Clarice Dall’Agnol

Literatura

Um poema em cada pé

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imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

Ao Vito, que me presenteou com este título.

“He’s a real nowhere man
Sitting in his nowhere land
Making all his nowhere plans for nobody

Doesn’t have a point of view
Knows not where he’s going to
Isn’t he a bit like you and me?”

(“Nowhere Man”, The Beatles)

Olha os passantes,
indo em direção ao nada,
sempre correndo para lugar nenhum.
Carregando consigo seu passado, presente e futuro.
Histórias, memórias e lutas.
Angústias e medos.
Passos firmes, porém não seguros.
Gente que se empurra na multidão.
Gente que não se olha no olho.
Gente que sonha sozinha.
Gente que narra fatos pra si mesma.
Gente que carrega, sim,
um poema em cada pé.

Literatura

O ritmo de cada um

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imagem: Ana Nitzan

por Marcella Marx

Almocei ao lado de um homem que deveria ter mais de 80 anos. Magro, cabelos brancos, óculos, aliança no dedo. O rosto e as mãos cheias de manchas marrons. Vestia uma roupa azul marinho, calça social e japona. A gola da camisa listrada e da blusa de lã cinza à mostra. Sapato social preto com fivela de prata. A bengala de madeira descansando na cadeira a sua frente. Todas as outras pessoas desacompanhadas se sentaram em frente à televisão, ele se sentou em frente à janela.

Eu cheguei em minha mesa e ali ele já estava, eu terminei meu almoço e ali ele permanecia, dando suas garfadas em um ritmo contínuo. Cortou os tomates em pedaços minúsculos e os separou das sementes, ma-s-ti-go-u em pequeníssimas porções. Em um momento, parou e retirou do bolso um lenço de pano listrado, o utilizou e tornou a guardar. Observando o ir e vir da rua, fez uma montanha perfeita com o arroz e o feijão, cobriu com árvores de brócolis e, por cima, fez correr o rio de azeite de oliva. As pessoas a sua volta, levantavam e outras tornavam a se sentar. Um jovem casal pediu um misto quente e rapidamente partiu. Eu me demorei o mais que pude, até que também tive que ir, não sem gratidão por aquele estranho que me lembrou o valor do tempo.

Literatura

Lorenzo (parte I)

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imagem: Ana Nitzan

por Marcella Marx

Lorenzo era ascensorista, mas ele gostava mesmo era de tocar bateria e se apresentar com sua banda nos finais de semana. Em troca de cerveja ou um churrasquinho de gato, não importava a moeda. Seu ídolo era Marcelo Bonfá, e Legião, a melhor banda do universo.

Naquela manhã, Lorenzo saía de uma dessas apresentações, vestido de preto, levava uma mochila pequena nas costas e dela dava para ver a ponta das baquetas, daí seu apelido: besouro. Apesar de ainda não ter dormido, caminhava assobiando. Pulou uma poça d’água e atravessou a rua correndo fazendo sinal para o 732 esperá-lo. Lorenzo gostava da falta de rotina que a música lhe proporcionava. Ele pediu licença e se sentou no primeiro lugar vago, ao lado de uma mulher. Apesar do ônibus ir quase vazio, ele sempre aproveitava as oportunidades para conhecer alguém e falar de sua música.

Lorenzo era curioso e apesar de seus cabelos brancos, ele mantinha essa qualidade desde criança. Seu pai morreu quando ele era bem jovem. As lembranças que tinha dele eram, na maioria, suas próprias invenções. Sua mãe sempre contava que seu pai tinha quase batido o carro para comprar-lhe um sorvete de massa no caminho da maternidade.

Lorenzo era magro e alto. Usava roupas, mas preferia andar pelado. Suas cores favoritas eram o azul escuro e o preto.

No ônibus, virou-se para a mulher ao seu lado e disse sorrindo.

– Muito prazer, sou Lorenzo.

A mulher respondeu, de canto de olho.

– Ana.

