: nunca avançamos tanto. De tanto que avançamos os setores mais conservadores estão tendo que fazer barulho, já que até muito pouco tempo atrás eles não precisavam sequer se preocupar com qualquer ameaça ao status quo racista, homofóbico, machista e cis-sexista. As minorias se organizaram e na última década temos visto um grande avanço no campo dos direitos civis. Os que absurdamente encontram-se “ameaçados” pelo avanço dos direitos dos outros (que absolutamente em nada mexe com os seus, diga-se de passagem) agora gritam. Acham um absurdo que seus filhos vejam “cenas impróprias” de carinho homoafetivo na novela das oito, mas reagem com naturalidade a cenas selvagens de violência, por exemplo, nos filmes de Tarantino.

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O que, no fim das contas, me deixa pasmo, me deixa chateado, me deixa indignado, me deixa irritado, é o fato de que em pleno século XXI um bom filme, que traz várias questões importantes, seja “eclipsado” em função do preconceito. Que em pleno século XXI um beijo possa despertar ódio nas pessoas. Que o comportamento alheio ainda seja pauta de discussão. Que o amor e o carinho sejam tratados com ódio e preconceito.

Enfim, “Praia do Futuro” fala sobre solidão. Fala sobre complicadas relações entre mãe e filho e entre irmãos. Fala sobre ir atrás de um futuro melhor, deixando para trás parte importante do seu passado. É um filme sobre resgate, especificamente sobre o resgate de si mesmo. É um lindo e caprichado filme nacional, uma produção tecnicamente muito bem feita com excelentes atuações. E, façamos nós, com que tudo isso não seja menor do que a polêmica vazia que o filme causou.

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Obs: todas as imagens desse post foram tiradas do excelente tumblr http://taavisado.tumblr.com, com exceção da última, que faz parte da campanha contra a homofobia do próprio filme “Praia do Futuro”.

Literatura

The plunge

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imagem: Ana Nitzan

por Marcella Marx

to the ones who make it seem easy
to the ones who can only do it because they do it without thinking it over
to the ones who are always on the verge
to you

Once upon a time I had a dream
but life is made of many other things besides dreams
among them, there reality is
patting you on the shoulder
or smashing a big and juicy tomato all around your face
making you cry out and loud when you stumble and fall
literally
and endlessly low on your pillow’s ear
when only your choice is to be made.

Once I dreamt that my dream did not haunt me
that it remained just as I dared to dream.

Upon ages and ages I strived with it
my dream
as it kept outgrowing me in shape and shadow
as if my bow and arrow
where not fit for me, but for that image I had of myself
it was only when I looked at it closely
my dream
face to face
that I finally grasped what was there
in front of me.

My dream
not I anymore
and once upon a time more
the exact moment emerged
for me to quest my Self anew.

Literatura

O canto

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imagem: Carla Lund

por Isabel Dall’Agnol

Na busca, desesperada,
de encontrá-la, ele…
Rascunhou em cadernos.
Abraçou as palavras que ficaram.
Percorreu pelas imagens que sobraram.
Fotografou os próprios lábios.
Procurou amigos em paredes.
Brincou com a sombra do seu corpo.
Inventou pernadas pela avenida.
Sussurrou o socorro da solidão.
Olhou através do relógio da esquina.
Pedalou até o desfiladeiro.
Contemplou o risco livre entre o céu e o mar.
Orquestrou pétalas em rosas.
Assobiou a canção mais bonita.
Perseguiu o pôr do sol.
Dançou com uma estranha.
Entorpeceu-se com a lua.
Trocou beijos por encanto.
Deitou-se com o frio.
Tatuou-a no canto do seu olhar.

Literatura

Sobre pedras e caminhos

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imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

No meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

(Carlos Drummond de Andrade)

O bom de viver na Era Digital é poder usufruir das fabulosas invenções que surgem a cada hora, minuto, segundo, sei lá. É rápido pra caramba. E ser rápido é a palavra de ordem deste século XXI. Estou certa, leitores?

Pensando em rapidez, óbvio, comecei a usar o Waze há poucos meses, e ele tem simplificado bastante meus caminhos, e, por consequência, minha vida. Para quem não conhece, é um aplicativo para o celular que oferece ao motorista o melhor e mais rápido caminho para qualquer destino desejado, e o programinha só funciona bem pela participação ativa dos outros wazers, que reportam acidentes, obras na pista, trânsito lento, policiais no caminho etc. Quanto mais usuários, mais efetivo é o inteligente e eficiente sistema!). Se você ainda não experimentou, baixe agora mesmo e experimente: vale muito a pena! Até gasolina eu ando economizando.

