Clarice Dall’Agnol

Literatura

O ciclo de vida das camisetas

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imagem: Cassiano Rodka

por Cassiano Rodka

À Laura, que faz parte da cadeia indumentária

Minha lembrança mais antiga é do apoio constante e reconfortante do cabide. Não há nada como ter um ombro amigo perpetuamente disposto a segurar as pontas e, esse tipo de suporte, eu sempre tive. Sentia que a vida seria assim: um eterno me veem, me tocam, me provam e me devolvem pro mostruário. Mas todo calendário tem um quê de caleidoscópio e, quando menos esperamos, estamos diante de um novo sei-lá-o-quê.

Quando me compraram, eu só saía do armário em dia de festa. Me vestiam com cuidado e eu me via no espelho umas duas ou três vezes antes de voarmos para a noite. Na balada, eu abalava. Recebia elogios dos amigos e carinhos desamassantes do meu dono. Não tinha para ninguém, éramos um só item.

Mas o tempo passa e nos amassa. E aí não há ferro quente que nos salve. Banida da estante, fui passada adiante. Nas mãos da prima, eu não saía da cama. Virei pijama. Meus dias de glória ficaram no fundo da gaveta da memória. Entre os meus, virei motivo de chacota. Não existe coisa mais triste nesta vida do que ser ex-preferida. Com a luz apagada, dormimos grudadinhas e sonhamos com dias melhores.

Contudo não há nada de ruim que o tempo não possa piorar. E o passado sempre fica mais bonito a alguns quilômetros de distância. Hoje em dia, não sou mais pijama. Desbotada, em farrapos, ganhei uma nova missão. Não me chamam mais de camiseta. Meu nome, agora, é pano de chão.

Música

Um banquinho, um violão e um punk rocker

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por Cassiano Rodka

Depois de 25 anos ao lado do Therapy?, o vocalista e guitarrista Andy Cairns decidiu celebrar a carreira fazendo alguns shows solo em uma pequena turnê europeia.

No dia 24 de abril de 2013, Andy entrou em estúdio para gravar algumas das canções que estariam no setlist da tour acústica, um souvenir vendido exclusivamente nos shows. Munido apenas de um violão e do seu gogó, o cantor gravou 19 músicas em um dia, a maioria delas em um só take. A ideia era de que a gravação captasse o clima despretensioso das apresentações e o resultado não poderia ser melhor. Temos a sensação de que Andy está atirado em um canto da nossa sala tocando o seu violão.

O disco inicia com o cantor sussurrando “Wake up, time to die”, clássica abertura do primeiro single do Therapy?, “Meat Abstract”. O arranjo acústico funciona surpreendentemente bem nas faixas originalmente pesadas e garante um novo olhar sobre vários clássicos da banda, em especial “Nausea”, “Screamager”, “Nowhere”, “Church of Noise” e “If It Kills Me”. Algumas faixas parecem ter nascido para o formato acústico, como é o caso de “Lonely, Cryin’, Only”, “Gone” e, é claro, a excelente balada country “Our Love Must Die”, B-side da época do disco “Infernal Love”.

Além de músicas do Therapy?, o cantor incluiu 6 canções inéditas: “Lost in Care”, “Mean”, “Bedridden”, “Self Help Books”, “Jesus Doesn’t Live Here Anymore”, “Bootstraps”, todas faixas curtas e com melodias altamente memoráveis. Há também espaço para uma cover, “Signed D.C.”, do Love.

Com pura simplicidade, Andy Cairns criou um dos discos mais bacanas que escutei este ano. Punk rock para maiores de 30.

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Literatura

Forty

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imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