Literatura

Crônicas de viagem – Nova Zelândia: descendo

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imagem: Ana Nitzan

por Marcella Marx

“If you have a big ego, try taking it on a canoe and place it in the middle of the ocean, only then you will see how big your ego is.”
Maori Saying

Viajar pela Nova Zelândia nos deu uma importante sensação de pequenez, pelo próprio tamanho do país, mas principalmente em relação ao vasto oceano que o circunda. A civilização mais próxima, a Austrália, fica a mais ou menos 4 horas de avião. Aqui ainda é possível dirigir quilômetros sem avistar qualquer ser humano, apenas ovelhas, e mais muitas ovelhas.

Nosso caminho foi a beira Mar da Tasmânia e através de interessantes formações rochosas, como as “Pancake Rocks” que possuem esse nome pois foram sedimentadas em camadas idênticas à panquecas. O Mar da Tasmânia cavou diversos túneis, por onde é possível ver a explosão das ondas que quebram nas rochas. Chegamos, no final da tarde, à pequenina cidade de Hokitika. Armamos nossa barraca e tiramos um cochilo até a meia noite, quando saímos em caminhada noturna para ver a “Glow Worm Dell”, uma caverna muito diferente, repleta de centenas de milhares de vagalumes. Na entrada, há um aviso para manter as lanternas desligadas e para fazer silêncio. Tenho que confessar que foi como entrar num mundo paralelo, do qual eu não tinha a menor vontade de sair. Fomos um dos primeiros a chegar e só saí porque fui literalmente puxada para fora. Imagine o lugar mais fantástico que você puder, e mais, não é possível descrever!

No dia seguinte, partimos para Haast, outra pequena cidade no circuito dos Glaciares. Dessa vez, visitamos apenas o “Fox Glacier”, “Franz Josef” o menor, é meu preferido, mas fica mais afastado. Fox é avassalador, mas está cada vez mais difícil de alcançá-lo e cada vez mais claras as consequências do aquecimento global. Logo na chegada e ainda no carro é possível ver as marcações de localização da geleira encolhendo no decorrer das décadas. Da última vez que o visitamos era possível chegar até o rio que corre por baixo do grande Fox, pegamos nas mãos pedaços enormes da geleira e sentimos bem de perto seu vento cortante. Dessa vez, não. Agora só é permitido vê-lo bem de longe. Continua.

Literatura

Esta porra de cidade (Quando o amor dobra a esquina)

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imagem: Cassiano Rodka

por Cassiano Rodka

Eu sabia que não deveria ter saído de casa hoje.
Mas lá estou eu paradinha com cara de bunda na frente da padaria. Olhos arregalados, sorriso sem graça e um desejo irremediável de sumir. Na minha frente, você. Bonitão, mais magro e todo cordial. Era certo que em algum momento nos encontraríamos nesta porra de cidade. Mas tinha que ser hoje? Sem maquiagem, cabelo desgrenhado por causa da umidade, moletom de ficar em casa… Onde eu estava com a cabeça? A gente nunca sabe quem vai encontrar na rua. E, para provar isso, olha nós dois ali. Paradinhos. Você, todo lindão e simpático. Eu, uma mendiga monossilábica. Esta porra de cidade… Não dá para sair de casa sem encontrar alguém que já esqueceu de você. Eu realmente acredito que deveriam criar uma ilha para abrigar todos os ex-namorados do mundo. Nós aqui, eles do outro lado do mar. Mas lá está você, fingindo interesse no que estou fazendo. E eu gotejando “sims” e “nãos”, louca para entrar na padaria e enfiar a cara num quindim. E, como se não bastasse o brilho no olhar, percebo também algo cintilando no dedo anelar da mão esquerda. O Seu Vizinho de bambolê? Depois de seis meses de namoro? Filho da puta… Queria muito me convencer de que você não prestava mesmo, mas sei que não é verdade. Você é um cara legal. Só nos desconectamos em algum ponto do caminho. E parece que é hora de nos separarmos novamente, descruzar nossos olhares e liberar a entrada da padaria. O papo de 15 segundos pareceu ter meia hora. Não tenho ideia do que falei.