Pois recentemente ouvi de um amigo o seguinte: “Hoje em dia eu ando usando o Waze até dentro de casa, pra ver o melhor caminho pra desviar da minha mulher e chegar rapidinho ao banheiro!”. Essa afirmação dele me fez rir um monte, e me fez pensar: imagina se tivéssemos um Waze para a vida? Sim! Um aplicativo do celular que te oferecesse os melhores caminhos para solução de problemas, decisões importantes e delicadas, chatices e afins? Imagina poder colocar como problema para o “Waze do destino”: “desentendimento com o chefe”, e o danadinho do aplicativo te dar, passo a passo, o que fazer? Te guiar detalhadamente para agir bem, de modo a não perder a cabeça em um momento tão difícil? E assim seria para todas as grandes decisões da vida (“Qual profissão devo escolher?”, “Caso ou não caso?”, “Troco ou não de emprego?”, “Tenho filhos ou não?”, “Faço ou não um mestrado no exterior”?”, “Brigo ou não brigo pela trigésima vez com meu marido pelo mesmo motivo?”, “Deixo ou não minha filha adolescente viajar com o namorado?”, “Aconselho ou não minha amiga a tomar um rumo na vida?”, e assim por diante!).

E então, as decisões e os caminhos de sua vida seriam guiados pelo “Waze do destino”, e todos os wazers ao seu redor lhe dariam dicas úteis para que você conseguisse desviar das “intempéries” da longa jornada, assim como no Waze do tráfego. Em vez de “trânsito lento”, seus amigos “Wazers do destino” lhe reportariam, “Chefe mau-humorado hoje, cuidado!”, ou, em vez de “polícia à frente”, você ouviria um “mulher furiosa te esperando em casa, fuja!”, ou, em vez de “acidente na pista”, seus amiguinhos lhe avisariam, “período complicado para sua família, tente manter a calma!”, e, ainda, no lugar de “chuva reportada à frente”, “provas ou tarefas muito difíceis amanhã, prepare-se bem!”.

Em realidade, eu, que sou daquelas que pensa que “o que tiver que ser, será, porém, o acaso dá sempre uma boa ajudinha”, acho que na vida temos, de uma maneira ou de outra, uma espécie de “Waze interno” – uma espécie de guia, que ignoro como funciona, mas no qual acredito muito – que acaba nos levando no sentido dos melhores caminhos, de um modo geral. Há as curvas apertadas, há as tempestades e há as estradas de terra batida ou de pedras, entretanto, sempre dá-se um jeito de desviar, de passar por cima com dificuldade, e acaba-se por superar tudo. Minha avó dizia que para tudo na vida tem um jeitinho, e este jeitinho, leitor, é sempre muito nosso, muito particular, muito especial. Acredito também que nossos amigos e família, pessoas que realmente nos amam, acabam fazendo o papel destes “wazers do destino”, porque estão sempre perto de nós, de algum modo, aconselhando e alertando. Ao ouvir conselhos, ao trocar ideias e ao aceitar sugestões carinhosas das pessoas especiais que nos cercam, construímos, pouco a pouco, e passo a passo, aquilo que gostamos de chamar simplesmente de vida.

Cinema

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho

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por Pedro Cunha

Lançado em 2010, o curta-metragem “Eu Não Quero Voltar Sozinho”, escrito e dirigido por Daniel Ribeiro, arrebatou uma série de prêmios em festivais no Brasil e no exterior. O sucesso do curta fez com que, ainda em 2010, começasse a captação de recursos para tentar torná-lo um longa. Em 2012 foi atingida a meta financeira e começou a produção do filme que nascia como “Todas as Coisas Mais Simples” e se tornaria “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho”.

O longa tornou-se uma história sobre descoberta, sobre amor adolescente e sobre amizade. O interessante é que ele consegue ser tudo isso e não “o filme do garoto cego e gay”. A cegueira de Leo (Ghilherme Lobo), o protagonista, é tratada desde o início do filme de maneira muito natural. Somos apresentados a um deficiente visual já incluído no mundo, dentro das possibilidades de uma família de classe média alta. O garoto frequenta a escola regular, estuda, lê, escreve e tem os mesmos sonhos e frustrações de todo adolescente: a vontade de fugir dos pais, o sentimento de inadequação no mundo e até a pressão para dar o seu primeiro beijo. Ele lida com uma mãe superprotetora, um pai mais companheiro, uma avó próxima e Giovana (Tess Amorim), sua amiga de infância, companheira de escola e, como fica bem à mostra desde a primeira cena, completamente apaixonada pelo menino, que (com o perdão do trocadilho) não enxerga.