“O sonho é uma festa do espírito”
‏Machado de Assis

E então eu vou fazer 40.
A minha certeza são as pequenas linhas sob meus olhos verde-azeitona.
E uma segurança meio assustadora que tem aos poucos tomado conta de mim.
E as experiências que trago na memória.
E as viagens fantásticas que fiz com minha família.
E as conversas maravilhosas que tive com quem amo e admiro.
As cartas que troquei com meu pai ao longo dos anos.
Os conselhos que ouvi da minha mãe.
As doses de vodca que tomei contemplando o pôr-do-sol.
Os céus de baunilha e lilás que se desenharam para mim.
As palavras dos meus filhos. Suas vozes cheias de cor e de infância.
Os segredos que confiei às pessoas certas.
As angústias que divivi e sofri.
Os poemas que escrevi.
As histórias que contei por quatro décadas.
Os livros que li com fúria.
Os que li sem muito interesse.
Os filmes que me disseram muito.
E os que apenas sussurraram nos momentos certos.
As comidas exóticas que provei.
Os lugares sensacionais que conheci.
As pessoas especiais que mudaram minha trajetória.
O que guardei delas. O que guardaram de mim.
Meu corpo sentindo: nascendo. Dando os primeiros passos. Descobrindo os sentidos. Escrevendo loucamente. Lendo de tudo. Cantando. Ouvindo Beatles e Eric Clapton. Dançando ballet. Andando de balanço. Abraçando. Beijando. Dando à luz meus filhos. Nadando. Discutindo. Levantando pesos super pesados. Andando de moto. Mergulhando no mar. Pisando na areia e na grama. Sentindo o vento gelado de Porto Alegre. Carregando o mundo nas costas.
O que vivi nos sonhos.
O que vivi aqui.
Obrigada, Clarice.

Cinema

Oscar 2014

por Pedro Cunha

Aproxima-se a noite de gala de Hollywood… e, é claro, tenho que dar meus palpites. Minhas avaliações foram prejudicadas por mudanças (ótimas) na minha vida: uma viagem de lua de mel e uma mudança de estado, que tumultuaram um pouco as coisas, mas não impediram que eu continuasse assistindo os filmes. Hoje vou falar sobre quatro dos indicados a melhor filme.

Capitão Phillips (Captain Phillips, Paul Greengrass, 2013)

Paul Greengrass é um britânico reconhecido por seus filmes de ação, como “A Supremacia Bourne” (The Bourne Supremacy, 2002), “O Ultimato Bourne” (The Bourne Ultimate, 2004) e “Zona Verde” (Green Zone, 2010), este último um excelente (e subvalorizado) filme sobre a ocupação americana no Iraque. Em todos esses filmes Greengrass dá mostras de que sabe criar situações de tensão muito fortes, daquelas que nos fazem sair do cinema com dor no pescoço. “Capitão Phillips” não é diferente. O filme é baseado numa história real sobre o sequestro de um navio mercante norte-americano por piratas na costa da Somália, um problema que surpreende e choca o mundo do século XXI. O diretor, juntamente com o roteirista Billy Ray (que baseou-se no livro autobiográfico do Capitão Richard Phillips), consegue construir uma tensão crescente e constante durante todo o filme. Desde o início há um desconforto, mesmo quando ainda não sabemos o que vai acontecer. Grenngrass calcula cada cena e faz com que a próxima seja ainda mais tensa que a anterior. Quando achamos que a coisa já estava difícil, ela torna-se ainda mais difícil, o que vai fazendo com que o grau de tensão aumente. O filme inteiro evolui “da frigideira para o fogo”, até o desfecho.

A direção do britânico é segura, mas certamente não teria alcançado o mesmo resultado sem as sólidas atuações de seus dois protagonistas. Tom Hanks vive o Capitão que dá título ao filme em uma atuação que talvez seja a melhor de toda sua carreira. A Academia adora Tom Hanks. Não é por nada que ele é um dos maiores ganhadores da história do Oscar: venceu em 94 por “Philadelphia” (Jonathan Demme, 1993) e em 95 por “Forrest Gump” (Robert Zemeckis, 1994), além de ter sido indicado em 89 por “Quero Ser Grande” (Big, Penny Marshall, 1988), em 99 por “O Resgate do Soldado Ryan” (Saving Private Ryan, Steven Spielberg, 1998) e em 2001 por “Náufrago” (Cast Away, Robert Zemeckis, 2000). Meio inexplicável, então, que a Academia não tenha sequer indicado Hanks por “Capitão Phillips”. O filme é todo centrado nele e o ator dá show, conseguindo nos convencer da realidade dos temores, dos medos e por fim dos terrores de seu personagem. Se Tom Hanks é algo garantido e que já conhecemos, o mesmo não pode ser dito do estreante Barkhad Abdi. Abdi é um somali cuja família se fugiu para o Iêmen quando ele tinha sete anos, fugindo da guerra civil que destroçou (e destroça) a Somália. Quando ele tinha 14 anos sua família se mudou para os EUA, onde ele cresceu e se formou. A atuação dele como Muse, o líder dos piratas somalis, é impressionante. Ele faz com que sintamos ao mesmo tempo pena e raiva do personagem. A indicação ao prêmio da Academia como Melhor Ator Coadjuvante é plenamente justa, ainda mais se levarmos em consideração que Barkhad não tem nenhuma formação de ator e trabalhava como chofer quando recebeu o convite para o filme.