Mas logo o amor dobra a esquina.
E eu fico ali parada um tempo, sentindo a presença fantasmagórica do passado. Sim, você é um cara legal. Mas quer saber? Não pensava mais em você faz um bom tempo. Você estava guardadinho em um sótão na minha mente. Na minha cabeça, eu mantenho um álbum de fotos organizado com diversos instantes maravilhosos que passamos juntos. Mas, se eu for remexer nos negativos, tem muitas fotos não reveladas. É tão fácil recordar os bons momentos e dispô-los em um altar, varrendo os ruins para baixo do tapete… Ops! Uma velhinha esbarra em mim e percebo que continuo atrapalhando a saída das pessoas. Decido entrar na padaria para comprar um quindim. Esperando na fila, me percebo refletida no vidro do balcão. E eu gosto do que vejo. Sou eu. Sem maquiagem e sem você. Com meu cabelo desgrenhado e meu moletom de ficar em casa. E rio de mim mesma. Maloqueira e desbocada, sim. Sou eu, afinal. Foda-se. E, aos poucos, sinto a fumaça daquele encontro se dissipando, talvez proporcional à sua distância. E quanto mais você se afasta da padaria, menos eu me importo. Sim, você é um cara legal. Mas eu não sinto a sua falta. Eu realmente não quero estar com você. No momento, em frente ao balcão da padaria, eu só quero um quindim. Um quindim e sigo a minha vida. Quando chega a minha vez, a atendente sorri e diz: “Não tem quindim, moça”.

Esta porra de cidade…

Literatura

A trégua

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imagem: Carla Lund

por Isabel Dall’Agnol

Para todas as mulheres que sofrem de preconceitos, abusos e atos de machismo.

Naquele abraço delicado,
vazio de palavras, mas
carregado de lágrimas,
elas descansaram seus
corações sufocados.

No silêncio, ascenderam
a verdade.
Calmamente repartida.
Ligeiramente protegida.
Um tanto despercebida.

Às pressas, disfarçaram
a miséria.
Mulheres, como elas,
não sofrem de aperto.
Sequer é permitido.

Compartilharam sorrisos
dissimulados.
Despediram-se com graças
e um adeus.

Partiram, calando
o desejo de estacionar.
Guardando que, ao menos hoje,
mãos lhe acariciaram os ombros.

Literatura

Na zaga

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imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

Entrei na loja apressada. Como sempre, aliás. Foco: meias de futebol. Futebol? Foi a pergunta do vendedor. “Pra você?”, com cara espantada. E eu, rindo por dentro, mas séria por fora, disse, “Sim, pra mim”. Ele não sabia que as meias não eram pra futebol, e sim para meus treinos de levantamento olímpico (que são tão intensos quanto futebol, creio eu, mas ok). Deixei o cara pensar que eu era uma jogadora de futebol. Amadora, né, mas era. Coisa mais divertida. E ele, “que número?”. “35”. O cara me olhou mais perplexo. Me analisou dos pés à cabeça. “O que esta mulher pequenininha, de mini saia de couro, toda maquiada, bolsa de marca e cabelo impecável tá querendo com meias de futebol?”. Eu conseguia ler o pensamento dele. E isto era o mais engraçado. Resolvi seguir na brincadeira que eu havia criado para mim mesma. Ele me me levou até a seção de meias de futebol, me mostrou marcas, cores etc. Fiquei em dúvida entre as brancas ou as pretas, mas disse a ele que preferia as pretas, porque eu já tinha brancas e ficavam velhas logo. E ele pensando, “Hum, ela joga faz algum tempo…”. A marca X era muito cara, então, escolhi dois pares da Y. Fui pagar. Ele me acompanhou até o caixa.