Nem o bullying sofrido na escola por Leo, que tem colegas que não conseguem conviver com a diferença, afeta a sua vida. A impressão que temos é que as brincadeiras dos colegas não o afetam e não são um grande problema para ele. A dinâmica da relação entre Leo e Gio vai mudar com a chegada de um aluno novo, Gabriel. Gabriel senta-se perto de Leo e logo eles tornam-se amigos. Há, no início, um princípio de interesse de Giovana por ele, mas logo o que acontece é ela sentir-se escanteada pela proximidade dos dois meninos, até que ela (e eles, principalmente) entenda o que está acontecendo de fato.

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Leo e Gio, sempre amigos desde a infância

Eu, professor, não posso deixar de chamar a atenção para uma pequena escorregada no roteiro: em determinado momento há um acampamento organizado pela escola e com a presença de professores. Até aí, tudo bem. No tal acampamento, durante a noite, há total liberdade para os alunos beberem álcool, usarem a piscina e passarem a noite nas barracas uns dos outros. O meu lado professor ficava vendo aquilo e imaginando qual escola, em sã consciência, permitiria aquilo e qual professor teria a demência de responsabilizar-se por aqueles meninos e meninas. Não estou dizendo, vejam bem, que é um absurdo que os jovens façam isso ou que eles não fazem, mas sim que fazer isso NUM EVENTO PROMOVIDO PELA ESCOLA é que é o problema. Problema, repito, para mim. Não estraga a história e nem desmerece o filme.

A direção de Daniel Ribeiro é leve e organizada. Não há grandes ousadias e pirotecnias (que não se encaixariam no roteiro, diga-se). O filme é linear e o diretor, desde o início, sabe qual história quer contar. Um filme que poderia ser facilmente transformado em um panfleto militante (ou dois, na verdade) tem muito sucesso em fugir disso tratando tudo, mas tudo mesmo, com muita naturalidade. Esse, aliás, é o recado do filme: tratando-se as coisas com naturalidade, sem muito espanto, elas tendem a resolver-se.

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Gabriel, que chega para mudar a dinâmica das relações

O trio de jovens atores (Ghilherme Lobo, Tess Amorim e Fábio Audi) sustenta muito bem o filme. Há que se destacar, é claro, o trabalho do protagonista, já que viver um personagem cego com naturalidade (sem usar óculos escuros o tempo inteiro, por exemplo) exige um trabalho de ator significativo, no qual Lobo e o diretor foram muito felizes. A fotografia de Pierre de Kerchove, com as imagens levemente borradas, tem por objetivo nos passar um pouco da sensação de falta de visão do cego, mas não há um exagero. Os tons claros escolhidos por ele combinam com a trilha sonora, capitaneada pela banda escocesa Belle and Sebastian. Tudo no filme é muito leve e delicado, mas sem ser frágil.

“Hoje eu Quero Voltar Sozinho” é, em última instância, um filme sobre descoberta. E é um lindo filme sobre descoberta. O tom delicado escolhido pelo diretor casa com a história que ele conta e com os atores que escolheu para vivê-la. Fiquei bastante curioso e estou no aguardo dos próximos trabalhos de Daniel Ribeiro.

Literatura

Ana (parte I)

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imagem: Ana Nitzan

por Marcella Marx

Ana era bibliotecária. Organizava sua vida em ordem alfabética inversa. O trabalho vinha muitas consoantes antes da vogal “A”. Ela poderia ter os olhos de Capitú, a beleza de Dulcinea ou ser ousada como Yentl. Achava-se porém, muito velha para qualquer uma delas. Era apenas Ana.

Naquela manhã, Ana saiu de casa, passou reto pelo jornaleiro, atravessou a rua na faixa e tropeçou ao subir na calçada. Depois de dois quarteirões, parou no ponto de ônibus e esperou. Era domingo, mas Ana relaxava na mesma rotina de todos os dias. No 732, sentava na terceira fileira do lado esquerdo, na janela. Ia com ele pelo bairro, olhando as lojas fechadas, reparando nos novos grafites dos muros. Naquele dia, leu:”Olhe para o lado!”.

– Se fosse eu, teria escrito: “Olhe pra frente!”

Desde criança, Ana era constante. Seus pais diziam que ela havia nascido pronta, e quando ouviam outros pais reclamando de seus filhos, ficavam até sem graça. Nada tinham a dizer sobre Ana.