“Capitão Phillips” obteve seis indicações. Além da de Melhor Ator Coadjuvante para Barkhad Abdi, o filme também foi indicado a Melhor Filme, Melhor Roteiro Adaptado e aos prêmios técnicos (Edição, Edição de Som e Mixagem de Som). Tradicionalmente não se deve apostar em filmes cujo diretor não foi indicado ao prêmio de Melhor Diretor, mas às vezes acontece uma pulverização de votos que faz com que um desses ganhe, como ocorreu ano passado com “Argo”. Essa é a chance de “Capitão Phillips”.

12 Anos de Escravidão (12 Years a Slave, Steve McQueen, 2013)

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Estamos acostumados a ver filmes sobre injustiças e dramas. Estamos acostumados a ver filmes sobre escravidão. Ainda assim “12 Anos de Escravidão” é um filme que choca. O roteiro foi baseado no livro de Solomon Northup sobre a experiência que marcou sua vida: nascido livre, no início do século XIX no estado de Nova Iorque, Solomon foi sequestrado aos 35 anos e entregue como se fosse um escravo fugido na Georgia, onde viveu durante doze anos em condições de escravidão. Steve McQueen aproveita-se da história de Northup e realiza um pungente filme antiescravidão que tem cenas fortíssimas de espancamento, estupro e violências diversas. A questão da escravidão por si só já é bastante chocante, mas nessa história ela se soma com a condição de um homem livre que foi “injustamente” tornado escravo (como se alguma escravidão fosse justa ou justificável, enfim). A cena na qual o protagonista é amarrado para ser enforcado e fica suspenso, equilibrando-se na ponta dos pés sobre o barro dura alguns minutos, mas para quem assiste a impressão é que são infindáveis horas. Essa cena é, disparado, a mais brutal do filme, ainda mais forte do que os (vários) espancamentos explícitos que o filme mostra.

Por mais que isso já tenha sido feito outras vezes o filme de McQueen tem um impacto muito forte e é cotado como franco favorito para levar a estatueta de Melhor Filme na noite de domingo. A produção de época é muito caprichada (concorre aos prêmios de figurino e design de produção) e é uma das coisas que a Academia gosta. Junte-se isso a uma história muito triste e a boas atuações e nós temos um filme pronto para levar prêmios. O protagonista Chiwetel Ejiofor (lembram dele na bomba “2012”?) foi justamente indicado ao Oscar de Melhor Ator. O sempre ótimo Michael Fassbender foi indicado a Melhor Ator Coadjuvante com muita justiça: o seu desempenho como Edwin Epps, o fazendeiro cruel, nos convence plenamente da psicopatia e nos faz odiá-lo como se deve odiar um vilão de filme. Lupita Nyong´o foi indicada a Melhor Atriz Coadjuvante e é quase injusto se ela não vencer, mesmo que seja uma categoria onde está concorrendo com gente de peso como Jennifer Lawrence e Sally Hawkins.

“12 Anos de Escravidão” concorre a Melhor Filme, Melhor Diretor (Steve McQueen), Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Ator (Chiwetel Ejifor), Melhor Ator Coadjuvante (Michael Fassbender), Melhor Atriz Coadjuvante (Lupita Nyong´o), Melhor Firgurino e Melhor Edição. Já ganhou o Globo de Ouro de Melhor Filme (Drama) e o Bafta de Melhor Filme, o que faz dele o grande favorito da noite.