No caixa, não se aguentou: “Você joga há muito tempo?”, e eu, “Há uns dois anos, três vezes por semana”. Eu morrendo de rir por dentro. Ele seguiu, “Qual a sua posição”?”, e eu, bem convicta, “Zaga”. Nesse momento, foi ele quem quis morrer de rir, porém, só sorriu, dizendo logo “Futebol é um esporte bom, né, dizem que deixa as pernas fortes”. “Sim, super fortes”. O cara fala, “Eu nunca imaginaria que você jogasse futebol!”. “Pois tu vê, as aparências podem enganar, que coisa”, eu disse, e continuei (me empolguei, acho que foi o fato de ser jogadora de futebol, me deu um ânimo danado, uma vontade muito louca de sair falando um monte de maluquices para aquele estranho na loja de artigos esportivos): “As aparências enganam muito, mesmo. Tu vê, eu, além de jogar futebol, pratico levantamento olímpico, sabe, aquele esporte das Olímpiadas, que os caras têm que levantar uma barra pesadona? Adoro, e sou muito boa na coisa. Me alivia todas as tensões. Ainda assim, adoro ler, e ver filmes antigos. Gosto muitíssimo de me arrumar: cabelos, maquiagem e unhas impecáveis, sempre. Sou uma legítima “patricinha”, como se dizia na minha época, e ninguém imagina, se olhar superficialmente pra mim, que eu amo muito, de montão, um rock clássico. Beatles, Stones, Led Zeppelin, Pink Floyd, Who, Clash, Creedence, Dire Straits, Guns, Nirvana, Pearl Jam, Faith No More. Na faculdade, eu era grunge. Usava um chapeuzinho, jeans rasgados e botas pretas pesadas. E ainda assim, meu cabelo estava sempre ajeitadinho, e as unhas muito bem feitas. E mesmo roqueira, eu dançava ballet. Dancei até os dezessete anos. Estou sempre de salto alto e meia-calça de seda, mas adoro ouvir Dead Kennedys no volume máximo quando estou sozinha no carro. Detesto natureza, porém curto demais assistir o pôr-do-sol pela janela da minha casa, tomando uma bebidinha que contenha vodca ou tequila. Tenho apetite de homem faminto, mas sigo à risca todas as regras de etiqueta que a minha mãe me ensinou. Tenho poucas memórias de infância, mas sou capaz de armazenar datas de aniversário como ninguém. Pode me falar o teu dia, que não esquecerei jamais. Tenho quarenta anos, me sinto com trinta, e as pessoas me dão trinta e dois. Sou mega ansiosa e mega louca, mas sou capaz de manter a calma em momentos muito tensos. Salvei a minha filha de morrer engasgada com um tomate cereja uma vez. Não estou brincando, ela poderia ter morrido mesmo. Ah, e além disso, escrevo poemas e crônicas. Tem gente que ri quando eu digo que sou escritora. Vai entender. Isso me irrita um pouco. Em geral sou calma, mas estou sempre pronta para me defender. Sou zagueira, afinal”. O cara fugiu. Goooool!

Música

A barulheira hipnótica do Savages

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por Cassiano Rodka

Formada há 3 anos em Londres, a banda Savages vem fazendo bastante barulho (em todos os sentidos). O quarteto faz um som pesado, com guitarras agudas e um vocal feminino ora falado, ora gritado. O grupo bebe na fonte do movimento pós-punk, uma vertente mais experimental e mais bem arranjada do punk, que ficou conhecida principalmente pelas bandas Siouxsie and the Banshees, Joy Division e Magazine.

O disco de estreia das gurias chama-se “Silence Yourself” e deixa claro o seu recado desde a capa, onde um pequeno manifesto convida o ouvinte a se calar apenas o suficientemente para escutar a sua voz interior e depois aprender a usar o seu próprio grito. As letras da vocalista Jehnny Beth falam bastante sobre encontrar a sua própria voz e enfrentar os berros do mundo que nos tiram fora do nosso caminho natural.

O Savages é daquelas bandas que funcionam muito bem ao vivo. E, no álbum de estreia, elas conseguiram captar essa conversa sonora que rola quando elas estão no palco. “She Will” evoca o clima de transe do Joy Division e chega a quase citar o riff de “Love Will Tear Us Apart”. Os singles “Husbands” e “I Am Here” são pesados, com vocais gritados carregados de emoção visceral e guitarras choronas (eu sempre acho que é meu gato miando). “Marshal Dear”, a faixa que fecha o disco é construída em cima de um piano suave e um baixo com uma levada meio milonga, entrecortados por relinchos de guitarra e um inesperado solo de saxofone no final – pura elegância punk.

Neste ano de 2014, já deram um pulo no Brasil, fazendo um senhor show no Lollapalooza – facilmente um dos melhores do festival. Recentemente, elas lançaram um EP com duas faixas ao vivo, a épica “Fuckers”, que costuma fechar os setlists, e uma bela cover de “Dream Baby Dream” do Suicide. Vale a pena quebrar o silêncio do cotidiano conferindo o som intenso do Savages.