Ela era esguia, não muito alta. Havia cortado o cabelo ainda mais curto. Gostava de se vestir bem. Suas cores favoritas eram o azul e o vermelho.

No ônibus quase vazio, sentou-se ao seu lado um homem de cabelos brancos que pediu licença e sorriu.

– Muito prazer, sou Lorenzo.

Ana respondeu com a ponta dos lábios.

– Ana.

Literatura

Espelho

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imagem: Cassiano Rodka

por Isabel Dall’Agnol

Olhou no vidro e
não viu quase nada.
Perdera o viço.

A pele cinza e os
olhos sombrios eram
a pista, que se perdia
na carne farta.
Via tudo embaçado.

Mediu sua velha armadura
e sentiu pena.
A mancha ocupava
o seu íntimo.

Concentrou-se no
volume de falhas.
A culpa vestiu
o segredo.

Ligou o morbo aos
dias da ordem.
Cobriu a mania.
Lamentou a bagunça.

Encarou o retrato.
Fez-se tão pequena
e seca, que, finalmente,
assim refletiu.

Literatura

Todas as estações

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imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

Meu outono interno começou. Posso sentir as mudanças. A calmaria que anda tomando conta do meu corpo. Amadureço, aos poucos, e posso sentir minhas folhas caindo. Para dar lugar, pouco a pouco, a uma pele mais resistente às intempéries da vida. Para suportar todas as dores que inevitavelmente a “melhor idade” um dia há de me apresentar.

Tenho uns flashes longínquos da minha primavera. Distante já. Ausente, mas tão presente. Primeiras descobertas. Pequenas felicidades certas. Pouquíssimas decepções. Amor maternal sempre à disposição.

O verão me veio com força. Suas lembranças são mais vivas. Tempo do sangue ferver. De arriscar. Aventurar-se. Ir a fundo sem medir consequências. Alucinar. Colocar tudo à prova. Cair. Chorar. Levantar e seguir adiante.

E assim agora vejo-me em meu outono. Nada poderia ser melhor do que a razão sobrepondo-se, mais soberana, à emoção desenfreada do verão. Sentimento ainda incipiente, mas que vai tomando corpo com força e serenidade. Paradoxo? Talvez. Não me importa. Sou conhecida pelos meus contrapontos.

Aguardo tranquila meu inverno. Tempo de serenidade absoluta. De certezas. De mais força e razão ainda. Só espero que em algum lugar fique o sentimento. Não agitado como na primavera, nem devastador como no verão, e nem tão paradoxal como no outono. Mas verdadeiro e absoluto, e ainda assim cheio de lirismo, para que eu possa continuar escrevendo, sempre.

Literatura

O verdadeiro: uma fábula

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imagem: Ana Nitzan

por Marcella Marx

“All animals are equal, but some animals are more equal than others.”
George Orwell, Animal Farm

Era uma vez três belas bem-te-vis que já tinham larga experiência em sua cantoria. Afinal, todos os dias pela manhã cantavam, depois que cantavam, se debruçavam em intermináveis reuniões sobre a organização da floresta, a divisão adequada dos galhos das árvores e a manutenção das atividades atribuídas a cada animal. Questionavam os beija-flores, pois suspeitavam que eles andavam beijando muito além das flores. Indagavam as borboletas em convocação emergencial, para saber se elas aviam realmente polinizado todas as flores às quais se propuseram. Faziam levantes a respeito das joaninhas-de-barro, para saber se seu canto traria mesmo a boa aventurança da chuva ou se ele era desnecessário. No entanto, quando resolveram examinar a quantidade de mel produzido pelas abelhas e criar uma média a ser respeitada, pisaram num vespeiro. A abelha rainha se deslocou de seus aposentos e foi ter com as bem-te-vis.

– Para que eu estivesse aqui hoje, o mundo todo teve de parar. Isto porque cada um de nós, com seu talento, faz parte de um movimento infinito; o que podemos chamar de respirar do mundo. Nele, os ciclos de inspiração, contenção e expiração, também entendidos como nascimento, produção e morte devem ser respeitados e, mais do que isso, conhecidos a fundo.

– Mas nunca foi essa a nossa intenção! Nós gostamos mesmo é de cantar, e já nem mais tempo temos para isso, disseram duas das bem-te-vis.

– Tarde demais, disse a abelha rainha.

Sem entenderem, as duas bem-te-vis se viraram e, admiradas, observaram sua outra irmã ciscando.