Philomena (Stephen Frears, 2013)

“Philomena” é mais um filme baseado em história real. Uma adolescente irlandesa engravida sem ter absolutamente nenhuma informação de como isso acontece e, a partir de então, sua vida vira um pequeno inferno. Ela é internada num convento para que tenha o filho sem chamar a atenção da sociedade. Não bastando a quantidade colossal de culpa que as sisudas freiras jogam em cima da menina, seu filho é tirado dela e dado para adoção. Philomena seguiu sua vida e escondeu essa história durante 50 anos, até decidir que queria encontrar o filho perdido. É nesse momento que sua história cruza com a do jornalista Martin Sixmith, que estava desempregado e a procura de um rumo na vida. A história de Philomena pode ser o que o jornalista precisa para alavancar sua carreira e o jornalista investigativo pode se o que a velha senora precisa para encontrar seu filho.

Frears é um bom diretor – “Ligações Perigosas” (Dangerous Liaisons, 1988), “Alta Fidelidade” (High Fidelity, 2000), “A Rainha” (The Queen, 2006) – que sabe contar histórias sobre pessoas. Em “Philomena” isso fica potencializado pelo fato de ele ter encontrado a atriz certa para o papel certo, que é Judi Dench como a protagonista que dá nome ao filme. A sensacional atriz britânica chega a sua sétima indicação ao Oscar (venceu o de Melhor Atriz Coadjuvante em 1999, pela sua performance como a rainha Elizabeth I em “Shakespeare Apaixonado (Shakespeare in Love, John Madden, 1998). A impressão que dá é que Dench está no melhor da sua carreira agora, já mais madura, diferente de outras colegas de profissão onde o talento às vezes apoia-se no frescor da juventude. Para o azar dela está num páreo bastante forte e não é a favorita, já que o prêmio de Melhor Atriz deve parar na prateleira de Cate Blanchet mesmo.

“Philomena” concorre aos prêmios de Melhor Filme, Melhor Atriz (Judi Dench), Melhor Trilha Sonora Original (Alexandre Desplat) e Melhor Roteiro Adaptado. Tem chances no roteiro adaptado se “12 Anos de Escravidão” não sair levando tudo na noite e é franco azarão na premiação principal.

Trapaça (American Hustle, David O. Russell, 2013)

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Christian Bale talvez seja o melhor ator de sua geração. Talvez não, ele é. A talentosíssima Amy Adams foi indicada pela quarta vez em seis anos a um Oscar de atuação. Jennifer Lawrence levou o prêmio de Melhor Atriz ano passado. Bradley Cooper foi indicado para o de Melhor Ator. Esses quatro, mais o bom Jeremy Renner (“Guerra ao Terror” (The Hurt Locker, Katheryn Bigelow, 2009)) sustentam “Trapaça”. O longa ainda é dirigido por David O. Russel, que é um dos novos queridinhos da Academia. Russell é um baita diretor de atores. Em 2010 dirigiu Melissa Leo, que venceu o de Melhor Atriz Coadjuvante, Amy Adams, indicada a Melhor Atriz Coadjuvante e Christian Bale que venceu o de Melhor Ator Coadjuvante por “O Vencedor” (The Fighter, 2010). Ano passado dirigiu Jennifer Lawrence, que venceu o de Melhor Atriz, Bradley Cooper, indicado a melhor ator, Jacki Weaver, indicado a Melhor Atriz Coadjuvante e Robert de Niro, numa boa atuação depois de anos de fiascos, indicado a melhor ator coadjuvante, todos no superestimado “O Lado Bom da Vida” (The Silver Lining Playbook, 2012).

A trama do filme é sobre trapaças, golpistas e trapaceiros e é claro, uns tentando passar a perna nos outros. Quando um agente do FBI (Cooper) consegue pegar um casal de estelionatários (Bale e Adams) e quer utilizá-los como isca para pegar peixes maiores, aproveitando-se da expertise deles em golpes e trapaças. A coisa toda começa a crescer e envolver gente realmente poderosa, como deputados, senadores e mafiosos, saindo um pouco do controle de todos os envolvidos. Em “Trapaça” nós temos, mais uma vez, grandes atuações. A ambientação do filme, em algum lugar entre os anos 70 e os 80, também é primorosa. A fotografia acerta os tons para colocar o filme no lugar. O problema de “Trapaça” é ritmo. O filme não acelera quando deveria e acaba se tornando um tanto lento. Não há um momento de empolgação, apesar de termos um roteiro interessante, uma ambientação bacana e excelentes atores trabalhando muito bem.

“Trapaça” está indicado a Melhor Filme, Melhor Diretor (David O. Russell), Melhor Ator (Christian Bale), Melhor Atriz (Amy Adams), Melhor Ator Coadjuvante (Bradley Cooper), Melhor Atriz Coadjuvante (Jennifer Lawrence), Melhor Roteiro Original, Melhor Edição, Melhor Figurino e Melhor Direção de Arte. O filme venceu o Globo de Ouro de Melhor Filme (Comédia/Musical) e Amy Adams e Jennifer Lawrence levaram os de Melhor Atriz e Melhor Atriz coadjuvante (ambos em Comédia/Musical). Lawrence tem alguma chance e Adams deve perder o prêmio para Cate Blanchet, se tudo seguir como parece seguir. “Trapaça” era um dos favoritos para melhor filme mas andou perdendo força nas últimas semanas. O filme não tornou-se um azarão, mas hoje dá para dizer que será surpresa se ganhar.

Literatura

Crônicas de viagem – A aventura continua

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imagem: Ana Nitzan

por Marcella Marx

Nova Zelândia: ilha norte

Primeira parada, Coromandel. Uma península de praias belíssimas, dentre elas, “Cathedral Cove”, uma caverna esculpida na rocha ligando duas praias. Uma hora e meia “tramping” (palavra neozelandesa para caminhada longa e ecológica) com muitas paradas para contemplar. Na chegada, água congelante, pra lembrar das coisas boas da vida e também pra lembrar que um banho de gelar os ossos deveria ser tomado todos os dias. Também em Coromandel, visitamos a praia “hot water”, onde o mais importante a levar não é uma toalha de praia, mas uma pá. Serve para cavar seu buraco na areia e encontrar água quente. (Cuidado: se você for pão duro e não quiser comprar a pá, vai queimar a mão!)

Mais ao sul, paramos no incrível lago Taupo, o maior da Nova Zelândia, numa região vulcânica, onde a água quentinha das nascentes pode queimar instantaneamente a 70 graus. Geisers, vulcões ativos e lagos esmeralda podem ser facilmente alcançados, basta caminhar por 8 horas, subindo, subindo… Foi o que fizemos: “Tongariro Crossing”, num lindo dia de sol. Quando já tínhamos andado umas boas quatro horas, vimos a cena que explicou tudo, sem nenhuma palavra: um homem cego e seu amigo voltando pela trilha a passos largos.

Continua.

Literatura

Peggy Sue

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imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

A meu pai, que vai entender esse título,
a Jorge Luis Borges, que também quis voltar a viver em um poema,
à Clarice-menina, que ainda habita em mim,
e a todos que um dia sonharam em poder voltar no tempo.

Se eu voltasse aos 16,
com minha cabeça de 40,
seria menos tímida,
iria a mais festas,
falaria com mais gente,
perguntaria sobre a vida,
estudaria mais filosofia.
Tomaria mais porres,
diria não a várias coisas,
e sim a diversas outras.
Contemplaria o céu noturno à beira-mar,
riria mais de mim mesma,
conheceria as pessoas mais a fundo.
Não teria medo de ser quem eu sou,
sofreria menos por antecipação,
choraria menos sem motivo,
passaria mais noites em claro.
Tomaria mais banhos de sol e de mar,
leria ainda mais,
escreveria incansavelmente em meu diário
e o mostraria para quem por ele se interessasse.
Distribuiria mais afeto,
aprenderia a tocar piano e violão,
iria a mais shows de música.
Diria tudo o que penso.
Viajaria mais com os amigos,
e não me prenderia a ninguém.
Voaria de asa-delta e pularia de paraquedas,
escreveria poemas sem receio de ser criticada,
sonharia mais acordada,
e veria mais alvoradas e crepúsculos.
Aproveitaria mais meus avós, pais, irmãos, tios e primos.
Teria menos horários e mais diversões,
me preocuparia menos com o amanhã.
Seria, enfim, a menina madura que nunca fui,
para que um dia pudesse me tornar,
para sempre, a mulher menina que hoje sou.

Literatura

Crônicas de viagem – A aventura começa

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imagem: Ana Nitzan

por Marcella Marx

“… Quem quer passar além do Bojador.
Tem que passar além da dor …”

‘Mar Português’, Fernando Pessoa

Nova Zelândia: ilha norte

Em um tempo em que mais é sempre melhor, voltar ao mesmo lugar pela terceira vez e “take my time” pelas trilhas e paisagens da Nova Zelândia, demonstra o que, de uma maneira ou de outra, busco. Fazer o que não é esperado, o que me tira de meu estado de conforto.

Na primeira vez que visitei a Nova Zelândia, fui bem de passagem, mais para encontrar um amigo e pela proximidade da Austrália, gostei. Na segunda, quis apresentar o lugar diferente ao meu companheiro de viagens, Marcelo. Nós dois nos apaixonamos pelo pequeno grande país, e, juntos, voltamos. Dessa vez de barraca e sem pressa alguma, a não ser por aquela imposta pelos 30 dias que alguém que provavelmente nunca tenha feito trilhas e escaladas na vida inventou. Se é desconforto que se busca, a terra do tempo sem previsão, das nuvens de “sandfly”, das centenas de “possums” atropelados por querer (na maioria das vezes) é obrigatoriamente destino. Começamos nossa viagem em Auckland, no aeroporto, onde o motorista de ônibus, sem saber, nos deu a primeira exclamação de bem-vindos, quando saiu do ônibus e empurrou o carrinho de malas, mais para a direita, para que assim ficasse no lugar exatamente correto, onde todos os carrinhos deveriam ficar. O que é certo, é certo, não há meio termo.

Continua.

Música

20 anos do Troublegum

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por Cassiano Rodka

Dois acordes pesados. Um breve silêncio. Uma voz grave e sussurrada faz sua confissão: “My girlfriend says that I need help/My boyfriend says I’d be better off dead” (Minha amiga diz que eu preciso de ajuda/Meu amigo diz que eu estaria melhor morto). A primeira faixa do álbum Troublegum não poderia ser mais apropriada para preparar o ouvinte para o que vem pela frente: um disco de paradoxos, ao mesmo tempo sombrio e ensolarado, com músicas pesadas e melodiosas, e uma boa dose de humor negro.

O ano era 1994 e os irlandeses do Therapy? estavam lançando seu quarto álbum de estúdio. A banda já tinha um séquito de fãs, mas mal sabia que sua base aumentaria consideravelmente após ter o clipe de “Screamager” passando na MTV. O primeiro single do Troublegum tornou-se um clássico da banda e é a perfeita combinação dos elementos que fazem o disco ser tão bom: uma batida rápida e ritmada, um refrão grudento com letra dark, e um riff de guitarra altamente assobiável.

Troublegum é daqueles discos que é bom do começo a fim, com músicas tão vigorosas, que mais parece um best of da banda. Além de incluir os excelentes singles “Nowhere”, “Turn”, “Trigger Inside” e “Die Laughing”, o álbum ainda conta com uma bela cover de “Isolation” do Joy Division, que combina perfeitamente com a seleção de músicas sombrias do disco.

As faixas que não foram singles, poderiam muito bem ser, em especial a dissonante “Femtex” e a bela “Lunacy Booth”, que tem direito a um backing vocal heavy metal feminino feito pela cantora Lesley Rankine. As letras falam de inadequação, suicídio, religião, culpa, solidão, tudo sob o ponto de vista peculiar do vocalista e guitarrista Andy Cairns, que alterna seu tom de voz entre crooner do mal e punk rocker. Os ritmos tribais criados pelo baterista Fyfe Ewing se destacam, com muitos rolos e paradinhas – mas nunca em demasia.

Para celebrar os 20 anos do Troublegum, a banda preparou uma edição especial com 3 CDs incluindo o disco remasterizado, lados B de single, remixes, demos e faixas inéditas para ser lançado no dia 31 de março. No final de 2013, o Therapy? também lançou uma caixa com seus 4 principais discos remasterizados, uma pá de músicas inéditas, um vinil com demos e uma… fita cassete (!!) com um show de 1991. Genial!

Quando escuto Troublegum, eu sempre me pergunto como ele não é considerado por todas as revistas de música como um clássico do rock. Mas enfim, o mundo é injusto. Ou, como bem diria Andy Cairns: “The world is fucked… And so am I”.